Salário-eficiência em livro-texto brasileiro na década de 70?

Simonsen, do post anterior, jogando o insight:

Em segundo lugar, como observa Liebenstein, ainda que a oferta de mão-de-obra seja superabundante e que os salários sejam flexíveis, pode não interessar aos empresários do setor capitalista rebaixar os salários aquém de certo nível. Com efeito, há um mínimo calórico de subsistência, e um trabalhador excessivamente mal pago torna-se fraco, doente e, por isso, ineficiente. Como assinala Liebenstein, pelo menos até certo ponto é de se presumir que exista uma correlação positiva entre o salário e a eficiência do empregado. [Simonsen, M.H. Macroeconomia, 2a ed., v.2, p.243, APEC, 1974]

Na minha graduação, alguns diziam que Simonsen era um “malvado ortodoxo” e que não deveríamos nós, alunos, levar muito a sério o que ele dizia porque ele só “fazia matemática, não economia”. Parece até piada, né?

Em uma época na qual você não tinha muitos livros-texto de macroeconomia, o de Simonsen surpreende por seu elevado nível não apenas teórico como também pelos exemplos, que não se limitavam à economia norte-americana.

Sumô como indicador econômico

Dica do Cristiano Costa, esta pequena matéria jornalística fala de uma idéia legal de um economista japonês: usar o número de anunciantes na temporada como um indicador de atividade econômica.

Você, que curte Ciências Econômicas e gosta de dados (não tem como separar as duas), preste atenção: é isto uma das características que procuramos em alunos. Ter a capacidade de pensar em indicadores econômicos diferentes. Há uns tempos atrás, um ex-aluno, lá no falecido NEPOM, teve a idéia de usar o Google Trends. Deu no que deu.

p.s. um vídeo no Yahoo Finance sobre o economista e seu indicador não usual está aqui.

Momento R do Dia – Dados macroeconômicos

O PPGOM é um lugar muito bom de se trabalhar. Agora mesmo, um dos professores, o Regis, publicou um pacote novo para R, de sua autoria. Vai ajudar muitos e muitos alunos e pesquisadores. Descubra mais sobre o pacote aqui.

p.s. O PPGOM estará de site novo em breve. Por enquanto, está aqui.

Custos de Menu…novamente

Ok, aqui apenas a citação com o link porque custo de menu é um tópico sempre interessante, mas com o qual não trabalho diretamente (ainda). Mas os alunos adoram-no. Com você, o último artigo sobre o tema.

Are Sticky Prices Costly? Evidence from the Stock Market

We show that after monetary policy announcements, the conditional volatility of stock market returns rises more for firms with stickier prices than for firms with more flexible prices. This differential reaction is economically large and strikingly robust to a broad array of checks. These results suggest that menu costs—broadly defined to include physical costs of price adjustment, informational frictions, etc.—are an important factor for nominal price rigidity at the micro level. We also show that our empirical results are qualitatively and, under plausible calibrations, quantitatively consistent with New Keynesian macroeconomic models in which firms have heterogeneous price stickiness. (JEL E12, E31, E43, E44, E52, G12, L11)

Conheça o CODACE e saiba mais sobre os nossos ciclos econômicos

Graças a Deus, o comitê não tem nomes estranhos, mas só pesquisador sério. No Brasil dos dias de hoje, infelizmente, eu tenho que começar um post sobre qualquer tema com este alerta porque é um tal de se vender por gato por lebre por aí que está difícil manter o alto nível nas conversas.

Mas, falando sério, sim, fico feliz em saber que temos um comitê sério tratando de um tema tão importante. Não que nunca tenha sido explorado (lembre-se do livro do Cláudio Contador, publicado pelo IPEA, nos anos 70, sobre ciclos econômicos, na tradição do NBER), mas é ótimo saber que temos uma continuidade na análise do tema.

Ah sim, só por curiosidade, para encerrar…

ciclosdenegocios_Brasil

Sim, estamos em recessão técnica.

Alguns pequenos textos no outro blog

Lá no meu projeto “Nepom”, dois recentes posts que esclarecem aos alunos o lado divertido da economia (se é que algum há): o relatório do FMI e o artigo clássico do Ray Fair, o mesmo do super modelo macroeconométrico da era das equações simultâneas…

É, galera, a crise se foi e a Macroeconomia tradicional continua firme e forte…

Olhem aí:

Del Negro, Marco, Marc P. Giannoni, and Frank Schorfheide. 2015. “Inflation in the Great Recession and New Keynesian Models.” American Economic Journal: Macroeconomics, 7(1): 168-96.
Abstract
Several prominent economists have argued that existing DSGE models cannot properly account for the evolution of key macroeconomic variables during and following the recent Great Recession. We challenge this argument by showing that a standard DSGE model with financial frictions available prior to the recent crisis successfully predicts a sharp contraction in economic activity along with a protracted but relatively modest decline in inflation, following the rise in financial stress in 2008:IV. The model does so even though inflation remains very dependent on the evolution of economic activity and of monetary policy. (JEL E12, E31, E32, E37, E44, E52, G01)

Pois é. Então, como sempre digo, antes de jogar a criança fora junto com a água, senta e estuda.

Inferno macroeconômico

Sempre há quem, em sala, pergunte sobre como interpretar a realidade brasileira com um pobre e inocente IS-LM. Bem, eu simplifiquei um bocado e elaborei esta “questão” que, em uma prova, poderia levar horas, horas, horas e, claro, horas para um aluno resolver. Aqui está.

Claro, tem também esta outra prova, que encontrei escondida, dobrada, em uma etiqueta de uma blusa…(clique na bonequinha para ampliar).prova_escravo

Índice de Miséria Econômica de Barro

Criado por Arthur Okun, o índice era originalmente a soma simples da taxa de inflação e a de desemprego. Posteriormente, Barro agregou mais dois termos: a taxa de juros e a variação do PIB em torno de sua tendência de longo prazo (detalhes aqui). Hanke também criou uma modificação do índice (ver aqui e, para os EUA, sob vários cortes distintos, ver aqui).

Recentemente, o Vitor Wilher citou o PIB mensal feito pelo pessoal do IBRE. Com base na taxa de desemprego do IBGE, do IPCA e com a TJLP (disponível na página da Receita Federal), calculei o PIB potencial com um filtro de Hoddrick-Prescott, misturei tudo, temperei e obtive uma estimativa mensal do índice para o Brasil. A limitação dos dados, basicamente, deve-se ao período de tempo em que tenho todas as variáveis.

barro_okun_misery

Percebe-se que não há uma tendência nos dados, certo? Na melhor das hipóteses, percebe-se uma melhoria (queda) no índice no período de 2005 a 2008, aproximadamente. Posteriormente, notadamente a partir de 2010, parece que o índice se fixa em um novo nível médio e por ali permanece.

misery_barro

 

Ou seja, nada demais. Bom, verdade seja dita, seria bom dessazonalizar o índice para ver o que acontece. Mas não há nenhuma notícia boa para os formuladores de política econômica, mesmo com esta dessazonalização.

misery_barro_dec

Bem, é isso. A impressão que tenho é que este índice é melhor se feito para frequências mais baixas. Mas fica o espaço de comentários aberto para sugestões.

O multiplicador da política fiscal é de…0.4!

Pouco ou muito?

Government Spending Multipliers in Developing Countries: Evidence from Lending by Official Creditors

Article Citation

Kraay, Aart. 2014. “Government Spending Multipliers in Developing Countries: Evidence from Lending by Official Creditors.” American Economic Journal: Macroeconomics, 6(4): 170-208.

Abstract

I use a novel loan-level dataset covering lending by official creditors to developing country governments to construct an instrument for government spending. Loans from official creditors typically finance multiyear public spending projects, with disbursements linked to the stages of project implementation. The identification strategy exploits the long lags between approval and eventual disbursement of these loans to isolate a predetermined component of public spending associated with past loan approval decisions taken before the realization of contemporaneous shocks. In a large sample of 102 developing countries over the period 1970-2010, the one-year spending multiplier is reasonably-precisely estimated to be around 0.4.

Achei pequeno. Mas o legal é dar uma olhada no artigo. Olhe lá!

História Econômica de Portugal

A profa. Leonor F. Costa é uma das historiadoras portuguesas que mais gosto. Os textos de história econômica são sempre muito ricos em teoria e dados, sem falar, claro, da história (os fatos). Este é um mais recente do qual acabo de tomar conhecimento.

Money Supply and the Credit Market in Early Modern Economies: The Case of Eighteenth-Century Lisbon

Leonor F. Costa, M. Manuela Rocha, Paulo Brito

URL: http://d.repec.org/n?u=RePEc:ise:gheswp:wp522014&r=his

In this paper, we address the partial equilibrium functioning of the shortterm credit market in the Eighteenth-century Lisbon and its response to three major events: massive gold inflows from Brazil, a catastrophic destruction of capital caused by the 1755 earthquake and the enactment of a 5% legal ceiling on interest rates 1757. We build a time series for the market interest rate, and a regression shows money stock and real estates as two significant variables. Interest rates were affected negatively by the former and positively by the latter. We conclude that changes in the money stock tended to operate through the supply of loanable funds. The wealth effect, measured by the stock of real estate, operated over demand and tended to be the most significant effect among several other possible countervailing effects (e.g., the impact of wealth effects on supply, the informational effects of collaterals). The inflow of gold clearly generated a liquidity which by itself explained the downward trend in interest rates up until around 1780. However, the huge variations experienced by the stock of capital after the earthquake also explains the steadiness of interest rates in a period when the inflow of money started to recede. For the whole period during which the 5 % ceiling on interest rates was in force we do not find any evidence to confirm the existence of disequilibrium credit rationing: the notional interest rate predicted by our model was very close to the 5% legal ceiling.

É um grande resumo, eu sei, mas é um artigo que vale a leitura, principalmente se você curte Macroeconomia, História Econômica e Econometria. Ei, fala sério, não é tudo o que você queria para discutir com seus amigos que também curtem Economia?

Fullscreen capture 1012014 32417 PM.

 

Regras de política monetária…na prática

Super dica do blog do Mankiw que coloco aqui.

cool

A figura aí em cima é um printscreen de um pedaço da página. Os gráficos são interativos. Você pode acompanhar os valores ao passar o cursor sobre as curvas. Excelente iniciativa destes empreendedores. Não sei como não há, no Brasil, um único estudante de economia que não tenha se preocupado em fazer algo assim para verificar o que o Banco Central tem feito. Afinal, não é tão difícil, é? Que tal você fazer isso?

Como dizem por aí, fica a dica e, sim, quem o fizer, para mim, fez um…gol da Alemanha!

Momento R do Dia – breve: termos de troca e preços das exportações

Pastore e Pinotti têm um belíssimo texto neste documento que citei aqui ontem. Em algum momento, eles falam de duas séries da Funcex: um índice de termos de troca de commodities e um índice de preços das exportações, ambos referentes ao Brasil e, também, ambos, com a mesma base (2006 = 100).

Resolvi verificar, por curiosidade, alguns trechos do texto. Você deveria ler. Não são nem 20 páginas e é um belo resumo da economia brasileira recente com boas pontes para temas históricos importantes. Vale realmente a pena. Mas vamos aos dados. Achei quase as mesmas séries (não achei o índice de termos de troca para commodities, mas acho que foi erro meu…)  e, bem, vamos aos gráficos iniciais.

pastore1

É impressionante como o prof. Pastore tem um olhar sempre muito bom para séries de tempo econômicas. No texto ele dizia:

Entre 1975 e 2002 há uma sucessão de ciclos em ambas as variáveis sem qualquer tendência de crescimento. Mas por volta de 2002 se inicia um período de forte elevação do CRB, que provoca o aumento intenso dos preços das exportações brasileiras. (p.42)

Sim, eu sei que eu basicamente segui o que ele disse (embora, novamente, minha série de termos de troca pareça ser mais abrangente).

Sobre a causalidade, resolvi também fazer um teste rápido. Dá para ver que, no primeiro período, as séries são estacionárias e, no segundo, não. Ok, o certo é fazer um teste de raiz unitária, mas eu não tinha muito tempo e fui na pressa. Em resumo, para um período eu usei as séries em nível e, no outro, eu fiz a diferença supondo – acho razoável – que ambas tenham apenas uma raiz unitária cada no período final (meu corte é diferente do dele porque considerei o início do período seguinte em 2003, não em 2002).

Assim, para o período inicial (com uma defasagem):

Model 1: termos_troca_1 ~ Lags(termos_troca_1, 1:1) + Lags(precos_X_1, 1:1)
Model 2: termos_troca_1 ~ Lags(termos_troca_1, 1:1)
Res.Df Df F Pr(>F)
1 296
2 297 -1 0.0025 0.9603
> grangertest(termos_troca_1,precos_X_1, order=1)
Granger causality test

Model 1: precos_X_1 ~ Lags(precos_X_1, 1:1) + Lags(termos_troca_1, 1:1)
Model 2: precos_X_1 ~ Lags(precos_X_1, 1:1)
Res.Df Df F Pr(>F)
1 296
2 297 -1 0.0344 0.8529

Em ambos os casos é difícil rejeitar a hipótese de não-causalidade (para ambos). Já no segundo caso, lembrando que minha série de termos de troca não é a mesma, encontrei causalidade bilateral (ok, eu vou rever a especificação depois…).

Model 1: diff(termos_troca_2) ~ Lags(diff(termos_troca_2), 1:1) + Lags(diff(precos_X_2), 1:1)

Model 2: diff(termos_troca_2) ~ Lags(diff(termos_troca_2), 1:1)
Res.Df Df F Pr(>F)
1 134
2 135 -1 36.187 1.609e-08 ***

Signif. codes: 0 ‘***’ 0.001 ‘**’ 0.01 ‘*’ 0.05 ‘.’ 0.1 ‘ ’ 1
> grangertest(diff(termos_troca_2),diff(precos_X_2), order=1)
Granger causality test

Model 1: diff(precos_X_2) ~ Lags(diff(precos_X_2), 1:1) + Lags(diff(termos_troca_2), 1:1)
Model 2: diff(precos_X_2) ~ Lags(diff(precos_X_2), 1:1)
Res.Df Df F Pr(>F)
1 134
2 135 -1 19.462 2.09e-05 ***

Signif. codes: 0 ‘***’ 0.001 ‘**’ 0.01 ‘*’ 0.05 ‘.’ 0.1 ‘ ’ 1
> grangertest(precos_X_1, termos_troca_1, order=1)
Granger causality test

É, mas já dava para desconfiar. Veja só os gráficos das correlações cruzadas (com defasagens em j=0, 1, …, 12).

pastore2 pastore3 pastore4 pastore5

Já dava para desconfiar que haveria algo assim, não? Bem, mas eu preciso revisitar os dados e ver se consigo a série correta dos termos de troca. De qualquer forma, qualquer aluno de Economia pode replicar o exercício. Não precisa muito.

Outro ponto é, como fiz outro dia em um exercício sobre preços livres e monitorados, devemos verificar a significância estatística destas correlações.

Finalmente, embora não pareça haver sazonalidade nas séries, é necessário dar uma pesquisada em como as séries são construídas. Aliás, isto é algo que se aprende com o prof. Pastore em suas aulas de Econometria ou de Economia Monetária ou qualquer outro curso que ele ministre (embora eu só o tenha visto nestes dois).

Obviamente, eu me concentrei aqui na operacionalização do texto de Pastore e Pinotti em R. Mas uma análise completa exige mais do que isto. É preciso revisitar o texto (este trecho do texto) e refazer umas contas. Quando tiver tempo, ok?

library("astsa")  # para os graficos de autocorrelações cruzadas

base<-read.table("c:/Users/cdshi_000/Documents/Meus Documentos/Meus Documentos/pastore.csv",header=TRUE, sep=",", na.strings="NA", dec=".", strip.white=TRUE)

summary(base)
series<-ts(base,start=c(1978,1),freq=12)
head(series)
precos_X<-series[,2]
termos_troca<-series[,3]

plot(termos_troca)
plot(termos_troca,precos_X)

# criando sub-amostras

precos_X_1<-window(precos_X,c(1978,1), c(2002,12))
termos_troca_1<-window(termos_troca,c(1978,1), c(2002,12))

lag2.plot(precos_X_1, termos_troca_1, max.lag=12,corr=TRUE, smooth=FALSE)
lag2.plot(termos_troca_1, precos_X_1, max.lag=12,corr=TRUE,smooth=FALSE)

precos_X_2<-window(precos_X,c(2003,1), c(2014,7))
termos_troca_2<-window(termos_troca,c(2003,1), c(2014,7))

lag2.plot(precos_X_2, termos_troca_2, max.lag=12, corr=TRUE,smooth=FALSE)
lag2.plot(termos_troca_2, precos_X_2, max.lag=12, corr=TRUE,smooth=FALSE)

library(lmtest) # para o teste de causalidade

par(mfrow=c(2,2))  # é, dividi a janela em duas linhas e duas colunas
plot(precos_X_1)
plot(termos_troca_1)
plot(precos_X_2)
plot(termos_troca_2)

grangertest(precos_X_1, termos_troca_1, order=1)
grangertest(termos_troca_1,precos_X_1,  order=1)

grangertest(diff(precos_X_2), diff(termos_troca_2), order=1)
grangertest(diff(termos_troca_2),diff(precos_X_2),  order=1)

CDPP: uma ótima notícia para o Brasil

Que ótima notícia eu li no Estadão de hoje: criou-se o CDPP e ele tem muito mais relevância no debate atual do que qualquer outra ONG. Nada de frases de efeito, nada de fanatismo disfarçado de ciência, nada bravatas. Somente a excelência da pesquisa em prol de um trabalho sério em torno dos problemas brasileiros.

Digressão Depressiva

Durante muito tempo achei que os jovens trariam seu entusiasmo para a pesquisa e que isso aconteceria por meio deles. Erro meu, claro. Os jovens não conseguem elaborar textos mais profundos porque não querem saber de pesquisa ou de algo fora da última plataforma que lhes permite compartilhar textos de 147 caracteres ou fotos. Usam a comunicação para compartilhar apenas fotos e recados, não para estudar.

Não estou falando das exceções, claro, mas o surgimento do CDPP mostra isto. Só quem já pesquisa e sabe o tamanho das dificuldades pode buscar construir algo novo com alguma chance de sucesso. De fato, nesta discussão de capital humano e instituições, há algo que, no Brasil, parece funcionar do mesmo jeito: quanto mais novo, mais maoísta e pouco interessado em pesquisa. Quanto mais velho, dependendo do custo de oportunidade, maior o interesse em pesquisa e em conversas relevantes.

Estou muito feliz em ver o CDPP surgir e estou, ao mesmo tempo, muito triste em perceber o quanto sobreestimei a galera mais jovem por muito tempo. Achava que eles fariam isto. Não fizeram. Sucessivas ondas de graduados só fizeram repetir bravatas (já vi até gente chegar ao final do curso carregando preconceitos inacreditáveis) e falar do princípio da não-agressão (do lado de lá) e da luta de classes (do lado de cá) e parar por aí. Nada de ler um livro inteiro, nada de “perder tempo” com mais perguntas sobre o tema.  Nada de econometria porque, afinal, o grande monopolista que financiou a ONG não quer estudos empíricos e a matemática é demoníaca porque (zzzz) o fenômeno social é muito complexo.

Festividades!

É, desabafei. Viva o CDPP! Viva meus amigos que sempre me disseram que eu apostava excessivamente em jovens e que eu estava errado! Viva minha capacidade de aprender racionalmente com os meus erros!

20140920_162454

É, eu também. Nada de choro! Hora de tocar o bonde!

DSGE…e um novo livro

The virtue of DSGE macroeconomics is brought out by the following encounter with a frustrated student. He protested that he knew there were many theories of macroeconomics, so why was I teaching him only one? My reply was that this was because only one theory was required to analyze the economy, and it seemed easier to remember one all-embracing theory than a large number of different theories [Wickens, M. Macroeconomic Theory – A Dynamic General Equilibrium Approach, Princeton University Press, 2011, 2nd ed, preface, p.XV]

Nada como uns dias no PPGOM com uma mesa cheia de novos livros que o pessoal comprou para eu me ver, em poucos dias, com um exemplar de um livro de macroeconomia novo em casa. Eu havia folheado o livro e decidido comprá-lo. Agora, ao ler o início do início (o famoso “prefácio”), vejo que minha compra foi acertada.

Sensacional este trecho aí, não?

Relembrando os bancos escolares: a equação da dinâmica da dívida

Dizia o prof. Pastore em Nov/2012:

A equação de dinâmica da dívida nos ensina que, para estabilizar a dívida líquida em relação ao PIB, tem de ser gerado um superávit primário dado pelo produto da relação dívida/PIB pela diferença entre a taxa real de juros e a taxa de crescimento econômico. 

Como é? Isso mesmo. A “equação de dinâmica da dívida” não é um amontoado de palavras soltas não, mané! Vamos pensar na restrição orçamentária do governo:

G + iB ≡ T + dB

G = gastos do governo
iB = juros pagos pelo governo
T = receita de arrecadação
dB = novas emissões de títulos.

Pois é. Esta restrição pode ser reescrita como:

dB ≡ (G – T) + iB

Ou seja, a variação da dívida é a soma do déficit primário e da dívida atual. Agora, vamos reescalonar a dívida em função do PIB nominal que nada mais é do que o PIB real (y) multiplicado pelo nível geral de preços (y = Y/P, logo, yP = Y…sem usar a calculadora, heim? ^_^).

UPDATE: eu havia escrito incorretamente algo aqui, nestas próximas três linhas. O Maurício Y. Une me alertou e eis a correção. O novo texto está em itálico.

Agora, veja: B/Py ≡ b, certo?

Vamos reescrever a restrição do governo, escalonando-a por Py

dB/Py ≡ (G – T)/Py + iB/Py

Para simplificar, vou chamar (G – T)/Py de “d”. Voltaremos a isto mais adiante. Vamos então dar uma olhadinha na definição de b ≡ B/Py. Podemos usar uma aproximação simples de Cálculo para dizer que:

dB ≈ Pydb + bydP + bPdy

Dividindo a turma toda por Py:

dB/Py ≈ Pydb/Py + bydP/Py + bPdy/Py

dB/Py ≈ db + bπ + bg

no qual π é a taxa de inflação (dP/P) e g é a taxa de crescimento do produto (dy/y).

Bom, ainda está ruim de se ler. Vamos usar a equação de Fisher, aquela aproximação que nos diz que r = i – π (na verdade, diz-nos que r ≈ i – π, mas vamos simplificar). Desta forma, obtemos, finalmente (*):

db = d + (i – π – g)b = d + (r – g)b

O prof. Pastore, caso você tenha se perdido após estas contas, dizia que, repetindo parcialmente o que eu citei:

…para estabilizar a dívida líquida em relação ao PIB, tem de ser gerado um superávit primário dado pelo produto da relação dívida/PIB pela diferença entre a taxa real de juros e a taxa de crescimento econômico.

Ficou fácil agora, não? Veja a fórmula:

db = d + (r – g)b

Olha aí a equação. Temos o déficit primário “d” (cujo sinal negativo, obviamente, dá-nos o superávit primário) somado ao produto da relação dívida PIB (b) pela diferença entre r e g. Note que a equação citada por Pastore não cai do céu, mas vem dos livros de Macroeconomia. Mais ainda, vêm de uma questão meramente contábil (a restrição orçamentária do governo) trabalhada com o mínimo (mesmo) de Cálculo e com o uso da equação de Fisher.

Vejamos o restante da citação do texto do prof. Pastore:

Admitindo que a taxa de inflação se mantenha (como tem ocorrido) em 5,5% ao ano, a taxa real de juros sobre a dívida líquida está, atualmente, em 10% ao ano (15,6% da taxa nominal sobre a dívida líquida menos 5,5% da inflação). Admitindo (com otimismo) um crescimento econômico de 4% ao ano, e uma dívida líquida de 35% do PIB, o superávit primário que atualmente estabiliza a relação dívida/PIB é de 2,1% do PIB. É um superávit primário menor do que a “meta” de 3,1% do PIB, mas ainda assim muito maior do que é apontado por exercícios nos quais é ignorado o efeito gerado pela acumulação de ativos e pelo diferencial entre as taxas de juros sobre a dívida bruta e sobre os ativos.

Viu só? Dada a nossa db = d + (r – g)b, com π = 0.055, r = 0.1 (calculada por i = 0.156 menos a taxa de inflação, o que dá r = 0.101, que ele arredondou), com g = 0.04 e b = 0.35, para um db = 0 (dívida estável):

0 = d + (0.1 – 0.04)0.35 → d = -0.021 (-2.1% de déficit do PIB ou, o que dá na mesma, 2.1% de superávit do PIB).

Exercício simples, não? Você só precisava saber como obter a equação da dinâmica da dívida. Eu usei a exposição didática de Carlin & Soskice Macroeconomics – Imperfections, Institutions & Policies, Oxford University Press, 2006, cap.6, mas foi só porque não procurei calmamente em outros manuais e o meu café acabou.

Não é, portanto, uma questão de ser pterodoxo, atleticano ou transgênico. É uma questão matemática. Qualquer aluno de Ciências Econômicas poderia ter feito esta conta. Eu diria que qualquer um do Nepom poderia, perfeitamente, fazê-la. Basta saber um pouco de Macroeconomia, no que diz respeito à dinâmica da dívida pública.

20131130_155631

“Morrer como economista pode ser mais difícil do que viver de arte, mas é mais gratificante, Tanaka-san!”

(*) Para esclarecer as contas mais um pouco:

dB/Py ≡ (G – T)/Py + iB/Py ou seja: dB/Py ≡ d + iB/Py. Mas encontramos que: dB/Py ≈ db + bπ + bg. Assim, supondo a igualdade em ambos: d + ib = db + bπ + bg. Isolando db:

db = d + ib – bπ – bg = d + (i – π – g)b que é, via Fisher, db = d + (r – g)b.

A taxa de câmbio real brasileira – BIS

cambio_bis_brasil

O gráfico acima mostra o índice da taxa de câmbio real efetiva brasileiro (2010 = 100), conforme visto (já citei aqui antes) na página do BIS. Lá no Nepom há quem gosta de balanço de pagamentos e de macroeconomia aberta, então nada mais natural do que olhar para estes dados.

A bem da verdade, um bom exercício consiste em olhar para o índice do BIS e para a balança comercial (ou para as transações correntes) para ver se existe alguma relação entre as duas séries.

Obviamente, há várias questões importantes a se trabalhar aí (estacionaridade, etc), mas é um ponto interessante de se analisar (aliás, pesquisando lá no BIS, descobri isto). Aliás, falando em transações correntes e bases de dados, não se esqueça do bom e velho FRED.

“Quem anda administrando esta política econômica?”