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Entendendo hipóteses dos modelos: o caso da oferta de trabalho totalmente inelástica

A hipótese de uma oferta de mão-de-obra absolutamente rígida é a caricatura de uma sociedade onde os indivíduos não dispusessem nem de amigos nem de familiares, não dispondo senão de duas alternativas: trabalhar ou morrer de fome. No mundo real há a alternativa de o indívíduo se tornar dependente; isso pode tolher consideravelmente a liberdade do homem ou da mulher, mas representa uma alternativa de sobrevivência. Na medida em qeu se considera a família, e não o indivíduo, como a unidade econômica, chega-se à conclusão de que a oferta de trabalho pode apresentar razoável coeficiente de elasticidade pela variação do número de pessoas ativas dentro da família. [Simonsen, M.H. Macroeconomia, APEC, Vol2. 2a ed, 1974, p. 241]

Observações:

  1. Não descobri isto lendo 140 caracteres na tela do meu celular, mas sim em um livro. Logo, leitores-estudantes, leiam livros, pelo amor de Deus. Deixem de preguiça e este papo de que “ah, tá tudo salvo no meu celular”. Salvar arquivos não é sinônimo de estudo.
  2. Nunca havia lido uma explicação tão singela e, ao mesmo tempo tão inteligente acerca da hipótese de oferta de trabalho inelástica. Simonsen tinha o dom, realmente.
  3. Há uma implicação interessante, portanto: se você trabalha com um modelo em que as unidades de mensuração que são households (“famílias”, numa tradução aproximada), então eu esperaria uma oferta de trabalho (por hipótese e/ou estimada) menos inelástica do que uma oferta de trabalho individual. Isto é, digamos que estimei uma oferta de trabalho para uma família e a elasticidade-preço dela (no caso, o preço da mão-de-obra, né?) for de, digamos, 0.2, então eu diria que a elasticidade da oferta de trabalho do indivíduo seria, no máximo, 0.2.
  4. Outra forma de dizer a mesma coisa é pensar no insight básico dos livros-texto de microeconomia: a oferta de uma firma é sempre mais inelástica do que a oferta de mercado para o produto desta mesma firma. É exatamente o que Simonsen explicou de maneira brilhante lá no alto.
  5. Logo, trabalhar com modelos em que a unidade básica é uma família, não é a mesma coisa de se trabalhar com “n vezes o mesmo indivíduo”, exceto sob esta hipótese explicitada. Afinal, como bem sabemos desde os trabalhos de Gary Becker, o modelo de household capta a diversidade de uma família (as famosas questões: quem lava os pratos e quem trabalha, etc). Ok, como eu disse, você pode fazer a hipótese de que a família é simplesmente uma replicação do indivíduo, mas isso seria uma simplificação desnescessária (veja o ponto 3: dali temos uma riqueza maior de análise, não?).

Ok, eu posso ter me entusiasmado um pouco, mas didaticamente, acho que Simonsen foi brilhante. Muitos passam por esta observação sem captar as sutilezas e depois, lá na frente, ficam confusos na interpretação do modelo. É sobre isto que estou tentando explicar: Simonsen foi um dos melhores economistas em explicar intuições de modelos.

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Bando de pobres preguiçosos! Ou…

Estes latinos vagabundos…mesmo?

Em “Microeconomia & Comportamento”, de Robert Frank, um trecho muito legal que vale ser citado:

“Os colonialistas que empregavam mão de obra não qualificada em países menos desenvolvidos antigamente viam como um sinal de atraso o fato de os funcionários trabalharem menos horas toda vez que seus salários aumentavam. Mas (…) esse comportamento é consistente com a busca racional de um objetivo perfeitamente coerente”. [Frank, R.H. “Microeconomia & Comportamento”, 8a ed, Bookman, 2013, p.466]

Dá para entender como muitos preconceitos são falaciosos quando se pensa de maneira científica, i.e., com a Ciência Econômica na cabeça? O ponto, simples, é que muitas vezes o sujeito é tão pobre que, para um dado nível de salário não tão alto quanto o de um europeu colonizador, ele já consegue viver confortavelmente.

Faz sentido? Pense: se você é pobre e mora em um lugar igualmente pobre, um salário que não precisa ser o de um executivo de Wall Street já é suficiente para te dar uma vida muito boa, dados os padrões locais.

Aliás…

Quando nos lembramos que, no Brasil, um escravo liberto comprava outro escravo para sinalizar seu novo status social, você percebe que a lógica econômica é a mesma: uma vez escravo, sem direitos e sem salário, não faz sentido trabalhar muito (e daí o preconceito de que “negro tem que apanhar para trabalhar como gente”). Uma vez que ele ascende nesta sociedade que pouco valoriza o trabalho assalariado de negros, ele adquire outro escravo.

Conclusão

Estudar economia liberta a gente de muitos preconceitos, heim?