O que Oliveira Vianna pensava de Ludwig von Mises?

Descubra no apêndice deste artigo.

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De estereótipos perpetuados por sociólogos: o caso do mineirinho pão-duro

Poupar é o caminho!

Poupar é o caminho, uai!

Minas, por exemplo (…) com uma população superior à de vários Estados europeus. Neste Estado, é dominadoramente abundante o tipo do ‘rentista’. Encontramos ali, talvez, o nosso paraíso do Pré-capitalismo, portanto.

No ponto de vista da mentalidade econômica, o mineiro pode ser considerado o francês do Brasil: poupado, seguro, extremamente parcimonioso, desprovido do gosto da especulação e da aventura, principalmente no campo da indústria. Tem um padrão de viver modesto, mesmo quando poderia deixar de tê-lo. Carece visivelmente da vocação para nababo – tão freqüente entre os paulistas. [Vianna, O. “História Social da Economia Capitalista no Brasil, vol.2, Ed. Itatiaia/UFF, 1987, p.66]

Assim, paulistas têm vidas nababescas e mineiros são pão-duros. Experimente encontrar um rico mineiro na zona sul de Belo Horizonte. Ele não é muito diferente do paulista nababesco.

Agora, não dá para não parar de rir com a noção de que Minas Gerais é a terra dos rentistas. ^_^

Grandes momentos da sociologia brasileira: ainda Oliveira Vianna

É engraçadíssimo ler o que alguns acharam ser ciência, muitos anos depois. Por exemplo:

Nos serviços domésticos, as negras ‘minas’, dóceis, afetuosas e possuindo uma inata habilidade culinária, são preferidas como mucamas e cozinheiras. Elas e as de raça fula, porques ão mais belas, elevam-se mesmo, às vêzes, à condição de ‘donas de casa’ ou ‘caseiras (…).
Os mulatos, em regra, mais inteligentes do que os negros puros, mais vivazes e destros, mais ladinos, aplicam-nos os senhores em ofícios mais finos, como sapateiros, sirgueiros, marceneiros e alfaiates, em que se revelam habilíssimos. [Evolução do Povo Brasileiro, José Olympio, 4a edição, 1956, p.150]

Oliveira Vianna é um dos autores mais pitorescos – na minha opinião – da antiga sociologia brasileira. Tem cada trecho engraçado…e, como já falei antes, muita gente achava que “raça” era um conceito científico sério.

O trecho acima não tem erros de lógica, não é? Mas é uma visão científica bem fundamentada? Obviamente que não. Por isso é que retórica não pode ser apreciada apenas em si. Há quem não entenda o que McCloskey escreveu e viva por aí dizendo que o negócio, em Economia, é falar bonito. Nada mais longe da realidade. O ponto é falar de forma elegante, mas sem exageros. Falar para ser entendido.

Agora, de nada adianta falar se você não mostrar evidências científicas sérias. Ou você acha que basta falar que o negrinho do pastoreio é bom jogador de futebol porque você leu isto em um romance qualquer para que isto seja considerado uma séria afirmação científica? Não dá, né?

A análise científica requer mais do que apenas palavras ou estatística? Sim!

Tenho dito sempre aqui que uma correlação não faz verão. Recentemente, meu aluno Thomaz voltou a publicar no blog e, o que é sempre bom, o texto gerou uma saudável polêmica porque, em resumo, ele tentou sustentar sua tese com uma vaga correlação. O debate que, infelizmente, ficou no Facebook e não aqui, seguiu-se com intervenções de Pedro Sant’Anna (co-criador do Nepom), Regis (PPGOM-UFPel) e, claro, este que vos fala.

Existe, claro, uma questão de custo de oportunidade quando se fala em qualquer decisão humana (e não-humana…vide Freakonomics), inclusive a de se publicar textos em blogs. Quem me acompanha há mais tempo sabe que já cometi erros aqui, já exagerei acolá e, com o passar do tempo, tornei-me mais preocupado em esclarecer ao leitor as limitações do que coloco aqui. Não sendo perfeito, obviamente, devo sempre assumir meus erros e omissões.

Mas eu queria apenas voltar ao tema usando um exemplo prático, um case, como disse o Thomaz na polêmica. Aliás, este é um meta-case, já que vou usar um texto (case) para ilustrar o problema.

Lembremos do (mau) uso da estatística em um outrora celebrado autor das sociais, o famoso Oliveira Vianna. O trecho que vou citar a seguir tem um pouco de tudo. No caso, ele se remete não apenas às suas tabulações, mas também à literatura estrangeira. O tema em questão é o valor da ‘raça’ amarela em termos de inteligência.

O problema é o desempenho dos japoneses em testes psicométricos. A hipótese de trabalho:

Estudadas scientificamente pelo processo psycometrico dos ‘tests’, como se comportam ellas? como se comporta especialmente a [raça] japoneza em confronto com as raças brancas, especialmente a anglo-saxonia? [Oliveira Vianna (1938) Raça e Assimilação, p.208]

Não se sinta constrangido com o trecho acima. Lembre-se que a eugenia já foi muito popular entre o pessoal das sociais nos anos 30. Narloch, em um dos seus “guias politicamente incorretos”, lembra-nos mesmo que Allende era um entusiasta da eugenia (embora sua admiração viesse com uns 20 ou 30 anos de atraso…).

Então, veja, havia um contexto na Sociologia, Antropologia, enfim, em que a turma que estudava a sociedade achava ser “raça” um conceito central.

Oliveira Vianna faz mais: ele cita, então, um estudo norte-americano:

Os dois pesquisadores americanos (que visivelmente não morrem de amores pelos orientaes, principalmente os japonezes) foram forçados a concluir que as duas raças amarellas, com especialidade a japoneza, estudadas scientificamente em relação aos ‘tests’ da intelligencia e do caracter (temperamento), não são em nada inferiores a nenhuma das raças européas e – o que é mais surprehendente – em alguns dos ‘tests’ se mostraram mesmo superiores! [idem, p.208]

Repare no texto de Oliveira Vianna. A despeito do português impecável (e do bela grafia dos anos 30…), o autor não consegue disfarçar sua surpresa com o fato de que japoneses poderem se sair bem em testes psicométricos. Melhor ainda é o que ele diz ao final do pequeno capítulo:

O japonez é como o enxofre: insoluvel. E’ este justamente, o ponto mais delicado do seu problema immigratorio, aqui como em qualquer outro ponto do globo. [ibidem, p.209]

racistasA psicometria é uma ciência que, como qualquer outra, tem sua história cheia destes preconceitos que são típicos de cada época. Oliveira Vianna, desta forma, não é um homem descolado do contexto histórico. A bem da verdade, o racismo não era a única forma de se pensar a sociedade e há teses e teses sobre isto – em especial sobre este autor – no mercado.

O que temos é um raciocínio construído com base em uma estatística ruim – não se vê muito esforço do autor em fundamentar suas hipóteses de forma muito profunda. Há um ou outro cálculo de indicadores em seu texto, mas nada mais do que isso.

Assim, a análise científica dele tem de tudo um pouco. Citam-se dados, referências da literatura da época, nacional ou estrangeira, enfim, uma prática não muito diferente da que usamos hoje. A diferença, talvez, esteja em alguns pontos:

a) Nem sempre está claro quando Oliveira Vianna é normativo ou quando é positivo. Ou melhor, em seu livro, mistura-se opiniões pessoais com teses positivas. Não é estranho, portanto, que tantos o acusem de racismo enquanto outros achem que ele apenas seguia a literatura da época. É a mesma polêmica que alguns levantam ao ler o livro do Narloch ao se defrontarem com o pensamento ‘eugenista’ de Allende.

b) Oliveira Vianna busca respaldar suas opiniões em um texto que não é apenas literário. O livro tem cálculos de índices, tabelas e gráficos (como o famigerado gráfico acima) para tentar ajudar em seu argumento. É certo que gráficos são importantes, mas e a lógica?

c) Oliveira Vianna não tem um único teste estatístico para testar as hipóteses que levanta. Por exemplo, ao final do livro, ele tem o artigo que talvez seja o mais polêmico de todos: O problema do valor mental do negro. Obviamente, o nome desperta uma certa ojeriza, embora, como já disse, isso fosse popular no passado (lembre-se de Galton que, aliás, ele cita). Neste ensaio, ele cita um único estudo estatístico (com uma única amostra) para tentar mostrar suporte (ou, se quiserem: suportar (no pun intended)) a tese de que uma raça teria menos possibilidade de gerar pessoas com ‘valores mentais’ do que a outra (e adivinhe que ‘raça’ é…).  Em seguida, ele cita algumas referências sobre a história da África para sustentar a tese, desta vez, tentando mostrar que civilizações avançadas africanas não eram, originalmente, negras.

O que se conclui disso tudo? Na minha opinião, é simples: você pode seguir ‘consensos’ e pode se valer de um pouco de estatística, inclusive, criando categorias próprias (‘raças’, por exemplo). Claro que se a ciência não sofre censura estatal, existe sempre a possibilidade de outros autores contestarem suas descobertas.

A polêmica a que me referi no início deste texto enseja este debate, não é? Até que ponto o que fazemos é ‘ciência’, ‘divulgação da ciência’, ‘má ciência’ ou ‘má divulgação da ciência’? Tanto eu como o Leo Monasterio, Andre, Pedro, Thomaz, só para lembrar alguns que publicaram neste blog comigo sempre tentamos fazer os dois primeiros. Você pode sempre dizer que estamos seguindo “a mentalidade da época”. É verdade. Não como falsear esta afirmação. Mas acho que estamos no caminho certo. Usamos a Teoria Econômica, esta que não demoniza pessoas por raça, credo ou time de futebol. Esta mesma teoria que sempre esteve aberta a novos conceitos (veja até onde chegamos). Não que não existam grupos de fanáticos que desejam apenas fazer exegese ou impor seu credo político sobre outros. Eles existem. Mas a esperança é que a boa ciência triunfará.

Ah sim, para fazer uma homenagem aos racistas no futebol, vai aí uma outra tabela do mesmo livro.

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Grandes momentos dos estudos raciais no Brasil: vocês são racistas, que se entendam!

Ah, o racismo…

De maneira que as cidades do período colonial funcionam como poderosos centros de seleção e concentração dos elementos brancos superiores. São êsses elementos superiores que, deslocando-se para o campo e entrando na aristocracia rural, concorrem para assegurar a esta classe o alto coeficiente ariano e eugenístico, que tanto a distingue nessa época (…). [Oliveira Vianna, Evolução do Povo Brasileiro, José Olympio Editora, 1956 (4a edição), p.143]

Honestamente, o que ainda me surpreende é o grau de popularidade que estas idéias ainda encontram entre o povo deste país. Sei de um professor universitário cujo aluno criticou a miscigenação da sociedade brasileira porque a mesma atrapalhava a evolução da mesma.

Claro, há um lado muito engraçado em trechos como este aí no alto. Não há como não rir desta pretensão de que haveria algo como grupos raciais com temperamentos próprios. Aliás, “raças” e ironia são duas palavras que me remetem prontamente ao famoso folclorista Câmara Cascudo.

São calouros, lá se entendem!

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“Eu usaria uma saia em protesto por algum amigo eugenista…”

Câmara Cascudo nos explica a origem da expressão popular São brancos, lá se entendem, ainda hoje em voga (mas muito menos do que posso me lembrar…). Segundo ele, origina-se de uma discusão entre um capitão e um soldado no Rio de Janeiro, no século XVIII. Narra-nos o autor:

O Capitão Manuel Dias de Resende, do Regimento dos Pardos, fora desrespeitado por um seu soldado. Queixando-se ao Comandante do Terço, Major Melo, português cioso da prosápia, mereceu a zombeteira resposta: Vocêis são pardos, lá se entendam! O capitão procurou o Vice-Rei, narrando a indisciplina da praça e a sentença do major. Luís de Vasconcelos e Sousa [o vice-rei] mandou chamar o Major Melo, obtendo a confirmação, mandou-o recolher preso. Preso, eu? E por quê? – Nós somos brancos, cá nos entendemos, informou o futuro conde de Figueiró. A resposta do Vice-Rei (…) teve uma imensa repercussão em simpatia, comentada com aplausos e tornou-se frase feita, empregada nas oportunidades. E não desapareceu. [Cascudo, L da C. Locuções tradicionais no Brasil. Belo Horizonte, Itatiaia, 1986, p.63]

Pois é. Nem a expressão desapareceu, nem os pardos, os brancos e os demais. Nem os calouros e os estagiários, estas pestinhas…

Origens Sociológicas do Discurso Governamental sobre Elites Brancas

Investigando a “elite branca”

Os porta-vozes do governo resolveram racializar a oposição, criando o repudiável termo “elite branca”, numa tentativa de criar uma dicotomia na sociedade brasileira, associando os ricos com a maldade, a sogra, o demônio, além da cor branca, claro. Já o resto, bem, vocês entenderam. O discurso é tão ruim que eles mesmos já se tentam se retratar, timidamente, aqui e acolá.

Mas não custa fazer uma breve investigação sobre as origens destes preconceitos. Eis aqui um belo exemplo. O leitor mais jovem poderá achar que se trata de um sociólogo marxista. Vejam o tom do anti-americanismo tímido, mas visível, unido a uma suposta neutralidade ideológica (à primeira vista, pelo menos) com as críticas ao marxismo soviético.

Realmente, foram os americanos, com as suas numerosas hostes de engenheiros e técnicos, buscando em massa, por assim dizer, na América do Norte, que levaram aos russos, apesar de fanatizados pelo igualitarismo da doutrina marxista, os novos cultos e os novos deuses da Burguesia argentária da Wall Street. Foi justamente esta burguesia – inquieta, ativa, aquisitiva – que lhes levou o Mecanicismo, a Tecnocracia, a Usina-Monstro, a Mass-Production, a Bonanza Farm. Não lhe levou, é verdade, os outros numerosos deuses do seu Politeísmo monetário: a Corporation, o Holding, o Trust, o Pool, o Merger, o Combine, o Businessman, o Captain of Industry, o Business Principle, o Trader’s Point of View; mas isto somente porque ali a free competition não existe – e é o Estado o único e exclusivo Capitalista…[Oliveira Vianna, História Social da Economia Capitalista no Brasil, 1987, 257, Ed. Itatiaia, Belo Horizonte]

Sentiu saudades da fazendinha? Pois é. O autor aí não era fácil não. Mas o melhor é o seu discurso. Já desde os anos 50, quando Oliveira Vianna escreveu os manuscritos que resultaram neste livro, tínhamos o mesmo discurso contra a “elite branca” no Brasil. Quem estudou um pouco de História no colégio deve se lembrar dos integralistas, por exemplo.

Havia até um pensador que achava que a raça (palavra que voltou à moda graças ao pessoal da esquerda) brasileira seria gradualmente “branqueada” pela miscigenação. Ou seja, desde os anos 30, 40 e 50, nossas elites (sejam lá quem forem, mas o pessoal do governo deve saber, já que criaram este termo) já tentavam dar um jeito de colocar todo mundo no topo da pirâmide.

Mas o Oliveira Vianna é insuperável. Mudando algumas palavras aqui e acolá, a gente pode transformar o texto dele em um destes que se vê por aí em blogs pagos que fornecem “fast-food-for-brain” para alguns aspirantes a intelectuais. Tem tudo lá: o elemento “anti-norte-americano”, o suposto progressismo (“sim, eu sei, erramos na URSS, mas a intenção é boa, viva!”) e aquele discurso tupiniquim, nacionalista, que exalta o matuto brasileiro, latino-americano, contra as malignas invenções do capitalismo mundial.

É, a origem é meio fascistóide mesmo. Esta mania de socialismo com nacionalismo que, etmologicamente, deveríamos chamar de nacional-socialismo, embora alguns se ofendam (não sem razão, eu sei, mas não cobertos da mesma, é bom lembrar…) com isso.

Minha conclusão? Uma só: vade retro, Oliveira Vianna!

Os eficientíssimos loiros dolicocéfalos de Oliveira Vianna e o “rent-seeking”

Oliveira Vianna errou em um monte de coisas. Se houvesse superioridade racial no Sul, proteção maternal-paternalista do governo seria algo impensável.

O vinho brasileiro poderá ter maior proteção tarifária para proteger a indústria nacional. Em reunião com representantes da cadeia produtiva do setor e com os deputados Pepe Vargas (PT-RS) e Henrique Fontana (PT-RS), o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, acenou com medidas pontuais para evitar que as importações prejudiquem as vinícolas brasileiras.

O governo cobrou dos produtores um plano para o setor, que permita enfrentar melhor a concorrência estrangeira. O ministro indicou que, a depender de negociações com a Argentina, sócio no Mercosul, e o Chile, com quem o país tem acordo de livre comércio, poderá até aplicar mecanismos de “valoração aduaneira”, pelos quais a Receita Federal fixaria preços mínimos de importação, para evitar subfaturamento e fraude nos vinhos importados dos dois países.

Maluco mesmo é lembrar do discurso bairristóide que muitas vezes ouvi lá: “a culpa do partido do sr. da Silva é que a cúpula tem muito paulista e poucos gaúchos”. Empresários gaúchos, Fórum da Liberdade…IEE e IL-RS, manifestem-se!

Salvar o capitalismo dos capitalistas é o trabalho do IEE, IL-RS, IL-RJ, Instituto Millenium e, agora, do braço virtual do CATO, o Ordem Livre.

Sim, sim, Oliveira Vianna era mulatinho, mulatinho (e, ironia das ironias, não precisou de quotas raciais para chegar onde chegou…para espalhar suas teses sociológicas estranhas e de tom racista, fosse isto a moda da época ou não).