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“Space Battleship Yamato” e o Covid-19: epopéias humanas

A pandemia se fez presente nos primeiros meses de 2020 e, como não poderia deixar de ser, a humanidade se viu numa luta contra o tempo para obter a vacina (com progressos notáveis no curto prazo).

A história pode ser recente, mas o enredo, remete a um clássico da animação japonesa, o Space Battleship Yamato (que, por alguma influência politicamente correta, alguém traduziu, incorretamente, como Space Cosmoship Yamato) dos anos 70 produzida por Yoshinobu Nishizaki.

A série foi ao ar no Japão no meio dos anos70 e, na lógica insanamente competitiva do mercado japonês (pelo menos da época), foi seguida de quadrinizações, a mais famosa dela do exótico Reiji Matsumoto (às vezes citado como Leiji Matsumoto).

O leitor encontrará farto material na internet sobre o desenho que chegou ao Brasil, no início da extinta TV Manchete diretamente da versão – cheia de pequenos cortes – norte-americana. Lá, seu nome era Starblazers e aqui ficou conhecido como Patrulha Estelar.

A despeito dos anos 70 não serem tão próximos do final da 2a Guerra Mundial, os americanos transformaram o encouraçado espacial Yamato em um pouco inspirador encouraçado espacial Argo. Nada que os fãs nikkeis não pudessem ignorar alegremente pela oportunidade de poderem assistir um anime tão interessante.

A nossa precária integração aos mercados globais (nada de fluxos imigratórios imensos ou mesmo uma abertura comercial decente) nos trouxe, apenas recentemente, a quadrinização de Matsumoto

Em outra oportunidade quero falar mais sobre os aspectos, digamos, econômicos desta obra (há muito insight legal para uma aula de Microeconomia). Hoje, quero apenas destacar a semelhança do anime com a epopéia humana contra o Covid-19. Vamos lá.

A concepção da série é sempre a mesma: a Terra sofre uma ameaça externa e deve respondê-la com um prazo de 365 dias. Na primeira – que não foi transmitida no Brasil (e deve ser assistida se você quiser apreciar melhor o que viu quando criança) – os gamilianos querem adaptar a Terra à sua atmosfera radioativa para colonizá-la, já que seu planeta está morrendo.

Logo nos primeiros episódios, há uma batalha em Plutão na qual a frota terrestre é massacrada mas, inesperadamente, uma outra alienígena envia uma cápsula com instruções que permitem aos seres humanos um salto tecnológico: construir uma espaçonave que poderia lhes trasnportar muito mais rapidamente para o planeta Iscandar no qual poderiam obter um aparelho que limparia a atmosfera da radiação.

O governo da Terra providencia, então, a (re?)construção do navio de guerra japonês Yamato (o maior encouraçado já produzido, ironicamente, numa época em que a tecnologia dos porta-aviões se tornava mais e mais relevante para o combate naval) como uma espaçonave. Recruta-se uma tripulação que deve chegar até o planeta Iscandar e trazer o tal aparato em 365 dias. Um legítimo exemplo de epopéia na forma de uma corrida contra o tempo.

A parte mais importante do desenho, portanto, envolve uma tripulação limitada (ela não se reproduz…só vai diminuindo com as batalhas) que luta contra o tempo e contra um inimigo que mais poderoso com sua tecnologia recém-adquirida. Como não pensar em nossa luta contra o Covid-19? Impossível, não?

Aqueles que compraram o DVD da Voyager Entertainment lá no final dos anos 90 puderam ver o final alternativo – e interessante – da primeira temporada. Aqui vai um spoiler, ok? É claro que, no fim, eles conseguem obter o aparelho eliminador de radioatividade e voltar à Terra. Mas o final alternativo é muito mais interessante. Nele, ao chegarem à Iscandar, é-lhes revelado que o aparelho podia ser construído com os componentes do próprio Yamato.

Por que então, toda a viagem, lutas e mortes? A ideia é que não seriam merecedores desta descoberta se não se esforçassem para chegar a Iscandar. Ok, ficou tudo mais difícil para a humanidade, mas há algo de mais nobre neste final alternativo no estilo “lição de moral da vovó”. Suspeito que a escolha entre finais deva ter alguma relação entre os conflitos da equipe criativa, notadamente entre Yoshinobu Nishizaki (o produtor) e Reiji Matsumoto (o carismático e difícil mangaká).

As segunda e terceira temporadas replicam o tema – com mais ou menos drama – e, salvo engano, também têm esta missão de 365 dias. Obviamente que os dramas humanos não são tão explorados no desenho – embora você possa encontrar vários momentos singelos em diversos momentos dos episódios.

É legal perceber um ponto na diferença de visão entre membros da equipe criadora. Pelo que já vi dos trabalhos de Matsumoto (notadamente na primeira temporada de Captain Harlock), ele prefere uma abordagem bem menos rígida do ambiente de trabalho dentro da espaçonave. Para ele, cada um faz o que quer dentro da nave pirata Arcadia mas, quando há uma missão, todos se unem de maneira ímpar com uma lealdade absoluta. Já nas produções de Nishizaki (Blue Noah, por exemplo), o trabalho em equipe é mais convencional e o foco é no sacrifício e trabalho sob pressão constante, sem muito espaço para dramas individuais.

Talvez a história sobre o desenvolvimento das vacina também nos revele algo similar. A conferir.

Créditos das imagens: o ótimo Ourstarblazers.com e Wikipedia.

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宇宙戦艦ヤマト – o Animê

Para quem não conhece, o desenho é uma criação, digamos, conjunta, de Reiji Matsumoto e Yoshinobu Nishizaki. A história da criação em si já é uma polêmica que prejudicou a franquia por anos.

O sucesso da série se deu nos anos 80. Com a briga entre os dois autores, somente em 2009 tivemos o que seria a primeira parte de um filme maior. Com poucos dias de estréia, morre Nishizaki, produtor do filme. Em 2010, o tão esperado live action foi feito, com Takuya Kimura (do SMAP) no papel principal. 

Não é que houve um absoluto silêncio durante os 20 anos. Em 1999, Matsumoto lançou, em PlayStation, trechos em que reinterpreta as temporadas (três, para a TV) e os filmes anteriores (cinco filmes, para cinema e/ou TV).

Finalmente, em 2013, é lançada a reinterpretação da primeira série (que não foi transmitida no Brasil) numa estratégia de divulgação que envolveu três meios de comunicação: cinemas, TV e, claro, DVD/Blu-Ray. É possível levantar as datas exatas dos lançamentos, mas não farei isto agora. Claro, para uma análise mais precisa das buscas no Google Trends, é preciso saber exatamente o que acontece para verificar a mudança no padrão da série, seja na média, seja na variância.

Uma fonte praticamente inesgotável de informações, em inglês, está aqui e dá para ver algumas datas importantes lá, mas é preciso pesquisar em várias das páginas do site. Outro bom lugar para buscar datas importantes é o site oficial da nova série.

Para Iscandar!

Vejamos, portanto, o padrão de buscas por 宇宙戦艦ヤマト(Utyuu Senkan Yamato) no Google japonês (ou seja, as buscas foram feitas no Japão). Lembre-se que a franquia só vai ter alguma retomada em 2009, conforme o super-resumo acima.

yamato

Ok. Vamos usar o pacote car, que é um ótimo ajudante para os que curtem análise de regressão (os autores têm um ótimo livro sobre análise de regressão em R) e vejamos um boxplot desta série.

boxplot_yamato

Ficou bem embolado, né? Repare que, diferente do comando boxplot, do R, este vem com mais informações. A janela de resultados nos diz que há vários pontos que distoam da amostra (lembra do post sobre Taiwan?).

> Boxplot(~new_yamato)
[1] “361” “432” “484” “300” “310” “362” “509” “485” “486” “501”

Estes pontos podem ser analisados na tabela original dos dados. São eles:

2009-09-27 – 2009-10-03 70 300
2009-12-06 – 2009-12-12 68 310
2010-11-28 – 2010-12-04 100 361
2010-12-05 – 2010-12-11 67 362
2012-04-08 – 2012-04-14 86 432
2013-04-07 – 2013-04-13 82 484
2013-04-14 – 2013-04-20 63 485
2013-04-21 – 2013-04-27 59 486
2013-08-04 – 2013-08-10 56 501
2013-09-29 – 2013-10-05 66 509

Pontos de alta busca, não? Acho que o mais correto é buscar informações na internet. Os fãs do desenho bem que poderiam me dar algumas dicas, não?

Podemos verificar outras características da série. Por exemplo, sua estrutura de autocorrelações.

yamato_acf

yamato_pacf

Interessante, não? Eu nunca parei para pensar sobre o padrão de buscas no Google e sua autocorrelação no tempo. O que será que isto significa? Bom, os gráficos parecem mostrar uma forte influência da busca da semana imediatamente anterior sobre a semana atual (para qualquer semana que você olhar, este é o padrão). Há também uma influência positiva, mas muito menor, de buscas de semanas anteriores (para ser específico, de duas semanas anteriores sobre a atual).

Isto poderia nos dizer algo sobre como pensa um consumidor fã deste desenho? Provavelmente sim, mas não vou arriscar palpites. Afinal, a pergunta interessante é se há padrões de autocorrelação similares (ou não) para diferentes tipos de produtos. Eis aí um bom tema de pesquisa para o pessoal que leva marketing a sério.

“- Use o R, Kodai! Use o R!”

Conclusão provisória

Bem, quase não fizemos nada nesta aplicação do R, exceto usar funções dos pacotes carforecast. A dica para você está aí embaixo.

library(car)
library(forecast)
Boxplot(~new_yamato)
plot(new_yamato)
Acf(new_yamato)
Pacf(new_yamato)

Creio que há bastante material para quem quiser trabalhar neste tema. Os fãs do desenho que quiserem me ajudar com datas importantes são bem-vindos. Aqueles que não conhecem o desenho, mas conhecem o R, podem aproveitar para fazer um pouco mais de experiências com os dados.

Confesso que estou sem muita inspiração hoje. Tenho muito trabalho pela frente com uma pequena sobrinha extremamente energética. Então, leitores, o restante do trabalho fica como sugestão para vocês.

20140307_161433

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Tora Tora Tora

Passou batido para mim, o dia de ontem, 07 de dezembro. O mais interessante do conflito entre Japão e EUA na II Guerra Mundial talvez seja a batalha de Midway. Recentemente adquiri um documentário – em banca de jornal mesmo – que me mostrou que aquele clássico filme com Charlton Heston e Toshiro Mifune foi, basicamente, fiel aos fatos.

Sendo assim, o que sempre imaginei ser um roteiro fiel, mas bem incrementado, tornou-se, na verdade, uma das mais fascinantes lições de logística, teoria dos jogos e conflitos que já vi. A batalha, pelo que já percebi, foi recontada na clássica primeira temporada de Uchuu Senkan Yamato (aqui conhecida como Star Blazers), só que com os japoneses no papel de vencedores. O almirante Domel, de Gamilon, é o próprio Yamamoto – só que com a honra de escolher sua própria morte – e a perda da frota de porta-aviões não poderia ser mais clara.

Deixando de lado o desenho animado, a história de Pearl Harbor não é tão interessante quanto Midway. Pearl Harbor, para quem conhece um pouco, é uma versão modernizada da estratégia japonesa para se defender da ameaça russa no Pacífico em 1904-5 em um conflito que envolveu a Coréia e a China como territórios e a Rússia pré-bolcheviques e o Japão como atores. O engraçado é que, naquela época, o ataque-surpresa japonês foi saudado pelo seu maior aliado, a Grã-Bretanha, como um sucesso, uma boa estratégia ou algo assim enquanto que, no ataque a Pearl Harbor, que também foi deflagrado sem aviso formal de guerra, foi condenado. Coisas da diplomacia…

Fica aí a recomendação. Compre o DVD deste documentário e/ou o filme e repare no impacto das diferentes tecnologias nas duas frotas e no terrível problema de reconhecimento aéreo do almirante Nagumo e nas consequências do mesmo para todo o restante da guerra.