Uncategorized

Como ser um líder (estudantil, sindical, político, etc) sem saber nada

Alan Sokal é um cientista inesquecível dos anos 90. Ao mostrar a absoluta falta de critérios nas Ciências Sociais, deixou o rei sócio-filosófico nu, nuzinho mesmo. Para o pessoal sério da área, foi um choque. Para os plagiadores, nem tanto. Para entender o que digo, veja este texto.

Uncategorized

A fome de cientificidade e a pança verborrágica

A semana começa com uma gritaria de nosso governo contra um – aí vamos de jornalista brasileiro – “suposto” movimento de economias desenvolvidas contra o oprimido e raquítico país “infante”, o Brasil. Há, certamente, uma mistura de interesses aí. Há interesses de usineiros brasileiros (cuja vida sob o Pró-álcool foi alvo de críticas por parte dos militantes históricos do partido do presidente da Silva…até 2003), agricultores norte-americanos, franceses e, claro, desprotegido de todos, os interesses dos consumidores seguem ignorados.

Nesta confusão toda, alguns tentam jogar a culpa nos EUA (claro), para desviar a atenção das bobeiras ditas por aliados históricos da esquerda brasileira. Em outras palavras, tem gente que não quer acabar com a fome no mundo, mas sim destruir a chance de o mercado agir em prol da redução da fome. Não é preciso fazer uma extensa pesquisa para saber quem são estes aliados e o que falam. Vejamos algumas frases (parecem saídas da boca de um cientista ou de um político?):

A França radicaliza e usa a alta dos preços dos alimentos para defender medidas protecionistas na agricultura, uma alta nos subsídios e até o fim da expansão do etanol. Ontem, o governo francês propôs uma ampla ação para combater o aumento nos preços dos alimentos. Paris quer um novo critério para importar o etanol, acusado como um dos culpados pela alta das commodities, e ainda propõe a manutenção das barreiras comerciais contra as importações dos países emergentes.

A proposta foi feita no Conselho de Ministros da Agricultura da União Européia, praticamente ao mesmo tempo em que o relator da Organização das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, afirmava que o etanol seria uma “crime contra humanidade”.

Crime contra a humanidade? Parece-me um bocado forte comparar um genocídio nazista à produção de etanol. Ah sim, o etanol vem do milho, ou da cana e isto, sim, tem impacto sobre o preço dos produtos agrícolas. Isto é fato. Assim como a liberação de mão-de-obra para a produção de relatórios na ONU implica em aumento do salário em outros setores do mercado de trabalho (e uma pressão para baixo nos salários dos outros burocratas da ONU, claro). Também é verdade que antigamente as pessoas comiam alimentos bem piores, em termos de qualidade (e quantidade) e também é verdade que usamos o terreno, outrora um campo de produção de mamonas, para construirmos prédios o que, certamente, deve ter tido um impacto sobre o preço das mamonas. Se este impacto é maior que o benefício gerado é algo que o burocrata deveria calcular, já que pago para tanto, creio.

Mas não é só isto.

Além dos produtores brasileiros cometerem, “supostamente”, um genocídio, o Brasil deveria chamar seu exército de volta do Haiti. Por que?

Brazil is living in a situation of war, a Social War, according to United Nations special advisor Jean Ziegler. “It’s as if France, Germany and Somalia were living in the same country!” Ziegler continued, “And while police are important for security, they are not the solution to the problems of hunger, lack of health care, lack of schools and lack of citizenship.” In a country with such a striking disparity between rich and poor, Ziegler comments, “the temptation to steal is understandable when one has absolutely nothing.” Despite the fact that one Brazilian authority called this declaration irresponsible and ridiculous, the facts are hard to dispute. According to UN guidelines, a country with over 25,000 assassinations per year is considered in a state of war, and last year, according to the Ministry of Justice, Brazil registered well over 40,000 assassinations.

Ok, sabemos que a violência é um problema sério no Brasil. Ninguém nega isto. Mas além do genocídio que praticamos com o etanol, agora também temos uma guerra civil no país? É muito jargão para pouca evidência. No mínimo, uma guerra civil desestabilizaria todo o ambiente de negócios e, portanto, a produção de etanol nem sairia do papel.

Em resumo: há várias verdades por aí, no discurso do burocrata amigo da esquerda francesa e brasileira. De fato há violência no Brasil e, sim, a produção do etanol altera preços relativos. Mas daí para seu discurso há uma violência (ou uma guerra civil?) imensa com relação aos fatos. E nada disto tem a ver com George Bush, mas sim com a filosofia de Zigler, quase primeva, no sentido marxista de uma sociedade ideal em um suposto comunismo primitivo que, aliás, nunca existiu.

Menos, Zigler, menos.