A economia em “Willie Dynamite”

willie_dynamite_filmposterEis um dos filmes de Blaxploitation mais úteis para a sala de aula. Lançado com legendas em português há pouco tempo (mas disponível na internet sem as mesmas…procure), este é um filme que traz vários temas de economia para diversas aulas de Economia.

Um resumo da história do filme está aqui e, bem, vamos aos spoilers.

1. Organização Industrial (Cartel) – a tensão óbvia da tentativa de cartelização entre os cafetões por um deles, Bell, logo no início do filme é uma descrição cinematográfica do que vemos em livros-texto de teoria dos jogos. Willie insiste que é um “capitalista” e que não tem “medo de competição”, frustrando o projeto de cartelização. A pergunta principal que ele faz é: “quem decidirá a divisão de lucros”.

2. Economia do Crime – Willie Dynamite (irônico apelido para Willie A. Short, como aprendemos na parte final do filme) é um cafetão e tem que gerenciar suas prostitutas. Não se discute muito como ele se transformou em cafetão, mas as variáveis estão ali para a discussão: a probabilidade de ser pego (em função de sua riqueza e como a mesma é variável conforme alguns policiais buscam prendê-lo a todo o custo, juntamente com a atuação dos cafetões concorrentes).

3. Empreendedorismo – Implícito nos dois itens anteriores, já que Willie tem que agir o tempo todo (e ele não usa auxiliares, gerenciando diretamente as prostitutas, nomeando uma como uma espécie de “braço direito”, mas com pouca autonomia) em prol do sucesso de seu negócio ilegal. Aliás, sobre a gerência deste tipo de negócio, na prática, veja, por exemplo, os dados desta pesquisa.

Finalmente, eis aqui uma pesquisa empírica de alguns antropólogos sobre o tema. O autor principal, inclusive, tem um livro sobre o tema que parece interessante.

Ah, claro, a trilha sonora do filme é uma atração integrante e não deve ser ouvida separadamente (mas isso é o que eu acho). Altamente recomendável.

Anúncios

O famoso poder real de compra encontra o baile funk: prostitutas, calcinhas e a pizza

Digamos que você ainda não entendeu a diferença de grandezas nominais e reais porque está, penso eu, no primeiro ano de curso e não lê muito fora de sala de aula. Ok, vou te ajudar usando aquela música “maravilhosa” (não para mim): o funk.

Uma postagem no Facebook, anunciando um evento chamado “Funk de Segunda Apresenta: Baile Funk de Carnaval”, circulou e chamou a atenção do público frequentador da casa de shows Granfinos, na tarde desta quinta-feira (20).
O evento anunciava como ação promocional que 50 mulheres que            fossem ao evento sem calcinha (sem explicar qual seria o critério               de comprovação), ganhariam um drink por conta da produção.

Calcinhas e Economia

Primeiro, deixa eu lembrar o leitor que a Economia pode ser definida como a ciência das trocas (um dia destes eu exponho meu ponto de vista sobre a definição de nossa ciência, aliás, meu não, mas de Demsetz ou Alchian). Não nos achamos superiores a outros seres humanos para julgar valores individuais. O que nos importa é entender o papel dos incentivos. Então, sim, meu caro, se eu tivesse uma filha de 12 anos que me falasse do baile, eu não deixaria ela ir ou criaria incentivos muito fortes para que ela mudasse de idéia.

Então, acho que não há motivos para críticas. Não gostou? Não deixe sua filha ir. Ponto. Mas quanto à estratégia de mercado, é uma bela iniciativa. Nada de novo, é bom dizer, exceto que agora é só baixar a calcinha para o felizardo do segurança (caso ele não seja homossexual, claro). Ah sim, não vou nem discutir a opinião de alguns que vão se achar discriminados porque não podem baixar a cueca para ganhar uns drinques. Haja paciência…mas vamos à parte divertida: a economia!

Calcinhas e drinques

Suponha uma moça não muito chegada a valores morais quanto ao sexo. Digamos que ela imagine que a Bruna Surfistinha é um modelo de mulher moderna. Novamente, se fosse minha filha, ia ouvir poucas e boas. Mas vamos supor esta moça hipotética, convexa, bem-comportada, contínua e muito sexualizada para a sua idade (se é que me entendem). Então esta moça provavelmente já se livraria desta “opressora calcinha machista” por uns R$ 100,00, à noite, ali perto da avenida Afonso Pena em BH. Eu sei, eu sei, você também está chateado com esta história aqui no blog. Mas meu objetivo não é incentivar a prostituição ou a audiência às pregações de Marcos Feliciano. Isto é problema seu. Meu ponto é puramente econômico.

Agora, imagine que esta donzela ganhou uma grana no dia anterior com sua profissão paralela  é uma das primeiras a chegar ao baile funk. Suponha que o drink custe R$ 5.00. Então, veja só, a dona moça aumentou seu poder de compra duas vezes. Sua renda nominal (digamos que ela tinha apenas R$ 50.00 que ganhou dos pais…que nada sabem sobre sua vida verdadeira) que eram R$ 5.00 agora são R$ 150.00. Mais ainda: ela deixou de pagar R$ 5.00 no drinque. Ganhou um drinque com preço R$ 0.00.

Calcinhas, drinques e pizzas

Eu espero que nem tudo termine em pizza, mas a simpática rapariga desta história, mas veja como funcionam os incentivos. Inicialmente, a restrição orçamentária da moça era: tudo o que eu posso gastar em drinques e no restante com apenas R$ 50.00. Temos que sua restrição era, inicialmente:

50 = 5x + D

em que x = quantidade de drinks (ou, alternativamente, mililitros do tal drink) e D é o gasto com outros bens, em reais (R$). Como o preço de R$ 1.00, obviamente, é R$ 1.00, isto é a mesma coisa que escrever: 50 = 5x + 1*D no qual 1*D = D, claro.

Agora, o que acontece quando ela se prostitui? A restrição orçamentária dela se transforma em:

150 + 5x + D

Mas lembre-se que a história não terminou aqui. Ela conseguiu chegar entre as 50 “felizardas” da fila e ganhou um drinque de graça. Apenas um, claro. Então, para o primeiro drinque, o preço é zero. É como se a restrição dela fosse:

D = 150 para x  ≤  primeiro drink (em mililitros).

A partir daí, a restrição é: 155 + 5x + D

Em poucas palavras, ela ganhou R$ 5.00 no orçamento. Por conta do que ela ganhou com a prostituição, já poderia comprar um número de drinks equivalente a R$ 150/5. Com o desconto, R$ 155/5 (a partir do segundo drink). Toda a história está resumida na figura abaixo.

bailefunk

Tudo parece terminar em pizza, não? Digo, este exemplo é muito parecido com aquele da pizza sobre o qual falei em sala de aula.

Mas isto não é repugnante?

Como já disse antes, eu concordo com você que não é um incentivo que me agrade. Mas é justamente por ele funcionar que tantos se incomodam. A pergunta anterior, portanto, é: como você sabe que ele funciona? Está aí em cima, de forma estilizada, com um pouco de drama porque tornei nossa personagem uma prostituta para mostrar como ela ganhou duas vezes com uma mudança de preço relativo (para 0 < drinks ≤ 1) e com a grana de sua atividade em venda de seu próprio corpo da noite anterior.

Então, você tem que deixar de lado a questão de se isto é ou não repugnante em primeiro lugar, caso contrário não conseguirá entender como os incentivos operam. Por que você precisa entender isto? Bem, se você quer combater este tipo de coisa, tem que usar os incentivos adequados.

Em minha opinião, não é coibinido a prática por meio de algum tipo de lei. Isto não muda os incentivos, apenas mostra que você não consegue lidar com eles e que forçar a barra proibindo uma troca voluntária. Parece fácil pensar que tudo ser resolve com uma canetada, mas mesmo bons juízes têm dificuldades com seus filhos e filhas em casa e sabem muito bem que não é assim que você resolve o problema.

Pense bem: não é proibindo a prostituição (ou ofertas de pizzas gratuitas na compra da primeira pizza) que você diminui a ocorrência destas trocas.  Acho que a solução passa por uma conversa muito simples que também envolve incentivos. Vou ajudar os pais que não conseguem conversar com suas filhas.

a) Andar sem calcinha em baile funk nos sábados – a moça que faz isto sinaliza para todos os amigos e conhecidos o seu tipo e, o tipo é o de que não valoriza muito a monogamia. Aliás, é alguém que corre mais riscos, porque prefere a promiscuidade (ou aparenta preferir, já que, bem, está sem calcinha todo final de semana e todos sabem disto). Converse com sua filha sobre o futuro. O mundo não termina com a festa de quinze anos dela. O mundo continua e um dia ela pode querer arrumar uma pessoa para uma convivência mais duradoura. A reputação ajuda, não? Embora olhar para o futuro seja importante, o fato é que olhamos para o passado das pessoas.

b) Andar sem calcinha e seu valor – a moça tem um corpo e o corpo tem valor. Falando friamente, é como um capital qualquer. Cuide bem de seu carro e ele anda mais. Cuide bem de seu corpo e ele funciona melhor. Pode ser muito fácil ganhar dinheiro saindo por aí se prostituindo. Mas não existe almoço grátis, minha cara. Mais sexo pode ser sexo mais seguro (como nos ensina Steven Landsburg em um capítulo polêmico do livro que leva justamente este nome), mas também pode significar (até para ser mais seguro), mais custos com prevenções de doenças. Quem vai pagar por isto? Você mesma? Seus pais? Qual o tamanho do custo de oportunidade?

Pensando, portanto, até em futuras relações com outras pessoas, o mais razoável é buscar preservar seu ativo, o corpo. Evidentemente, imagino que os pais tenham argumentos até melhores do que os meus mas, novamente, não estamos analisando aqui o aspecto moral da matéria sobre o baile funk. Estamos usando o fato para aprendermos mais sobre Economia (e ninguém precisa tirar a calcinha ou a cueca para aprender Economia, né? Basta sentar, abrir um livro, ler, estudar, fazer exercícios, ler de novo, estudar, etc).

Do fundo do meu coração (se é que tenho isto), espero que você tenha uma vida menos desregrada, ok?