O que Oliveira Vianna pensava de Ludwig von Mises?

Descubra no apêndice deste artigo.

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Marx e Mises na Wikipedia: a comparação entre a língua inglesa e portuguesa

Ok, vamos aos acessos às páginas dos artigos “Karl_Marx” e “Ludwig_von_Mises”, em ambas as línguas, na Wikipedia. Por que alguém buscaria isto? Não sei. Pode ser para conhecer o argumento dos autores ou para buscar contradições em suas idéias. Não faço a menor idéia. Mas sei que os gráficos, normalizados (padronizados) são, para o queridinho dos socialistas, Marx:

marx_enpt

Para o queridinho dos austríacos, o Mises:

mises_enpt

Os dados são diários (sim, eu gerei as séries mensais, mas não as apresento aqui) e o que se vê é que o interesse por Mises, em português, aumentou (isto ocorre, embora o gráfico não seja tão claro, por volta de 2011 (viu porque a série mensal pode ser interessante? ^_^)).

Antes que você comemore ou lamente, veja: a Wikipe(é)dia é apenas uma das fontes de acesso das pessoas. Geralmente, o pessoal usa o Google para fazer a busca e, depois, chega à Wikipedia. Então, estamos, talvez, diante de leitores mais voltados ao estudo (superficial ou não, é um leitor mais “filtrado”, por assim dizer, porque está lendo o verbete de uma enciclopédia).

Neste sentido, o crescimento observado para os acessos da página do autor liberal, em língua portuguesa é um inequívoco (supondo que não existam “bots” trabalhando…) sinal de crescimento do interesse (favorável ou crítico, não importa) pelo austríaco.

Interessante pensar no quanto tempo demorou para o mercado editorial reconhecer este fato óbvio (e eu acho que não demorou muito, mas mais do que eu gostaria). Bom, é isso. Chega de falar de autores que atraem tanto estudiosos sérios como fanáticos seguidores. Quem quiser ver mais, basta ver os meus últimos posts neste blog. Foram todos sobre o mesmo tema (frequência de page views na Wikipedia).

Um herói injustiçado da abolição

Por que? Descubra aqui. É, estou repetindo um tema antigo, mas pensar em história econômica “jogando fora” a teoria porque “ela é neoclássica, e não austríaca ou marxista”, como querem alguns black blocs maoístas, é de uma ignorância terrível e eu, como professor, posso não estar qualificado para ministrar um castigo por sua falta de educação, mas sou obrigado a puxar a orelha das pessoas. 

É muito comum enfrentar este tipo de arrogância em debates. O sujeito é mais ou menos assim:

Sentado atrás de uma escrivaninha, anotando palavras e números num papel, ele tende a supervalorizar o significado de seu trabalho. Como o patrão, ele escreve e lê as coisas que outros colegas anotaram, conversa diretamente ou por telefone com outras pessoas. Muito vaidoso, imagina-se parte da elite gerencial da empresa e compara suas tarefas com as do chefe. (Mises, L. (1988). A Mentalidade Anticapitalista, p.24)

Cheio de dinheiro, herdeiro de um negócio mais ou menos bem-sucedido, ou pelo rent-seeking ou pelo empreendedorismo knightiano-kirzneriano (profit-seeking), pensa que porque leu três páginas de um livro de quatrocentas, já viu a verdade (sem sequer se questionar se faz sentido buscar alguma suposta verdade…). 

Não é muito diferente do colega intelectual do departamento de (s)ociologia (obrigado, Gaspari, por criar o termo…) que olha para o colega rico, senta-se à mesa e suspira de tristeza pensando em como a riqueza do colega não o tirou do comportamento racional, mesquinho que, aliás, crê, teoricamente não fazer sentido pois a alienação de classe…e por aí vai. 

No final do dia, eu fico com Alberto Oliva:

(…) não cabe impor ao pesquisador a tarefa de fazer inventários ontológicos que retratem fidedignamente o que a realidade é em si mesma. Sua missão deve ser a de elaborar teorias que se revelem capazes de explicar as propriedades essenciais dos entes aos quais se está conferindo primazia ontológica. (Oliva, A. (1999). Conhecimento e Liberdade, p.114)

Não que isto resolva a questão, como se vê, de quem está correto ou errado, mas creio que nos mostra a impossibilidade de fugir da liberdade que a investigação científica necessita ter. Esta liberdade, obviamente, não é sinônimo de unanimidade (nem poderia), mas é um dos pilares que nos ajuda a avançar. 

Ah sim, a tentativa de desqualificar o adversário, claro, não ajuda muito neste debate. Em última instância, a investigação científica – notadamente a da história econômica – vai nos desvelando camadas e camadas de poeira que turvam a visão. Camadas que estavam lá pelo tempo e camadas que estavam lá porque somos preconceituosos demais para percebermos que o buraco é mais embaixo.

A história econômica já sofreu demais nas mãos de pseudo-professores e também dos doutrinadores. 

Para terminar, apenas um viva. Para quem? Para Manuel Pinho de Sousa Dantas! 

Libertários soltos no mundo real…

…deveriam fazer como Mises?

Excelente levantamento histórico. Mises também viveu no mundo real e, como tal, tinha que fazer escolhas (como ele mesmo ensinou). Há uma lição de sociologia econômica a ser tirada desta revelação sobre Mises e sua vida profissional e certamente ela nos traz ao ponto central do paradoxo de muitos libertários brasileiros: como conciliar discurso e prática?

No mínimo, serve para reflexão.

O maior inimigo da Escola Austríaca, frequentemente, é o Economista Austríaco, também seu melhor amigo. Como assim?

“Nada de dogmatismos, meus caros”. É o que digo aos amigos austríacos sempre. Primeiro, eu acho que é importante notar os artigos da RAE. Temos aqui Horwitz & Lewin usando derivadas, Cowen baseando-se em literatura “neoclássica”, Mulligan usando somatórios e derivadas, Levy & Peart usando previsões para discutir um interessante problema de metodologia, McCabe usando economia experimental (dados, dados, dados!) para falar de bons insights austríacos e, finalmente, Wagner & Oprea fazem uma crítica do livro de Roger Garrison, Time and Money, no qual se vê que bons economistas austríacos estão longe da idolatria (Rothbard nunca errou, Mises está sempre certo, Hayek é um Deus, Kirzner é um gênio), mesmo que esta seja uma perigosa armadilha para os austríacos (que podem transformá-los em pterodoxos, como a muitos “heterodoxos” brasileiros):

If Austrians wish to join the discussion of contemporary macroeconomics, they must let contemporary macroeconomics join the Austrian discussion. This means necessarily that the Austrian tradition will be subject to transformations as it grows, incorporates the better ideas of modern macroeconomics and becomes more robust to its critics. If the tradition is viewed as a fort, this transformation will be viewed as a corruption. But if the tradition is viewed as a town, it will be viewed as healthy infusion of new ideas. This is both the price and reward of participating in a living tradition.

Creio que a jovem blogosfera austríaca tem todo o potencial para fazer algo como Horwitz, Boettke e Garrison, ou seja, levar os insights austríacos para a Teoria Econômica sem medo ou necessidade de rótulos (“se não se chamar austríaco, não brinco”).

Em homenagem ao meu austríaco preferido, Hayek, reproduzo a nota de rodapé 2 do texto de Caplan – um sujeito que gosta de Rothbard, Mises, Hayek e outros, mas não os idolatra – cujo link fiz acima.

While modern admirers of Hayek often present his work as a radical alternative to mainstream economics, there is little evidence that Hayek thought this. Contrast Mises and Rothbard’s stringent rejection of mathematical economics with Hayek’s desire to “…avoid giving the impression that I generally reject the mathematical method in economics. I regard it as indeed the great advantage of the mathematical technique that it allows us to describe, by algebraic equations, the general character of a pattern even where we are ignorant of the numerical values determining its particular manifestation. Without this algebraic technique we could scarcely have achieved that comprehensive picture of the mutual interdependencies of the different events in the market.” (F.A. Hayek, “The Pretense of Knowledge,” in F.A. Hayek, Unemployment and Monetary Policy (Washington, D.C.: Cato Institute, 1979), p.28.

Hayek é como Minas, para os mineiristas radicais que adoram este amontoado de minério, queijo, goiabada e políticos estranhos: Hayek são muitos. Confio na capacidade intelectual dos jovens economistas austríacos brasileiros como confio em minha própria capacidade: com muita (auto-)crítica.

p.s. claro que se formos discutir filosofia com base em insights austríacos, estou muito pouco qualificado. Só posso falar da (ir)relevância de idéias austríacas na teoria econômica.

Debates e Pluralismo…com boa educação, estas coisas funcionam

Pedro Sette e Ronald publicam, hoje, textos similares no espírito. Qual espírito? O do bom debate. Ocorre que pluralismo, em ciência (ou em debates religiosos com e sem liberais), envolve algo que já foi analisado de forma pioneira por Mises e Hayek e ainda hoje é alvo de estudos em Economia: o mercado das idéias.

No fundo, creio, há uma questão moral, normativa mesmo, que vai além do bom debate. O sujeito tem que aceitar correr o risco de se admitir errado neste ou naquele ponto da discussão. Isto implica que as barreiras à entrada devem ser as menores possíveis o que nem sempre é compatível com o ego deste ou daquele sujeito.

Claro que eu acredito que o bom debate e a mudança de paradigmas são coisas que deveriam ser mais bem aceitas por todos mas, justamente nesta hora é que o sujeito treme. De qualquer forma, os dois pequenos textos são recomendáveis. Nem tanto por alguma solução para este problema “de egos”, mas pelo conforto que trazem: mostram-nos que há esperança no debate.