Animalis Economicus

Psychonomic Bulletin & Review, 2002, 9 (3), 482-488

Self-control by pigeons in the prisoner’s dilemma
FOREST BAKER and HOWARD RACHLIN 

Pigeons played a repeated prisoner’s dilemma game against a computer that reflected their choices: If a pigeon cooperated on trial n, the computer cooperated on trial n +1; if the pigeon defected on trial n, the computer defected on trial n + 1. Cooperation thus maximized reinforcement in the long term, but defection was worth more on the current trial. Under these circumstances, pigeons normally defect. However, when a signal correlated with the pigeon’s previous choice immediately followed each current trial choice, some pigeons learned to cooperate. Furthermore, cooperation was higher when trials were close together in time than when they were separated by long intertrial intervals

Ficou difícil reclamar do paradigma do homo economicus de uns tempos para cá. O melhor é, realmente, deixar os preconceitos e os livros de auto-ajuda e partir para análises mais detalhadas dos comportamentos humanos e não-humanos.

p.s. (mal-humorado) Tem muita coisa interessante por aí mas pouca gente querendo pesquisar. Fazer política, gazetear e se fazer de vítima dá mais ibope entre os amiguinhos (como sempre foi). Sim, por isso vamos patinar muito nos testes mundias de educação.

“Por que balcões em restaurantes (só) existem no Japão?” ou “O que há em comum entre o sushi, a venda de produtos e a política monetária?”

O pessoal do jornal Nikkey Shimbun – da colônia nipo-brasileira – tem feito um trabalho interessante ao publicar alguns volumes chamados Cultura do Japão com coletâneas de artigos em português e em japonês (ótimo para praticar, mas excessivamente otimista quanto às qualidades de meus ancestrais em alguns casos…).

No segundo volume publicado, há um texto de autoria de Masaomi Ise (originalmente publicado em 2006 (o livrinho é de 2016) entitulado: Por que balcões em restaurantes só existem no Japão?. A pergunta diz respeito, claro, não a balcões em geral, no qual se entregam os produtos, mas àqueles que vemos em restaurantes japoneses, nos quais as pessoas se sentam e se servem por ali.

O interessante no artigo de Ise é a história e, como tentarei destacar, também o aspecto econômico (teórico) dos balcões. Assim, não sei se é correto que não existam balcões deste tipo em outros lugares do mundo e as evidências empíricas do texto – que é apenas um texto jornalístico, sejamos justos – não são lá grandes coisas, mas o texto vale toda a leitura.

Primeiro, vejamos algumas curiosidades sobre o tema.

Consta que, no Japão, a posição social de cozinheiro era antigamente ainda mais elevada que hoje em dia. O primeiro a iniciar no Japão o balcão em restaurantes foi Yasuzo Shiomi. Ele nasceu em 1895 e viveu até 1971. Na época, ao que parece, os cozinheiros de primeira categoria formavam duplas e passavam pelos restaurantes mais famosos do país. [p.49]

Vários pontos merecem reflexão, não? Numa sociedade com escassez de alimentos – como era o Japão – um bom cozinheiro realmente tinha que ser valorizado. Lei econômica básica. Agora, interessante é a viagem em “duplas”. Seria algum tipo de cláusula concorrencial entre eles? Esta pergunta vai me assombrar por um tempo, eu sei.

Outra informação do texto é que o sr. Shiomi era uma evidência viva de que talentos geram rendas específicas (outro ponto básico da teoria econômica). Consta que ganhava algo como 500 ienes o que contrasta com 100 ienes para cozinheiros que o texto chama de “experientes” e 70 para professores de universidades públicas. Ou seja, antes de sair por aí dizendo que no Japão o professor é endeusado, estude um pouco de Ciência Econômica e, por que não, História.

Claro, o aspecto que mais salta à vista sobre balcões é o reputacional. Deixemos o próprio jornalista introduzir este complexo conceito de Teoria dos Jogos de forma intuitiva.

E foi ele [Yasuzo Shiomi] quem iniciou em 1924 um restaurante com balcão em Osaka – o restaurante Hamasaku. Esse restaurante ganhou enorme notoriedade, porque se podia ver diante dos olhos a habilidade do cozinheiro top star da época. [p.50]

Arrisco supor que a qualidade top star do sr. Shiomi é que era derivada da existência do balcão. Digo, após viajar a ganhar experiência, ele descobriu uma bela estratégia para adicionar valor ao seu produto: mostrar suas habilidades diretamente ao cliente.

Funcionava? Bem, o próprio texto sugere que os preços não eram os de um restaurante comum. A reputação, como sabe qualquer aluno que tenha estudado Teoria dos Jogos, é um dos conceitos mais importantes para se entender desde aspectos competitivos de mercados à boa execução da política monetária.

Uma nota à parte é que muitos brasileiros aproveitam mal o conceito de balcão ao instalarem seus restaurantes de comida japonesa por aqui. Um mesmo, muito bom, em Pelotas, tem parte de seu balcão ridiculamente coberta pelo freezer transparente que permitem ao cliente ver as peças de peixe, mas não o preparo do prato.

Ah sim, a referência: Ise, Masaomi (2016) Por que balcões em restaurantes só existem no Japão? In Ise, Masaomi & Kishimoto, Koichi (2016). Cultura Japonesa, vol.2, Biblioteca Jovem de São Paulo/Editora Jornalística União Nikkey Ltda, 2016.

p.s. vale a pena, também, ler o artigo clássico do falecido Sherwin Rosen, The Economics of Superstars.

Domingo Legal (?) vem aí e…a ordem de votação importa?

Eu e meus alunos de Microeconomia III vimos, outro dia, este exemplo, do ótimo livro do James Morrow [famoso Morrow (1995), para os íntimos] que é usado para explicar o chamado mecanismo da indução retroativa (backwards induction) usado para solucionar um jogo na forma extensiva com informação perfeita.

Vou resumir a história, adaptando-a, ok? Suponha que existam três políticos em uma assembléia, votando uma medida altamente impopular, mas bem agradável para eles: o aumento de salário…dos políticos. Calma, é só um caso hipotético!

Digamos que o aumento de salário dá, a cada um, um benefício “b”, mas a aprovação do mesmo vai se dar a um custo “c” eleitoral (eleitores irão para as ruas, farão campanha contra eles, etc). A votação é televisionada e sequencial, o que tornam “b” e “c” informações conhecidas dos políticos e também dos eleitores.

Ok, está meio óbvio que o político ficará feliz se b-c > 0, certo? Dizemos que seu benefício líquido será positivo, neste caso. Este benefício líquido só existirá se o aumento de salário for aprovado e, como bons economistas (ou como cientistas políticos sem medo de álgebra), sabemos que a regra do jogo importa. Bem, neste exemplo, a regra de aprovação é a da maioria simples. Como temos três políticos, basta que dois sejam a favor e os salários deles aumentará.

Agora que você já sabe o contexto do jogo, veja a figura a seguir (gerada no Gambit), que ilustra o jogo sequencial dos três políticos. Para facilitar, fiz b = 3 e c = 1. Caso três políticos votem contra o aumento, o mesmo não ocorrerá e tudo fica como antes. Cada um ganhará “0” (que é o mesmo que dizer que não há mudança).

Caso dois deles votem a favor, o aumento ocorrerá mas, quem votou a favor terá um custo eleitoral e quem não votou a favor terá apenas o benefício. Isto ocorre, por exemplo, no topo da árvore, na sequência em que os dois primeiros políticos votam “Sim” e o terceiro vota “Não”. Repare nos ganhos dos respectivos: 2 (=3 – 1), 2(=3 – 1) e 3 (= 3 – 0). Dê uma olhada nos casos em que isto ocorre. Outra possibilidade é que dois votem contra e um vote a favor. Neste caso, os que votarem contra ganharão “0” e o que votou a favor, “-1”. Acho que já deu para ter uma idéia do que acontece (e você pode se certificar disto analisando os outros resultados).

jogodopolitico_voto

Pergunto: digamos que você é um dos três políticos. O que é melhor para você: votar no início ou no fim? Pense bem antes de responder (uma dica para você está aqui).

Moral da história (espero que você tenha acertado a resposta): (a) regras do jogo importam (a votação é aberta? É secreta? É simultânea? É sequencial?, a regra de votação é maioria simples? Não? Qual é?); (b) políticos que pensam em seu próprio interesse terão chances de obterem maiores ganhos quanto mais entenderem o jogo em que estão inseridos; (c) falar de “democracia” pode ser algo estúpido ou inteligente (pare de repetir jargões e vá estudar a ciência que explica as falhas de governo, ou nunca sairemos da discussão rasteira).

Divagação pouco elaborada (embora o título seja pomposo e grande, ainda mais com este parênteses) sobre a formação do economista em tempos de impeachment

Lembrando do trabalho do meu amigo Regis, pioneiro de uma interessantíssima discussão que agora se disseminou nas redes sociais, vejo para você, meu amigo leitor (ou leitora) que curte Ciências Econômicas um bom material para refletir. Como a Ciência Econômica estuda a alocação de recursos escassos em como disse Armen Alchian, as questões não são apenas estas “de engenheiro” sobre “o que, como e para quem produzir” (várias gerações de economistas foram educadas neste paradigma…eu inclusive), mas sim sobre quais são os problemas e quais as instituições envolvidas (algo muito mais interessante, convenhamos), o jogo acima nos mostra que nosso treinamento deve(ria), teoricamente, privilegiar as motivações das ações dos indivíduos e, empiricamente, fornecer ao estudante ferramentas estatísticas para o tratamento de dados derivados das ações das pessoas (a famosa preferência revelada) (*).

Por agora é só. Abraços.

(*) Notem como não estou idolatrando ou maltratando o excelente Paul Samuelson neste último parágrafo. Estamos fazendo ciência, não caçando bruxas(os).

p.s. a resposta é: o melhor é votar primeiro. O Equilíbrio de Nash Perfeito em Subjogos deste jogo é (Não, Sim, Sim)

Teoria dos Jogos…para você brincar

Fui lá olhar este ótimo texto de Teoria dos Jogos do Cristiano Rosa e descobri que atualizaram o Gambit e, mais ainda, fizeram um aplicativo (não sei bem se o termo é “aplicativo”, mas você entendeu) dele para o Pyhton.

Lá pelos idos dos anos 90 eu usava o Gambit para fazer uns jogos simples. Bons tempos.

Um pouco mais sobre John Nash

O texto abaixo é do Cristiano Costa (vocês devem se lembrar do ótimo blog dele). Ele teve a idéia para um texto e, claro, quem melhor do que ele para escrever o próprio? 

Recentemente lamentamos o trágico falecimento de John Nash, matemático que deu uma fantástica contribuição às ciências sociais aplicadas por meio do desenvolvimento do conceito de equilíbrio em jogos simultâneos.

Um post bem legal sobre o surgimento da teoria dos jogos, sugerido pelo Drunkeynesian em seu Twitter (@drunkeynesian), é este aqui do blog A Fine Theory:

https://afinetheorem.wordpress.com/2015/05/24/the-economics-of-john-nash/

Nele estão os links para os dois papers famosos do Nash. Algumas coisas merecem destaque no post:

1) No primeiro paper do Nash (aquele de 5 parágrafos), ele agradece ao David Gale (matemático e economista) pela sugestão de uso do Teorema do Ponto Fixo de Kakutani. Ou seja, a contribuição do Gale foi substancial.

2) O Gale também contribuiu, indiretamente, para o Nobel do Shapley. Em particular, ele é citado cinco vezes aqui na fala autobiográfica do Shapley quando do recebimento do prêmio: http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economic-sciences/laureates/2012/shapley-bio.html

Obs 1: O Gale era fantástico, mas faleceu antes do Nobel do Shapley. Não sei se teria anho junto. Mas de qualquer forma, contribui para o trabalho de dois premiados.

Obs 2: Ele não tem nada a ver com o filme The Life of David Gale (até onde eu sei).

3) O Nash também agradece ao Shapley no seu segundo artigo (publicado no Annals of Mathematics). O Shapley teria ajudado o Nash a resolver o exemplo do jogo de poker citado no paper. Mais do que isso, nenhuma das aplicações sugeridas pelo Nash na seção Applications do paper é na área econômica!

4) O Zermelo já tinha provado antes que jogos mais simples tinham estratégia ótima. Mas o paper era em alemão e provavelmente só veio ficar mais famoso depois.

http://www.labri.fr/perso/gimbert/enseignement/lc/zermelo.pdf

5) Uma questão importante para entender o desenvolvimento do conceito do Nash é que talvez quem tenha sugerido o conceito de estratégia mista pela primeira vez tenha sido na verdade o Borel! Mas o paper estava em francês!

Ver aqui: http://www.gametheory.net/dictionary/People/EmileBorel.html

Para se ter uma ideia, a prova do teorema de minmax do Von Neumann and Morgenstern (1944) foi na verdade feita por um aluno do Borel em 1938.

http://science.jrank.org/pages/9420/Game-Theory-Origins-Game-Theory.html

6) Pra finalizar, no segundo paper o Nash também agradece ao Tucker e ao Kuhn. Acho que vocês sabem quem são esses dois, né? Dica: invertam a ordem dos nomes e leia em voz alta: “Condições de {complete aqui}”.

Obs 3: Essas condições agora tem um nome a mais na frente. Vejam aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Karush%E2%80%93Kuhn%E2%80%93Tucker_conditions

Obs 4: Em 1980 o Kuhn, o Tucker e (adivinhem quem? Isso mesmo) o Gale, ganharam o John von Neumann Theory Prize, prêmio dado aos indivíduos que mais contribuíram para a pesquisa operacional ou managerial sciences. Esse prêmio é considerado o Nobel da área. E, é claro, o Shapley também ganhou, em 1981. O Nash, pois é, nunca ganhou! Mas acho que não era bem a área dele.

Ou seja, de certo modo, a grande contribuição de John Nash foi residiu na sua capacidade absurda de reunir ideias fantásticas de artigos e um conjunto de pessoas ao seu redor, transformar em apenas dois artigos (um deles com 5 parágrafos) e com isso entrar para história!

Realmente uma mente privilegiada!

Produção em Equipes, Teoria dos Jogos e, claro, Os Trapalhões

Quem não se lembra de Didi, Mussum, Dedé e Zacarias? Pois os mais velhos sabem que houve uma época em que eles estiveram separados – e a fascinante história empresarial por trás disto pode ser encontrado no livro que cito a seguir – por problemas de divisão de lucros. Há quem diga que uma matéria na revista Veja teria sido a causa, mas, na verdade, foi a gota d’água (*).

Um tempo depois, graças à astúcia de Beto Carrero, a amizade prevaleceu e os Trapalhões voltaram a ser um único grupo. Foi neste momento que eles adotaram um procedimento exemplar – uma intuição econômica ímpar! – para evitar que fuxicos viessem a atrapalhar, novamente, a relação entre eles.

A partir da retomada, nenhum dos integrantes falaria com qualquer veículo de comunicação isoladamente. Todos os pronunciamentos sobre o programa de TV ou sobre os próximos lançamentos para o cinema seriam feitos com os quatro comediantes juntos. [Barreto, J. (2014) Mussum Forévis: samba, mé e Trapalhões, p.281]

Por que eu digo que é uma intuição econômica? Vamos nos lembrar de suas aulas de Teoria dos Jogos. Lá, em algum momento, você deve ter passado por um problema clássico que é o de como fazer com que uma equipe gere um produto. Geralmente, o exemplo é da produção em equipes, grupos (production with teams). Claro, o esforço individual é importante, mas um produto como o programa dos Trapalhões é um bem público e, assim, o problema é que, via de regra, a tendência é que pessoas “joguem o trabalho nas costas dos colegas”.

O livro de Barreto nos dá várias pistas de que isto acontecia quando relata as diferenças entre a empresa de Renato Aragão e a DeMuZa dos outros três: percebe-se que, de fato, Aragão tinha um trabalho extremamente mais intenso e uma gerência bem mais controladora do que a empresa de Dedé, Mussum e Zacarias. Logo, queixas entre eles sobre a suposta desigual divisão de lucros iriam surgir mesmo.

Mas e o jogo? O jogo a que me refiro está resumido, por exemplo, em Shy (1996), cap.15, um livro-texto que penso ser um dos mais didáticos em termos de jogos aplicados à organização industrial. O jogo tem “n” membros que trabalham como uma equipe para gerar um produto de valor V. Cada qual coloca um esforço “ei” e a função de produção de valor é dada por V = ∑√ei. Obviamente, a utilidade de cada indivíduo “i” é dada por Ui = wi – ei. Assim, cada indivíduo maximiza sua função de utilidade.

O problema é, então, evitar o problema do carona. A solução, neste caso, é fixar o salário individual em uma descontinuidade: ou o grupo atinge um produto de nível V* e cada um recebe V*/N (N = número de envolvidos) no qual V* é o fruto da soma das funções de esforço individuais (no caso, V* = ∑√ei) ….ou ninguém recebe nada se não se atingir V*. A sacada é fazer com que o esforço marginal de cada um seja realmente o esforço marginal social.

Shy também nos lembra que este resultado funciona perfeitamente em um jogo de um único período. No caso de Os Trapalhões, claro, o jogo é dinâmico e pode surgir o problema de inconsistência intertemporal. Diz ele:

“(…) even if some deviation has occurred, it look as if the workers would be able to negotiate with manager or among themselves a redivision of the output, given that the manager will renegotiate the contract, the workers may not take this contract too seriously”. [Shy, Oz. Industrial Organization (1996), p.407]

É por isto que acho que a idéia da entrevista coletiva tem algo de intuição econômica e me lembra um pouco este jogo da produção em times. Afinal, eles trabalham e o programa só funciona com o conjunto inteiro (o que eles percebem quando do curto período de separação). Após a briga – causada por diversos motivos, mas todos geralmente ligados à divisão desigual de lucros e potencializada pela matéria da Veja – eles se uniram e se auto-regularam.

Sim, o jogo é dinâmico, mas não há um gerente como no jogo: são todos eles co-responsáveis (é o que também se depreende da leitura do livro de Barreto). Assim, para que continuassem a “jogar o lucrativo jogo”, após o desentendimento, seria necessário criar algum tipo de instituição, contrato, que minimizasse o problema de “fofocas” e fizesse com que eles mesmos resolvessem problemas (“lavassem a roupa suja em casa”, por assim dizer) antes de sair por aí reclamando.

Como aprendemos com vários autores – inclusive com a falecida Nobel, Elinor Ostrom – muitas vezes grupos privados desenvolvem soluções ótimas para problemas de bens públicos. O caso da entrevista em grupo não foi a única medida que eles tomaram para garantir estabilidade para suas carreiras, mas, creio, foi uma boa idéia.

p.s. Não sei se a analogia com o jogo é a melhor, mas foi a que me ocorreu e prefiro deixar a idéia de se pensar em outros jogos para os eventuais leitores do blog.

Ele quer cometer suicídio ritual em nosso jardim…deixamos ou não?

HARA-KIRI -Death of a SamuraiDescobri o que me agrada neste filme (comentei aqui ontem): tem um jogo de reputação, central em toda a trama. Em resumo muito rápido, no início do filme vemos um jovem samurai sem senhor (o tal “Rounin”), pobre, que se apresenta na casa de um outro senhor feudal pedindo para usar o pátio para se suicidar (mais sobre o filme nos links do post anterior sobre o tema).

O problema é que outros – em situação similar – faziam o mesmo com os senhores feudais, mas claramente jogando com a piedade. Ou seja, o objetivo era fingir se suicidar para ganhar uns trocados ou, com sorte, um emprego.

Lembra, exatamente, o clássico jogo do sequestrador quando ensinamos equilíbrio perfeito em subjogos para os alunos, né? Pois é. A situação, no início do filme, é exatamente esta.

Caso você não conheça o jogo, aí vai uma sinopse: o sequestrador ameaça explodir uma bomba se o piloto do avião não desviar o vôo, digamos, de New York para Havana. O piloto, sabendo disso, tem que decidir se desvia ou não. Sabendo que a morte do sequestrador não o ajuda a chegar em Cuba, o equilíbrio de Nash, neste caso, é o equilíbrio perfeito em subjogos que é não desviar: trata-se de um blefe.

É por isto que um economista diria para você não negociar com terroristas. Mas como este filme não feito por economistas, a trama tem um desenrolar diferente, apelando para outros aspectos humanitário do espectador. Muito cuidado para não cair no golpe do “coração mole” e tentar jogar a teoria econômica fora por causa do filme.

Aliás, antes que você diga que não vai assistir o filme porque você curte teoria econômica, pense também em outro aspecto do roteiro. Ocorre que o pobre coitado, que tenta blefar, leva uma espada que, na verdade, é de bambu, o que é extremamente ofensivo aos que lhe oferecem o pátio para o suicídio.

Assim, ao contrário do problema simples do sequestrador, neste há um elemento adicional que torna a história mais dramática: há uma quebra de decoro imperdoável para os padrões sociais da época. Isto reforça o ódio dos vassalos que, praticamente, forçam-no a cometer o suicídio e é um elemento que não aparece na modelagem do jogo (uma curiosidade que me ocorre agora é: como será que poderíamos modelar este jogo desta outra forma?).

Claro, o drama é terrível e a história é contada de uma forma magistral, mas quem gosta de Teoria dos Jogos deveria dar uma olhada, também por conta desta curiosidade antecipação do famoso exemplo.

p.s.1. O remake de 2011 não é tão bom, há modificações na narrativa, mas vale a pena.

p.s.2. Olha, caso você goste deste tipo de conversa, sobre jogos e filmes, experimente ler um livro chamado Biblical Games, do Steven Brams. É bem divertido, mas você tem que ter algum conhecimento básico de Teoria dos Jogos o que, no Brasil, significa que você, não-economista, tem que ter cursado o mesmo curso de um economista, e não aqueles simulacros de cursos que a gente vê por aí, no qual o sujeito finge que ensina teoria dos jogos, só com lero-lero e as pessoas fingem que aprendem (e também fingem que “é muito difícil” para poder dar um tom dramático ao circo todo).

Por que estudamos? ou “É, temos de pensar estrategicamente!”

2014-05-10 13.27.52Simples assim. Sabedoria do Capitão Juuzo Okita (沖田十三 Okita Jūzō). Quer dizer, uma sabedoria meio pop, de desenho animado, mas realmente muito útil para a reflexão. 

Antes de culpar alguém pelo próprio fracasso é sempre bom pensar no quão falhos somos e, portanto, na necessidade que temos de tentar prever as ações dos outros. No contexto do episódio (um dos últimos capítulos do remake), Okita está chamando a atenção para a necessidade de não se ignorar o pensamento do adversário, que também não deve ser subestimado.

Não é à toa que ensinamos Teoria dos Jogos em Ciências Econômicas e, claro, percebe-se que estudar esta teoria deveria ser do interesse de qualquer um que pense em termos de estratégia de mercado (ou de conflitos, política, etc). Aliás, este duelo entre o capitão Okita e Elk Domel me lembra um exemplo desta teoria no contexto da II Guerra Mundial que é a batalha do Mar de Bismark (conhecido, em jogos, como “o duelo entre o Almirante Kimura e o General Kenney”). Este exemplo está em algum livro introdutório de Teoria dos Jogos (não me lembro em qual deles). Caso alguém saiba a referência, por favor, use os comentários. 

 

Valores sociais, trocas e experimentos

Why do internet business people exhibit more other regarding behavior than students? Common wisdom suggests that pro-social characteristics would be selected away from in the anonymous online world. However, it is precisely in semi-anonymous situations where trust is at a premium suggesting the opposite selection.

(…)

We fi nd sparse evidence to support the Levitt and List (2007) selection hypothesis. While our priors were that internet business people would exhibit less pro-social behavior than students indeed we expected that the purely self-interest homo economicus models would o er excellent predictions we wanted to see the evidence for ourselves.

We were surprised by what we found. Across dimensions of trust, altruism, monitoring, and lying, internet business people were more pro-social than students. Moreover, the di erences were not small. Compared to students in the lab, internet business people were twice as likely to both be trustworthy and over 50% more likely to trust in a trust game. Internet business people contributed
over 250% more in dictator games. They lie one-third less often than students. The e ffects are more muted compared to students in the fi eld, suggesting that fi eld settings, in part, promote pro-sociality; however, even here, internet business people were, on the whole “nicer” than students.

Não sei não, mas acho que o pessoal de Economia Experimental é que vai gostar deste working paper.

Teoria dos Jogos…na prática

O blog Teoria dos Jogos nos brinda com um interessante estudo sobre o perfil dos torcedores de futebol na selva brasileira. O pessoal de Economia dos Esportes é inexplicavelmente escasso no Brasil (ainda mais quando se trata de futebol). Caso você tenha interesse no tema, dá uma busca por aqui e também no google e você descobrirá que há muita coisa bacana para se fazer na área.

Pesquisas interessantes

O último número da Revista de Economia e Administração (vol.10, n.1, em breve já disponível na página da revista) tem alguns artigos que me chamaram a atenção (sem falar no meu próprio, com Ari e Juliana). Vamos a eles:

1. “Sistema financeiro, segurança jurídica e crescimento econômico” – Este é um excelente exemplo de artigo que procura fazer com que o leitor entenda o que os autores fazem. A explicação dos procedimentos (que culminam em um VECM e nos testes de causalidade) está ótima. Não chequei se o teste de causalidade foi feito sobre o VECM ou não, mas é um belo artigo.

2. “Industrialização do Brasil na década de 1930: uma análise com teoria dos jogos” – O autor é da área de história econômica e, de certa forma, a parte da história ocupa 2/3 do artigo. Sempre é bom contextualizar, mas o bacana do artigo é a modelagem do autor. Mais uma vez, alguns aspectos das hipóteses que Furtado criou (e nunca testou) são refutados, neste caso, pelo modelo do autor.

3. “Persistência inflacionária: comparações entre três economias emergentes” – Vamos falar sério. A última coisa que me interessou no artigo foram as três economias emergentes. Ok, é o tema principal, mas os autores foram muito bem-sucedidos na parte mais difícil do artigo que foi a de explicar os modelos ARFIMA. Até eu que sou burrinho consegui pegar a idéia.

Assim, meus parabéns aos autores destes artigos. Há tempos eu não via artigos que eram realmente “bens públicos”. Aprendi algo novo com cada um deles. Seja na forma de explicar um tópico, seja no aprender um novo método, ou admirar um artigo bem escrito.

Organização Industrial – uma área de temas interessantes inesgotáveis

The Economics of Collective Brands

Arthur Fishman
Bar Ilan University – Department of Economics

Avi Simhon
Hebrew University of Jerusalem

Israel Finkelshtain
Hebrew University of Jerusalem

Nira Yacouel
affiliation not provided to SSRN

September 12, 2010

Bar-Ilan University Department of Economics Research Paper No. 2010-11

Abstract:
We consider the consequences of a shared brand name such as geographical names used to identify high quality products, for the incentives of otherwise autonomous firms to invest in quality. We contend that such collective brand labels improve communication between sellers and consumers, when the scale of production is too small for individual firms to establish reputations on a stand alone basis. This has two opposing effects on member firms’ incentives to invest in quality. On the one hand, it increases investment incentives by increasing the visibility and transparency of individual member firms, which increases the return from investment in quality. On the other hand, it creates an incentive to free ride on the group’s reputation, which can lead to less investment in quality. We identify parmater values under which collective branding delivers higher quality than is achievable by stand alone firms.

Eu já fui mais entusiasta de Organização Industrial – ainda sou, mas menos do que antes – e devo dizer: há temas inesgotáveis nesta área de pesquisa. Este texto aí citado é um dos que dá vontade da gente parar de fazer o que está fazendo para estudá-lo. Mas meu tempo é muito escasso.

As economistas brasileiras ou “há economistas e Economistas brasileiras…”

Neste artigo do economista-chefe da Google, Hal Varian, há, na bibliografia, um artigo co-autorado por Marilda Sotomayor. Quem seria esta economista? Bem, os cursos de economia brasileiros, em geral, não estudam a história do pensamento econômico brasileiro o que é até um alívio, dado o “amor” de muita gente pela idolatria e doutrinação (aponte um erro em um trabalho de Celso Furtado e, pronto, você é um “vendido”).

Mas nem é preciso criar mais uma disciplina para pilantra vagabundear e distribuir panfletos de partido político em sala. Basta que os professores acompanhem as pesquisas de seus pares. Humm…pensando bem, isto também não é muito comum no Brasil. Mas vamos lá, mesmo assim, quem seria Marilda Sotomayor? É uma professora de economia, atualmente na USP.

Pois é. A profa. Marilda é uma das melhores pesquisadoras que temos. E é bibliografia do Varian. Se você quer entender microeconomia, não é comigo que tem que estudar: é com ela.

Evidência número 899.657.891,12 de que teoria dos jogos está acima da compreensão pterodoxa

Axioma Keynesiano #1 – todos pterodoxo diz que a Teoria dos Jogos é muito abstrata e não se aplica à realidade.

Fato –

In July 1994, game theory got its big test when the US government held its first auction for the sale of radio spectrum. Initial estimates by the Federal Communications Commission (FCC) put the value of spectrum at about 10bn, but of course it was difficult to guess a value for a unique product.

So, in a rare test for academia, the government pulled in game theorists and asked them to construct rules for a real auction that would ensure the best possible price from the bidders. The result was a stunning success. By early 2001, the FCC had collected more than 42bn for spectrum rights in a series of auctions. The theorists were further flattered by imitation around the world, where spectrum sales reached 100bn by the end of 2001.

Conclusão – Pterodoxos fazem leitura seletiva. Não porque estudaram muito, mas porque se recusam a estudar autores diferentes aos de seu culto.

p.s. não se engane, pterodoxos sabem, melhor do que ninguém, manipular dados estatísticos para provarem pontos absurdos. Reza a lenda que um deles provou que a gravidade não existe.

p.s.2. nem tudo são flores. Teoria dos Jogos pode levar a resultados ruins. Mas assim também o é com a faca e o melão: você pode cortar a mão ou o melão usando a mesmíssima faca (inside joke).