A Petrobrás, motéis e restaurantes… – momentos curiosos do pensamento econômico brasileiro (e brasilianista)

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Pois é. Juro que não sei o que se passou pela cabeça de Werner Baer, Isaac Kerstenetzky e Annibal Villela quando escreveram este trecho da conclusão de seu artigo sobre o papel do estado na economia brasileira em 1973. Olha que se trata do final do artigo, uma seção chamada Tendências Futuras.

Tem horas que penso que talvez só Freud explique… ^_^

De novo o restaurante

Olha que legal, leitor(a) (ou leitores(as)). Falei outro dia sobre um artigo que falava de gorjetas e descobri, hoje, na blogosfera (via Twitter e blogosfera mesmo), dois artigos não-científicos interessantes sobre o tema. Um deles, sobre os EUA, discute o porquê de não ser interessante fazer reservas para clientes. O outro, muito bom, mostra a quantidade de problemas institucionais que um empreendedor enfrenta para abrir um restaurante. Bem, não apenas institucionais, mas também de capital humano, etc.

Esta questão das reservas lembrou-me do saudoso e-book do sushi (taí, nos links laterais) que citei no final do ano – e mereceu um comentário muito bacana de um leitor do blog. É o tipo de questão interessante para se pensar quando você aprende Microeconomia.

Abrir restaurantes, dar gorjetas, cobrar pelas reservas…alguém poderia fazer uma lista de exercícios só com este tema. Começa com os consumidores (pensando em Becker!) e passando pelos problemas de agente-principal (há um ótimo no livro do Oz Shy de Organização Industrial) e todos aqueles ótimos e interessantes tópicos de Organização Industrial. O meu amigo Hamdan é que é bom para arrumar exemplos nesta área. Sim, sim, você terá que estudar um pouco de Teoria dos Jogos também.

Salário mínimo e desemprego….e um ponto sobre a demanda de evidências empíricas no Brasil

Como eu costumo dizer, há várias coisas legais em se estudar Economia. Uma delas é verificar o impacto de leis em mercados específicos. O último número do Southern Economic Journal traz um estudo interessante. O resumo está aí embaixo.

The Effect of the Tipped Minimum Wage on Employees in the U.S. Restaurant Industry
William E. Even and David A. Macpherson

According to federal law in 2013, employers can take a credit of up to $5.12 for tips received by workers in satisfying the minimum-wage requirement of $7.25. This article uses interstate variation in laws regarding tip credits and minimum wages to identify the effects of reducing or eliminating the tip credit on employment, hours, and earnings in the U.S. restaurant industry. Using data from the Quarterly Census of Employment and Wages and the Current Population Survey, we find that a reduction in the tip credit increases weekly earnings but reduces employment in the full-service restaurant industry and for tipped workers. The results are robust to controls for spatial heterogeneity in employment trends and are supported by a series of falsification tests.

Sabe aquela história de o gerente do restaurante juntar todas as gorjetas para depois redistribuí-las? Pois é. Eu sempre me perguntei sobre o porquê disto (na verdade, eu sempre me perguntei depois que uma aluna, que estagiava em alguma empresa, teve que lidar com este problema e me relatou em sala). Após uma leitura super-superficial (sic), já posso dizer que um dos méritos do artigo é fazer a transição didática do modelo de concorrência perfeita de sala de aula – aquele em que discutimos a questão de salário e desemprego – para um modelo menos simples (mas ainda de sala de aula, caso você tenha continuado seus estudos…) de concorrência imperfeita. Aí a discussão do salário e do desemprego fica mais interessante (*).

Claro que nossa estrutura institucional (leis!) é diferente da dos EUA e eu não sei detalhes da mesma para o Brasil. Entretanto, vai aí mais uma observação: onde estão os estudos similares para o Brasil? A disponibilidade de dados, aqui, parece-me mais restrita (mas vem melhorando ao longo destes últimos 20 anos nos quais eu, consistentemente, tenho reclamado disto) aqui do que lá. Por que é assim (assuma que é)?

Creio que a demanda social de análises de políticas públicas é muito baixa. Tem aumentado, mas é baixa. Embora se fale de “positivismo” no Brasil, como disse uma vez o grande filósofo Alberto Oliva, não temos nada de influência positivista por aqui (exceto, talvez, por um ou dois templos positivistas no RS…). Tivéssemos mesmo alguma influência positivista séria, então teríamos muito mais bases de dados do que temos hoje.

Ok, mas eu imprimi uns dois artigos ali. Dá tempo de ler ainda.

(*) Ah sim, só para lembrar, em um de seus livros de Economia, Richard McKenzie (co-autorado com Dwight Lee) também introduz algumas modificações no modelo tradicional, mostrando que as coisas não são tão simples quanto pode parecer aos que usam apenas o modelo simples de oferta e demanda (e olha que não estou falando de complicar a vida com incerteza e tal…).