“Por que balcões em restaurantes (só) existem no Japão?” ou “O que há em comum entre o sushi, a venda de produtos e a política monetária?”

O pessoal do jornal Nikkey Shimbun – da colônia nipo-brasileira – tem feito um trabalho interessante ao publicar alguns volumes chamados Cultura do Japão com coletâneas de artigos em português e em japonês (ótimo para praticar, mas excessivamente otimista quanto às qualidades de meus ancestrais em alguns casos…).

No segundo volume publicado, há um texto de autoria de Masaomi Ise (originalmente publicado em 2006 (o livrinho é de 2016) entitulado: Por que balcões em restaurantes só existem no Japão?. A pergunta diz respeito, claro, não a balcões em geral, no qual se entregam os produtos, mas àqueles que vemos em restaurantes japoneses, nos quais as pessoas se sentam e se servem por ali.

O interessante no artigo de Ise é a história e, como tentarei destacar, também o aspecto econômico (teórico) dos balcões. Assim, não sei se é correto que não existam balcões deste tipo em outros lugares do mundo e as evidências empíricas do texto – que é apenas um texto jornalístico, sejamos justos – não são lá grandes coisas, mas o texto vale toda a leitura.

Primeiro, vejamos algumas curiosidades sobre o tema.

Consta que, no Japão, a posição social de cozinheiro era antigamente ainda mais elevada que hoje em dia. O primeiro a iniciar no Japão o balcão em restaurantes foi Yasuzo Shiomi. Ele nasceu em 1895 e viveu até 1971. Na época, ao que parece, os cozinheiros de primeira categoria formavam duplas e passavam pelos restaurantes mais famosos do país. [p.49]

Vários pontos merecem reflexão, não? Numa sociedade com escassez de alimentos – como era o Japão – um bom cozinheiro realmente tinha que ser valorizado. Lei econômica básica. Agora, interessante é a viagem em “duplas”. Seria algum tipo de cláusula concorrencial entre eles? Esta pergunta vai me assombrar por um tempo, eu sei.

Outra informação do texto é que o sr. Shiomi era uma evidência viva de que talentos geram rendas específicas (outro ponto básico da teoria econômica). Consta que ganhava algo como 500 ienes o que contrasta com 100 ienes para cozinheiros que o texto chama de “experientes” e 70 para professores de universidades públicas. Ou seja, antes de sair por aí dizendo que no Japão o professor é endeusado, estude um pouco de Ciência Econômica e, por que não, História.

Claro, o aspecto que mais salta à vista sobre balcões é o reputacional. Deixemos o próprio jornalista introduzir este complexo conceito de Teoria dos Jogos de forma intuitiva.

E foi ele [Yasuzo Shiomi] quem iniciou em 1924 um restaurante com balcão em Osaka – o restaurante Hamasaku. Esse restaurante ganhou enorme notoriedade, porque se podia ver diante dos olhos a habilidade do cozinheiro top star da época. [p.50]

Arrisco supor que a qualidade top star do sr. Shiomi é que era derivada da existência do balcão. Digo, após viajar a ganhar experiência, ele descobriu uma bela estratégia para adicionar valor ao seu produto: mostrar suas habilidades diretamente ao cliente.

Funcionava? Bem, o próprio texto sugere que os preços não eram os de um restaurante comum. A reputação, como sabe qualquer aluno que tenha estudado Teoria dos Jogos, é um dos conceitos mais importantes para se entender desde aspectos competitivos de mercados à boa execução da política monetária.

Uma nota à parte é que muitos brasileiros aproveitam mal o conceito de balcão ao instalarem seus restaurantes de comida japonesa por aqui. Um mesmo, muito bom, em Pelotas, tem parte de seu balcão ridiculamente coberta pelo freezer transparente que permitem ao cliente ver as peças de peixe, mas não o preparo do prato.

Ah sim, a referência: Ise, Masaomi (2016) Por que balcões em restaurantes só existem no Japão? In Ise, Masaomi & Kishimoto, Koichi (2016). Cultura Japonesa, vol.2, Biblioteca Jovem de São Paulo/Editora Jornalística União Nikkey Ltda, 2016.

p.s. vale a pena, também, ler o artigo clássico do falecido Sherwin Rosen, The Economics of Superstars.

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Efeito Papel Pega-Moscas: nova racionalização teórica

Está aqui:

Unsticking the Flypaper Effect in an Uncertain World
Carlos A. Vegh, Guillermo Vuletin
NBER Working Paper No. 21436

We provide a novel explanation for the flypaper effect based on insurance arguments. In our model, the flypaper effect arises due to the differential response of precautionary savings to private income or fiscal transfers shocks in an uncertain world with incomplete markets. The model generates two testable implications: (i) the flypaper effect is a decreasing function of the correlation between fiscal transfers and private income, and (ii) such relationship is stronger the higher is the volatility of fiscal transfers and/or private income. An empirical analysis of Argentinean provinces for the period 1963-2006 finds strong support for the model’s implications.

Ok, eu só me pergunto se os argumentos anteriores e as estimações até então feitas estavam incorretas ou representam apenas outros canais de transmissão do mesmo fenômeno (ou seria este novo argumento um efeito que mereceria outro nome?).

O efeito papel pega-moscas é famoso para quem estuda Finanças Públicas e Public Choice. Um pessoal da USP estudou o tema (o texto preliminar é de 2015) para municipalidades brasileiras (aqui). Eu mesmo já tentei explorar o tema anos atrás mas, como vários projetos que ficaram na pilha de tarefas , ficou para o futuro. Deixei para o futuro e, claro, outros pesquisadores já se aproveitaram para estudar o tema (lição para os que desejam fazer monografia…).

Só o amor incondicional salva ou “Love is all we need”

Muita gente se queixa da falta de amor na teoria econômica. Não mais. Neste texto para discussão de Bhatt, Ogaki & Yaguchi (2014), temos, finalmente, o amor. Eis o básico do modelo.

love_is_all_we_need

A primeira equação é a restrição (tempo gasto em trabalho (L) mais o restante do tempo gasto em atividades altruístas (R1…RN)) totaliza, por normalização, a unidade. Em seguida, a função de utilidade diz respeito ao bem-estar derivado do próprio consumo e ao derivado do consumo dos outros.

Mas o melhor é a definição, não é? Ah sim, da conclusão temos:

In behavioral economics, there are some important difficulties with this ethical evaluation system, because preferences change endogenouslyin most models. There are many possible preferences for each individual in these models, and some preferences may be viewed as ethically better than others. This causes difficulties in taking welfare as the highest value. This paper proposed to use a different ethical evaluation system in which unconditional love is taken as the highest value. [p.36]

Teoria econômica é bacana, né? Ah sim, tem lá uma discussão sobre aquela coisa engraçada, o tal paternalismo libertário do Susstein.

Quando o salário mínimo é menor do que o de equilíbrio…

…o próprio mercado tem incentivos para levar o salário ao equilíbrio, certo? Errado. Ou melhor, depende. No modelo de livro-texto, do primeiro período de Economia, sim, é isso que acontece. Mas aquilo mal é um modelo, né? Super-simples, hipóteses nem sempre claras e você tem que acreditar no professor.

Há quem pense que a vida é melhor quando se sabe menos, porque, claro, você sofre menos. É a galera do obscurantismo fácil: dizem para você que não há que se preocupar com a matemática porque “o mundo é complexo demais para isso” e que “sua intuição é suficiente, só precisa ler uns autores que eu, sábio, vou te indicar, e que você tem que concordar sem pestanejar”.

Mas há quem pense que a vida é mais interessante do que a repetitiva fotossíntese. O prof. Shy, então, fez-se a mesma pergunta e fez algumas mudanças no modelo básico, pensando, creio eu, naquelas perguntas que alguns alunos lhe fizeram por anos e anos nas salas de aula, ainda que inconscientemente. Eis o resultado.

When Do Firms Prefer Low Minimum Wage Over No Minimum Wage?
Oz Shy

Federal Reserve Banks – Federal Reserve Bank of Boston
Abstract:

I analyze labor markets where the legal minimum wage is lower than the equilibrium wages. In these labor markets, firms have incentives to collude on paying minimum wage rather than engage in wage competition in order to attract more workers. The model analyzes firms competing simultaneously in their product and labor markets to identify how varying the degree of competition affects firms’ incentives to collude on paying minimum wage. I find that more intense labor market competition makes collusion on paying minimum wage less likely. In contrast, more intense product market competition makes collusion more likely. (grifos meus)

Fascinante, não? Sabe, isso tem a ver com gorjetas. É, isso mesmo.

Shelkova (Forthcoming) provides the main empirical support for this paper. Using 1990–2002 data on service occupation workers, she shows that on average 19.3% and as much as 31% of service occupation workers who earned minimum wage or less could be affected by collusive wage-setting during this time period. Relatedly, looking at labor markets where service workers collect tips, Shy (Forthcoming) explains why restaurant owners may collectively benefit by encouraging their customers to follow the “social norm” of leaving tips. This is because the long-term (over a century) increase in tipping rates resulted in lower wage rates. (p.1-2)

Coalizão? Fixação de salários? Como assim? Pois é. Tem que ler o artigo. Mas repare que tudo começa com um mercado de trabalho imperfeito e o reconhecimento de que não se pode analisar o mercado de trabalho sem uma análise com o mercado do produto.

Como sempre digo para os alunos – os que não estão dormindo ou que não estão (ainda) catatônicos por excesso de uso de ‘zap-zap’ no celular – a Ciência Econômica é fascinante. Diante de uma evidência empírica, desenvolve-se um modelo para se explicar o evento. Obviamente, isso significa que é preciso muito cuidado para se dizer que a evidência empírica é, de fato, uma regularidade ou um “fato estilizado” com o qual valha a pena investir algum tempo teorizando.

Poderíamos ter o oposto, como é o caso da economia novo-keynesiana, que se iniciou, conta-nos Snowdon e Vane naquele livro-texto clássico (esqueci a referência agora), construindo modelos teóricos para, depois, buscar as evidências empíricas.

O que eu quero dizer é que, em última instância, ambos os procedimentos são válidos, falhos e necessários ou, sei lá, indispensáveis.

Bacana, né?

VI Congresso da AMDE – comentários

Vou aproveitar três fotos para falar rapidamente do Congresso. Primeiramente, este, da professora Luciana Yeung.

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Como falei, ao final da apresentação, um belo trabalho dela com o professor Luciano Timm (IDERS) com extrema relevância para qualquer debate sobre a infra-estrutura e o desenvolvimento econômico brasileiro. O pessoal de Economia não entende, geralmente, muito bem a importância da medida dos custos de transação, mas nós, com algum tempo de leitura na área, sabemos muito bem o quanto este artigo ajuda no debate e, veja bem, não é pouco.

Obviamente, não tem calibragem ou microfundamentos, mas o problema em questão nem o comporta (ainda?). Fato é que sem números, ficamos no vazio do discurso que, muitas vezes, lembra o de políticos que, aliás, acusamos de serem ineficazes na busca de solução de problemas reais porque…não nos trazem qualquer estimativa dos custos. Ou seja, voltamos ao ponto inicial.

Ao próximo.20140827_094813

O professor Antônio Porto, a cada encontro da AMDE ou da ABDE, não cansa de trazer dados ou temas novos. Incrível mesmo é como o pessoal do Direito – agora minha metralhadora vai para o outro lado – continua a torcer o nariz para métodos quantitativos. Porto trouxe tabelas geradas pelo Stata (infelizmente, ele não usa o R… ^_^) com resultados preliminares de um estudo interessante sobre inadimplência.

Não sou tão otimista quanto ao uso da economia comportamental para analisar os dados, mas, novamente, ele tem a amostra e está estudando os dados buscando tirar evidências iniciais sobre um problema relevante para a Economia e, obviamente, para o Direito. Não é hora do pessoal de Direito parar com o preconceito e investir na formação quantitativa? Acho que é.

Ao próximo.

20140826_112245O professor Ronald aí em cima dispensa comentários. Em uma apresentação claramente inspirada no livro (que eu, com remorso parcial, comprei e não li ainda) do Tim Besley (um antigo nome para quem conhece um pouco de Economia do Setor Público ou de temas ligados à área) com outro autor, ele trouxe de volta o maravilhoso insight  de Barry Weingast naquele texto clássico sobre a Revolução Gloriosa e a capacidade de endividamento do Estado britânico. Qual é o insight? Simples. Sociedades com instituições fortes se financiam melhor (e, diria eu, de forma mais sustentável).

A discussão das instituições, obviamente, é muito importante e os leitores mais antigos deste blog sabem o quanto o tema (re)aparece aqui. Não são poucas as vezes, né?

Tivemos mais palestras, mas eu queria usar estas três para ilustrar um ponto simples: há muita coisa interessante e importante sendo pesquisada no país, a despeito de recursos escassos, greves, politicagens, vaidades, etc. Estas pesquisas, muitas vezes, resultam em trabalhos que são rapidamente usados para rever políticas públicas ou para debater novas formas de melhorar a economia de uma sociedade.

A AMDE – e suas entidades irmãs como o IDERS, ADEPAR, ABDE, etc – têm feito um trabalho muito interessante ajudando a divulgar trabalhos desta área. Ao longo dos anos tem-se apresentado estudos que tentam avançar a abordagem de law and economics no Brasil. Nada mais saudável.

Foram dois dias interessantes, mas cansativos. Espero que todos tenham gostado do evento.

 

Desconstruindo Piketty

Samuel Pêssoa já fez isto, mas agora a desconstrução vem de Acemoglu e Robinson. O livro vai ser lançado aqui já morto, pelo visto. Claro a tietagem vai dizer que não é bem assim, que isso e aquilo, mas está difícil sustentar as hipóteses do neo-marxismo do francês. É a lei de ferro da teoria econômica: não modelou, dançou.

Acabou o mimimi pterodoxo: corrida aos bancos também tem equilíbrio!

Foi o Laurini, aquele danado, que viu primeiro e publicou, mas eu replico aqui a ótima notícia.

O artigo “Run theorems for low returns and large banks”, escrito pelo professor Jefferson Bertolai, do Departamento de Economia da FEA-RP, em coautoria com Ricardo de Oliveira Cavalcanti e Paulo Klinge Monteiro, do EPGE/FGV, foi publicado na revista Economic Theory, A1 no Qualis CAPES na área de Economia.
No artigo, os autores demonstram a existência de equilíbrio em casos de corrida bancária. Até então, dentro da literatura existente, não havia prova matemática da existência de equilíbrio em casos de retiradas em massa de recursos bancários.

Obviamente, vai começar o mimimi pterodoxo número dois, que é o famoso: “mas isso é só matemática, não entendo nada, logo, não é relevante porque sou muito inteligente” (coloque hífens para ler com aquele gostinho especial). O fato é que o artigo é muito importante e tem implicações teóricas que precisamos começar a entender melhor a partir de agora.

Antes de sair por aí com um panfleto dizendo que “matemática não é economia” ou que “economia é muito abstrata e precisamos ler o Piketty”, sente e estude, meu amigo. Você poderá se tornar um ser humano melhor amanhã…

Ah sim, não conheço nenhum dos autores, mas lhes pagaria uma cerveja artesanal por esta publicação. Parabéns!

É possível corrigir o ensino de economia sem cair na picaretagem pterodoxa?

Mario Rizzo, um eterno crítico da matemática em economia, levanta um bom ponto que pode ser resumido pela pergunta acima.

Obviamente, alguém poderia dizer que o melhor seria jogar fora a matemática. Muita gente que nunca a usou – por fé ou por má vontade e preguiça – diz isto. Rizzo não é bem um caso como este, por isto merece ser citado aqui. A crítica é interessante. Certamente, leitor, você ouvirá gente invocando nomes da era do gelo como Celso Furtado ou outros antigos economistas para criticar a economia atual.

Digo isto porque um dos pontos principais de Rizzo é que falta ao estudante de economia um conhecimento dos problemas reais. É verdade que o livro de Mankiw derruba boa parte de seu argumento, mas, no caso brasileiro, é verdade. Diversos economistas pterodoxos vivem em um mundo em que não é possível prever uma crise, exceto por adivinhação. Ao ler qualquer texto destes autores, depara-se com uma infinidade de jargões e frases feitas nas quais ou o “mundo está em crise”, ou o “capitalismo financeiro está em crise inerente” ou “eu avisei que a crise viria um dia”.

Sempre com o mau uso da história econômica – por exemplo, citando Furtado como um semi-Deus – estes charlatães do conhecimento acusam seus colegas – os economistas não-pterodoxos, não-charlatães – de apenas aprenderem matemática.

Nossa, que sono. Argumentos infantis me dão sono. Eu deveria propor proteção aos economistas pterodoxos da competição externa afim de proteger sua indústria infante de propostas infantis sobre e para o mundo real. Se bem que eles mesmos adorariam expulsar a competição…

De volta ao nosso tema, sim, eu concordo que o povo precisa ler mais história, mas não de forma doutrinal, como querem – implícita e explicitamente – os charlatães. Que tal lerem mais os historiadores econômicos que corrigiram e refutaram várias afirmações dos pioneiros como Furtado ou Prado Jr? Por que não investir menos em encontros religiosos de adoração de um único sujeito e mais em pesquisas que nos ensinem mais sobre a história econômica?

Uma coisa é subir nos ombros de gigantes para olhar adiante, outra coisa, feita pelos charlatães, é ficar lá embaixo alisando (ou coisa pior…) as genitálias dos gigantes.

Querem sugestões de historiadores bons? Já dei várias aqui. Dos meus conhecidos, cito: Renato Colistete, Renato Marcondes, Thomas Kang, Fábio Pesavento e todos os que estes caras citarem. Eles também lêem Celso Furtado ou outros caras, mas não de joelhos.

Obesidade ótima e sub-ótima

Obesity as Market Failure: Could a ‘Deliberative Economy’ Overcome the Problems of Paternalism?
Paul Anand and Alastair Gray (KYKLOS, Vol. 62 – 2009 – No. 2, 182–190)

SUMMARY
The paper argues that the problem of obesity can usefully be seen as illustrating a new kind of market
failure. At the heart of such failures is the emergence of a sub-optimal choice environment which, though
derived from a large number of small individual optimising decisions, is not the choice environment that
peoplewould choose if they were able to choose the environment itself. This idea is claimed to be consistent with modern economic theories of freedom of choice and applicable particularly to choice environments that emerge in highly competitive market situations. The retail supply of food and consumer credit is discussed by way of example.Concluding, the paper develops the concept of a ‘deliberative economy’ as an alternative to liberal paternalism and explores conditions under which such an approach to social choice might deliver desirable outcomes.

Mais um artigo na fronteira da Teoria Econômica. Ao invés de choramingar, o pesquisador sofre com as dificuldades, mas não desiste. Talvez os insights destes dois autores possam nos levar a um novo nível teórico. Senti mesmo falta foi daquelas boas e velhas equações de otimização.

Agora, esta história de meta-jogo me parece mais antiga. Lembro sempre dos jogos ocultos do Tsebelis ou do início da Economia Política Constitucional, nos anos 90, com James Buchanan. A idéia é sempre a de que estamos diante de alguma variável – até então exógena – que deveríamos começar a estudar. 

p.s. Mais ou menos assim também se iniciou aquela área de economia comportamental. Como bem disse Byran Caplan em algum artigo, antes assumíamos preferências constantes (muiiiiito constantes) porque não tínhamos elementos para pesquisa (dados). Só com base na pterodoxia de boteco não se vai muito longe em pesquisa (já em política…). Mas com a neuroeconomia, com a economia experimental e demais, hoje, as possibilidades são muito, muito bacanas. Sorte dos que vieram após esta geração…

O clube de convergência inferior do debate

Duke of Hazard, em trecho revelador de um texto muito bem escrito:

No Brasil, esta divisão assume uma desproporção incomum. Não vou citar exemplos, mas quem anda pela blogosfera econômica brasileira sabe do que falo. O debate se resume aos seguintes passos:

1) Proposição do problema, feita pelo autor do texto, com uma resposta parcial à questão;

2) Um contra-argumento de algum leitor baseado naquilo que seu grupo leu, muitas vezes ignorando por completo a argumentação original.

3) Uma resposta do autor, citando autores da “sua turma”.

4) O enquadramento de ambos debatedores em algum grupo, e a conclusão (sofrível) que o problema não terá uma resposta porque, obviamente, os participantes vêem o mundo de maneira muito diferente e, conclusão derivada, acham que o outro estará sempre errado, por definição.

O item 4 é realmente a triste conclusão de quase todo debate (debate?) na blogosfera. 

No mesmo dia, ou quase, Sumners fala da relevância dos macroeconomistas e também discute rótulos e afins. Sobre a blogosfera, veja o que ele diz:

When I started this blog I had an ideal reader in mind (as I suppose all authors do.)  I knew that it was going to be impossible to convince macroeconomists of my extremely counter-intuitive views of the crisis.  Nobody who has expertise in macro can be impartial to an event so traumatic.  By now views have hardened.  Even the uninformed have strong opinions.  So I needed someone outside of economics, someone with an open mind.

At the same time I knew that I needed a reader that was bright enough to understand very subtle, counter-intuitive economic arguments.  Thus I needed someone who had at least an amateur’s interest in macro, who was also a very skilled economist.  I also needed someone who wasn’t overly impressed with a lot of technical mumbo-jumbo that doesn’t really mean anything.  Someone who thought short (or not so short) blog posts could convey interesting economic ideas.

Revelador, não? Eu diria que mais um ponto do diagnóstico feito pelo Duke está aqui. A pergunta, claro, é: quais os microfundamentos (interesses) dos blogueiros? E o que dizer dos interesses dos que comentam? 

Deriva-se daí que uma outra pergunta é o quanto, realmente, a blogosfera, os comentários e textos, agregam de conhecimento, de fato. Afinal, se o resumo da história é um debate infértil, o melhor seria, mesmo, pesquisar. Mas esta é uma solução terrível. Significaria que apenas há criação de conhecimento entre os que pesquisam e conversam entre si pois, afinal, o público não estaria nada interessado no assunto pois continua a pensar em ciência como um debate moral de idéias na qual, claro, sua moral é sempre melhor que a do outro. 

Se for este o caso, então o melhor seria ignorar a blogosfera.

Novidades em pesquisa…

Enquanto a selva discute assuntos inócuos, vejamos três artigos interessantes: (a) a crítica keynesiana que nenhum pterodoxo (aproximadamente igual ao que o Alex chama de keynesianos de quermesse) conseguirá ler, (b) um estudo de história econômica que só será lido por bons profissionais do ramo aqui da selva e (c) um artigo interdisciplinar que não será sequer entendido pela pterodoxia local.

A irracionalidade importa?

Há duas visões sobre a irracionalidade: uma, divulgado pela imprensa, errada. Outra, menos conhecida do público leigo, correta. É sobre esta que Posner faz uma crítica interessante. O pano de fundo: o novo livro de Shiller e Akerlof que tenta unir Keynes e a economia comportamental.

Como sabemos, a grande maioria dos pseudo-economistas pterodoxos já rejeita Shiller e Akerlof porque, afinal, eles falam de microfundamentos. Acredite ou não, leitor, há gente que não entendeu ainda a importância dos microfundamentos. Geralmente repete algumas boas críticas que leu de forma bem superficial e, portanto, não entendeu. 

Shiller, Akerlof e Posner, estes sim, vale a pena ler. A crítica de Posner é bem escrita e vale a leitura.

p.s. Finanças Comportamentais? Sim, isto existe. Mas, no mínimo, você tem que saber uma covariância, uma correlação….etc. Fora disto, como eu disse, é ignorância.

Seminários

Ocasionalmente passando por alguns artigos cheguei à esta página. Nela há um – certamente polêmico – artigo do Padilla sobre a indústria pornográfica nos EUA. Tema interessante o da auto-regulação da indústria, e mais interessante ainda é a nota de rodapé 24 do texto no qual se descobre como o Brasil pode ser uma fonte de problemas para o resto do mundo…

Calvo

Excelente entrevista do Calvo. A dica é do SB que, aliás, disse bem:

Fascinante entrevista com o maior economista argentino Guillermo Calvo na Macroeconomic Dynamics em 2005. A entrevista mostra claramente como brilhantes idéias são geradas, de particular importância é o ambiente acadêmico, os contatos pessoais, os efeitos da network. A história de Calvo liga outros excelentes economistas argentinos Julio Olivera, Carlos Díaz-Alejandro, Carlos Rodriguez, e Miguel Sidrauski, passa pelo brasileiro Edmar Bacha e chega a Cass, Stiglitz, Prescott, Koopmans e Phelps entre outros.

Não preciso dizer que o avanço da ciência passa pela atuação de brilhantes cientistas, sempre dispostos a não canonizar autores, e sim aprender com eles.

Uma metáfora comum é a de que a gente deve “subir em ombros de gigantes”. Acho-a ruim. Na verdade, o cara que sobe nos ombros de um gigante nunca se livra dele. Talvez seja melhor dizer que pulamos de ombros em ombros até percebermos que nos tornamos grandes o suficiente para oferecer os nossos para alguém…ou não.

O governo, este guloso…

Eis o trecho (negrito por minha conta):

Nos últimos anos, o mercado de capitais brasileiro tem experimentado um crescimento da participação do investidor minoritário concomitantemente ao do volume de negociação de ações. Este trabalho propõe-se a avaliar se o perfil dos acionistas controladores de uma empresa pode implicar em um percentual diferente do seu lucro que é distribuído como dividendos para seus acionistas. Para a realização desse trabalho, por meio da utilização da base de dados Economática®, foram selecionadas as empresas cujas ações apresentaram maior volume de negociação entre os anos de 2001 e 2006, Os resultados obtidos por meio do modelo de mínimos quadrados ordinários mostraram que empresas cujos maiores acionistas faziam parte do conselho de administração distribuíram como dividendos, um percentual maior do lucro para seus acionistas. Entretanto, em contrário, empresas onde o governo foi classificado como acionista controlador, foi distribuído um percentual menor. Os resultados também corroboram a afirmação de que as empresas consideradas como grandes, distribuem mais dividendos do que as pequenas. Além disso, empresas com uma estrutura de propriedade mais concentrada distribuíram um percentual menor do lucro, como dividendos para seus acionistas, do que aquelas com estrutura menos concentrada.

Isto aí é o resumo desta dissertação de mestrado:

Ano: 2008
Título: Perfil dos acionistas controladores das empresas brasileiras e suas implicações para a política de dividendos
Autor: Ricardo Francisco Cancio Santos
Orientador: Sigismundo Bialoskorski Neto
Outros membros da banca: Iran Siqueira Lima – FEA/USP
Roseli da Silva – FEA-RP/USP
Palavras-Chave: Mercado de capitais; perfil do acionista controlador; política de dividendos

Economic Gangsters

Novo livro. Eis o link original. Aqui, a propaganda do livro:

He’s the United Nations diplomat who double-parks his Mercedes on New York streets at rush hour because the cops can’t touch him-he has diplomatic immunity. He’s the Chinese smuggler who dodges tariffs by magically transforming frozen chickens into frozen turkeys. The dictator, the warlord, the crooked bureaucrat who bilks the developing world of billions in aid. The calculating crook who views stealing and murder as just another part of his business strategy. And, in the wrong set of circumstances, he just might be you.

In Economic Gangsters, Raymond Fisman and Edward Miguel take readers into the secretive, chaotic, and brutal worlds inhabited by these lawless and violent thugs. Join these two sleuthing economists as they follow the foreign aid money trail into the grasping hands of corrupt governments and shady underworld characters. Spend time with ingenious black marketeers as they game the international system. Follow the steep rise and fall of stock prices of companies with unseemly connections to Indonesia’s former dictator. See for yourself what rainfall has to do with witch killings in Tanzania—and more.

Fisman and Miguel use economics to get inside the heads of these gangsters, and propose solutions that can make a difference to the world’s poor, including cash infusions to defuse violence in times of drought and steering the World Bank away from aid programs most susceptible to corruption.

Promete, não?

Econopower

From Untitled Album

Já comentei aqui antes mas vale reforçar: este livro vale a pena. Mark Skousen é um sujeito de livros e livros. Sou muito crítico de alguns deles, acho outros medianos, mas neste ele encontrou o caminho da boa escrita. O livro é muito interessante, principalmente para quem deseja estudar economia, ou mesmo para quem já a estuda na faculdade. Estou lá no meio do caminho mas eu o termino até o Natal.

Se você quer saber o que um economista pode fazer em sua vida profissional, eu recomendo fortemente este livro. Aliás, recomendo que você o leia antes de, por exemplo, o “Freakonomics”, ou o “Mais sexo é sexo mais seguro” do Landsburg. Assim, primeiro você sente o que é possível alcançar com suas habilidades e, depois, descobre como estas são treinadas por um cérebro treinado na lógica econômica.

Eu não ganho um tostão para fazer esta propaganda toda, mas acho que é um conselho de amigo para quem ainda não se decidiu pela profissão. Se economia está no seu cardápio, compre estes livros e os leia.