Modelos…e você aí reclamando do seu IS-LM-BP…

The first macroeconomic model was built 80 years ago by Jan Tinbergen in 1936. The model was Keynesian with 32 stochastic equations based on the macroeconomic ideas of John Maynard Keynes. Important for the purposes of this workshop, the model was developed to answer an important monetary policy question: Whether a small open economy’s currency should be devalued in order to stimulate the economy.

É, velho, 32 equações! Não quero ver mais choro.

Por que você precisa aprender os conceitos de média, mediana e moda (mais uma vez)?

mediana

A figura acima é do relatório FOCUS de hoje. Outro dia eu falava da importância de se aprender os conceitos de mediana e da média (esquecendo-me, lamentavelmente, da mais fashion das medidas, a moda) neste blog.

Bem, hoje você tem mais um exemplo sobre a importância de se aprender os conceitos citados. Afinal, você tem que explicar o que ocorre com as expectativas de inflação para alguém, não é? Sempre há alguém que pergunta isto ao amigo que estuda Economia.

Olha, se você aprendeu o conceito depois de tanto repetir aqueles exercícios chatos de número de bolas verdes e vermelhas na urna, então não terá dificuldades em dizer que, por exemplo, em relação ao IPCA 2017, de abril a julho deste ano:

a) A mediana das expectativas deslocou-se para valores menores da inflação, com aumento da dispersão;
b) A mediana das expectativas deslocou-se para valores maiores da inflação, com aumento da dispersão;
c) A mediana das expectativas deslocou-se para valores menores da inflação, com queda da dispersão;
d) A mediana das expectativas deslocou-se para valores maiores da inflação, com queda da dispersão.

Qual é a alternativa correta?

Após escolher a alternativa correta, repare, não se deve cair no erro de se dizer que o causou a ______ (sua resposta ao lado) foi uma variação na mediana. Claro que se a mediana mudou…ela mudou. Agora, a causa da mudança tem a ver com os fatores que alteram as expectativas dos agentes econômicos envolvidos na amostra utilizada pelo relatório FOCUS.

Gostou do post? Dá um like. Não gostou? Dá um like também e se arrependa dos seus pecados.

Conspirações derrubadas: o caso dos malvados bancos que comandam a política de juros

Vitor Wilher faz outro exercício interessante, aqui. Note que ele faz uma aplicação criativa de uma regressão que só contém o intercepto como variável exógena (algo bem exemplificado aqui).

Por que demoramos tanto para ter um Banco Central?

A demora teve a ver com a resistência política oferecida por largo número de agentes econômicos cujos interesses reforçavam os dos funcionários do BB, desejosos de preservar o status quo. Referimo-nos aos que de algum modo se beneficiavam dos empréstimos do banco. O fato de o Banco do Brasil ser a fonte da emissão monetária que cobria os déficits orçamentários do governo certamente assegurava à instituição número ainda maior de defensores, em especial no meio político.

Este trecho aí é do José J. Senna, no prefácio ao livro do prof. Pastore, Inflação e Crises – o papel da moeda, recém-lançado.

Preciso dizer mais? Não. Mas vou dizer. Na campanha eleitoral, muita gente de má fé fez de conta que não viu a propaganda na qual se acusava a instituição “autoridade monetária independente (podem chamar de “autônoma”, discussão puramente semântica…)” de ser a responsável pelo desaparecimento da comida da mesa dos brasileiros.

Não preciso dizer que é uma propaganda de péssimo gosto e mentirosa, mas o trecho acima fala por si. Ok, eu poderia ir adiante e colocar uns gráficos ou citar uns artigos dizendo o óbvio mas também não tenho paciência para fazê-lo. Quem quiser saber mais, faça seu trabalho. Mas fiquem com esta outra frase do prefácio: Sem política monetária austera, não há programa anti-inflcionário que funcione.

Ainda a querela…- parte 2

Este outro artigo é do Atlantic Economic Journal, de 2013.

Why Do Politicians Implement Central Bank Independence Reforms?

Sven-Olov Daunfeldt & Jörgen Hellström & Mats Landström

Published online: 11 September 2013

Abstract – The purpose of this paper is to investigate why politicians around the world have chosen to give up power to independent central banks, thereby reducing their ability to fine-tune the economy. A new data-set covering 132 countries, of which 86 countries had implemented such reforms, was collected. Politicians in non-OECD countries were more likely to delegate power to independent central banks if their country has been characterized by a high variability in historical inflation and if they faced a high probability of being replaced. No such effects were found for OECD countries.

Veja, este artigo já levanta outro ponto interessante que também envolve instituições, no caso, o jogo político em um país. A pergunta é muito boa: o que leva políticos – que adoram a senhoriagem – a buscarem bancos centrais independentes (em seu país, não via câmbio fixo, que é sempre uma opção, como nos ensina a história do Plano Real)? Basta que a inflação esteja destruindo a economia do país e, pronto, eles adorarão isto.

Tal e qual a bizarra candidata que, no passado, defendia a autonomia do Banco Central e, hoje, não a quer e ainda acusa a oposição de ser “cúmplice dos banqueiros”. Ou melhor, nem tal e qual assim porque a inflação está subindo agora. Ou seja, a candidata não segue a média dos políticos que vemos na literatura. Neste caso, faz o oposto. Bem, eu ficaria preocupado…

 

 

Regras de política monetária…na prática

Super dica do blog do Mankiw que coloco aqui.

cool

A figura aí em cima é um printscreen de um pedaço da página. Os gráficos são interativos. Você pode acompanhar os valores ao passar o cursor sobre as curvas. Excelente iniciativa destes empreendedores. Não sei como não há, no Brasil, um único estudante de economia que não tenha se preocupado em fazer algo assim para verificar o que o Banco Central tem feito. Afinal, não é tão difícil, é? Que tal você fazer isso?

Como dizem por aí, fica a dica e, sim, quem o fizer, para mim, fez um…gol da Alemanha!

Quer entender, de verdade, o que é a “independência/autonomia” do Banco Central?

Tem gente fazendo propaganda na TV buscando espalhar medo e desinformação. O tema? Banco Central.

Eu poderia ficar calado e não falar nada. Mas, infelizmente, é uma área que entendo. Estudei muito mais tempo que qualquer um dos candidatos à presidência na área de Economia para dizer que há muita mentira e besteira sendo dita. Ponto.

Então vamos fazer assim: ouça o Alexandre e depois, se tiver dúvidas, posso indicar referências bibliográficas para você se aprofundar nos estudos.

Custos de Menu

Artigo interessante sobre o tema, aqui. Olha o resumo:

How Frequent Are Small Price Changes?

Eichenbaum, Martin, Nir Jaimovich, Sergio Rebelo, and Josephine Smith. 2014. “How Frequent Are Small Price Changes?” American Economic Journal: Macroeconomics, 6(2): 137-55.

 

Abstract

Recent empirical work suggests that small price changes are relatively common. This evidence has been used to criticize classic menu-cost models. In this paper, we use scanner data from a national supermarket chain and micro data from the Consumer Price Index to reassess the importance of small price changes. We argue that the vast majority of these changes are due to measurement error. We conclude that the evidence on the prevalence of small price changes is much too weak to be used as a litmus test of nominal rigidity models.

Ou seja, os custos de menu ainda resistem como argumento para a microfundamentação da rigidez de preços. Será?

Política monetária

Sempre um tópico que me agrada. Quando se junta à economia japonesa então, nem se fala. Trechos:

Apart from the ‘textbook channels’ of monetary policy transmission via interest rates and exchange rates, monetary policy can potentially affect firm activities through its impact on firms’ and banks’ balance sheets. In a seminal study on this balance sheet channel, Bernanke and Gertler (1989) showed theoretically that negative shocks to borrowers’ net worth increase the agency costs of financing investment, and thus reduce investment. Following their theoretical model, Bernanke et al. (1996, 1999) further showed that monetary tightening leads to a decrease in borrowers’ net worth, and consequently reduces borrowing and investment. They also show that an economic downturn has a greater effect on the availability of credit, investment, and output for firms with lower net worth. This implies that the impact of an aggregate shock on firms differs depending on firms’ net worth.

Então, o que os autores encontram? Descubra lá no texto! Agora, cá para nós, não é fascinante como aquelas coisas que Milton Friedman (e outros) falava(m) (“gente, é importante entender o mecanismo de transmissão da política monetária”…) continua sendo uma fonte inegostável para que possamos entender melhor a realidade?

 

Dicas do dia (Momento Cato)

1. A palestra do William Easterly no Cato está aqui.

2. O último número do Cato Journal tem Charles Plosser no artigo de abertura e Scott Sumner fala sobre a meta do PIB nominal em outro artigo.

3. Nazistas fizeram um favor ao mundo livre (assim como o governo venezuelano, o brasileiro e o argentino estão fazendo, ao piorar as condições de vida em seus países, estimulando a emigração).

A rotatividade no Copom importa?

É o que encontram os autores do artigo cujo resumo se encontra reproduzido abaixo.

A política de metas de inflação tem sido implementada em vários países para atingir estabilidade de preços. No entanto, a literatura aponta que a rotatividade dos dirigentes do Banco Central interfere nas decisões sobre as metas e seus vieses. Assim, este trabalho estima o efeito da rotatividade dos diretores do Comitê de Política Monetária (COPOM) sobre a determinação da taxa de juros, utilizada como instrumento para atingir as metas de inflação no Brasil, com dados mensais de 2001 a 2008. Então, um modelo de vetores auto-regressivos estruturais (SVAR) é estimado para a economia brasileira. Além disso, a análise empírica inclui testes exogeneidade em bloco, funções impulso-resposta e decomposic¸ão da variância. Os resultados indicam significância para a variável rotatividade dos diretores no longo prazo que leva os agentes a aumentarem suas expectativas de aumento da taxa de inflacão demandando aumentosmaiores da taxa de juros da economia.Esta quebra de credibilidade da politica monetária devida ao aumento das mudancas na diretoria do COPOM leva a aumentos maiores no longo prazo da taxa de juros a serem pagas nos títulos do tesouro. Em resumo, causa um aumento no custo social da economia.

Bom, se a credibilidade do Banco Central pode sofrer variações com a rotatividade dos diretores do Copom, isso significa que não devemos trocar os diretores? Claro que não! Imagine a loucura que seria deixar um diretor incompetente lá. O ponto dos autores não é este. Eu diria, até, que a troca de um diretor incompetente por um competente deve até trazer um benefício marginal maior do que o custo marginal da rotatividade, em termos sociais.

É sempre interessante ver como os estudos acerca da política monetária ficaram muito mais interessantes com o passar dos anos.

Mais bancos estrangeiros no país = maior efetividade da política monetária?

O que você acha? Este estudo buscou identificar alguns fatores importantes para se responder esta pergunta. Ok, o estudo não é para o Brasil, mas certamente você saberia como adaptá-lo, caso necessário, não?

A propósito, alguém já viu estudo similar para o Brasil/América Latina?

Lições de vida: Expectativas Racionais e o dilema de metas e instrumentos

Grandes economistas são aqueles que também nos deixam ótimos resumos. Scott Sumner, por exemplo, dá-nos esta ótima definição de expectativas racionais.

3.  Rational expectations:  It makes no sense to have a model of the economy that assumes X, but which is filled with people who believe “not X.”  As Bennett McCallum pointed out this idea is better called “consistent expectations,” as the term “rational” has all sorts of connotations that have nothing to do with the public’s expectations being consistent with the model of the public’s behavior.  Rational expectations also underlies the “Lucas Critique,” the idea that a statistical relationship that is true under one policy regime, may not hold up if the policy regime is altered to take advantage of that statistical relationship.

Depois disto, fica difícil entender como é que um sujeito que se diz economista tem a coragem de achar que ganha um debate chamando alguém de “físico” ou tentando menosprezar o adversário enquanto acredita em modelos que não fazem sentido (quando o imbecil, por sua vez, acredita em modelos, porque há uns que se acham metodólogos sem nunca terem feito uma prova da disciplina de metodologia, mas acham que o papo é bom para pegar mulher e, então…já viu, né?).

Desculpa, o termo é “imbecil” mesmo. Tem coisas que ficam melhor quando chamadas pelo seu nome correto.

Em outro momento do texto, Sumner tenta vender sua idéia de meta do PIB nominal usando Fama:

2.  Target the futures price of the policy goal:  It’s silly to have intermediate targets such as the fed funds rate, or the exchange rate. Simply adjust the monetary base as necessary to keep the futures price of the policy goal variable on target.  But of course first you need to create a futures market for the policy goal variable (preferably NGDP.)

Não tenho opinião formada sobre isto, mas há quem goste da meta do PIB nominal. Sou um pouco mais tradicional porque sou daqueles que leu o clássico de Poole lá no IPE-USP e curte uma abordagem de metas-instrumentos mais tradicional.

Por falar nisto, todo aluno de graduação deveria se sentir obrigado a ler não apenas o clássico do Friedman (The role of monetary policy), mas também este do Poole. Como é que alguém que diz querer debater com o populacho e com os pares sobre política monetária consegue dormir de consciência tranquila sem ler estes artigos?

Caso você ache que sou exagerado, faça o teste: leia os artigos, volte para seu livro-texto e depois me condene. Não importa. Mas leia.

p.s. Curiosamente, eu citei McCallum hoje, em sala. Alguns alunos anotaram (talvez um ou outro vá procurar o livro). Aí, no mesmo dia, eu venho à blogosfera, e um dos melhores debatedores de Monetária que eu conheço, o Scott Sumner, cita o autor. É destas coisas que eu gosto: sentir que, apesar do que pensam alguns, ainda estou no centro do debate.

p.s.2. Obviamente, estes debates vão além destes dois textos mas não seja ignorante. Você resolve tantas equações estocásticas…não serão dois textinhos simples que vão destruir seu conhecimento semi-divino de álgebra linear, não é?

Mais Abenomics

Desta vez, não sou eu, mas o Scott Sumner. Um comentário algo prudente (“pode ser que sim, pode ser que não”), mas muito bom de se ler. Acho que este será um daqueles tópicos de trabalhos no futuro que já ganham com o bom marketing de Abe (“Abenomics” e “Reaganomics” são sempre chavões que servem para o bem e para o mal, não?).

Espero que, no futuro, eu possa esperar mais do que espero hoje!

Pessimismo com o PIB? Ninguém esperava nada muito diferente, né? Trecho:

Após a prévia do PIB ter decepcionado o mercado na sexta-feira, economistas já começam a rever suas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. A previsão de crescimento da economia brasileira em 2014 passou de 1,90% para 1,79% na pesquisa Focus do Banco Central. Para 2015, a estimativa recuou de 2,20% para 2,10%. Há quatro semanas, as projeções eram, respectivamente, de 2% e 2,50%.

O IBC-Br já não foi lá aquelas coisas. O passado recente não foi lá aquelas coisas e o futoro que se espera também não…já está repetitivo, eu sei. As expectativas quanto ao futuro em ano eleitoral poderiam ser melhor?

Abre alas que a política quer passar!

Olha, eu diria que poderiam se houvesse um pouco mais de seriedade quanto às regras do jogo. Há um tempo atrás Brender & Drazen [Brender & Drazen (2006)] encontraram evidências de que a política poderia ser melhor com a prática. Como assim? Em resumo, é como se eu te dissesse que eles encontraram sólidas evidências estatísticas de que a prática eleitoral constante faz com que os eleitores aprendam a controlar melhor seus políticos (um resumo grosseiro, mas, ei, você pode ler o artigo).

Por exemplo, pense no caso do desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal. No dizer dos autores, isto só ocorre porque estamos há pouco tempo em democracia (somos uma democracia jovem, na definição do trabalho deles). Não quer dizer que não possam surgir governos super-irresponsáveis como o da Grécia, que jamais fez o que deveria ter feito (lembro-me de citar, neste blog, ou em outro lugar, o trabalho do Robert Mundell, sobre uniões monetárias da primeira metade da década dos 90 no qual o autor citava explicitamente o caso da Grécia, Espanha e mais alguém que precisavam fazer o ajuste fiscal…).

Eu gosto do argumento destes autores e, então, sim, no longo prazo, eu sou otimista. Mas, no curto prazo, não. No curto prazo, aliás, talvez você prefira o debate que o Mansueto apresenta aqui.

Formação de expectativas

Existe toda esta literatura que anda na moda sobre a capacidade do sujeito formar expectativa de forma mais ou menos racional. É sempre bom ter a ciência avançando, mas a verdade é que estes modelos ainda estão longe de nos dar resultados mais conclusivos. O caminho entre a ciência e o livro-texto do aluno no primeiro é muito mais longo. Notem como o próprio livro-texto do Mankiw, após algumas edições, ganhou lá um capítulo sobre economia comportamental e outras coisas (quer uma boa introdução? Leia isto).

Mas não precisamos de muito debate para saber quais são as expectativas do mercado. Olhe o que nos diz o relatório Focus do Banco Central. Seja de forma racional, irracional, piparótica, estrambótica ou taciturna, o fato é que agentes formam expectativas e são capazes de nos dizer o que esperam do futuro e, bem, não estão tão otimistas assim.

Eu sei, eu sei, você não aguenta mais ver gráficos aqui e eu já falei de muita coisa aí para cima. Mas veja aqui um pedaço da série da mediana das expectativas (peguei lá na excelente página do Banco Central). Admire o gráfico por 30 segundos.

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Pois é. Você achou bonito, né? Parece que o governo conseguiu estabilizar a inflação, né? Porém, lembre-se: a meta é 4.5% ao ano. O Excel, para otimizar a escala, jogou a meta lá embaixo. Isso mesmo, meu caro. A coisa está feia, muito feia.

Ok, eu sei que tem gente que adora chegar com aquele papo de “a meta não é adequada”, mas isto me cheira (embora eu possa até discutir méritos desta proposta em debate sérios) a picaretagem: perdeu o gol e diz que as traves deveriam ser mais abertas? Ora, ora…

Então é isto. Nada de muita análise estatística hoje. A coisa está feia demais sem precisar de muito esforço, infelizmente.

Choques monetários e ciclos econômicos

 

Neste texto didático, o blogueiro nos dá uma ajuda com a sala de aula ao falar de choques monetários. Vejamos:

Here are some possible definitions of monetary shocks:

1.  Unexpected changes in the fed funds target

2.  Deviations of the fed funds target from the Taylor Rule value

3.  Unexpected changes in the monetary base

4.  Unexpected changes in M2

And there are many more.  For each proposed definition of a “monetary shock” you will get a different answer to the question; “How much impact do monetary shocks have on real output?” That makes it all seem quite arbitrary.

Eis uma excelente oportunidade de pensar no significado de “choques” monetários, não? Primeiramente, vê-se que não faz sentido falar nisso sem que tenhamos uma especificação dinâmica da economia. Em segundo lugar, repare que os choques são definidos conforme os instrumentos de política monetária.

Ok, não é difícil entender. Mas, e quanto à mensuração destes choques? Um exemplo – também didático – para o Brasil é este bom texto para discussão do BCB.

E a Econometria?

Sim, a Econometria está em tudo isto aí. O Banco Central da Inglaterra, inclusive, tem um didático guia para o uso de Vetores Autoregressivos (VAR) para o estudo de diferentes tipos de choques monetários. Citando textualmente:

Further research at the Bank has used an SVAR to analyse the effects of four different types of monetary disturbance. First, ‘permanent’monetary policy shocks were distinguished from ‘temporary’monetary policy shocks. The former were defined to reflect shifts in the authorities’ underlying inflation target and the latter to reflect either policy ‘errors’ or transitory changes in the parameters of the authorities’reaction function. Second, two types of ‘velocity’shock were identified: a financial intermediation shock and a ‘money demand’ shock. The intermediation shock was defined to reflect changes in the provision of credit by the banking system and the degree of financial liberalisation, and the money demand shock was defined to reflect changes in liquidity preferences.

Repare na definição técnica de choques monetários permanentes e transitórios que o pessoal lá usa nos modelos. O autor citado no início deste texto, eu diria, tem uma definição mais próxima desta de choques transitórios. Claro, não posso fazer esta correspondência perfeita entre as duas definições e, não se esqueça, há várias formas de se medir estes choques (como neste exemplo). Ah sim, a segunda definição – aquela lá da regra de Taylor – é a mesma de Stock & Watson, dois importantes autores em econometria de séries de tempo.

Bem, tudo isto para falar do poder da política monetária e da importância de se definir bem um conceito como “choques monetários”.

Pipocas e sua barriguinha

Com nossas pipocas atingindo o padrão norte-americano, talvez este video – e o livro – tornem-se mais relevantes por aqui. Aliás, senhores editores, ele já deveria ter sido traduzido faz tempo, né?

McKenzie também tem um ótimo livro sobre obesidade (inclusive, mostrando os problemas sérios existentes em se considerar o BMI (body mass index) como medida de obesidade. Estou lendo este livro junto com alguns outros e a propaganda dele está aqui (e eis uma entrevista com o autor).

Eis um trecho interessante da entrevista.

What do you think will be the biggest battle in the “fat war” in the next 5-10 years?
The likely biggest battle in the “fat war” will be over sugared soda taxes and taxes on one sort of fatty food or another. However, studies are showing that such taxes (and bans on sugared sodas) can cause people to gain weight by shifting people’s consumption to non-taxed sugared and fatty foods and by increasing their appetites. Then there will be legal battles over fat discrimination and fat accommodation. “Fat labeling” seems to have already become a done deal.

Aliás, complementando o que diz o autor, veja também este pequeno vídeo, de uma consultoria privada famosa, a Euromonitor mostrando que, no longo prazo, não é só a demanda que se mexe, mas também a oferta…

O bacana do McKenzie, na minha opinião, é que, há anos, ele vem fazendo o que, somente agora ficou popular por aqui: a análise econômica da vida. Bastiat falava das consequências não-intencionais dos incentivos (“o que se vê e o que não se vê”) e isto é uma característica central da Ciência Econômica.

Note que mesmo o mais sofisiticado dos econometristas não pode prescindir da teoria econômica e, portanto, deve estar sempre ciente destas consequências não-intencionais. Por exemplo, andar a pé para o trabalho pode poluir mais do que ir de carro, conforme nos ensina o autor. Quando ignoramos todas as consequências dos incentivos, corremos o risco de medir incorretamente seus efeitos. 
Isso significa que tá todo mundo errado?

Não e nem seu oposto. E também não está chovendo hambúrguer. Mas ao fazer análises de equilíbrio parcial, ou mesmo geral, sempre teremos limitações pois fenômenos sociais são bastante complexos. Lembre-se sempre do que disse Milton Friedman sobre a política monetária em seu clássico artigo, por exemplo. Eis um trecho:

I have put this point last, and stated it in qualified terms-as referring to major disturbances-because I believe that the potentiality of monetary policy in offsetting other forces making for instability is far more limited than is commonly believed. We simply do not know enough to be able to recognize minor disturbances when they occur or to be able to predict either what their effects will be with any precision or what monetary policy is required to offset their effects. We do not know enough to be able to achieve stated objectives by delicate, or even fairly coarse, changes in the mix of monetary and fiscal policy. In this area particularly the best is likely to be the enemy of the good. Experience suggests that the path of wisdom is to use monetary policy explicitly to offset other disturbances only when they offer a “clear and present danger.”

Neste trecho, Friedman recomenda que a política monetária seja feita sem solavancos, mas com mudanças marginais, precisamente porque sabemos pouco sobre a natureza dos choques na economia. Vale dizer, ele percebe claramente as limitações de nosso conhecimento sobre a realidade, algo que, inclusive, deveria ser mais considerado em proposições que envolvam a vida de terceiros.

A lição, se é que podemos dizer que alguma há, é a de que devemos ter muito cuidado ao falar do impacto de incentivos sobre as ações dos indivíduos. É por isso que você deve estudar com muito cuidado a microeconomia em sua graduação. Nas linhas – e às vezes nas entrelinhas – dos exercícios com matrizes e condições de segunda ordem você encontrará a fonte de perguntas e de respostas sobre questões de efeitos, digamos, de segunda ordem ou indiretos. Ok, o preço diminui a demanda destes dois bens, mas o que posso dizer sobre a demanda de trabalho? E o risco? E as expectativas?
Saber reconhecer as limitações é minha resposta para o “certo ou errado”. Ninguém está totalmente certo ou errado. Apenas a análise é mais ou menos limitada. O que muitos economistas não percebem é que é muito importante destacar estas limitações. Aí sim, eu diria, você tem uma análise econômica ruim. McKenzie sabe muito bem como explorar o poder dos incentivos e os livros citados neste post são um bom começo para quem se interessa pelo tema.

Elogio ao Bernanke

Michael Munger tem uma excelente peça hoje, no blog. Trechos:

I know that it is hard to think of Bernanke as even mediocre, let alone exceptional, because of the massive strident criticism he’s faced from an array of monetary cranks all convinced that they have the magic bullet to achieve prosperity and only Bernanke’s stupidity or cowardice kept him from firing it.

If only he’d target nominal GDP! If only he’d raise the inflation target to 4%, If only he’d promise to keep inflation above its 2% target for years after the economy has fully recovered.

It is true ladies and gentlemen that if the Bernank had wheels, he’d be a bicycle. But he’s not a bike, he’s an economist and the Fed is not so powerful as to be able to fix our economy with a new nominal target or a new promise.

(…)
The Fed can avoid screw ups. It can prevent rampant inflation and it can stand as a supplier of liquidity and a lender of last resort in a crisis. But the notion that monetary policy can hit any desired output target in normal times or abnormal times is a foolish and dangerous notion, sadly often promulgated by macroeconomists in the Fed’s employ.

Perfeito. Esta história de criticar Bernanke porque ele não fez o que você queria (e sem a menor decência de apresentar um contrafactual razoável) é fácil. Além disso, ok, se Bernanke tivesse rodas, seria uma bicicleta e, bem, Munger nos lembra das palavras de Milton Friedman sobre a política monetária: ninguém é capaz de determinar claramente todas as relações entre todas as variáveis e, portanto, não é à toa que fazemos (ou devemos fazer) política monetária de maneira cautelosa, conservadora, cuidadosa. O poder de influenciar a economia de um Banco Central não é, obviamente, desprezível, mas devemos nos lembrar do mesmo muito mais como um poder sobre o qual pouco se conhece do que um poder devidamente “domesticado”.

Munger acertou no ponto. Agora, uma coisa é ser humilde, outra é ser passivo. Eu diria que a grande diferença entre a política monetária passiva e a ativa é que a última só funciona com a dose certa de humildade. Sim, você pode lembrar do significado tradicional de política monetária passiva e associá-la com a arrogância de uma autoridade fiscal que, leia os jornais para se inteirar do contexto brasileiro, atira para todos os lados, inclusive no próprio pé.

É engraçado. Entra ano, sai ano e o número de pessoas que fala mal de Milton Friedman sem ter lido A Monetary History of the United States, 1865-1960, só parece aumentar. Uma pena. De qualquer forma, parabéns ao Bernanke por ter administrado a maior economia do mundo em uma de suas piores épocas. Este povo que fala que “bastaria extinguir o FED” ou “socializar os meios de produção encontram-se no mesmo nível quando se trata da qualidade do argumento no que nos interessa: solução de problemas do mundo real. Qual é o nível? Adivinhem.

Política Monetária

Duas rápidas leituras sobre política monetária recentes levantam as seguintes questões: (a) política monetária é menos potente em recessões? e (b) deveria a autoridade monetária se preocupar com o desemprego?

O segundo texto, vale dizer, é um resumo de um discurso de Charles Plosser, cujo trabalho não pode ser ignorado por leitores ligados à área de Economia, feito por John Cochrane, outro que não pode ser esquecido.

Plosser pode ser chamado, sem muita dúvida, de um dos criadores da nova Economia (Macroeconomia microfundamentada). Todos conhecem seu trabalho com o seu xará, Charles Nelson.

Qual o papel da política monetária? Do que ela é capaz? Do que não é? Como deveria ser feita? Difícil responder todas estas perguntas, mas creio que muito trabalho pesado já foi feito. Não há como negar o poder (e, portanto, o perigo) da política monetária no longo prazo, as defasagens das políticas econômicas (Milton Friedman!), o problema da estabilidade das funções (quem não se lembra de William Poole no artigo de 1970?) e, claro, a questão das tendências (Nelson & Plosser!) e a (ir)relevância da econometria como ferramenta para a política econômica (Lucas!)?

Foi-se o tempo da política econômica como simples problema de controle ótimo…no mínimo um jogo diferencial dinâmico…e isto sem esquecer do antigo alerta de Friedman: são tantas as correlações que é difícil falar de causalidades (ah, Sims e Friedman….).

Quando a administração da empresa é instável, o que acontece?

O BOJ (ou, deveria eu dizer: NG, em japonês?), autoridade monetária japonesa, teve uma abrupta mudança com a chegada da tal Abenomics. Não apenas houve uma mudança de comando (sai Shirakawa e entra Kuroda) como também de política. Bem, isto não é novidade para o leitor deste blog.

Entretanto, esta pequena matéria do The Japan Times de hoje chama a atenção para um possível efeito microeconômico sério desta mudança abrupta: a possibilidade concreta de perda de recursos talentosos. Dado que o salário no BOJ não é tão competitivo assim, e dado que existe a possibilidade de se trabalhar no setor privado, é possível que vários funcionários qualificados resolvam deixar o BOJ.

Existe também o aspecto político (de Economia Política: Arrow, Buchanan, Tullock, Alesina, etc) disto que é o movimento oposto: o sujeito que busca um cargo público para ganhar projeção, aumentar seu suposto valor e migrar, posteriormente, para o setor privado. O que o artigo de jornal ilustra é o outro – e mais trivial – incentivo que geraria a saída de pessoas do BOJ: o simples salário relativo (ou, se alguém quiser, o salário-eficiência (aqui, ilustrado em um debate mais antigo, na blogosfera)).

Como saber o quanto da migração da mão-de-obra é devida a um motivo ou outro é um trabalho árduo que fica para o pessoal que “mete a mão na massa”, ou seja, a turma da econometria. 

Grande economia, pequena economia

Eis aqui um exemplo de grande economia no mundo. No Sachs & Larrain (e também no ótimo livro-texto de Abel, Bernanke & Croushore) podemos ver como uma grande economia tem impactos na taxa de juros internacional. Mas, perguntaria um aluno mais curioso, como é que isso é feito? É possível medir? A resposta é, claro, sim, é possível medir. O estudo, portanto, tem que avançar para a descrição da política monetária do país supostamente grande (no caso do artigo, os EUA).

Para quem gosta do tema de política monetária em uma economia aberta, este artigo pode não ser o mais importante, mas é um bom exemplo de como se faz um estudo sobre o tema. Caso você seja associado à Atlantic Economic Association ou tenha acesso ao journal deles (digo, a um dos dois journals deles), dê uma olhadinha no paper.

Economia em guerra e política monetária

Eis aí algo sobre o qual eu nunca pensei: bancos centrais de economias ocupadas por uma potência estrangeira por motivo de guerra. No caso, o autor estuda o banco central norueguês. Infelizmente, não há nenhum teste econométrico. Em todos os casos, vale a leitura.

Morre Michael Mussa

Michael Mussa morreu. Trecho da matéria:

No último relatório, publicado em setembro, ele escreveu que “está demorando muito para que funcionários públicos e bancos centrais parem de puxar o saco e comecem a chutar o traseiro de banqueiros cujo interesse próprio diverge substancialmente do interesse público”.

Mais sobre Michael Mussa aqui e aqui.