Oferta e Demanda para todos (oferta – e demanda – válidas para todos os dias)

c8grh7ixyaa98uqBem fácil esta: há aumento de demanda no dia do jogo, a firma percebe que pode vender em um dia em que estaria fechada (ou seja, a expectativa de que o custo seja menor que a receita no dia do jogo está valendo). Aí ela abre e faz promoçãohá aumento de demanda no dia do jogo, a firma percebe que pode vender em um dia em que estaria fechada (ou seja, a expectativa de que o custo seja menor que a receita no dia do jogo está valendo). Aí ela abre e faz promoção.

Como é que oferta e demanda não funciona, minha gente?

p.s. desta vez, a propaganda é gratuita. Mas só desta vez.

Animalis Economicus

Psychonomic Bulletin & Review, 2002, 9 (3), 482-488

Self-control by pigeons in the prisoner’s dilemma
FOREST BAKER and HOWARD RACHLIN 

Pigeons played a repeated prisoner’s dilemma game against a computer that reflected their choices: If a pigeon cooperated on trial n, the computer cooperated on trial n +1; if the pigeon defected on trial n, the computer defected on trial n + 1. Cooperation thus maximized reinforcement in the long term, but defection was worth more on the current trial. Under these circumstances, pigeons normally defect. However, when a signal correlated with the pigeon’s previous choice immediately followed each current trial choice, some pigeons learned to cooperate. Furthermore, cooperation was higher when trials were close together in time than when they were separated by long intertrial intervals

Ficou difícil reclamar do paradigma do homo economicus de uns tempos para cá. O melhor é, realmente, deixar os preconceitos e os livros de auto-ajuda e partir para análises mais detalhadas dos comportamentos humanos e não-humanos.

p.s. (mal-humorado) Tem muita coisa interessante por aí mas pouca gente querendo pesquisar. Fazer política, gazetear e se fazer de vítima dá mais ibope entre os amiguinhos (como sempre foi). Sim, por isso vamos patinar muito nos testes mundias de educação.

Um livro nem sempre é um livro

Qu20170118_091325-001ando estava na graduação, sofri muito com microeconomia. Para tentar me sair bem, comprei o famoso livro de Henderson & Quandt, que existia em português. Cheguei até a fazer uma errata do mesmo (acho que ainda tenho este documento…). Com o passar dos anos, consegui comprar a terceira edição do livro em inglês (em um sebo), já que a nacional era, salvo engano, a tradução da segunda edição norte-americana. Um belo dia, um antigo professor meu resolveu me presentear e me deu a primeira edição norte-americana do mesmo livro.

Claro que o valor emocional desta última é imenso para mim e é por isso que eu mantenho os dois livros em minha biblioteca. Um, por saudosismo (e por ser uma fonte útil para meu trabalho) e outro porque é um presente de alguém que foi extremamente importante em minha formação.

Pois é, há livros e livros. ^_^

Melhor pensamento sobre o excedente do consumidor que já li

O excedente do consumidor é um conceito ardiloso. [Bilas, R.A. Teoria Microeconômica, 12a ed brasileira (2a ed norte-americana), Forense Universitária, 1991, p.122]

Não cai do céu a afirmação. Vem após algumas páginas de demonstrações em um nível simples para intermediário. Outro que já fez crítica similar – mas com uma proposta original – foi o David Friedman, no seu ótimo Hidden Order.

Mas é mesmo um conceito ardiloso. Todos os que já estudaram um pouco mais de microeconomia já tiveram que bater a cabeça neste muro.

A microeconomia de Mano Menezes

A gente fala de microeconomia, ensina, mas nem todos captam a mensagem. Um exercício clássico de primeiro período do curso é falar do efeito da expectativa de preço sobre a demanda. Todo mundo sabe que se aumenta há uma expectativa de aumento de preço da gasolina, o resultado é o aumento imediato da demanda pelo produto.

Ok, agora, veja este ótimo trecho da entrevista de Mano Menezes para Jihan Kazzaz, na Cruzeiro, ano XX, n.135, revista oficial do Maior de Minas. Jihan o pergunta sobre se ele gostaria de comentar acerca de possíveis contratações. Eis a resposta:

Não é inteligente fazer isso, pois se nós temos interesse em algum jogador e citamos seu nome, nós estamos valorizando seu passe e dificultando a negociação. [Cruzeiro, ano XX, n.135, Setembro a Dezembro de 2016, p.9]

Mano nos explica exatamente o efeito da expectativa. Há um valor de equilíbrio do passe do jogador e, com a divulgação de boatos de que o mesmo é desejado por este e/ou aquele time, temos um deslocamento da demanda para a direita e para o alto, aumentando o valor do passe.

Mano Menezes acabou de dar uma aula de Economia.

Política industrial sul-coreana…na prática cinematográfica: os saudosos anos 70

Ou deveríamos falar de política cultural-industrial cepalina-novamatrizeconômico-desenvolvimentista? Sim, isso mesmo. Vejamos um momento da carreira de Shin, o diretor mais famoso da Coréia do Sul nos anos 60 e 70:

(…) o governo o levara aos tribunais, acusando-o de apropriação indébita, fraude e evasão fiscal por afirmar falsamente que seu último lançamento, ‘Monkey Goes West’ (…) fora uma uma coprodução com o estúdio Shaw Brothers, de Hong Kong (…). [Vou simplificar minha citação: http://www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=29140, p.104]

Por que Shin faria isto?

Precisando de uma coprodução para atender às cotas de importação do governo, Shin comprara uma cópia de Run Run Shaw, introduzira algumas cenas com um de seus atores coreanos e seus próprios créditos e dublara os diálogos, lançando o filme como seu. Foi considerado culpado e multado em 210 milhões de wons (775 mil dólares), mas, surpreendentemente, recebeu permissão para lançar o filme. [mesmo livro, mesma página]

Ah sim, eu mencionei que ele era muito próximo ao presidente Park? Substituição de importações, relações perigosas entre um diretor de cinema e o governo. Mas por que pararmos neste exemplo? A página 104 do ótimo livro tem mais um exemplo.

Muitos cineastas coreanos eram improvisadores criativos quando se tratava de encontrar maneiras de contornar as regras, mas Shin era o mais sagaz de todos. Quando a lei proibiu as companhias de produzirem mais de cinco filmes, ele discretamente reorganizou a Shin Filmes no que, tecnicamente, eram quatro companhias menores, consequentemente sendo capaz de produzir vinte. [idem]

Sensacional, não?

Custos de Transação da Marvel Comics

Em Marvel Comics – a história secreta, de Sean Howe (Editora Leya, 2013), encontro um exemplo para se explicar o conceito de custo de transação que me lembra muito o que a profa. Farina usava no mestrado.

Bem, ela falava de costureiras no bairro do limão (em SP), mas vejamos como era o caso do famoso Stan Lee. Ele criou uma seção de resposta ao leitor que vendia a idéia de que o ambiente de trabalho era um no qual “…os joviais artistas trocavam piadas enquanto labutavam alegremente sob o mesmo teto” [p.53].

Entretanto, não era bem assim. Jack Kirby aparecia lá uma vez por semana, por exemplo. Vejamos o depoimento de Don Heck: “Aquilo era um negócio que o Stan Lee botava nas revistinhas, mas os artistas ficavam esparramados pela ilha (…). Eu ia ao escritório umas duas vezes por semana e outros iam também duas vezes…mas a gente nunca se cruzava”.[p.53-4]

No exemplo da profa. Farina, as costureiras não se concentravam em um único espaço físico porque o custo de se fazer isso seria maior do que deixá-las em suas casas. O custo da transação de se colocar todas num mesmo galpão seria maior do que na opção de se buscar os produtos nas casas das costureiras.

De certa forma, isso me lembra o conceito de subaditividade de custos (a idéia de que o custo de se ter uma planta produzindo vários bens é menor do que a soma de custos de várias plantas produzindo os mesmos vários bens). Pensando no caso da Marvel, é como se tivéssemos o contrário, ou melhor, a não-subaditividade de custos, pois cada desenho seria produzido na casa de cada desenhista. Pensando mais ainda, é um processo um tanto quanto mais interessante, pois, parte do processo era o desenho, mas Stan Lee daria seu toque final no escritório.

Bem, é isso por enquanto. Até mais.

“Por que balcões em restaurantes (só) existem no Japão?” ou “O que há em comum entre o sushi, a venda de produtos e a política monetária?”

O pessoal do jornal Nikkey Shimbun – da colônia nipo-brasileira – tem feito um trabalho interessante ao publicar alguns volumes chamados Cultura do Japão com coletâneas de artigos em português e em japonês (ótimo para praticar, mas excessivamente otimista quanto às qualidades de meus ancestrais em alguns casos…).

No segundo volume publicado, há um texto de autoria de Masaomi Ise (originalmente publicado em 2006 (o livrinho é de 2016) entitulado: Por que balcões em restaurantes só existem no Japão?. A pergunta diz respeito, claro, não a balcões em geral, no qual se entregam os produtos, mas àqueles que vemos em restaurantes japoneses, nos quais as pessoas se sentam e se servem por ali.

O interessante no artigo de Ise é a história e, como tentarei destacar, também o aspecto econômico (teórico) dos balcões. Assim, não sei se é correto que não existam balcões deste tipo em outros lugares do mundo e as evidências empíricas do texto – que é apenas um texto jornalístico, sejamos justos – não são lá grandes coisas, mas o texto vale toda a leitura.

Primeiro, vejamos algumas curiosidades sobre o tema.

Consta que, no Japão, a posição social de cozinheiro era antigamente ainda mais elevada que hoje em dia. O primeiro a iniciar no Japão o balcão em restaurantes foi Yasuzo Shiomi. Ele nasceu em 1895 e viveu até 1971. Na época, ao que parece, os cozinheiros de primeira categoria formavam duplas e passavam pelos restaurantes mais famosos do país. [p.49]

Vários pontos merecem reflexão, não? Numa sociedade com escassez de alimentos – como era o Japão – um bom cozinheiro realmente tinha que ser valorizado. Lei econômica básica. Agora, interessante é a viagem em “duplas”. Seria algum tipo de cláusula concorrencial entre eles? Esta pergunta vai me assombrar por um tempo, eu sei.

Outra informação do texto é que o sr. Shiomi era uma evidência viva de que talentos geram rendas específicas (outro ponto básico da teoria econômica). Consta que ganhava algo como 500 ienes o que contrasta com 100 ienes para cozinheiros que o texto chama de “experientes” e 70 para professores de universidades públicas. Ou seja, antes de sair por aí dizendo que no Japão o professor é endeusado, estude um pouco de Ciência Econômica e, por que não, História.

Claro, o aspecto que mais salta à vista sobre balcões é o reputacional. Deixemos o próprio jornalista introduzir este complexo conceito de Teoria dos Jogos de forma intuitiva.

E foi ele [Yasuzo Shiomi] quem iniciou em 1924 um restaurante com balcão em Osaka – o restaurante Hamasaku. Esse restaurante ganhou enorme notoriedade, porque se podia ver diante dos olhos a habilidade do cozinheiro top star da época. [p.50]

Arrisco supor que a qualidade top star do sr. Shiomi é que era derivada da existência do balcão. Digo, após viajar a ganhar experiência, ele descobriu uma bela estratégia para adicionar valor ao seu produto: mostrar suas habilidades diretamente ao cliente.

Funcionava? Bem, o próprio texto sugere que os preços não eram os de um restaurante comum. A reputação, como sabe qualquer aluno que tenha estudado Teoria dos Jogos, é um dos conceitos mais importantes para se entender desde aspectos competitivos de mercados à boa execução da política monetária.

Uma nota à parte é que muitos brasileiros aproveitam mal o conceito de balcão ao instalarem seus restaurantes de comida japonesa por aqui. Um mesmo, muito bom, em Pelotas, tem parte de seu balcão ridiculamente coberta pelo freezer transparente que permitem ao cliente ver as peças de peixe, mas não o preparo do prato.

Ah sim, a referência: Ise, Masaomi (2016) Por que balcões em restaurantes só existem no Japão? In Ise, Masaomi & Kishimoto, Koichi (2016). Cultura Japonesa, vol.2, Biblioteca Jovem de São Paulo/Editora Jornalística União Nikkey Ltda, 2016.

p.s. vale a pena, também, ler o artigo clássico do falecido Sherwin Rosen, The Economics of Superstars.

Oferta e demanda

Eis um exercício simples para se fazer em sala de aula com seus alunos: o aumento da oferta de feijão, por meio da liberação das importações do produto, tenderão a diminuir/aumentar/não terá impacto algum sobre o preço e a quantidade do feijão?

Basta esboçar curvas de oferta e demanda para se responder a esta pergunta. Claro, elas podem ter inclinações distintas e a resposta será, qualitativamente, a mesma (exceto, claro, pelos casos extremos).

Em seguida, você pode se perguntar sobre as elasticidades, sobre a diferença entre tarifas menores e cotas maiores para a importação, sobre o bem-estar, etc.

Diz que não é um exercício legal?

p.s. isso tudo só com equilíbrio parcial, heim?

Venderam picolé por um preço diferente do sugerido no cartaz!!

Enquanto pseudo-professores falam por aí que estudar microeconomia é perda de tempo, vamos aos fatos: comprar picolé (ou cigarro, ou refrigerante, etc) pelo “preço sugerido” não é necessariamente um bom negócio. Sim, tem algo mais interessante para aprender aqui.

Primeiro, há um papo aí sobre “lealdade” e tudo o mais e tem gente que se perde em um conundrum sem sentido de “vamos respeitar a lei” e se esquece do problema básico dos incentivos que produtores de picolé vendem (vamos nos lembrar que leis também são geradas por meio de incentivos, nem sempre os melhores do ponto de vista do consumidor, embora alguns bem-intecionados defensores dos chamados “interesses dos consumidores” não percebam o problema). Limpe sua mente: esqueça esta questão contratual. Vamos entender o âmago do problema: por que, raios, um comerciante “sugere” um preço? Onde já se viu isto? Qual o objetivo dele?

Ok, digamos que um fabricante sugira um preço para um produto qualquer. Suponhamos que seja um picolé de chocolate. Você chega ao bar e vê o preço do picolé de chocolate no cartaz anunciado como: “preço sugerido: R$ 5,00”. O que significa isto? Primeira ponto para sua reflexão: pode não ser o que você está pensando.

Preço sugerido não é esmola (nem bondade com seu bolso), cara!

Geralmente isto significa que o fabricante conhece sua demanda em nível nacional e este é o preço que maximiza seu lucro. Mas aí você, que já está com vontade de comprar o picolé, descobre que o dono do bar o vende a R$ 6,00. Pronto. Caso você nunca tenha estudado direitinho a Ciência Econômica, provavelmente fará um textão no Facebook discorrendo sobre a malvadeza (ou a avareza?) do ser humano, etc. Muito bonito, ganhará muitas curtidas, talvez até gere um abaixo-assinado, mas mostrará que não entendeu muito do problema.

Sim, é preciso compreender o mundo antes de sair por aí querendo mudá-lo e quem disser o contrário mostra um desprezo pela sua capacidade de raciocínio (sim, eu acredito que você entenderá melhor o problema, né?).

É um problema que envolve elasticidade? Sim. Você não faltou à esta aula, né?

O dono do bar, veja bem, trabalha com um mercado local. Digamos que o dono do bar trabalha em Pelotas-RS. Ele não vende picolé em São Paulo. Nem vende em Porto Alegre. Muito menos em Aracaju. Ele vende, vou repetir, picolés em Pelotas.

É óbvio que a demanda de picolés em Pelotas não é a mesma demanda nacional. Ela pode ser – vamos nos lembrar das aulas de Economia!!! – mais ou menos elástica naquele trecho (vamos nos lembrar também que a elasticidade-preço da demanda é um conceito pontual, ok?). Digamos que ela seja menos elástica do que a demanda nacional. Isso significa que, enquanto uma queda de preço de x% na demanda nacional gera um aumento de y% (y > 1) na quantidade vendida, no mercado local, uma queda do mesmíssimo x% na demanda local gerar um aumento de z% (z < 1) na quantidade vendida.

Veja bem. Qual é a situação do dono do bar? Para que ele tenha algum lucro, terá que aumentar o preço em relação ao preço sugerido. Por que? Porque a queda de receita que será derivada da queda das vendas será menor do que o ganho que terá com o aumento do preço do picolé.

Claro, poderíamos imaginar a situação oposta, ou seja: e se a demanda local de picolé for mais elástica do que a nacional? Neste caso, o melhor para o dono do bar é diminuir o preço porque o ganho que ele terá com o aumento na quantidade vendida será maior do que o que perderá na margem com a queda do preço (ou seja, a receita total dele aumentará com a queda do preço).

Implicações disto? Acho que a mais divertida é pensar em quantas vezes pessoas se revoltaram de forma errada. Este é o lado engraçado do ponto de vista do consumidor. Do lado dos vendedores, é simples e mais cruel: quem não entende os incentivos criados pelas diferentes elasticidades-preço das demandas nacional e local perde dinheiro e pode acabar falido. Em outras palavras: entender Economia é sempre bom. Principalmente microeconomia. A quem interessa dizer que “microeconomia não serve para nada”? Esta fica para você refletir.

p.s. o conceito de elasticidade-preço da demanda? Explico. Trata-se da resposta à seguinte pergunta: “caso eu aumente (diminua) o preço do produto em x%, de quanto cairá (aumentará) a quantidade vendida do produto”? Veja, a elasticidade-preço da demanda, em valor absoluto, estará em um dos três casos: (a) unitária, (b) maior do que um e (c) menor do que um. Analisemos o caso (a): uma elasticidade unitária da demanda (em valor absoluto, já que o número é negativo, né?) nos diz que o aumento de x% no preço do produto gera uma queda de exatamente x% no valor da quantidade demandada. Isso significa que a receita total com a venda deste produto não se altera: o que você ganhou com o aumento no preço (x%), perdeu com a queda de demanda (x%). Para mais detalhes, consulte um bom estudante de economia ou um professor.

Empresários irracionais ou crise econômica?

20160402_092239A foto ao lado nos mostra que uma loja de Pelotas entrou em uma campanha de liquidação feroz. Afinal, a Páscoa se foi e os ovos restantes estão sendo liquidados em uma relação incrível: a cada ovo comprado, leva-se um grátis (clique na figura para ampliar, caso não tenha conseguido enxergar o cartaz da promoção).

Geralmente, quem não é economista costuma apontar o dedo em tom acusatório para esta imagem exclamando: “- Vejam só! Os economistas, com suas teorias malucas e com seu conceito de racionalidade…estivessem certos, não sobrariam ovos! Claramente os empresários erram muito”.

Há erros e erros, claro. Empresários podem cometer erros sistemáticos? Só acredito nisto se eles estiverem sob anestesia, ou seja, sob proteção do Estado (o que é outra forma de dizer que o Estado “ataca” (ou “desprotege”) todos os outros cidadãos). Empresários não cometem erros sistemáticos porque sua sobrevivência é função da minimização de seus erros.

Por outro lado, há erros não-sistemáticos, mais frequentes. Acho razoável interpretar a foto acima como o resultado de um erro de cálculo quanto à demanda na Páscoa. O empresário achou que a crise não seria tão forte e superestimou a demanda de ovos. Note que, ao fazer a liquidação, temos, novamente (e ironicamente), uma prova de que empresários não são loucos e nem cometem erros sistemáticos. Buscar recuperar parte do prejuízo é uma forma de se traduzir a expressão “minimizar custos” que, por sua vez, é exatamente a mesma coisa que “maximizar lucros”.

Ah sim, não comprei ovo de Páscoa. Preciso emagrecer.

p.s. Sempre que você se deparar com uma promoção destas lembre-se: pode ser que seja um sinal de que a crise – que dizem ser política, moral, etc – pode ser econômica também. Senão o empresário teria um cartaz pedindo mais moral e decência e não um cartaz de liquidação…

De quanto será a queda na demanda por planos de saúde privados? Um breve exercício.

O pesquisador Ricardo M. de Moraes tem algumas estimativas preliminares (e uma rotina em R) que nos dão os seguintes resultados (leia o texto para detalhes, ok?) para uma especificação com controles sobre dados da POF 2008-2009:

Um aumento de 1,0% na renda domiciliar dos consumidores de planos e serviços de saúde está associado a um consumo 0,4% maior desses planos e serviços (elasticidade-renda). [p.6. Nota: a renda diz respeito à “renda monetária mensal da família”]

Há um alerta:

O cuidado a tomar, no uso de estimativas como as da elasticidade-renda, é que, neste e na maior parte dos estudos ele é feito com bases de dados em cross section e aplicado para projeções ao longo do tempo. A hipótese é a de que, com um aumento de 1% em sua renda, o consumidor adotará o perfil de alguém que, no período em que a pesquisa foi feita, ganhava 1% a mais. Em períodos normais essa pode ser uma hipótese válida. Em épocas de fortes mudanças na economia, ela pode não ser aplicável. [p.11]

Para fins didáticos, apenas, vamos assumir que este resultado seja um bom indicador do que está acontecendo na realidade, inclusive no sentido desta elasticidade ser a mesma para períodos posteriores a 2008-2009. Em resumo: suponha que ela valha para os dias de hoje, a despeito do alerta do autor (note que ele usa o verbo poder no final do trecho acima, o que é correto, dado que mudanças podem ou não afetar a estrutura da especificação estimada).

Assim, digamos que a renda das famílias, neste ano, caia em 4% (o pessimismo é baseado nas estimativas da Tendências). Neste caso, o gasto com plano de saúde cairia em 1.6%. Não dá para ficar muito otimista, mas no caso de a elasticidade ser unitária…bem, este é um dos resultados que o autor também obtém (em um dos resultados, a elasticidade é de 1.19, o que nos daria uma queda de demanda de 4.76% para os mesmos 4% de queda da renda das famílias).

O pequeno texto do autor tem mais observações interessantes e qualificações úteis para quem quiser se aprofundar no tema.

Tudo o que você precisa saber sobre competição perfeita antes de entrar num debate

Este é o nome que eu daria a este sensacional texto. Sem falar que é uma bela aula de História do Pensamento Econômico (HPE), mostrando que muito pterodoxo mente ao dizer que economistas de verdade não sabem HPE.

Nunca mais publico nada sobre microeconomia depois deste texto. ^_^

Oferta e Demanda

Eis um exercício simples de oferta e demanda: dizer qual curva se deslocou, conforme esta notícia. O que acontece com a oferta e a demanda no mercado de viagens interestaduais (ou mesmo inter-países do Mercosul) quando…

A Empresa do Terminal Rodoviário de Pelotas (Eterpel) espera incremento no número de partidas e chegadas à cidade em decorrência do feriado de Natal, o mais movimentado do ano. Mesmo assim, a movimentação deve ser 10% menor se comparada a 2014, quando mais de 340 veículos circularam pela rodoviária carregando 65 mil passageiros.  (…) os resultados serão inferiores a 2014 devido à crise econômica e à alta do dólar. Desde 2013, o fluxo de viagens nesta época do ano vem caindo na Rodoviária pelotense. Para Rodrigues, a elevação no preço das passagens e o crescimento da frota veicular da cidade tem impacto importante neste cenário.

Em outras palavras: o entrevistado se refere ao movimento de estrangeiros e pelotenses reagindo à variação do dólar e à crise (queda de renda do consumidor nacional).

Além disso, há a questão da substituição de viagens de ônibus por automóveis (diante do aumento no preço das passagens por conta dos custos mais elevados dos insumos, o consumidor substitui ônibus por automóveis).

O exercício interessante é colocar todos estes fatores em ação em um diagrama de oferta e demanda. [Dica: comece com o aumento de custos das empresas de ônibus e depois incorpore a mudança no câmbio e a queda na renda dos consumidores]

Liberação de drogas: Uruguai e Brasil

Os economistas já falaram muito sobre o tema. Agora, com o experimento uruguaio, há uma oportunidade de se mensurar seus efeitos, conforme noticia o Diário Popular, de Pelotas.

O que os economistas esperam? Bem, não é difícil saber. O cientista político Diogo Costa já disseminou boa parte das nossas opiniões por aí. Você também pode pesquisar sobre o tema nos escritos do Jeffrey Miron, de Harvard. A The Economist tem uma opinião aqui. Finalmente, um estudo da London School of Economics sobre o tema, aqui. Aliás, o legal deste último estudo é a elasticidade-preço da demanda calculada.

Hence, even if one somehow knew that legalisation would reduce retail prices by 75 percent for cannabis and 90 percent for cocaine, and even if one knew those drugs’ elasticities over modest prices changes in the past were -0.5 and -0.75, respectively, it would almost certainly be wrong to project a price-induced increase in consumption of only 0.75*0.5 = 37.5 percent and 0.9*0.75 = 67.5 percent, respectively. Indeed, Caulkins and Kilmer et al. show that one cannot rule out the possibility that the actual increases could be very much larger. (p.22 do referido estudo)

Outro estudo interessante é este no qual encontramos o conceito de elasticidade-preço total da demanda.

drugs_elastic

O tema é, certamente, interessante e importante. O grande problema é conseguir os dados, notadamente no caso do Brasil. Com esta pesquisa nova que envolve alunos e pesquisadores da área de Saúde da UFPel, espero, minimizaremos este problema.

A conta de água em Pelotas e a restrição orçamentária: um exercício de microeconomia

A prefeitura de Pelotas está na direção correta no que diz respeito à conta de água. Até então, cobrava-se uma taxa por tamanho do imóvel, independente de seu consumo. Em outras palavras, uma viúva que morasse em um apartamento de três quartos poderia pagar mais pela água do que quatros estudantes que dividem um apartamento de dois quartos. Desnecessário dizer que a teoria econômica básica nos diz que este não é o melhor critério, não é?

Para quem já estudou a restrição orçamentária em Microeconomia, é como se tivéssemos dois bens: D e x. D é o gasto com outros bens (e o preço do gasto em reais com outros bens é o preço de um real que é, claro, um real) e x é o consumo de água. Imaginando que haja uma renda a ser gasta com isso, teríamos: m = D + px em que p é o preço do consumo de água.

A sutileza, no caso da regra atual de cobrança, é que “p” não varia inversamente com o consumo de “x”, mas sim com o tamanho do imóvel, independente do consumo em cada um deles (há, claro, uma suposição implícita de que imóveis maiores significam consumos maiores de água, mas o que importa é o número de pessoas no imóvel e não o tamanho do mesmo, pois imóveis não consomem água sem pessoas, certo?) .

Como funcionará a nova regra da prefeitura? Há um pagamento básico de R$ 18.13 e o restante depende de intervalos no consumo, de forma crescente. Por exemplo, até 10 m3, paga-se, além dos R$ 18.13, R$ 3.83 a cada m3 consumido (ou seja, se você consumir 10 m3, pagará R$ (18.13 + 38.30) =  R$ 56.43. Os intervalos de consumo são: [0, 10], [11, 20], [21, 30], [31, 50], [51, 100] e [100, infinito [.

A restrição orçamentária do consumidor, agora, é composta de vários segmentos de reta. Podemos expressá-la usando matemática básica.

res_orcamen_pel

Perceba que a nova restrição é formada por vários segmentos de reta. Para ilustrar, veja a imagem abaixo.

rest_orca_pelotas_1

Cada marcação mostra, aproximadamente, de cada segmento até a interseção com o segmento seguinte. De maneira mais organizada…

rest_orca_pelotas_2

Pronto. Agora sim, temos a restrição orçamentária que deve prevalecer em Pelotas a partir de Março do ano que vem, com o novo sistema de cobrança de água. Você que já estudou um pouco de Microeconomia já sabe: a única diferença para o caso mais comum dos livros-texto é que o conjunto orçamentário não é mais um belo triângulo, mas um polígono. No mais, é a mesma coisa.

Note que uma desvantagem deste sistema, tanto quanto do anterior, é o sistema de intervalos. No anterior, por exemplo, tínhamos uma taxa distinta para imóveis de 39 m2 e outros de 40 a 79 m2. Neste, por exemplo, temos o preço diferente para consumo até 10 m3 ou 11 a 20 m3. Em ambos os casos, é difícil justificar que o consumo mude tanto na margem da mudança de uma faixa para outra.

De qualquer forma, o exercício está feito. Até mais.

Sabe aquela história de oferta e demanda? Funciona até na Avenida Paulista.

Oferta e demanda. Cai a renda, demanda é deslocada e, ceteris paribus, o preço de equilíbrio cai. Quer um exemplo? Este aqui, com as devidas adaptações (pode-se discutir um deslocamento conjunto de oferta e demanda, mas aposto que a última se desloca mais).

p.s. tem até discussão de impacto do preço sobre a receita, algo que todo aluno já estudou no início do curso.

p.s.2. Veja este trecho: “O mesmo aconteceu no Progress Park que, após o aumento da diária de R$ 35 para R$ 40, viu o movimento cair 30%”. Preciso dizer que dá para fazer um exercício simples de cálculo de elasticidade-preço da demanda?

Poesias em Economia?

Todos os alunos participaram e o resultado foi…este aqui. Foi um desafio que meus alunos superaram de forma variada e interessante. Ficou tão bom que fiz a coletânea, editei, fiz um texto introdutório e, quem sabe, fica como sugestão para outros professores.

Dei-lhe o nome de: “A poesia que é a Economia na visão de vinte autores-estudantes” e sinto-me satisfeito com o resultado. Parabenizo a turma dedicando esta coletânea e eles, aos seus, ao coordenador do curso de Engenharia (que certamente não esperava por esta minha iniciativa) e, sim, antes de mais nada, leia a introdução para entender tudo (inclusive, porque abreviei parcialmente os nomes dos novos poetas).

Mais um daqueles exercícios de Introdução à Economia: o caso do número ótimo de navios no tráfico de escravos

Contexto…

Diz-nos Mattoso (1982) [Mattoso, K.M. de Q. “Ser Escravo no Brasil”. Brasiliense, 1982] sobre o transporte de escravos que, de 1612 a 1795, que o frete ficou muito barato (passou de 9600 para 6215 réis). Ok, aí a historiadora pergunta:

Como explicar essa redução no custo do transporte? O tráfico organizou-se melhor? O maior número de navios estabelece entre eles uma concorrência severa? [Mattoso (1982) : 71]

Eis a pergunta para o aluno: Explique qual é o modelo de estrutura de mercado mais adequado para fundamentar a hipótese da autora acerca da relação entre número de navios e concorrência “severa”.

Pensando em uma Resposta…

Um bom “chute” seria o ilustrado na figura abaixo, imaginando concorrência perfeita, por exemplo e uma tecnologia tal que as curvas de custos médios apresentam trechos com retornos crescentes e decrescentes de escala e apenas um ponto com retorno constante de escala.

customedio_cp_lp

Foi difícil construir este gráfico com as curvas de custo total médio de longo prazo e duas de curto prazo (em cores azul e laranja). Sei que não dá para ver direito que ambas as curvas de custo total médio de curto prazo se cortam, mas, acredite, elas o fazem (clique na figura para ampliar, acho que ajuda).

Os pontos indicados seriam os pontos de tangência das curvas de custo total médio de curto prazo com a curva de custo total médio de longo prazo. No caso da curva em cor laranja, repare que ponto de custo total médio mínimo é o mesmo no curto e no longo prazo. Em outras palavras, esta seria a escala ótima (ou, como diz o título, o número ótimo de navios).

Assim, o raciocínio da autora, sob o arcabouço deste modelo, diz-nos que o número de navios aumenta aproximando-se do custo total médio mínimo de longo prazo. Poderíamos, para ilustrar, supor que o aumento no número de navios levou o mercado da curva de custo total médio azul para a laranja.

Claro, você poderia supor simplesmente que o aumento no número de navios fez com que você saísse da curva de custo total médio azul para alguma outra entre ela e a curva de custo total médio laranja. A resposta estaria correta também.

Adendo (claro!)

Alguém poderia imaginar que não existe apenas uma escala de navios compatível com a minimização de custos de longo prazo. Digamos que a curva de custo total médio de longo prazo possui um formato de “U”, mas um “U” em que existem infinitas escalas compatíveis com o custo total médio mínimo. Seria um “U” mais ou menos assim: |_______|. O segmento intermediário nos dá uma infinidade de pontos compatíveis com a hipótese de retornos constantes de escala.

Uma ilustração deste caso poderia ser como a da figura abaixo, na qual se considera apenas o trecho intermediário (é como imaginamos alguns setores da economia, no qual existem firmas de diferentes tamanhos. Algumas evidências apontam para a existência de retornos constantes de escala, por exemplo, para o setor de produção de vestuário (apparel manufacturing)).

customedio_cp_lp_rconst

Neste exemplo hipotético, o custo total médio mínimo é igual a duas unidades monetárias (veja a linha pontilhada em vermelho) e são exemplificadas três escalas compatíveis com a igualdade, no curto e no longo prazo, da escala minimizadora de custos (são elas: 200, 500 e 1000, neste exemplo hipotético).

Obviamente…

Tem mais, eu sei. Poderíamos, agora que já começamos a explorar o tema, pensar em outras hipóteses, rever o meu ‘pontapé inicial’, etc. Tudo isto está correto, mas fica a cargo do leitor, ok? Até mais.