Economia Solidária, versão nazista

O SD sustenta posições demasiado dogmáticas, com a finalidade, nas palavras de seu próprio chefe, de inserir a economia ‘num contexto étnico’. Ohlendorf entende por isso a implantação de uma economia ‘societal’ (…), isto é, völkisch[,] uma economia em conformidade com o determinismo racial. Por mais absconso que possa parecer esse programa, ele encontrava uma materialização perfeita no debate econômico nazista. Contra o modelo tecnocrático produtivista de Speer, de um lado, e contra o que Ohlendorf chamva de ‘as correntes coletivistas do Partido’, de outro, este último defendia uma ‘linha favorável à classe média’, nas palavras de seus adversários, o SS-Sturmbannführer d’Alquen, redator-chefe de Das Schwarze Korps. [Ingrao, C. (2015) Crer & Destruir – os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista, p.147]

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– É, eu queria uma economia mais solidária, de acordo com os preceitos do meu partido. Deu no que deu.

O trecho acima me fez lembrar de propagandistas políticos que sempre tentam dizer que sua proposta não é nem radicalmente individualista e nem radicalmente coletivista. Também me fez lembrar o conceito vazio de cabeça-de-planilha que se pretende uma ironia com a visão de cálculo econômico racional.

Além disso, o trecho me faz pensar que existem, independentemente do espaço e do tempo, sempre, indivíduos tentando justificar seu bem-estar (na forma de poder e influência, como no caso de Ohlendorf) com termos que sempre me remetem ao famoso teorema do eleitor mediano. Incrível como é (quase?) uma regularidade…

p.s. o livro é bem chatinho (algo no estilo do autor não me agradou, mas não sei bem descrever o que é), mas informativo.

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Nazistas e poupança

Eu pensei em colocar um título do tipo: “nazistas entendiam Böhm-Bawerk?”, mas certamente apareceriam uns trolls aqui me acusando de ser um sujeito malvado, feio e que causa choro em crianças pois, para alguns, Böhm-Bawerk é tido como um deus, embora ele fosse humano.

Aí, a gente deixa de lado o alerta anti-trolls e vamos ao que interessa: nazistas eram racionais e a ideologia não fez diferença alguma no que diz respeito às suas decisões de poupança.

Economia nazista

Nada como dois artigos interessantes:

Averting the Nazi Seizure of Power: A Counterfactual Thought Experiment
Christian Stögbauer and John Komlos
Department of Economics, University of Munich

Abstract: The Great Depression in Germany led to the radicalization of the electorate, leading the country and then the world into the darkest days of Western Civilization. Could it have been otherwise? This paper explores whether the NSDAP takeover might have been averted with a fiscal policy that lowered the unemployment rate in those parts of Germany where their support rose most rapidly. A counterfactual simulation model based on estimates of the relationship between unemployment and the radical vote at the electoral district level provides a framework for considering how much lower unemployment would have to have been in those districts to prevent the NSDAP from becoming a formidable political force in Germany. Budget neutrality is maintained, so that the simulations do not depend on an expanded fiscal policy. The results indicate that such a policy could well have averted the NSDAP’s seizure of power, and the catastrophe that followed in its wake.

Guns and Butter – But No Margarine: The Impact of Nazi Agricultural and Consumption Policies on German Food Production and Consumption, 1933-38

Paper prepared for the XIV International Economic History Congress,

Helsinki, Finland, 21 to 25 August 2006

Session 85: Guns Versus Butter Paradoxes in History
22 August, 14:00-17:30 h

Mark Spoerer and Jochen Streb

This version: 1 June 2006

Abstract
The implementation of the Nazi ideology into agricultural institutions and the suppression of private consumption had a stronger impact on German food production and consumption than has hitherto been thought. We argue that the reforms of agrarian institutions reduced the growth of total factor productivity in German agriculture between 1933 and 1938 considerably. This exacerbated the restrictive effects of prioritizing the armaments industry to the detriment of the consumer goods industry and private consumption. As a consequence of less efficient food production and of consumption constraints, German consumers were forced to a diet and thus to a material standard of life that were much more frugal than national income figures suggest.

É a história econômica séria nos ajudando a entender um terrível período da história. Note estes trechos, no segundo artigo:

At a time when Keynesian ideas began to dominate the thinking of economic policy makers the apparent success of the Nazis’ interventionist policy between 1933 and 1939 was seen as a case study which might serve as a possible toolbox for democratic planners as well and was thus worth to be analyzed thoroughly.

Não apenas isto, como o próprio John Kenneth Galbraith parece ter se enganado terrivelmente sobre o regime nazista (ver p.2-3). Mais:

(…) agriculture was the only economic sector in which the Nazis implemented their ideological aims at large scale. The two most important institutional changes were the Reichsnährstand and the Reichserbhofgesetz (Hereditary Farm Law). Both new institutions decreased the scope of action of the individual farmers. The Reichsnährstand regulated prices and production programs by direct interventions which considerably constrained pioneer farmers’ possibilities to introduce innovative products or production methods according to their private knowledge, and therefore probably resulted in lower productivity growth.

A conclusão deste segundo artigo tem um interessante debate sobre como os alemães, prejudicados em seu consumo, teriam apoiado o regime de Hitler.

O bolivarianismo que temos dentro de todos nós

Celso Amorim também é humano.

p.s. aposto que a blogosfera já fala de “exageros”, “terrorismo do jornal X”, etc. Mas o fato é que pisou na bola e, como diria Freud, há sempre o perigo de ser um ato falho ou, como diria Nash, deve ser uma estratégia, embora eu não possa dizer se é a melhor possível.

Depois, eu é que sou o intolerante…

O senhor tem insistido em que fazer um dossiê não é crime. Mas é correto usar informações que estão dentro do governo e dar a elas uma destinação política?
Não só é correto, como é necessário. É feito por todos os administradores responsáveis. Quando um administrador é atacado a respeito da realização de determinadas despesas e esse administrador quer mostrar que essas despesas que realizou são despesas ordinárias, comuns, feitas por todos os governos e aprovadas pelo Tribunal de Contas (da União), ele tem de fazer anotações para deixar à disposição, por exemplo, de uma CPI, de um inquérito do Ministério Público ou do TCU. Isso não é ilegal nem estranho. O problema é que, neste caso da Casa Civil, o que se começou noticiando foi o seguinte: Casa Civil vazou dossiê para prejudicar Fernando Henrique. Aí sim se criminalizou, nesse caso concreto, a palavra dossiê. Repito: dossiê não é um tipo penal.

Lembro-me sempre daquele juiz famoso que pensava que tudo na vida tinha um claro aspecto político. Ele me mostrou que sob governos socialistas (nacionais ou não), também existia um papel para a Lei, só que era lei, não Lei.

Parabéns, eleitor gaúcho. Quando será a próxima Revolução Farroupilha? Não se esqueça, contudo, que agora tudo começou aí, infelizmente.

Lições de bolivarianismo: Hitler

Caplan rules!

Why Hitler Chose the Jews


A reader sent me an excerpt from a fascinating interview with Hitler (by one Major Josef Hell) on why he singled out the Jews for extermination:

When I now broached the question of what the source of his so strongly felt hatred for the Jews was, and why he wanted to destroy this so undeniably intelligent race – a race to which the Germans and all other Aryans, if not the entire world, owed an incalculable debt in virtually all fields of art and knowledge, research and economics – Hitler suddenly calmed down and gave this unexpectedly sober and almost dispassionate explanation:

It is manifestly clear and has been proven in practice and by the facts of all revolutions that a struggle for ideals, for improvements of any kind whatsoever, absolutely must be supplemented with a struggle against some social class or caste.My object is to create first-rate revolutionary upheavals, regardless of what methods and means I have to use in the process. Earlier revolutions were directed either against the peasants, or the nobility and the clergy, or against dynasties and their network of vassals, but in no case has revolution succeeded without the presence of a lightning rod that could conduct and channel the odium of the general masses.

With this very thing in mind I scanned the revolutionary events of history and put the question to myself against which racial element in Germany can I unleash my propaganda of hate with the greatest prospects of success? I had to find the right kind of victim, and especially one against whom the struggle would make sense, materially speaking. I can assure you that I examined every possible and thinkable solution to this problem, and, weighing every imaginable factor, I came to the conclusion that a campaign against the Jews would be as popular as it would be successful.

In short, Hitler’s take on internal hate-mongering directly parallels Göring’s take on external hate-mongering.The lingering mystery in my mind is how people like Hitler could occasionally admit their true strategy without undercutting their public pronouncements. Perhaps that’s the reason why Mein Kampf was so poorly written?

Genial, não? O homem era um líder nato. Líder de operários, reprimido pela burguesia, com um partido popular, bons aliados, amigos de longa data e uma militância aguerrida. Este era Hitler, um verdadeiro ícone das lutas sociais. Aliás, recomendo fortemente que o leitor procure por “The lost literature of socialism” em livrarias virtuais. É um clássico sobre como autores aparentemente insuspeitos também tiveram seus momentos de totalitarismo. Marx, Hitler, Engels, Stalin, só gente revolucionária. Se você sair na rua com um Hitler na camisa, será bem tratado? E se a camisa tiver a foto de um Che Guevara? Então, vem cá, por que somos intolerantes só com um tipo de assassino? Pergunta retórica, claro, mas onde há fumaça…