Sobre o debate sério (tudo o que alguns pterodoxos da ala heterodoxa não entendem)

Marcos Lisboa e Carlos Eduardo explicam o alfabeto para as crianças.

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Vitória da contabilidade criativa e da eleição de campeões!

Muito bem, ministro Mantega e membros da equipe econômica! Começamos bem. Depois que o Cristo Redentor levou um choque divino para aprender a voar sem ter condições para tal, agora conseguimos mais um resultado positivo para nos afastarmos dos mercados. Parabéns a vocês!

Claro, Valdomiro Pinto deve estar em êxtase! Afinal de contas, não é todo dia que o povo pterodoxo da ala esquerda consegue vencer o monstro neoliberal. Temos que agradecer aos gaúchos do Tesouro, que tanto empenho mostraram nos últimos tempos (empenhando o dinheiro alheio…).

Também devemos agradecer aos gerentões (ou gerentonas) que cuidaram da criteriosa análise no uso do dinheiro público na compra da plataforma da Petrobrás. Gente, esta vitória é exclusiva de vocês!

“Mixed policy signalling by the government, with negative implications for fiscal accounts and economic policy credibility, coupled with a subdued outlook for growth over the next two years continue to weigh on Brazil’s policy flexibility and performance profile,” the agency said.

A Reuters disse tudo. Já começou a contagem regressiva para as atitudes xenofóbicas e nacional-socialistas de sempre (“eles não têm autoridade para nos julgarem”, “fora estrangeiros”, etc) que a esquerda nacional adora espalhar nestas horas (não duvide se um ex-presidente aparecer com o semblante tenso, com o discurso da indignação contra os estrangeiros na ponta da língua, tentando fazer você comprar a imagem de que Maduro é estadista e Reagan era um cão neoliberal…).

Já posso ouvir os gritinhos histéricos: “fora aritmética burguesa, na qual 2+2 = 4”! É o grito de guerra apropriado, inclusive, para quem curte “contabilidade criativa”.

Ah sim, eu também acho que os poderosos sindicatos de contadores poderiam ter ajudado a evitar isto tudo se tivessem vindo a público condenar práticas “criativas” em contabilidade, mas isso é outra história. Sempre haverá um empoeirado que dirá que a lei permite isto, aquilo, etc, mostrando um total desconhecimento do papel dos incentivos.

Nada disto importa. O que importa é que médico cubano é capacho e tem Copa no Maracanã. Viva!

Quantos pterodoxos são ricardianos?

Segundo alguns pterodoxos da esquerda, a equivalência ricardiana é uma ilusão de ótica, um monstro embaixo da cama ou um sonho de verão. Não se pode nem falar que o multiplicador keynesiano do gasto de um pterodoxo é pequeno que ele fica todo saltitante, afina a voz e diz que o multiplicador dele é maior que o seu. Coisa de gente (“gente”?) infanto-juvenil (sem ofensas, por favor, criançada).

Mas eu insisto em ensinar que a gente deve testar teorias sem massacrar as pessoas (por exemplo: com congelamento de preços ou outras intervenções bestiais do governo na livre negociação de cada pessoa com cada pessoa) e, assim, ainda ensino a tal equivalência (também conhecida como Barro-Ricardiana).

Bom, aí um dia eu dei aquele exemplo: “- Gente, imagina aí um país hipotético de língua portuguesa na América Latina que resolveu adotar um acordo ortográfico unilateralmente e também decidiu que iria, em plena expansão dos gastos do governo, dar um desconto na conta de luz, como se “concessionária” de energia elétrica fosse sinônimo de “escravo fornecedor” de energia elétrica.  Vamos supor, para benefício deste governo, que o governo não está em um esquema Ponzi. Ele realmente vai equilibrar o orçamento. Então, vamos analisar os efeitos de uma redução na alíquota de imposto sobre seu consumo hoje…”.

E por aí vai.

Claro que sempre destaco as hipóteses importantes, os dois períodos, e tudo o mais. Aí, sem ideologia, sem forçar a barra, eu escrevo aquela peça de matemática complicadíssima (para alguns pterodoxos de direita), a tal restrição orçamentária intertemporal (com os temíveis dois períodos…e a taxa de juros que Böhm-Bawerk amava) e faço algumas contas. Não tem jeito: sempre dá o resultado de que, no mundo hipotético, teórico, se eu ganho um descontão no imposto hoje, mas sei que o governo não é um louco desvairado que vai acabar com a saúde, a educação (e ainda quer dar passe livre para os jovens maoístas) , ele não vai deixar de voltar a aumentar a alíquota amanhã. Então, eu não gasto mais em consumo, mas poupo para pagar o governo amanhã. Pronto, dançou o tal multiplicador keynesiano pterodoxo (de esquerda).

Algum aluno, com toda a honestidade, sempre pergunta: “- Mas, professor, e com mais de dois períodos?”

E eu sempre conto a mesma história: “- Bom, aí o sujeito vai suavizar o consumo, o nível de consumo vai variar, mas muito pouco…”.

Depois sempre há um debate sobre a realidade e alguém sempre pede um exemplo de evidência favorável ou contra. Aí eu tenho que explicar que estudar cinco anos de um curso significa que não vamos buscar evidências apenas no gogó de um empresário vetusto (que ganha grana do BNDES para se dizer empreendedor e defender o livre mercado enquanto mama nas tetas do Leviatã) e nem nas barbas do vovô, que ainda acha que uma ditadura é a melhor coisa que alguém poderia ter neste país e que estes “300 picaretas é que avacalham o bom príncipe”. A gente vai buscar evidências coletando dados e usando Estatística.

Não dá outra. A conversa resvala para sobre como a aula do professor de Econometria é complicada, com letras gregas, ou sobre como os alunos estão ansiosos para fazer uma regressão, mas desde que não seja no Eviews, porque é muito difícil e o melhor seria a gente tomar uma cerveja e discutir economia (armadilha certa!).

Eu sei, é mais ou menos assim na sua aula também. Aluno não é diferente e professor menos ainda: estamos todos sempre discutindo a mesma coisa porque, aliás, o governo também é o mesmo, faça tucano ou faça foice e martelo (disfarçada de estrelinha mensaleira).

Então eu sou obrigado, por motivos didático-pedagógicos óbvios, a buscar um exemplo mais prosaico, do jornal (que nenhum aluno nunca lê, embora ele use a internet até no banheiro da faculdade). Aí eu tenho que achar um jornal decente, que não tenha medo de noticiar coisas desagradáveis para os governantes (em Minas Gerais, isso deixou de existir faz tempo, dizem meus amigos jornalistas). Eu acho um e leio: “Governão bacana vai afagar o consumidor em uma incrível coincidência com o calendário eleitoral! Logo mais, desconto na conta de luz”.  Quando eu leio de novo, eu percebo que a história é mais ou menos assim: o governo tem um argumento retórico qualquer sobre um dinheiro sobrando (tipo um pré-sal que um dia será contabilizado, mas já o foi porque…deixa para lá) e vai te dar de presente. Mas, para fazer isso, ele, que está cheio de burocratas que condenam os “atravessadores”, vai ter que cobrar pelo serviço e vai se endividar. Entretanto, não se preocupe, ele vai cobrar isso da população brasileira.

Aí, um aluno sempre me pergunta: “- Opa, professor, espera aí, não é um exemplo de equivalência…?”. E eu digo: “-  Olha, como economista (mesmo o do governo) não é quadrúpede, ele sabe que terá que pagar a dívida um dia. Então, sim, ele trabalha com um horizonte de tempo em que a dívida é paga. Pode ser que estejamos diante de um grande experimento natural(mente maldoso) do governo com a sociedade.

Neste instante, geralmente faz-se aquele silêncio e todos começam a anotar algo em seus cadernos. Outros tentam tirar foto do quadro e outros, mais ricos, conversam porque vão tirar cópia dos cadernos dos colegas. Mas há sempre alguém que desconfia de que há algo errado. Aí ele pergunta: “- Professor, são os pterodoxos do governo e seus amantes-admiradores… (barro-)ricardianos?”

Sabe? Confesso que nunca pensei nisto.  Nunca parei para examinar as contas de meus colegas pterodoxos. Será que eles realmente desprezam o mundo intertemporal e fazem contas de um período só, com taxa de juros igual a zero (se forem de esquerda) e não ligam para microfundamentos? Bom, observando a vida deles, seus belos apartamentos, seus automóveis e, enfim, seu estilo de vida, eu desconfio que toda aquela gritaria histérica contra o homo economicus ou contra os microfundamentos não passa de uma espécie derivada do Teorema Mantegométrico da Contabilidade Criativa e que bem poderíamos chamar de Retórica Criativa. Ela consiste em reclamar de tudo que é teoria para justificar experimentos com a sociedade brasileira porque “aqui é diferente e a teoria “do hemisfério norte” não funciona nesta selva.

Fica aí a pergunta sociológico-científica: quantos pterodoxos são ricardianos?

Editoras e o cartel: por que tão poucos estudos?

Eis aí uma interessante notícia: diante da possibilidade de se verem engolidas pelos ebooks, editoras se unem. Há quem diga que são ganhos de eficiência – provavelmente existem, já que se uniram – mas como será o arranjo interno? E a competição? Afinal, alguém já conseguiu, nestes 500 anos de história, estudar o mercado editorial brasileiro?

Há tantas teses sobre inflação, sobre astrologia pterodoxa, sobre a cor da cueca de Karl Marx, mas há algum estudo aplicado ao mercado editorial brasileiro? Ou só os consultores conseguem dados nesta área?

Eis aí outro exemplo do problema do capital humano (já se juntou ao meu clube?): escassez de dados, má qualidade da estatística aplicada (e do ensino de estatística) e discursos insanos de gente que diz que economia e métodos quantitativos são seres estranhos entre si são todas características de nosso subdesenvolvimento econômico.

Mas as coisas evoluem. Por exemplo, a política monetária, ainda sob ataque dos astrólogos pterodoxos (até ofendo, sem querer, astrólogos bem-intencionados, sorry guys) só não é consenso para quem nunca teve que trabalhar com ela, na prática. No mercado, onde o salário não está ligado ao número de discursos “alternativos”, mas sim ao conhecimento dos dados, o incentivo para falar asneiras sobre política monetária é bem menor. Já na academia, notadamente nos departamentos de economia cujos incentivos são todos políticos e pouco eficientes, discursos cabeças-de-word-le-monde-diplomatique-carta-aos-caros-amigos-da-capital abundam.

Abundam mesmo. Inclusive nas privadas, não apenas nas públicas…se é que você me entende.

James Buchanan

Já vi muita gente dizer que James Buchanan teria ganho o Prêmio Nobel sem uma contribuição científica clara (sim, inclusive os pterodoxos ortodoxos gostam desta conversa barata). Bem, passe os olhos pelos slides de Ostrom e Williamson, em suas respectivas leituras na premiação do Nobel de 2009, para ver o quão babacas alguns economistas podem ser. Veja aqui e aqui.

p.s. para ser justo, os pterodoxos heterodoxos, em sua esmagadora maioria, adoram citar (incorretamente em boa parte das vezes) Williamson e, claro, ignoram solenemente Buchanan. É a eterna barreira do wishful thinking desta galera.

Por que pterodoxos só contam até 20?

Existem uns experimentos muito interessantes sobre como os animais percebem quantidades. O desenho é em geral da seguinte forma. Suponha que estamos tratando de macacos. Macacos gostam de banana, então, se um macaco pode escolher entre duas caixas cheias de bananas, ele vai escolher a caixa que tenha mais bananas. Então os cientistas pegam caixas diferentes que o macaco consiga identificar e coloca quantidades diferentes de banana em cada uma, de maneira que o macaco veja quantas bananas estão sendo colocadas. Depois, o cientista permite que o macaco escolha uma das caixas.

O resultado é que diferentes animais sabem “contar” até 3. Ou até 5. Ou até 7. Mas nunca até 21, por exemplo. O que acontece é que quando o macaco vê duas bananas sendo colocadas em uma caixa e uma banana sendo colocada na outra, ele sabe que 2 é maior do que 1. Mas quando ele vê 12 bananas sendo colocadas em uma caixa e 23 em outra, pra ele as duas quantidades são simplesmente “muitas ba[na]nas”, e ele não consegue lembrar, ou saber, qual é maior.

Pronto. Finalmente uma justificativa real (não apenas nominal) e de curto e longo prazo (mortos ou não, os pterodoxos são os mesmos) para a barreira (mental) à entrada dos números naturais (e reais) na cabeça dos economistas-de-porta-de-cadeia.

Contudo, não façam pouco caso desta gente. Uma das minhas recentes leituras, pensada justamente para um trato mais adequado com os selvagens, é o “Troglodita é você” do (francês) Michel Raymond. Isto mostra que eu me preocupo em adequar meus modelos (de bate-papo) às realidades de cada um, ao contrário da “teoria ortodoxa” (segundo os próprios pterodoxos).

Sou ou não sou um cara bacana com os que nos atacam com pedras, paus e tacapes? Nem saco o revólver e nem me faço de divindade diante dos urros guturais da galera.

Bom humor é isso. O resto é debate plural entre pessoas que pensam igual.

Mais frases que eu gostaria de ter dito

Rizzo vai ao ponto em mais uma demonstração de que a pterodoxia pluralista está nuazinha, nuazinha:

I have been fascinated for a long time by the advocacy of  left-liberals of pluralism in the realm of ideas, but not in the realm of action. They seem to think of freedom as a matter of pure intellect alone.  In my view, acting and thinking are two-sides of the same coin. We are not pure intellect.

Leia todo o texto para entender melhor este excelente trecho.

Se governo é tão bom para corrigir falhas de mercado…

…por que não previu a crise? Pois é, foi o Roubini (e mais uns gatos pingados), economista do setor privado (leia-se: mercado) que deram alguns alertas.

Aí a crise veio e começou a onda de salamaleques para uma suposta eficiência do Estado (governo) sobre o mercado. Tanto que, diante disto, muita gente supostamente inteligente tá muito caladinha…

Mantenho a pergunta: se o governo é tão bom, por que não previu a crise? Se não previu, por que é a melhor solução para os seus problemas? Ah…

Sobre Keynes

Primeiro, o Google Chrome não abre o link por algum motivo maluco. Se você gosta da discussão sobre o que Keynes realmente queria (-poderia-pensou-refletiu-mas-não-escreveu) dizer, talvez seja um bom texto. Principalmente sobre a crise atual. 

Mas é como discutir o que Karl Marx ou David Ricardo queria dizer sobre a crise de hoje. Essencialmente, não queriam dizer nada pois nem sabiam de crise no século XXI. 

Os formuladores de política econômica atual podem até se dizer keynesianos ou qualquer outra coisa mas entre o que dizem e o que fazem vai uma grande diferença (ponto com o qual concordo em relação ao artigo citado). Contudo, se o que eles falam é menos importante, só podemos propor uma alternativa se observarmos os fundamentos do que realmente fazem. Não há como escapar: você tem que entender é de ciclos reais, expectativas racionais, etc.

p.s. na mesma linha de discussão sobre o que disse fulano ou beltrano, veja este. Para uma visão mais prospectiva sobre a crise atual, ver Acemoglu.

Quem mais colaborou para reintroduzir a incerteza knightiana na teoria econômica?

Ao contrário do que afirmam os pterodoxos e também do que pensa a The Economist, em seu demonstrado pessimismo, há, sim, gente que trabalha seriamente com a incerteza knightiana. O melhor exemplo é o de um brasileiro, Sérgio Werlang (um exemplo, aqui).

Há duas formas de se trabalhar cientificamente com conceitos. A primeira, apenas para interesses arqueológicos, é pesquisar o que “realmente disse” (ou “quis dizer”) um fulano com este ou aquele conceito. É um bom trabalho para arqueólogos do pensamento econômico, mas o impacto deste tipo de trabalho em nossa compreensão da realidade é o mesmo impacto de uma biografia de Einstein sobre o atual estado das artes em Física Quântica (*).

A outra forma é fazer o que o Werlang havia feito nestes seus artigos acadêmicos. Mais alguns exemplos deste tipo de trabalho aqui e aqui.

(*) Não se engane, leitor, história do pensamento econômico tem seu valor, mas não tem nada a ver com determinar a taxa Selic na próxima reunião do Copom…

Pterodoxia ganha espaço: restrições às importações

Metade dos industriais brasileiros (os que não dependem de importações) está feliz: a pterodoxia pública ignorou a população e atendeu seus interesses.

E agora patotinha?

A grandeza da boa economia

Ao contrário da má economia – que eu chamo de pterodoxia por ser primitiva como os pterodátilos (ou como a Petrossauro, diria Roberto Campos…) – a boa economia é de uma grandeza única. De onde surgem as críticas mais interessantes ao sistema de metas, por exemplo? De gente como Franco, Werlang, Malan ou Fraga.

Obviamente, os pterodoxos podem dizer que os interesses destes economistas mudaram, mas a crítica pterodoxa também é sujeita a este argumento. Basta ver o que têm feito com fatias do setor público em termos de inteligência econômica nos últimos anos.

No líquido, ainda acho que Franco, Werlang, Malan e Fraga ganham o debate com léguas de distância de vantagem sobre os raivosos pterodoxos.

Krugman cede à tentação pterodoxa, volta atrás, mas não resiste…

Olha o Duke fazendo um belo resumo sobre como Krugman pode se “pterodoxar”  quando se deixa levar por suas visões amalucadas de democrata de jornal. O problema, de sempre, é ceder ao desejo normativo, inclusive, mentindo, ou esquecendo-se de checar os fatos, como no caso do currículo da equipe econômica de Obama, tão bom quanto o da equipe de Bush.

Mas, convenhamos, depois do caso do governador de Illinois, todo mundo já notou que o discurso purista de alguns apoiadores de Obama –  e de seus propagandistas – naufragou.

Grandes momentos do keynesianismo pterodoxo

Vai na íntegra, direto do Mão Visível:

Cachinhos de Ouro e keynesianos de quermesse

“O problema é o câmbio”. Este foi, nos últimos anos, o mantra dos keynesianos de quermesse, segundo quem o problema do Brasil resumia-se ao câmbio “fora de lugar”, apesar de, precisamente neste período, a economia brasileira ter acelerado para patamares há muito não vistos. Até aí, sem surpresa. O surpreendente mesmo é, depois da maciça desvalorização da moeda, ainda ter que ouvir que, sim, “nosso maior problema é o câmbio”.

A lamúria agora é que o câmbio desvalorizou-se demais, sem motivo, e que, portanto, o regime de câmbio flutuante, conivente com este fenômeno, não seria adequado ao Brasil. Esta visão, porém, está errada. Confunde sua própria incapacidade de entender os movimentos da taxa de câmbio com uma suposta irracionalidade do câmbio flutuante e, por este motivo, chega a conclusões equivocadas tanto no que se refere à necessidade de mudança de regime, como às condições necessárias à adoção de políticas anticíclicas.

De fato, como destaquei muitas vezes neste espaço, a quermesse sempre atribuiu peso muito elevado à taxa de juros como determinante da taxa de câmbio e, por conveniência ou ignorância, deixou de lado desenvolvimentos externos que têm sido muito mais relevantes para moldar a trajetória do câmbio, em particular os preços de commodities.

Assim, entre o início de 2005 e meados de 2008 os preços de commodities, medidos em dólares, aumentaram cerca de 60%. Medidos em reais, porém, caíram 4%, fenômeno que já sugeriria uma forte relação inversa entre preços de commodities e a taxa de câmbio. Não por acaso, portanto, a queda abrupta destes preços em dólares nos últimos meses (quase 30%), transforma-se em estabilidade em reais, observação também consistente com a relação inversa entre a taxa de câmbio e preços de commodities.

Não há, pois, nada de misterioso no comportamento do câmbio que lance dúvidas acerca da adequação do regime no que diz respeito à sua capacidade de transmitir, de forma muito rápida, os sinais de mudança brusca nas condições internacionais.

Pelo contrário, a desvalorização do real tem nos comunicado que, devido à queda do poder de compra das exportações, nossa capacidade de importar para satisfazer a demanda doméstica foi drasticamente reduzida. Assim, se até há pouco aumento do poder de compra das exportações permitia que a demanda crescesse à frente do produto, trata-se agora de percorrer o caminho inverso, qual seja, reduzir a taxa de crescimento da demanda relativamente à produção. A taxa de câmbio é apenas a mensageira de uma radical mudança de cenário. Pode-se não gostar da mensagem, mas de pouco adianta silenciar o portador.

Não é correto, portanto, concluir que o país precise proteger sua moeda e estabilizá-la, abandonando o regime de câmbio flutuante, para ter condições de fazer uma política anticíclica. É, na verdade, o oposto: impedir que a moeda se deprecie em reação à piora das condições externas requereria uma contração ainda mais forte da demanda doméstica para equilibrar o balanço de pagamentos, reduzindo adicionalmente o espaço para políticas anticíclicas.

Eis a quermesse: reclama quando o câmbio aprecia e também quando o câmbio deprecia. Quer o câmbio estável, para que as empresas possam projetar suas vidas em longo prazo, mas não hesitaria em mudar regras para impedir a flutuação do câmbio, dificultando exatamente o planejamento das empresas. Querem ser nossos Cachinhos de Ouro, se esforçando para fazer aquilo que o mercado de câmbio faz de graça.

(Publicado 10/Dez/2008)

Mais um movimento discreto do grupo anti-política monetária

É só ligar os pontos. O sr. da Silva deve estar maluco de vontade de voltar às origens do palanque sindical. Ele deu o sinal e seus aliados – inclusive os que hoje são apenas eminências pardas – já disparam contra a política monetária do Banco Central desde domingo.

Já os defensores da lógica elementar estão bem calados. Será que estão de rabo preso? Ou é apenas minha leitura que é seletiva? Leitores que tenham visto alguma defesa do Banco Central podem enviar os links para cá, nos comentários.

Como não fazer política monetária

O presidente da Silva tem momentos de muito pouca inspiração – quando mais se aproxima de gente com clara vontade de se tornar ditador como seu amigo Chávez – e um deles foi exposto pelo Homo Econometricum aqui. O povo do IDERS ecoou mas não comentou (o que é uma pena) a notícia.

Acho tudo muito interessante, principalmente entre os formadores de opinião pterodoxos. Para estes, até pouco tempo, era importante o Banco Central ter uma atitude, digamos, keynesiana (no sentido parvo do termo). Agora, eles estão calados. Não sabem se aplaudem o balão de ensaio da notícia ou se reclamam. Afinal, muitos deles almejam cargos no órgão público e não gostariam de serem tutelados (outros, claro, adorariam a possibilidade de jogar a culpa no presidente da Silva, caso fizessem as besteiras que pregam).

Como este blogueiro sempre disse: autonomia do BC não é uma questão puramente acadêmica – como afirmam (ou berram, ou latem, etc) os pterodoxos – mas sim uma questão importante e de claras consequências na vida de qualquer um. Dizer que a questão é acadêmica é a mesma coisa que dizer que documentos de seu carro não possuem valor algum – exceto o acadêmico (e para quem? Só se for para algum professor de legislação…). A implicação disto é tão clara que qualquer metalúrgico do ABC paulista com pretensões políticas entende, claro. Pode se fazer de bobo, mas entende.

Embora este blog tenha sempre avisado, claro, houve muita gente que acreditou em Papai Noel. Bem, eis uma oportunidade de ouro de ver o que cairá em sua chaminé neste Natal…

Rudimentos pré-cambrianos do raciocínio econômico do sr. da Silva

Finalmente o presidente tentou dizer algo sobre o funcionamento dos mercados. Como diria uma certa Marilena, quando o excelso operário abre a boca, tudo o mais perde a graça. Pois bem. Vejamos o que ele disse.

Para o presidente, a sociedade também tem instrumentos para combater a alta dos preços. “Na medida em que perceba que um determinado produto está subindo muito de preço, o povo precisa deixar de comprar aquele produto para que ele volte a um preço normal”, afirmou Lula no programa semanal de rádio “Café com o Presidente”.

O sr. da Silva começou bem. Primeiramente, caem por terra os argumentos típicos da mentalidade de muitos pterodoxos do partido do sr. da Silva (veja só, aí sim, PTerodoxos) de que microeconomia não é importante, mas sim a macroeconomia e, veja lá, só com uma oferta agregada paralela ao eixo do produto porque, afinal, inflação não é um problema.

Mas, como dizem, quem tem fome, tem pressa …e a pressa é inimiga da perfeição. Então, nosso presidente se refugiou nas primeiras páginas de algum livro-texto decente de economia (aqueles nos quais há mercados em equilíbrio). Falou da oferta e da demanda. Corretamente, percebeu que o problema está no preço de equilíbrio. Só escorregou em um detalhe: o impacto não é só função de deslocamentos das curvas, mas sim de deslocamentos sobre as curvas e, neste caso, o resultado pode ser cruel. Por que?

Porque existe a famigerada elasticidade-preço da demanda. Assim, ao sr. da Silva faltou apenas continuar sua leitura dos bons manuais. Ao menos um passo já foi dado. Vejamos se ele, com o mesmo esmero, lê algo sobre Escolha Pública e rent-seeking. Digo, lê e fala em seu programa no qual toma café com o ouvinte.

Avanços marginais nos tiram do pré-cambriano para o quase-cambriano. Manterei o radar em alerta.

p.s. o ghostwriter do líder máximo parece ter se tocado de que direitos de propriedade são importantes. Quase explicitamente.