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Mais Tavares Bastos, menos chavão.

Homem de estatísticas, de textos de leis, de críticas claras, não necessitava inflacionar as páginas de seus livros com citações longas e afetadas, moda que, na República, se tornou quase epidêmica, como se a cultura decorresse de indicações livrescas desnecessárias ou despropositadas. [Tavares Bastos, A.C. “O Vale do Amazonas”. Coleção Brasiliana, v.106, Companhia Editora Nacional, 1975, 3a ed, prefácio de Oscar Tenorio, p.11]

O homem era quase um mito. ^_^

Estranha-me a falta de interesse de nossos estudiosos do pensamento econômico nacional por sua obra e, como já notaram meus dois leitores, estou em franca campanha para que alguém faça um trabalho sério sobre o autor.

Note que a mania de “citações longas e afetadas” ainda perdura entre alguns praticantes do Direito e também em textos de alguns economistas pterodoxos (de todos os matizes ideológicos).

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Tavares Bastos Novo-Institucionalista?

Se alguma coisa explica o embrutecimento do Brasil até o começo do século presente, a geral depravação e bárbara aspereza de seus costumes, e, portanto, a ausência do que se chama espírito público e atividade empreendedora, é de certo o sistema colonial. [Tavares Bastos, A.C. Os males do presente e as esperanças do futuro, Brasiliana, vol. 151, 1976, p.31]

Lembro do livro do prof. Marcos Fernandes, Formação Econômica do Brasil (que merece ser reeditado!) e talvez uma nova edição mereça algumas linhas dedicadas a Tavares Bastos (eis minha sugestão atrevida).

O trecho acima parece uma daquelas pistas arqueológicas sobre o estudo do pensamento econômico. Teria Tavares Bastos antecipado parte do argumento novo-institucional para a economia brasileira? Caso alguém aí tenha alguma dica, o espaço de comentários está aberto.

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Porque feriado é para os fracos! (Mentira…eu vou tirar um cochilo sim)

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Não será possível ler tudo isso hoje porque tenho que preparar umas aulas, mas vocês já notam que há uma diversidade de projetos sendo encaminhados e um resgate de uma antiga paixão por futebol que, após morrer nos pés dos atreticanos da seleção de 82, voltou e se transformou, também, em interesse de pesquisa.

Dito isto, a edição em português de Soccernomics que comprei anteriormente, usada, será doada para a biblioteca informal do mestrado do PPGOM.

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Males do Estado Brasileiro…ao longo dos séculos

Si o mais seguro meio de attingir á reducção do imposto é o de reduzir simultaneamente a despeza, haja um governo patriotico que se levante sobre as ruinas dos ministerios aulicos, e combata as grandes causas permanentes dos nossos embaraços financeiros,- o funccionalismo exagerado pela centralisação, o luxo administrativo, os subsidios estrangeiros, a onerosa politica de intervenção e protecção. [Tavares Bastos, A.C. A Província, 1870, p.332]

Ou seja, não foi por falta de aviso, né? ^_^

p.s. Tavares Bastos tinha uma hipótese sobre a causalidade entre receita e despesa?

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Substituição de importações e fechamento da economia…na visão de Tavares Bastos

Commettemos tambem a inepcia de fazer das tarifas das alfandegas um ponto de apoio da industria nacional contra o que chamava-se em França a invasão dos productos estrangeiros. (…) As industrias protegidas desapparecem ou definham, mas as taxas perduram. [Tavares Bastos, A.C. Cartas do Solitario, 1863, 2a ed., p.20]

O mais engraçado é que, outro dia, li crítica similar ao mercantilismo pombalino, que, no caso, obrigou os colonos a comprar tachos com buracos e mais caros do que os melhores (e mais baratos) ingleses.

Que tal um pouco de noção sobre o excesso de regulação no transporte marítimo?

Aqui mesmo na côrte sabemos que as commissões do arsenal teem declarado aptos para navegarem vapores em circumstancias pouco animadoras. E’ assim que a restricção fomenta a fraude das companhias, uma vez que os particulares depositam inteira confiança no resultado de um exame instaurado por commissarios do governo. [idem, p.21-2]

Tavares Bastos merecia, realmente um estudo mais profundo por parte de quem geralmente mais entende de Ciências Econômicas, ou seja, os economistas.

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Tavares Bastos e o capital humano

Abolicionista que era, mas também ciente das restrições que ocorreriam caso a abolição viesse de uma só vez, Tavares Bastos tinha uma proposta que avançaria marginalmente (o que teria evitado a crise financeira da abolição estudada por John Shultz?).

Interessante mesmo é ver que Tavares Bastos entendia bem a importância do capital humano. Por exemplo:

Entre as providências sugereidas, ressalta pela importância, esta – criando para cada senhor de cinqüenta escravos a obrigação de manter uma escola, destinada à educação de suas ‘crias’ e dos meninos das vizinhanças, sob multa de liberdade de dois escravos adultos, em quanto aproximadamente estimava a importância das despesas anuais pelo serviço escolar previsto.
Sem quaisquer preconceitos de raça, e levado por observações a respeito da capacidade e aptidões do negro, capacidade e aptidões já comprovadas em círculos dos Estados Unidos, Tavares Bastos propunha a educação na Europa, por conta do Estado, de certo número de negros libertos, em determinadas indústrias, artes e ofícios. [Pontes, C. “Tavares Bastos (Aureliano Cândido, 1839-1875). Coleção Brasiliana, v.136, Companhia Editora Nacional, 1979, 2a ed (original de 1938), p.154]

A primeira medida é uma tentativa de criar custos aos escravocratas, ao mesmo tempo em que sinaliza pela necessidade de se qualificar a mão-de-obra ao longo do tempo. Pode-se discutir se a medida seria mais ou menos eficiente, mas a idéia de que Tavares Bastos pensava seriamente no capital humano dos futuros libertos é clara.

Já a segunda, muito interessante, lembra a iniciativa do governo japonês, quando de sua modernização (era Meiji) em enviar alguns japoneses para o exterior para que aprendessem melhor os aspectos da civilização ocidental (os Choshu 5 Satsuma 14).

Tavares Bastos era, de fato, um liberal de idéias interessantes e com boa percepção acerca dos incentivos econômicos.

 

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Por que ninguém falou sobre Tavares Bastos na aula?

tavares_educador1Estou desconfiado que muita gente lê, mas quase nunca cita um certo trabalho de Tavares Bastos: sua tese de doutorado. Segundo um autor antigo, Carlos Pontes, em seu Tavares Bastos (Aureliano Cândido, 1839-1875),…veja você mesmo:

“Versava ela sobre os seguintes motivos: Sobre quem recaem os impostos lançados sobre os gêneros produzidos no país? Sobre o produtor ou sobre o consumidor? O que sucede quanto aos gêneros importados e exportados? [Pontes (1975) [1938], p.63]

O autor não deixa claro se este é o título – embora o destaque seja uma insinuação forte – da tese, mas fica meio óbvio que qualquer aluno interessado em história do pensamento econômico brasileiro deveria procurar pelo original.

Caso alguém saiba se existe uma versão digitalizada (ou publicada) da tese dele, gostaria muito da dica.

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A lei do trabalho de Tavares Bastos e o custo de oportunidade (e um pouco sobre o Estado-Leviatã)

Qual é a grande lei do trabalho? É o progresso, isto é, o aperfeiçoamento do trabalho, seja publico, seja privado, se mede pela sua economia, economia de serviço pessoal que corresponde á economia de tempo, economia de tempo que redunda em economia de dinheiro.

Pois bem: nossa administração parece mover-se por uma lei inversa. Nella o tempo não é dinheiro; o tempo é remedio. [Tavares Bastos, A.C. Cartas do Solitário, (1863), p.4-5, segunda edição]

É, gente, ele já sabia o conceito de custo de oportunidade. O que dizer da ineficiência de nosso Estado Brasileiro (sim, em maiúsculas, para que não tente se esquivar…)?

Mas, poderei em vão recordar aos contribuintes que a sua posição de reclamante, no thesouro e nas suas filiaes, é ainda mais desigual? A avareza do fisco e a sua sem-ceremonia, atropellando até os proprios regulamentos, quando trata de receber, correspondem perfeitamente á sua insupportavel lentidão quando trata de pagar. [Tavares Bastos, A.C. idem, p.6-7]

Pois é. Nossos historiadores do pensamento econômico brasileiro até hoje não se debruçaram sobre Tavares Bastos. Por que? Não sei. Só sei que é uma tarefa promissora, na pior das hipóteses, uma visita ao estudo das instituições (no sentido de North) de nosso passado.