Nova ferramenta do governo e uma aplicação rápida para os dados relativos a Pelotas

O Ministério do Planejamento lançou um ótimo bem público (economistas sabem que uso o conceito econômico de bem público) que é este portal sobre transferências federais.

Aproveitei para ver como o município de Pelotas, no RS, aparece neste quesito, olhando por órgãos federais. Eis algumas figuras bastante ilustrativas.
pelotas1pelotas2

Claro, eu poderia melhorar mais a análise observando o status dos projetos (estão em execução? Já encerrados?), mas isso fica para o leitor. Peço desculpas, também, pelos títulos dos gráficos. A bem da verdade, o grande transferidor de recursos para o município é o Ministério da Educação e eu poderia ter feito, basicamente, só um gráfico.

O significado disto tudo? Vários pontos interessantes podem ser destacados aqui, mas isso fica para outro dia. Comentários, como sempre, são bem-vindos.

Ah sim, parabéns aos que disponibilizaram mais esta fonte de dados públicos. Ficou ótimo!

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Custo de oportunidade é importante? – o exemplo da Companhia Fiação e Tecidos Pelotense

Como o leitor sabe, a resposta à pergunta acima é: sim, é claro que é importante! Mas vamos ao esclarecedor trecho.

Os navios que levavam o charque de Pelotas para o Nordeste do País retornavam vazios, tornando os custos proibitivos, pois aos índices normais somava-se o ‘frete morto’, ou valor dos porões não ocupados.
Decidiu-se, então, que o problema estaria resolvido com a instalação de uma fiação e tecelagem de algodão em Pelotas, voltando os navios que levassem o charque ao Nordeste, carregados de algodão.
Assim, nasceu a Companhia Fiação e Tecidos Pelotense. Nasceu de um fato econômico. De uma solução econômica’. [Companhia Fiação e Tecidos Pelotense. In: Pelotas Memória, especial 1992, p.15]

Preciso explicar mais? A oportunidade perdida era o porão “não ocupado”. Repare na importância do custo implícito, aquele que nem sempre as pessoas percebem, já que subjetivo. Para você, pode ser que o porão vazio pudesse ser preenchido com um carregamento de linguiças. Para mim, talvez por um carregamento de cervejas. Mas para o ator importante desta história, valia a pena trazer algodão e abrir uma grande tecelagem.

Exemplo legal, heim?

Sabe aquele monte de vovôs e vovós simpáticas nas ruas de Pelotas?

Não é algo que você, mesmo que seja do RS, talvez ache normal. Aliás, os dados nos dizem que, em termos de vovós, a cidade ultrapassa o estado (mas os vovôs ficam ali no empate, ou seja, deve ter muito vovô em clássicos Bra-Pel ainda…).

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Claro que se você andar pelo centro de Pelotas, um bairro, como me lembra o prof. Rodrigo Nobre Fernandez (o cara que mais conhece de Parcerias Público-Privadas na cidade), é cheio de jovens universitários, notará que a pirâmide é um pouco diferente.

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A dica da ferramenta do IBGE foi do Matizes Escondidos, um cara sempre que nunca tem um papo ruim.

Liberação de drogas: Uruguai e Brasil

Os economistas já falaram muito sobre o tema. Agora, com o experimento uruguaio, há uma oportunidade de se mensurar seus efeitos, conforme noticia o Diário Popular, de Pelotas.

O que os economistas esperam? Bem, não é difícil saber. O cientista político Diogo Costa já disseminou boa parte das nossas opiniões por aí. Você também pode pesquisar sobre o tema nos escritos do Jeffrey Miron, de Harvard. A The Economist tem uma opinião aqui. Finalmente, um estudo da London School of Economics sobre o tema, aqui. Aliás, o legal deste último estudo é a elasticidade-preço da demanda calculada.

Hence, even if one somehow knew that legalisation would reduce retail prices by 75 percent for cannabis and 90 percent for cocaine, and even if one knew those drugs’ elasticities over modest prices changes in the past were -0.5 and -0.75, respectively, it would almost certainly be wrong to project a price-induced increase in consumption of only 0.75*0.5 = 37.5 percent and 0.9*0.75 = 67.5 percent, respectively. Indeed, Caulkins and Kilmer et al. show that one cannot rule out the possibility that the actual increases could be very much larger. (p.22 do referido estudo)

Outro estudo interessante é este no qual encontramos o conceito de elasticidade-preço total da demanda.

drugs_elastic

O tema é, certamente, interessante e importante. O grande problema é conseguir os dados, notadamente no caso do Brasil. Com esta pesquisa nova que envolve alunos e pesquisadores da área de Saúde da UFPel, espero, minimizaremos este problema.

Novo IFDM da Firjan divulgado (e, claro, a situação de Pelotas)

Foi divulgado o novo IFDM da Firjan (2015, com base em dados de 2013) e resolvi dar uma rápida olhada nos dados do Rio Grande do Sul. O que temos? Bem, resumidamente, o IFDM varia, em tese, de zero a um e quanto mais alto, maior o desenvolvimento do município (mais detalhes aqui).

Usando a classificação de faixas populacionais do IBGE, temos a seguinte tabulação para os municípios do RS (é, eu incluí a capital, deveria tê-la deixado de fora e comentado separadamente, mas não sou muito bom em questões estéticas).

pelotas_RS

O que se pode observar? Em geral, a média do IFDM dos municípios oscila entre 0.71 e 0.79 e o desvio-padrão é muito parecido inter-faixas. A capital, Porto Alegre, (algo) obviamente, tem o maior índice.

Para a região como um todo, a distribuição é:

ifdm_rs

Para cada faixa populacional, temos (novamente já me desculpo pela “capital”…):

ifdm_rs_2

Como fica Pelotas no estado? A cidade está em 228o no ranking estadual, com um IFDM de 0.7269 (ele está localizado ali na categoria dos municípios com 50001 a 100000 habitantes), próximo da média. Observando a evolução do município desde 2005 (a FIRJAN mostra a posição nacional apenas para esta comparação, mas você pode construir o ranking estadual a cada ano, se quiser), temos as seguintes posições:

2005  1492
2006  1482
2007  2024
2008  1603
2009  1510
2010  1184
2011  1278
2012  1517
2013  1496

Ou seja, a cidade vinha em uma evolução relativa aos outros municípios do país até 2010 quando piorou, recuperando-se na última edição do índice, retomando posição próxima a que tinha quando do início da série. Por que isto acontece é algo que demandaria um pouco mais de trabalho do que o que posso oferecer na manhã – que ora torna-se ensolarada – de um domingo como este…

Bom, os interessados podem checar os endereços acima para maiores detalhes. Mais interessante, claro, é pensar nos determinantes do IFDM dos municípios (é importante verificar se há alguma variabilidade ao longo do tempo, embora eu ache pouco provável, o que nos leva a uma análise mais longitudinal do que de painel, creio).

Quem sabe não temos algum tipo de trabalho interessante com esta base de dados no futuro?

UPDATE: IFDM para todo o Brasil? É prá já!ifdm_br

A conta de água em Pelotas e a restrição orçamentária: um exercício de microeconomia

A prefeitura de Pelotas está na direção correta no que diz respeito à conta de água. Até então, cobrava-se uma taxa por tamanho do imóvel, independente de seu consumo. Em outras palavras, uma viúva que morasse em um apartamento de três quartos poderia pagar mais pela água do que quatros estudantes que dividem um apartamento de dois quartos. Desnecessário dizer que a teoria econômica básica nos diz que este não é o melhor critério, não é?

Para quem já estudou a restrição orçamentária em Microeconomia, é como se tivéssemos dois bens: D e x. D é o gasto com outros bens (e o preço do gasto em reais com outros bens é o preço de um real que é, claro, um real) e x é o consumo de água. Imaginando que haja uma renda a ser gasta com isso, teríamos: m = D + px em que p é o preço do consumo de água.

A sutileza, no caso da regra atual de cobrança, é que “p” não varia inversamente com o consumo de “x”, mas sim com o tamanho do imóvel, independente do consumo em cada um deles (há, claro, uma suposição implícita de que imóveis maiores significam consumos maiores de água, mas o que importa é o número de pessoas no imóvel e não o tamanho do mesmo, pois imóveis não consomem água sem pessoas, certo?) .

Como funcionará a nova regra da prefeitura? Há um pagamento básico de R$ 18.13 e o restante depende de intervalos no consumo, de forma crescente. Por exemplo, até 10 m3, paga-se, além dos R$ 18.13, R$ 3.83 a cada m3 consumido (ou seja, se você consumir 10 m3, pagará R$ (18.13 + 38.30) =  R$ 56.43. Os intervalos de consumo são: [0, 10], [11, 20], [21, 30], [31, 50], [51, 100] e [100, infinito [.

A restrição orçamentária do consumidor, agora, é composta de vários segmentos de reta. Podemos expressá-la usando matemática básica.

res_orcamen_pel

Perceba que a nova restrição é formada por vários segmentos de reta. Para ilustrar, veja a imagem abaixo.

rest_orca_pelotas_1

Cada marcação mostra, aproximadamente, de cada segmento até a interseção com o segmento seguinte. De maneira mais organizada…

rest_orca_pelotas_2

Pronto. Agora sim, temos a restrição orçamentária que deve prevalecer em Pelotas a partir de Março do ano que vem, com o novo sistema de cobrança de água. Você que já estudou um pouco de Microeconomia já sabe: a única diferença para o caso mais comum dos livros-texto é que o conjunto orçamentário não é mais um belo triângulo, mas um polígono. No mais, é a mesma coisa.

Note que uma desvantagem deste sistema, tanto quanto do anterior, é o sistema de intervalos. No anterior, por exemplo, tínhamos uma taxa distinta para imóveis de 39 m2 e outros de 40 a 79 m2. Neste, por exemplo, temos o preço diferente para consumo até 10 m3 ou 11 a 20 m3. Em ambos os casos, é difícil justificar que o consumo mude tanto na margem da mudança de uma faixa para outra.

De qualquer forma, o exercício está feito. Até mais.

Consumo de água na Pelotas do início do século XX e os incentivos econômicos

Graças à indicação do Leo Monasterio, fui a um sebo cujo dono não é um amador em história(s) – e ele tem um blog –  e adquiri o fascículo terceiro de “Pelotas Memória”, publicado em 1989. O motivo de comprar exatamente este fascículo foi o que encontrei em sua página dezenove: um pequeno resumo de como a prefeitura cobrava pela água em 1913. Vamos à mesma:

“ÁGUA – O fornecimento d’água é feito do seguinte modo, sendo responsáveis pelo pagamento os proprietários dos prédios:
Pena de 500 litros diários 5$000, por mês.
Hidrômetros, à razão de 3 litros por um real.
Serão concedidos os seguintes abatimentos para os consumos mensais de:

100.000 a 500.000 litros………5%
500.000 a 1.000.000 litros….10%

O fornecimento d’água é cobrado adiantadamente, por trimestre.” [Magalhães, N.N. “Pelotas Memória”, fascículo III, 1989, p.19]

Curiosamente, o abatimento era maior para quem consumia mais água e, ao contrário do que se faz hoje, a cobrança se dava no início do trimestre. Há também a multa (pena). Como será que podemos explicar estas características da regulação acima?

Um pouco de Economia…

Primeiramente, por que cobrar no início do trimestre? Imagino que a inflação praticamente desprezível (o efeito Olivera-Tanzi era praticamente zero) possibilitava a cobrança não apenas trimestral, mas também no início do mês. Quem leu aquele pequeno “30 Anos de Indexação”, do falecido M.H. Simonsen, provavelmente vai se lembrar da relação entre inflação e indexação, que se tornou mais forte bem depois do período em questão (1913).

Quanto à “pena”, recorro a outra fonte, Silveira [Silveira, Alice M. “De fontes e aguadeiros à penas d’água: reflexões sobre o sistema de abastecimento de água e as transformações da arquitetura residencial do final do século XIX em Pelotas – RS”, Tese de Doutorado, FAU/USP, 2009]:

As reclamações da companhia quanto a esta situação referiam-se ao fato de que os usuários permitiam que outras pessoas se abastecessem de água nas suas penas, sem pagar as taxas de adesão ao serviço da empresa. [Silveira (2009) : 207]

Em outras palavras, a água ainda não era tão rival e excludente assim, para que seu consumo pudesse ser racionado de forma precisa pelo sistema de preços (a existência de “gatos” era comum no caso da água, tal qual o é no fornecimento de TV por assinatura hoje em dia…). É interessante pensar em como era a “entrega” da mercadoria “água” ao consumidor final no início do século XX, não?

Quanto aos descontos por volume, acho curioso porque a empresa privada que fornecia a água – e que tinha problemas com os “gatos” – foi municipalizada em 1908. Neste ponto específico, não sei qual seria a motivação para fornecer descontos maiores para consumos maiores. Eu imaginaria que o poder público iria, ao menos no discurso, dizer que iria se esforçar para diminuir o desperdício de água. Algumas hipóteses me passam pela cabeça, mas prefiro deixar esta questão para a sugestão dos leitores.

Ah sim, pensando na Teoria do Consumidor, eis um exercício simples: mostre, graficamente, qual é a restrição orçamentária de um consumidor levando em conta o sistema de descontos citado acima. Este, contudo, fica para o leitor que está estudando microeconomia.