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A natureza humana, segundo Adam Smith, e sua conta de água

Diz-nos Roberts (2014) em seu estudo informal sobre a Teoria dos Sentimentos Morais de Adam Smith que nosso patriarca teve ótimos insights que poderíamos usar como pequenas dicas para nos tornarmos pessoas melhores. Há quem veja neste livro um Adam Smith diferente daquele que escreveu A Riqueza das Nações, mas, honestamente, lendo o resumo de Roberts, não vejo traços de esquizofrenia ou mudança de opinião tão radicais.

Aproveitando minha recente exposição às palestras apresentadas no encontro entre psicólogos e economistas lá na USP, repare neste interessante trecho de Smith citado por Roberts:

“There is, however, this difference between grief and joy, that we are generally most disposed to sympathize with small joys and great sorrows” [Adam Smith, obviamente, apud em Roberts, Russ (2014). How Adam Smith Can Change Your Life, Penguin Books, 134]

Em outras palavras, Smith acreditava que as pessoas tinham uma reação assimétrica em relação a eventos que ocorrem a terceiros. Algo mais ou menos assim: se o evento lhe causou uma desgraça grande, sou-lhe simpático. Agora, se você obteve algum sucesso, sou-lhe simpático se este não foi um “grande” sucesso.

Seria isto uma curiosidade ou apenas um bom insight? Não. Há mais sabedoria aí. Sabedoria que podemos usar para melhorar o mundo à nossa volta. Tome-se o caso relatado por Alex Laskey, sobre como um bom incentivo para tornar o consumo de água mais racional não precisa ser um apelo para sua economia, mas sim um apelo para seu desempenho ‘inferior’ ao de seus vizinhos (video com legendas aqui).

Gosto de pensar neste incentivo citado por Laskey como um exemplo de aplicação desta idéia de Adam Smith, ainda que possa não ter sido diretamente inspirado nos escritos do celebrado pai da economia. Já que existem evidências de que o sucesso alheio nos afeta, por que não utilizar isto em nosso favor?

No caso relatado por Laskey, a queda no desperdício de água de uma família é atribuído à forma como a conta de água é entregue, com comparações relativas de desempenho, mostrando, ao consumidor, que seu desempenho é melhor ou pior do que seu vizinho/bairro/famílias de tamanho similar, etc. Ou seja, ao saber que tenho um desempenho pior que o seu, tento me sair melhor no próximo mês, economizando mais água. Um pouco de competição, claro, baseado no fato de que seu desempenho melhor me deixa incomodado.

Pensando em Adam Smith, teríamos algo mais ou menos assim: recebo a conta de água e percebo que fui muito pior do que os vizinhos. Isto me incomoda e, sem fazer alarde, faço de tudo para subir no ranking. Não parabenizo tanto o vizinho que foi muito melhor do que eu, mas começo a me esforçar para economizar mais água. No caso em que fui melhor que os outros, provavelmente, tentarei comparar explicitamente minha conta com o vizinho, lamentando que ele não tenha conseguido e lhe desejando melhor sorte da próxima vez.

Claro, pode ser que seja possível verificar estas assimetrias empiricamente e talvez alguém já o tenha feito. Não sei. Mas achei interessante esta relação entre pensamentos de Adam Smith e a moderna Ciência Econômica (ou a moderna Ciência Comportamental, caso você prefira…). Claro, vale a pena destacar a diferença entre normativo e positivo aqui.

“Smith’s observations on how we interact with others in grief and in joy are mainly about how we are made – the nature of human nature – and not so much about how we should behave”. [Roberts, R. (2014). idem, p.141]

Nunca é demais lembrar esta diferença essencial e, claro, Economia é, sim, algo muito legal, não?

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Adam Smith…hoje em dia

Adam Smith, no livro de Russ Roberts:

It is only the weakest and most superficial of mankind who can be much deligthed with that praise which they themselves know to be altogether unmerited. A weak man may sometimes be pleased with it, but a wise man rejects it upon all ocasions (How Adam Smith Can Change Your Life, Penguin Books, 2014, p.48)

Realmente está sendo um baita livro. Uma espécie de fichamento personalizado e modernizado do “Teoria dos Sentimentos Morais” de Adam Smith.

adamsmith_newEu me pergunto quantos de nós não passaram por este sentimento algumas vezes. De certa forma, a medida da sabedoria está na minimização de nosso wishful thinking sobre nós mesmos.

Pensando um pouquinho sobre este trecho percebo que muitos políticos que batem no peito e fazem discursos mentindo descaradamente sobre os outros são, no fundo, pessoas tristes, não é?

Nosso pai fundador, Adam Smith não era apenas um grande economista, mas um sujeito com o qual eu gostaria de ter tomado um café se pudesse ter tido a oportunidade.

Este será uma das minhas leituras na viagem para o seminário de Economia Comportamental semana que vem lá na USP.

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Controle de remunerações

Está na moda falar de tentar controlar os “ganhos” dos CEO’s. Esta idéia comum não encontra paralelo no setor público – aquele explorado e abusado por políticos – no Brasil. Já Russ Roberts fez uma bela crítica a um político norte-americano aqui.

Aliás, esta é uma boa idéia: por que não discutimos melhor os incentivos sobre os gastos públicos? Continuo vendo muita pressa em culpar o mercado pela crise e pouco esforço intelectual em entender as incríveis falhas de governo envolvidas no início da crise. Sem falar na falta de discussão sobre os impactos de políticas econômicas sobre a economia e mesmo sobre a qualidade sofrível de muitos dados que o governo divulga (para fins de análise estatística, por exemplo).

De qualquer forma, Russ Roberts fez algo que poderíamos fazer com cada um destes políticos brasileiros. Basta analisar os dados da Transparência Brasil.