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Sobre o Roda Viva de ontem

Um rápido comentário. Lembro de ter ouvido o Samuel falar que “achava que tínhamos aprendido a fazer política econômica”. Pois bem, este é um ponto que cito de quando em vez aqui no blog. Mas eu também já disse que, embora os economistas tenham a tecnologia para fazer boas políticas econômicas, é fato que a transferência intergeracional de tecnologia de política econômica não é igual à transferências similares de tecnologias físicas.

Exemplifico: não é porque passaram-se gerações de ministros pela área da energia que os mais novos desaprenderam a usar tecnologias poupadoras de energia. Entretanto, na área econômica, basta um ministro novo assumir que o temor de que o mesmo destrua a economia do país não pode ser desprezado.

Ou seja, sim, sabemos como resolver o problema mas, não, não há garantias de que vamos usar esta tecnologia. Por que? Porque o custo político de se usar uma tecnologia anti-inflacionária não é igual ao seu custo econômico. Novamente: se eu digo que vou aumentar os juros para combater a inflação, a minha base de eleitores pode ser violentamente contra, mesmo que a população como um todo não o seja.

Não é de hoje – mesmo – que, neste blog, fala-se de incentivos políticos interferindo na economia. Então, o que estou tentando dizer é que o melhor seria criar instituições sólidas para que boas políticas econômicas prevaleçam.

Eu entendo a tristeza do Samuel – sinto o mesmo – mas também entendo que nossos economistas sérios demoraram muito a dar a devida importância ao problema dos incentivos políticos. Não é que não perceberam a sua importância, mas sim que não tivemos uma discussão frutífera – no sentido de gerar resultados – sobre como resolver o alinhamento de incentivos (veja o Nobel do Al Roth, dentre outros…).

O futuro, meus caros, é sombrio.

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Existem certas verdades…

verdades
“Ah, IBGE, vamos esquecer estes gráficos…abandonemos estes números frios dos economistas…a sociedade é paixão, amor, ternura…”.

Existem certas coisas que não mudam com o tempo. Uma delas é a discussão de metas e instrumentos de política econômica. Desde que William Poole publicou seu clássico artigo em 1970, muita coisa aconteceu: a discussão original de Friedman sobre regras foi aperfeiçoada, as expectativas racionais trouxeram muitas inovações tecnológicas na forma de se fazer política econômica e, claro, a Teoria dos Jogos mudou a visão, digamos assim, de engenharia para uma abordagem microfundamentada. De certa forma, aquela história de Hayek sobre o individualismo falso e verdadeiro (um ensaio famoso dele) teve um final feliz: a visão dos microfundamentos prevaleceu (embora nem tudo o que Hayek quisesse dizer com o artigo se transformasse em realidade).

Mas existe o lado político…

Parece um tanto quanto óbvio que fazer política econômica é um problema no qual não se pode ignorar nem o “política” e nem o “econômica”. Quanto ao segundo, estamos tranquilos. Mas quanto ao primeiro, a administração Yousseff, Rousseff não tem se mostrado lá muito virtuosa e seus apoiadores, inclusive, parecem descomprometidos com a verdade (basta ouvir o rosnar dos lobos em comentários agressivos, ameaçadores e violentos na rede, acompanhados de pedidos para demissões de jornalistas, etc).

O caso do IPEA e o do IBGE mostra que há um problema com o “política” acima citado. Não se quer fazer o dever de casa ilustrado pelo gráfico acima e se pretende roubar nas regras do jogo. Pressões políticas em órgãos públicos que coletam dados? Cerceamento dos mesmos via cortes orçamentários (enquanto outros gastos bem menos nobres continuam?).

O que as autoridades acham disto tudo?

Bem, não acham nada. Ou acham, mas não falam. Ou mentem. Até agora, não vi um único membro da administração atual chamar a imprensa e fazer uma barulhenta declaração de apoio ao IBGE ou contra pesquisas técnicas de baixa qualidade do IPEA. Vejo, sim, muito diversionismo e oportunismo com tentativas de bloquear uma CPI (fazia tempo que não via esta galera, que sempre pediu CPI em outros governos, fugir assim, de forma bem covarde, da briga) e muito rosnado contra inimigos imaginários.

Manifestações insanas…e o que você acha disto tudo?

Pois é. Até o tomate virou inimigo do socialismo bolivariano brasileiro. “Amarrem o tomate ao poste!”, pedem os militantes que ganham R$ 150,00 para quebrar propriedades privadas nas ruas. “Estuprem o tomate!, diz um professor de filosofia de uma universidade federal carioca. “Julguem o tomate, mas só se ele estiver verde ainda!”, berra o cronista gaúcho enquanto saboreia sua salada.

Já a boa Ciência Econômica…

Notem como, sutilmente, estão tentando desmoralizar a pobre Ciência Econômica. Querem espalhar por aí que o IPEA é um lixo, que o IBGE é tucano e que o bom mesmo é ensinar ideologia nas faculdades de Economia. A permissividade disfarçada de pragmatismo é a regra: deixa para lá, defender a lógica dá dor de cabeça. Daqui a pouco vão promover queima de livros de Adam Smith e David Ricardo e os chefes de departamento aplaudirão.

“Queimem os livros-texto de Economia! Queimem! Mais amor! Mais emoção! Menos números frios e sem coração!” Palmas! Palmas!
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A microeconomia que ministro (claro) nunca vê

Autoridade não passa pelo que o Duke relata. Tem gente que precisa olhar um pouco para o que escreveu antes de fazer discurso. Ou um cargo público muda tudo?

O bom da blogosfera é que não existe apenas otário comentando. Existe gente como o Duke que vai além da reprodução bovina de muita redação “supostamente” jornalística e vai fundo na crítica. Em resumo, a microeconomia do sistema bancário brasileiro não pode ser desprezada.

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2+2 = 4

Juros e Inflação

Hoje o COPOM decide se aumenta a taxa de juros ou não. Se tivesse que apostar, apostaria que o COPOM vai elevar a taxa de juros em 0,25 pontos percentuais. Acredito ser essa uma decisão equivocada.

Tal como esse blog previu no ANO PASSADO, a inflação brasileira nesse ano iria aumentar. Motivo: o PAC, programa de aceleração do crescimento, promovido pelo PRÓPRIO governo brasileiro iria puxar a demanda agregada para cima e gerar inflação. Ou seja, a inflação brasileira esta sendo gerada pelo PRÓPRIO governo brasileiro. Ao invés de aumentar os juros, o governo federal deveria CORTAR gastos.

Aumentar os juros agora irá pressionar ainda mais as contas públicas. Isto é, a dívida pública irá aumentar tanto pelo fato do Estado brasileiro estar gastando mais como também por estar tendo que se financiar a uma taxa de juros mais elevada.

Entenderam a participação do Estado? Ele cria um programa para “ajudar” o crescimento, só que para isso ele pressiona a inflação para cima. Para reduzir a inflação o Estado aumenta os juros, o que afeta negativamente o investimento privado. No final do processo teremos mais investimentos públicos e menos investimentos privados. Ou seja, teremos mais Estado e menos iniciativa privada. Aí esta mais uma contribuição do Estado para seu bem-estar.

Análise perfeita do Adolfo.

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FMI elogia a administração da Silva: e você com isso?

Valor: O Brasil cresceu 5,4% em 2007 e há sinais de que a atividade econômica continua forte no começo do ano. O sr. acha que esse nível de crescimento é sustentável?

Singh: Fundamentalmente, a economia brasileira está aproveitando os benefícios de políticas bem-sucedidas de estabilização, das reformas estruturais, da abertura externa crescente e da redução das vulnerabilidades. Em especial, uma administração macroeconômica adequada contribuiu para reduzir a inflação para níveis baixos, diminuir a relação dívida pública/PIB e melhorar o seu perfil e permitir uma forte queda dos juros reais e prêmios de risco, que eram historicamente altos. Houve uma mudança surpreendente no desempenho econômico do Brasil nos anos recentes. Como resultado, o crescimento aumentou. A economia ganhou impulso nos trimestres recentes, principalmente refletindo a força da demanda doméstica, incluindo um considerável crescimento do investimento privado, impulsionado pelos elevados preços de commodities e grandes fluxos de investimentos estrangeiros diretos. Os números mais recentes do PIB, como o resultado do quarto trimestre de 2007, são outra indicação da continuidade da força da economia brasileira. Números parciais mostram que o crescimento se manteve robusto nos primeiros meses de 2008. As perspectivas econômicas de curto prazo são em geral favoráveis, embora sujeitas ao ambiente externo, e o Brasil está certamente construindo capacidade para sustentar um crescimento elevado no médio prazo. Um fator-chave para essa última questão é promover melhoras adicionais no ambiente de investimentos, em infra-estrutura, na intermediação financeira e na eficiência da política fiscal.

Até hoje há gente que compra o discurso do partido do presidente da Silva de que o FMI é um grande vilão. Eu penso um pouco diferente. Do ponto de vista das instituições, o FMI nada tem a ver com a microeconomia de um país. Por isto você consegue ver um elogio às políticas fiscais brasileiras, com quase ou nenhuma análise microeconômica sobre o jogo político que ocorre por aqui. Neste sentido, o FMI pode elogiar até o governo cubano, caso o mesmo siga o seu receituário.

Uma crítica completamente diferente é se o receituário do FMI é bom ou não. O presidente da Silva, há anos, faz o discurso de que, sim, é bom seguir o que diz o FMI. Em outras palavras, é fácil, macroeconomicamente, seguir o que diz o FMI. Outra coisa é culpar o FMI pelo mensalão e outros escândalos que surgiram na administração atual, com o envolvimento de gente importante no partido do presidente. Não é possível culpar as políticas do FMI como herança maldita.

Gente da esquerda gosta de socializar a culpa e privatizar os benefícios gerados por outros fatores e, por isto, você vê tanta ênfase em termos de marketing político como: “herança maldita”, “FMI e os imperialistas” ou “o economicismo frio e malvado”. Trata-se de uma estratégia de tentar se desvincular da própria responsabilidade em ser o governo que aumenta a carga tributária e jogar a culpa nos outros. Claro que esta é facilmente perceptível por quem tem algum grau de instrução (não de doutrinação).

Mas a outra crítica, a dos não-liberais da direita, é a que mais se mostra confusa. Ou se diz que o presidente da Silva capitulou, ou se diz que ele faz um ajuste fiscal para gerar recessão e…implantar o socialismo. Uma coisa contradiz claramente a outra. Aqui é “claramente” mesmo porque em uma das críticas o ajuste fiscal é o “mocinho” e, na outra, o “vilão”.

É importante diferenciar bem estas coisas. Primeiro, estudos de cientistas políticos sérios mostram que os governos não-liberais de FHC e da Silva não são idênticos. Segundo, o fato de um déficit primário estar próximo de zero não significa que o mesmo é obtido sempre de uma única forma. Terceiro, as circunstâncias externas que FHC enfrentou e as que o presidente da Silva enfrenta são muito diferentes sendo que, no último caso, herdou-se uma política macroeconômica muito mais adequada ao momento atual (câmbio livre e política monetária razoavelmente mais independente) do que em outros períodos de transição de nossa história.

Do ponto de vista liberal, sem dúvida, nem FHC, nem da Silva foram presidentes liberais. A confusão está, na verdade, entre os não-liberais, que ora criticam, ora elogiam o presidente atual…e sempre pelos mesmos motivos. Por isto eu insisto sempre nos tags “socialismo real” e “bolivarianismo”: as pessoas precisam aprender a dar nomes aos bois e, mais do que isto, explicar o que são os bois, de jure e de facto.