Balanço Competitivo na Divisão de Acesso do Gauchão 2017: os dois grupos da fase classificatória foram igualmente competitivos?

Baseado no trabalho em que medimos o Balanço Competitivo para os campeonatos brasileiros (1971-2009), resolvi, por curiosidade, verificar o valor do balanço competitivo da divisão de acesso do gauchão de 2017. Basicamente, olhei para a fase mais longa, a classificatória, em que os times estavam divididos em dois grupos (cada time jogou 14 partidas) e usei duas das medidas citadas no artigo: o índice de Hirschman-Herfindahl (H) ajustado e razão de concentração C4 (C4). Note que o primeiro é medido observando-se a variável vitórias e, o segundo, os pontos ganhos.

Em uma competição perfeitamente balanceada, tanto H como C4 seriam iguais a 100. Em qualquer uma delas, por exemplo, uma queda de 25% no grau balanço competitivo levaria as medidas a 125 (este é, exatamente, o exemplo dos autores do artigo).

Assim, para o grupo A, H = 108.59 e C4 = 120. Para o grupo B, H = 130.86 e C4 = 132.88. Dito isto, percebe-se que, segundo o índice H, o grupo A apresentou um grau de balanço competitivo maior do que o do grupo B (pois 108.59 é menor do que 130.86). O mesmo pode ser dito do índice C4 (120 contra 132.88).

Por que medir o balanço competitivo? A literatura aponta esta variável como importante na receita dos clubes, embora isto não seja consensual entre os pesquisadores da área. A idéia é de que o público será mais atraído ao estádio quanto maior for o grau de indecisão sobre quem poderá ser o vitorioso (um exemplo oposto extremo seria o de um campeonato com um super-time acompanhado de times absurdamente fracos…para quer ir ao estádio ou mesmo comprar pacotes pela TV paga?).

Seria interessante que os que planejam as regras de uma divisão de acesso como esta pensassem na receita dos clubes já que, nestes casos, ela é baixa (e os borderôs, infelizmente, não possuem muita credibilidade como fontes fidedignas de receitas com jogos…). Supondo que algum grau de competitividade seja importante para atrair torcedores aos jogos, ceteris paribus o amor ao clube e outras variáveis, talvez o grupo B tenha sido ligeiramente pior em termos de receita para seus componentes. Será? Precisaríamos olhar mais para os dados.

De qualquer forma, trata-se de um exercício interessante que pode ser feito por qualquer estudante de Ciência Econômica (ando de mau humor, então usarei o singular. Estou cansado de charlatanismo…).

p.s. existe um verbete em português na Wikipedia sobre a divisão.

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Quando disserem, pejorativamente, a você que o Prêmio Nobel de Economia não é bem o Nobel…

…você já pode se sentir menos ofendido (ou não? Descubra lendo até o fim o artigo a seguir)  ^_^

Dynamite Regulations. The Explosives Industry, Regulatory Capture and the Swedish Government 1858-1948

Josefin Sabor, Lena Andersson-Skog

Abstract
In this article, we argue that the regulation of the explosives industry in Sweden between 1858 and 1948 can give a slightly different perspective on regulatory capture. In this case it was the upstart company, the Nobel Dynamite Company, and not the established explosives companies that in negotiation with the regulator succeeded in establishing new national regulations. Through three different cases we show that the method behind this successful capture was indirect and direct with a common trait of risk minimizing for the public that developed in cooperation with the regulator. 

O artigo é aberto e você pode obtê-lo sem pagar taxas.

Custos de Transação da Marvel Comics

Em Marvel Comics – a história secreta, de Sean Howe (Editora Leya, 2013), encontro um exemplo para se explicar o conceito de custo de transação que me lembra muito o que a profa. Farina usava no mestrado.

Bem, ela falava de costureiras no bairro do limão (em SP), mas vejamos como era o caso do famoso Stan Lee. Ele criou uma seção de resposta ao leitor que vendia a idéia de que o ambiente de trabalho era um no qual “…os joviais artistas trocavam piadas enquanto labutavam alegremente sob o mesmo teto” [p.53].

Entretanto, não era bem assim. Jack Kirby aparecia lá uma vez por semana, por exemplo. Vejamos o depoimento de Don Heck: “Aquilo era um negócio que o Stan Lee botava nas revistinhas, mas os artistas ficavam esparramados pela ilha (…). Eu ia ao escritório umas duas vezes por semana e outros iam também duas vezes…mas a gente nunca se cruzava”.[p.53-4]

No exemplo da profa. Farina, as costureiras não se concentravam em um único espaço físico porque o custo de se fazer isso seria maior do que deixá-las em suas casas. O custo da transação de se colocar todas num mesmo galpão seria maior do que na opção de se buscar os produtos nas casas das costureiras.

De certa forma, isso me lembra o conceito de subaditividade de custos (a idéia de que o custo de se ter uma planta produzindo vários bens é menor do que a soma de custos de várias plantas produzindo os mesmos vários bens). Pensando no caso da Marvel, é como se tivéssemos o contrário, ou melhor, a não-subaditividade de custos, pois cada desenho seria produzido na casa de cada desenhista. Pensando mais ainda, é um processo um tanto quanto mais interessante, pois, parte do processo era o desenho, mas Stan Lee daria seu toque final no escritório.

Bem, é isso por enquanto. Até mais.

Fusões e Aquisições: Cervejaria Ritter em Pelotas e a Brahma

Quem se lembra do CADE? Sim, o nosso órgão de defesa da concorrência. Aliás, ótima cartilha esta do link.

Sempre haverá alguma polêmica sobre se uma fusão é prejudicial à concorrência ou não, não é? Assim, eu me pergunto o que aconteceria se tivéssemos uma autoridade como o CADE, na década dos 40, analisando o caso da compra da Cervejaria Ritter de Pelotas pela Brahma.

Na virada do século XIX era uma das maiores cervejarias do Brasil, produzindo, 4.5 milhões de garrafas por ano. Nessa época já havia obtido prêmios internacionais, devido à qualidade garantida pela importação de equipamentos e técnicos alemães. Em 1911, era responsável pela metade da arrecadação da Mesa de Rendas de Pelotas.
(…)

A cervejaria fundiu-se, em 1889, com a Cervejaria Sul-Riograndense, fundada pelo imigrante alemão Leopoldo Haertel.
Suas atividades foram encerradas na década de 1940 quando foi comprada pela Cervejaria Brahma, não tendo sido utilizada mais para a produção de cerveja ou outros produtos, apenas como depósito e distribuidora. [Fonte: Wikipedia]

Será que esta compra seguida de fechamento da planta aumentou a eficiência ou apenas foi um ato anticoncorrencial?

p.s. Não se esqueça que as leis antitruste surgiram nos EUA muito antes da criação do CADE no Brasil. Sim, estamos falando do século XIX…

Organização Industrial – uma área de temas interessantes inesgotáveis

The Economics of Collective Brands

Arthur Fishman
Bar Ilan University – Department of Economics

Avi Simhon
Hebrew University of Jerusalem

Israel Finkelshtain
Hebrew University of Jerusalem

Nira Yacouel
affiliation not provided to SSRN

September 12, 2010

Bar-Ilan University Department of Economics Research Paper No. 2010-11

Abstract:
We consider the consequences of a shared brand name such as geographical names used to identify high quality products, for the incentives of otherwise autonomous firms to invest in quality. We contend that such collective brand labels improve communication between sellers and consumers, when the scale of production is too small for individual firms to establish reputations on a stand alone basis. This has two opposing effects on member firms’ incentives to invest in quality. On the one hand, it increases investment incentives by increasing the visibility and transparency of individual member firms, which increases the return from investment in quality. On the other hand, it creates an incentive to free ride on the group’s reputation, which can lead to less investment in quality. We identify parmater values under which collective branding delivers higher quality than is achievable by stand alone firms.

Eu já fui mais entusiasta de Organização Industrial – ainda sou, mas menos do que antes – e devo dizer: há temas inesgotáveis nesta área de pesquisa. Este texto aí citado é um dos que dá vontade da gente parar de fazer o que está fazendo para estudá-lo. Mas meu tempo é muito escasso.

Editoras e o cartel: por que tão poucos estudos?

Eis aí uma interessante notícia: diante da possibilidade de se verem engolidas pelos ebooks, editoras se unem. Há quem diga que são ganhos de eficiência – provavelmente existem, já que se uniram – mas como será o arranjo interno? E a competição? Afinal, alguém já conseguiu, nestes 500 anos de história, estudar o mercado editorial brasileiro?

Há tantas teses sobre inflação, sobre astrologia pterodoxa, sobre a cor da cueca de Karl Marx, mas há algum estudo aplicado ao mercado editorial brasileiro? Ou só os consultores conseguem dados nesta área?

Eis aí outro exemplo do problema do capital humano (já se juntou ao meu clube?): escassez de dados, má qualidade da estatística aplicada (e do ensino de estatística) e discursos insanos de gente que diz que economia e métodos quantitativos são seres estranhos entre si são todas características de nosso subdesenvolvimento econômico.

Mas as coisas evoluem. Por exemplo, a política monetária, ainda sob ataque dos astrólogos pterodoxos (até ofendo, sem querer, astrólogos bem-intencionados, sorry guys) só não é consenso para quem nunca teve que trabalhar com ela, na prática. No mercado, onde o salário não está ligado ao número de discursos “alternativos”, mas sim ao conhecimento dos dados, o incentivo para falar asneiras sobre política monetária é bem menor. Já na academia, notadamente nos departamentos de economia cujos incentivos são todos políticos e pouco eficientes, discursos cabeças-de-word-le-monde-diplomatique-carta-aos-caros-amigos-da-capital abundam.

Abundam mesmo. Inclusive nas privadas, não apenas nas públicas…se é que você me entende.

Cartéis e a hipótese da captura

Um aluno fez uma pergunta mais ou menos assim, hoje (17/08), em Jogos. Só que disse ter lido um artigo de “esquerda” sobre o tema (resumo: o FED é capturado pelos bancos norte-americanos). Engraçado como o mesmo tema aparece na literatura econômica de corte liberal. Por exemplo, em George Selgin.

O que eu disse em sala é: estamos longe de ter evidências de que o FED tenha sido capturado pelos bancos norte-americanos. A hipótese é interessante, mas testá-la é bem difícil. Isso sem falar no aspecto pouco científico da afirmação a priori. O ponto é: testar esta hipótese não é a mesma coisa que fazer jornalismo investigativo embora o segundo possa nos fornecer pistas para um eventual teste.

O problema da ciência é que um mesmo resultado, eventualmente, pode vir de dois modelos diferentes (pense no problema econométrico…). Por isso é necessário o teste da(s) hipótese(s).

Dica de palavras-chave no Google: George Stigler, captura da agência, Sam Peltzman, George Selgin.

Boas notícias

Nosso grupo pré-COPOM, como sabem os leitores deste blog, apresentaram suas expectativas na semana passada. Espera-se um aumento de 0.5 pontos na Selic. A boa notícia é que o parecer está menos baseado em chutes e análises verborrágicas e mais em números e previsões.

Agora, a segunda parte: na semana passada, também, meus alunos de Organização Industrial (nome adotado em 99% do mundo…mas aqui é “Concorrência Imperfeita e Teoria dos Jogos”, como se ambas fossem coisas distintas…) me entregaram um trabalho que eu pouco editei e que representa, para mim, a síntese entre Organização Industrial e História Econômica. Este trabalho representa um esforço importante dos alunos porque, como disse o Pato lá no Econosheet, trabalho em grupo é complicado (mas se ele ler o Oz Shy, perceberá que existe um incentivo que funciona…). Além disso, há a relação com a Econometria, com a História Econômica (óbvio!), outros métodos quantitativos (calibragem, via PCAIDS), sem falar nas dificuldades que poucos enfrentam ao longo do curso, mas que são as mesmas que qualquer pesquisador/consultor se defronta na hora do pênalti.

No mar de má notícias que é o Brasil, estas são duas boas notícias.

Mercantilismo e Organização Industrial

Prometi e, mesmo com dificuldades no meu SmartFTP, consegui fazer o upload do arquivo. O trabalho da moçada está aqui. Qualquer erro ou omissão é de responsabilidade dos autores, claro. Minha contribuição, desta vez, foi muito pequena. Lutei muito para conseguir que o trabalho fosse bem corrigido antes de sua entrega.

Agradecemos os elogios e críticas dos leitores.

Hã? O tema? Ah sim, trata-se deste simples exercício contrafactual. Os alunos estudaram um bocado e, talvez, tenhamos obtido algo mais próximo do ideal de um trabalho, digamos, wagneriano.

Aula interdisciplinar de Marketing

Building Brand Awareness in Dynamic Oligopoly Markets
Prasad A. Naik – Chancellor’s Fellow and Professor of Marketing, University of California Davis, Davis, CA 95616 panaik@ucdavis.edu
Ashutosh Prasad – Associate Professor, School of Management, University of Texas at Dallas, Richardson, TX 75083-0688 aprasad@utdallas.edu
Suresh P. Sethi – Ashbel Smith Professor of Operations Management, University of Texas at Dallas, Richardson, TX 75083-0688 sethi@utdallas.edu

Companies spend hundreds of millions of dollars annually on advertising to build and maintain awareness for their brands in competitive markets. However, awareness formation models in the marketing literature ignore the role of competition. Consequently, there is a lack of both the empirical knowledge and normative understanding of building brand awareness in dynamic oligopoly markets. To address this gap, we propose an N-brand awareness formation model, design an Extended Kalman Filter to estimate the proposed model using market data for five car brands over time, and derive the optimal closed-loop Nash equilibrium strategies for every brand. The empirical results furnish strong support for the proposed model in terms of both goodness-of-fit in the estimation sample and cross-validation in the out-of-sample data. In addition, the estimation method offers managers a systematic way to estimate ad effectiveness and forecast awareness levels for their particular brands as well as competitors’ brands. Finally, the normative analysis reveals an inverse allocation principle that suggests – contrary to the proportional-to-sales or competitive parity heuristics – that large (small) brands should invest in advertising proportionally less (more) than the small (large) brands.

Eis aí um interessante exemplo de como fazer um trabalho interdisciplinar (de alto nível) em Marketing, considerando a tão falada (e pouco utilizada, exceto para baixar o nível…) interdisciplinaridade.

Suquinhos cartelizados

Note, no caso da Del Valle, você, estudante de economia, o que Beth Farina pede. É uma boa pista de como um economista deve trabalhar em temas como este.

O cartel do xadrez na era soviética

Interessantíssimo artigo de Charles Moul e John Nye. Aí vai o resumo:

We expand the set of outcomes considered by the tournament literature to include draws and use games from post-war chess tournaments to see whether strategic behavior can be important in such scenarios. In particular, we examine whether players from the former Soviet Union acted as a cartel in international all-play-all tournaments – intentionally drawing against one another in order to focus effort on non-Soviet opponents – to maximize the chance of some Soviet winning. Using data from international qualifying tournaments as well as USSR national tournaments, we consider several tests for collusion. Our results are consistent with Soviet draw-collusion and inconsistent with Soviet competition. Simulations of the period’s five premier international competitions (the FIDE Candidates tournaments) suggest that the observed Soviet sweep was a 75%-probability event under collusion but only a 25%-probability event had the Soviet players not colluded.

Interessante, não?

Fusões e concentrações

O julgamento dessa operação havia começado no mês passado, mas um pedido de vista interrompeu a análise que só foi retomada hoje. A preocupação do Cade é impedir que haja um monopólio do grupo Votorantim no setor de fornecimento de concreto na Região Sul porque, além das fábricas próprias e da aquisição das unidades da Holcim, o grupo tem participações indiretas no controle de outras concreteiras que atuam na região, como a Sita Concrebrás e a Supermix. “A concentração derivada da compra da Holcim pela Engemix é pequena se ignorarmos todas as outras participações da Votorantim em outras concreteiras da região,” ressaltou em sua análise a presidente do Cade, Elizabeth Farina.

Bons pensamentos para quem estuda Organização Industrial. Esta outra matéria fala um pouco mais sobre o problema.

Contrate seu gerente

Suponha que você tenha algum poder de mercado e queira contratar um novo gerente (um “braço direito”, por assim dizer). O que deve fazer? E o que isto tem a ver com a estrutura de mercado ou com a estratégia adotada pela concorrência? Quais as implicações de sua estratégia para a sociedade? Eis aí perguntas que somente alguém de Organização Industrial poderá responder de forma acurada. O artigo abaixo é um bom exemplo. Olha o resumo (clique nele para ler o artigo):

This paper examines the bargaining problem between firms’ owners and managers over their managerial delegation contracts in a duopolistic market with differentiated-products. Assuming that delegated managers make every managerial decision in the market, we analyze how the managers’ bargaining power affects social welfare and firms’ profits for each case of sequential quantity competition and sequential price competition. We show that the relative increase in the managers’ bargaining power leads to decrease in firms’ profits but improves social welfare in each case, and that this result holds for any case of the degree of product differentiation. This shows that the existing results obtained for the simultaneous move case and a single homogeneous product case are robust in the sequential move cases.

Interessante, não?