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Ainda o índice da The Economist e um pouco sobre como evitar o “wishful thinking” (breve Momento R do Dia)

Interessante aquele índice de cronismo (uma proxy de rent-seeking) criado pelo pessoal da The Economist, citado por aqui por estes dias.

Agora, vejamos a relação entre os valores da liberdade econômica (maior, mais livre) e a posição no ranking de cronismo (quanto maior, menos rent-seeking), mas com uma diferença: vou separar a amostra em países de código legal de origem britânica e os demais. Eu esperava ver o contrário do que vi.

cronismo_novamente

Poderia ser que países que já estão próximos ao seu nível ótimo de liberdade econômica (como é o caso dos amiguinhos azuis), aproximam-se também de uma sociedade na qual os grupos de interesse lutam com mais estabilidade para transferir rendas e, no caso dos outros países, ainda com instituições frágeis, a relação é tal que há espaço para melhoria institucional e, portanto, a relação seria positiva?

Em outras palavras, digamos que a figura acima seja uma boa representação da realidade (eu não creio nisto, mas é um bom exercício). Então, se estou em 2013 no Brasil, tenho baixa liberdade econômica e também tenho menos cronismo porque as más instituições nem permitem uma atividade mais intensa de rent-seeking. É algo contra-intuitivo, eu sei, porque dizemos que as más instituições existem justamente por conta do alto grau de rent-seeking na sociedade.

Bom, também o ajuste não é lá aquelas coisas (e seria ele linear?) e temos poucos países na amostra. Minha conclusão é temos mais uma evidência de que o índice de cronismo da The Economist ainda precisa ser bastante aperfeiçoado. Por exemplo, alguém, lá no livro de caras, falou do problema da corrupção. “- Justamente no PIB que “sumiu” é que está o cronismo”, disse ele. Tendo a concordar com o argumento.

Outra evidência, para dar esperança ao leitor(a):

cronismo_failed

O índice de falência dos estados pode ser pensado como um índice de (má) qualidade institucional. A diferença é que, para países de código legal de origem não-britânica, agora, temos uma relação mais inclinada entre as duas variáveis. Assim, digamos, andar uma posição a mais no índice de cronismo (galgar posições para o primeiro lugar) significa estar correlacionado com uma piora na qualidade do estado maior em países de códigos legais de origem não-britânica. Novamente: não é porque o resultado parece interessante que esta correlação se torna magicamente melhor que a anterior.

Ok, você já viu onde quero chegar, não? A análise de bases de dados como esta tem que ser feita com muita cautela. Uma correlação, sozinha, não nos diz muita coisa. Aliás, as duas, aqui, parecem algo contraditórias. E olha que nem falamos da questão de como estes dados são medidos.

Não tem jeito. Para se vacinar contra o wishful thinking, você tem que fazer uma análise estatística detalhada dos dados. Bem, isto fica para outro dia. Ah sim, os comandos em R.

fator <- factor(legor_uk,levels=c(0,1),
labels=c("Non-UK","UK"))

qplot(failed,crony_rank , geom=c("point", "smooth"),
method="lm", formula=y~x, color=fator,
main="Cronismo e Falência dos Estados (por origem do codigo legal)",
xlab="Failed States Index 2013", ylab="Crony Ranking")

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Momento R do Dia (sem dica, só para te provocar)

Por que usar o R?

As pessoas me falam de outros pacotes econométricos, etc. Mas nenhuma delas consegue me apresentar um gráfico como este.

cronismo_filantropia

 

Ok, o tamanho da “bolinha” é função do indicador de capital humano (sim, do Robert Barro!). O eixo vertical é o ranking do índice de cronismo que eu citei mais cedo hoje. No eixo vertical o score do país no índice de “giving” que podemos traduzir como filantropia. Há aí um ajuste linear só para você ter uma noção da média da coisa toda.

Agora, vem cá, vai lá fazer isso em três linhas de comando na sua planilha, vai? Quero ver. Ah, você quer usar o R? Quer mostrar para seu professor de Econometria I que há um modo melhor de se visualizar as relações entre os dados de sua amostra? Então, meu caro, comece a migrar o quanto antes. Barreiras à entrada existem e alunos PREGUIÇOSOS gastam mais tempo do que alunos QUE ESTUDAM nestas horas.

A diferença de produtividade é brutal no início. Depois de aprender o básico do R, aí é até humilhante comparar seu trabalho com o do seu colega. Honestamente, você, ceteris paribus, tendo um trabalho correto, feito decentemente, com uma regressão nos moldes que seu professor pediu, mas com um gráfico como este aí em cima…você realmente acha que a meritocracia é um valor “burguês”? Não preciso nem dizer, né?

Claro que gráficos bonitos, sozinhos, não são nada. Mas, convenhamos, foram três linhas de comando porque me deu preguiça de escrever apenas uma linha. Hoje a Roseli me citou e fiquei muito contente que uma das pessoas mais sérias que conheço começou a usar o R e está usufruindo de algumas dicas que dou aqui.

Tá se achando? Vai aprender a mexer no R antes que alguém te humilhe!

Repare que nem sou “o cara” do R. Apenas tento repassar um pouco do que tenho de conhecimento em Econometria e em R – adquirido, sim, com muito trabalho – para leitores que também querem ser pessoas que adquirem as coisas com muito trabalho. Gente que vai encher os pais de orgulho e que, certamente, será parte daquela parcela de profissionais que arruma emprego em qualquer lugar do mundo.

Eu pensava em falar de raízes unitária hoje, mas este gráfico aí em cima me deixou muito feliz. Foi uma pesquisa pela internet somada a alguns livros e ao bom uso do meu tempo. Vou para o final do dia contente. Claro que ajuda você ouvir que alguns ex-alunos falaram para seus alunos atuais sobre como eles aprenderam algo útil comigo, Salvato, Hamdan e outros. 

Antes de me despedir, fiquem com este outro gráfico, similar ao anterior, mas considerando a liberdade econômica medida em 2013.

crony_freedom

 

Até a próxima.

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Capitalismo de Compadres: não parece compatível com o individualismo ou o liberalismo

The Economist, sempre ela, tem jornalistas inteligentes que vão além da simples notificação dos fatos, ou mesmo da emissão de suas opiniões: eles trabalham para testar suas convicções.

Então, vejam só, agora fizeram um índice de capitalismo de compadrio (crony capitalism index). Confesso que ainda estou surpreso com o resultado, mas a metodologia do índice poderia ser diferente, não é? Não sei se esta história das “grandes fortunas” é uma medida que me convence. Mas, sim, achei super interessante a idéia. Gostaria de tê-la tido antes.

Também gostaria de ter tido recursos para medi-la mas os supostamente ricos think tanks libertários brasileiros ou não gostam de Estatística, ou não têm recursos, ou não os aplicam em construções de indicadores. Tem gente que fala de IBASE, com aquelas teorias da conspiração (“li no jornal que X jantou com Y, é golpe da direita”…embora “li que acharam fulano com dólares na cueca e tem até foto….é golpe da direita) engraçadas que vendem livros (de ficção) e roteiros de filmes. Mas o fato é que os libertários brasileiros ou estão embolsando todo este dinheiro ou são péssimos para usar os mecanismos de mercado. Ou então não há tanto dinheiro assim. Ou, claro, uma combinação convexa destas hipóteses.

Mas o pessoal da The Economist deu um belo passo na discussão sobre rent-seeking no mundo.

Vocês já sabem, né? Eu gostaria de ver algumas correlações. Entretanto, só temos um ano para esta série. Como tirar conclusões mais detalhadas assim? Simples: não dá.

Tem muita gente falando de rent-seeking por aí, na imprensa. Há o livro do Lazzarini – que preciso comprar e/ou ganhar de presente – e há um papo aí que finalmente chegou aos bons restaurantes paulistas, sobre este tema.

Como sempre, lembro que esta questão foi tratada pela minha primeira publicação científica (e também pelo meu primeiro artigo escrito com alguém que eu não conhecia) lá nos idos dos anos 2000.

Meu co-autor, um destacado economista do IPEA hoje em dia, é um sujeito cujo blog você deveria acompanhar. Ele anda mais quieto no mundo que chamamos de “blogosfera”, mas é sempre alguém com quem vale a pena conversar – inclusive sobre Economia.

Mas eu olho para estes dados, para esta tabela, e a vontade de fazer alguma coisa com ela é grande. É tão fácil fazer correlações hoje em dia. Vou te dizer, já que a The Economist fez uma correlação com esta medida de qualidade institucional, vou olhar para uma outra medida de instituição informal.

cronismo

 

Olha aí o índice de cultura usado pela Claudia Williamson em um de seus trabalhos (pesquise em sua página…nós usamos a mesma variável aqui) e o ranking de cronismo. Em resumo, o índice de cultura mostra valores pró-mercado (caso você seja contra o “individualismo”, pode começar a chorar…). Achei interessante a correlação, apesar dos poucos dados desta amostra. Com todas as limitações (e eu não vou reclamar do tamanho da amostra porque eu não construí uma amostra maior…se você quiser, be my guest), a correlação parece fazer sentido com as teorias econômicas que abordam o papel das instituições: sociedades com valores mais liberais também são as que estão nos últimos lugares no ranking de cronismo.

Será que esta correlação é robusta a outras variáveis? Bom, aí tem que trabalhar mais e e eu nem almocei (a Lorena e a Charline, minhas orientandas, fazem monografias em temas correlatos, então, um dia destes, eu volto com novidades sobre o tema, ok?). Então é isto. Até mais.