Uncategorized

Passar a manta

Enganar a outrem numa transação qualquer. Referência talvez à manta ou capa com que se apresenta o Demo quando quer iludir, fazendo-se de santo. Cf. a expressão com capa de santo, que indica o modo com que alguém age com ardiloso fingimento. (Lindolfo gomes, Contos Populares Brasileiros, S. Paulo, 1949). É mais vulgar no Sul e Centro do Brasil.

O trecho acima é a reprodução integral da expressão número 472 de Cascudo, L. da C. (1986). Locuções Tradicionais no Brasil, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo : Editora da Universidade de São Paulo, p.212.

É minha homenagem a famoso político brasileiro, muito ativo no momento atual.

Uncategorized

Custou-me os olhos da cara! – Breve texto sobre o valor dos olhos

O famoso folclorista, Luís da Câmara Cascudo, em seu Locuções Tradicionais do Brasil (1986), na edição da USP/Itatiaia, lá na página 87, explica o significado desta famosa expressão popular. Vejamos o que nos diz o autor:

109. Custar os olhos da cara! – Objeto ou vitória de alto preço. (…) A interpretação comum é aludir ao suplício bárbaro de arrancar os olhos aos prisioneiros de guerra, soberanos depostos, príncipes e fidalgos perigosos à estabilidade do Reino. (…) Marcus Accius Plautus (250-184 antes de Cristo), que tão bem conhecia a velha Roma republicana, é abundante nesses registros populares: – meus oceluus, oceluss aureus, oculitus te amo, oculissimus, suficientemente expressivos para considerar os olhos como as jóias mais preciosas. Cousa com eles adquirida seria superior às demais, existentes no Mundo (…). [Cascudo, L. C. de (1986), p.87]

Surpreso? Eu sei, a expressão não é tão difícil de se entender. Afinal, imagine-se cego? O estudo da origem do termo nos dá mais informações sobre o porquê de os olhos serem tão valiosos na antiguidade. Repare que, na descrição de Cascudo, os olhos seriam utilizados para fins basicamente políticos: são os fidalgos, reis ou príncipes os principais alvos do bárbaro castigo. Eu não sou dos que assistem Game of Thrones, mas intrigas palacianas são sempre criadas ou alimentadas por conta da espionagem que, na época, usava apenas a tecnologia do olhar. Neste sentido, realmente é caro perder os olhos, certo?

Agora, isto não significa que os olhos sejam sempre a mesma coisa para todos em todos os lugares. Como aprendemos com Adam Smith, um copo de água não é a mesma coisa na sua casa ou no deserto após dias de viagem. Não, isto não é só teoria, leitor(a)! O exemplo acima sugeriu que os olhos são caros e eu lhe dei uma interpretação razoável do porquê disto. Agora, considere os olhos, os mesmíssimos olhos em outra atividade, a pirataria.

No blog do Freakonomics há a menção a um livro sobre pirataria que nos traz dados interessantes sobre contratos de seguro em navios piratas. Quanto valia um olho, relativamente a um braço ou uma perna em um destes navios?

The most extraordinary clauses in the [ship’s constitution] were the ones addressing the “recompense and reward each one ought to have that is either wounded or maimed in his body, suffering the loss of any limb, by that voyage.” Each eventuality was priced out:

Loss of a right arm: 600 pieces of eight
Left arm: 500
Right leg: 500
Left leg: 400
Eye: 100
Finger: 100

Some articles even awarded damages for the loss of a pegleg. Prostheses were so hard to come by in the West Indies that a good wooden leg was worth as much as a real one.

Claro, um olho vale menos na atividade de pirataria do que um braço ou uma perna. Olhos, no palácio, são muito úteis para intrigas, claro. Mas com um olho a menos você ainda tem dois braços para lutar na hora de invadir o barco inimigo.

Então, sim, os olhos são os mesmos, mas é seu valor de uso é que importa para pensar no seu preço. Pode ser que o valor seja alto, ou seja baixo: depende do mercado analisado.

Uncategorized

Mnemotécnicas pedagógicas que deveriam ser aplicadas a alguns candidatos

Puxar a orelha – Era uma invocação à Deusa da Memória, atendida pela conservação imediata do que se procurava reter mentalmente. Fórmula especial de pedir intervenção sobrenatural de Mnemósine, Deusa da Memória e Mãe das Musas. O castigo de “cortar as orelhas”, uma ou ambas, antiqüíssimo e comum, punia a quem não ouvira, entendera, cumprira a voz da Lei. Puxar a orelha correspondia a uma mnemotécnica pedagógica. [Cascudo, Luís da Câmara (1986) Locuções tradicionais no Brasil. Itatiaia/EDUSP, p.220]

“Não aprenderam ainda o que é a independência do Banco Central, candidatos(as)?? Devo puxar-lhes as orelhas mais uma vez?”
Uncategorized

Grandes momentos dos estudos raciais no Brasil: vocês são racistas, que se entendam!

Ah, o racismo…

De maneira que as cidades do período colonial funcionam como poderosos centros de seleção e concentração dos elementos brancos superiores. São êsses elementos superiores que, deslocando-se para o campo e entrando na aristocracia rural, concorrem para assegurar a esta classe o alto coeficiente ariano e eugenístico, que tanto a distingue nessa época (…). [Oliveira Vianna, Evolução do Povo Brasileiro, José Olympio Editora, 1956 (4a edição), p.143]

Honestamente, o que ainda me surpreende é o grau de popularidade que estas idéias ainda encontram entre o povo deste país. Sei de um professor universitário cujo aluno criticou a miscigenação da sociedade brasileira porque a mesma atrapalhava a evolução da mesma.

Claro, há um lado muito engraçado em trechos como este aí no alto. Não há como não rir desta pretensão de que haveria algo como grupos raciais com temperamentos próprios. Aliás, “raças” e ironia são duas palavras que me remetem prontamente ao famoso folclorista Câmara Cascudo.

São calouros, lá se entendem!

oliveira
“Eu usaria uma saia em protesto por algum amigo eugenista…”

Câmara Cascudo nos explica a origem da expressão popular São brancos, lá se entendem, ainda hoje em voga (mas muito menos do que posso me lembrar…). Segundo ele, origina-se de uma discusão entre um capitão e um soldado no Rio de Janeiro, no século XVIII. Narra-nos o autor:

O Capitão Manuel Dias de Resende, do Regimento dos Pardos, fora desrespeitado por um seu soldado. Queixando-se ao Comandante do Terço, Major Melo, português cioso da prosápia, mereceu a zombeteira resposta: Vocêis são pardos, lá se entendam! O capitão procurou o Vice-Rei, narrando a indisciplina da praça e a sentença do major. Luís de Vasconcelos e Sousa [o vice-rei] mandou chamar o Major Melo, obtendo a confirmação, mandou-o recolher preso. Preso, eu? E por quê? – Nós somos brancos, cá nos entendemos, informou o futuro conde de Figueiró. A resposta do Vice-Rei (…) teve uma imensa repercussão em simpatia, comentada com aplausos e tornou-se frase feita, empregada nas oportunidades. E não desapareceu. [Cascudo, L da C. Locuções tradicionais no Brasil. Belo Horizonte, Itatiaia, 1986, p.63]

Pois é. Nem a expressão desapareceu, nem os pardos, os brancos e os demais. Nem os calouros e os estagiários, estas pestinhas…

Uncategorized

Bangular Walk

Segundo o sempre referencial Camara Cascudo, em seu História dos Nossos Gestos, “Bangular” significa:

“Andar a esmo, vagando sem ocupação e destino. Expressa-se com trejeitos, curvaturas, ansiedade. Do quimbundo Kubungula, sacarotear-se, movimentos do feiticeiro em prática agourenta: (Oscar Ribas, quilanduquilo, Luanda, 1973). Vocábulo e gesto foram trazidos ao Brasil pelos escravos bantos de Angola”. [Cascudo, Luis da Camara, Editora Itatiaia, 1987, p.219]

Posto isto, por que é que ninguém nunca pensou em batizar o random walk como bangular walk? No mínimo teria uma sonoridade agradável. ^_^