O poema que tinha todas as letras do alfabeto…japonês e a alfabetização espontânea

Calma, não falo dos caracteres chineses, mas sim do alfabeto “kana”, aquele que é apenas relativo aos sons. As informações iniciais são deste ótimo verbete da Wikipedia. Olha o poeminha aí (chamado “Iroha”).

以 呂 波 耳 本 部 止
千 利 奴 流 乎 和 加
餘 多 連 曽 津 祢 那
良 牟 有 為 能 於 久
耶 万 計 不 己 衣 天
阿 佐 伎 喩 女 美 之
恵 比 毛 勢 須

Opa, ficou difícil, né? Nem eu consigo ler isto. O que é distintivo neste pequeno poema? Ele inclui todos os sons básicos da língua japonesa (as vogais: a, i, u, e, o e as silábicas básicas: ka, sa, ta, etc, exceto o “n” que aparece ainda assim pois seu som pode ser contado como “mu” na língua japonesa). Que tal uma tradução?

Although its scent still lingers on
the form of a flower has scattered away
For whom will the glory
of this world remain unchanged?
Arriving today at the yonder side of the deep mountains
of evanescent existence
We shall never allow ourselves to drift away
intoxicated, in the world of shallow dreams.

Agora para o que não está na Wikipedia: o poema provavelmente foi escrito antes de 1079. Segundo Seeley (1991), o poema foi essencial na disseminação da língua escrita japonesa (capital humano!). Diz o autor:

Although the original purpose of the Iroha and several other mnemonic verses of about the same period – the Ametsuchi no kotoba and Taini no uta – is a matter of scholarly dispute, it is generally agreed that the Iroha came to be used extensively for elementary writing practice. This verse consists of forty-seven signs (or syllables), and since with the exception of お and を each of these represented a separate phonemic syllable until about 1200, it was considered that  お and を were to be regarded as separate signs, and not simply to be used interchangeably. In this way, the Iroha served as an inventory of the basic kana to be distinguished in use. In an age when a number of different kana were often employed to represent one and the same syllable, there was a clear need for an inventory of this type. [Seeley, Christopher (1991). A History of Writing in Japan, University of Hawai’i Press, 106-107]

A língua é tida como um ótimo exemplo de ordem espontânea (o conceito é de Hayek, Friedrich) e não vejo um belo exemplo de ordem espontânea assim há tempos. Em outras palavras, a existência de diversos poemas em uma época em que a língua escrita ainda está em formação (no sentido de que não havia uma forma única de se traduzir os caracteres chineses), vários poemas surgem, possivelmente porque os poetas queriam um jeito simples de se lembrarem dos fonemas. É neste contexto que aparece o Iroha.

Discussão adicional de internautas (não necessariamente especialistas, logo, pode conter erros) sobre o poema aqui.

 

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Aulinha de japonês – cara de pau!

Curiosamente, não encontrei no clássico Locuções Tradicionais no Brasil, do falecido folclorista Cascudo, a “etmologia” do termo cara de pau. Todo mundo tem uma idéia do que significa, não? Tanto que falamos de passar óleo de peroba no rosto para expressar a mesma idéia de outra forma.

Agora, considere a expressão, em língua japonesa, 厚顔(こうがん、kougan)ou, de forma não-abreviada, 顔の皮が厚い(かおのかわがあつい、kao no kawa ga atsui). A primeira é uma abreviatura da segunda e poderíamos traduzir literalmente como “grosso rosto” ou melhor, “rosto grosso”. Como assim? Veja a segunda expressão que literalmente nos diz: a pele do rosto é grossa.

Significa exatamente a mesma coisa que em português, sem falar que a expressão é praticamente idêntica. Por que esta coincidência? Poderíamos especular que a expressão teria a ver com o intercâmbio cultural entre portugueses e japoneses em Nagasaki após a abertura forçada do país, mas não tenho conhecimento desta bela – mas provavelmente falsa – hipótese.

Prefiro pensar no aspecto biológico, ou seja, a cara do safado sequer muda, fica ali, fixa, mesmo com tudo acontecendo (e todas as evidências apontando para sua culpa). O mesmo fenômeno, lá ou aqui, pode ter gerado a mesma expressão.

Ok, não é Economia, mas é legal, né?

Ambição (向上心 e 野心)

Em português, uma palavra que desperta sentimentos ambíguos, não? Há o sujeito ambicioso, que deseja crescer na vida e há o sujeito igualmente ambicioso, que deseja crescer na vida, mesmo que às custas de outros. Note a expressão: às custas. Parece que nossos lusitanos entendiam mais de economia do que os atuais estudantes brasileiros. Ou será que alguém já se deu conta do significado de benefícios concentrados, custos dispersos implícito na expressão?

Não sei. Mas em japonês, veja só, existem duas palavras para ambição que refletem esta diferença: 向上心 e 野心. A primeira é lida como koujyoushin. A segunda, yashin. Ambas são traduzidas como ambição mas, segundo meu antigo dicionário escolar (例解ー学習国語辞典、de 金田京助 (Kyousuke Kaneda), publicado originalmente em 1965), 野心 (yashin) diz respeito à busca de um objetivo feita de forma cruel ou terrível (ひどく大きな望み). Já 向上心 é uma ambição benigna (“espírito progressivo”, segundo o Novíssimo Dicionário Japonês-Português de Makoto Hoshi, 1982), quando você busca ser algo melhor.

Geralmente, em economia, falamos de incentivos que fazem uso da ambição individual sem diferenciar muito entre estes dois aspectos da ambição (talvez porque tenhamos uma crença, algo ingênua (?) de que podemos neutralizar a ambição  dos indivíduos no processo).

Por exemplo, quando alguém me diz que estabeleceu um incentivo que faz com que um ambicioso gerente gere lucros para a firma, podemos ter como resultado o fracasso porque o sujeito destrói o ambiente de trabalho e faz com que os funcionários se voltem contra ele (em quantos filmes já vimos este roteiro antes?).

Algo me diz que Adam Smith percebia isso (estou me lembrando do que falei sobre o livro do Russ Roberts, há algum tempo). Será?

Expressões linguísticas: “sem-número”

Tenho um interesse inexplicável por línguas estrangeiras, notadamente no que diz respeito às coincidências. Por exemplo, uma expressão muito popular por aqui é “sem-número” ou, para os mais cultos, “miríade”.

Quantas vezes não li alguém que dizia: “…um sem-número de vezes…” e por aí vai. Aí eu, estudando japonês, deparo-me com: “無数” cuja leitura seria (“musuu”). Bom, 無 significa “nada”, “vazio” e 数 é o caractere para “número(s)”.

Não preciso dizer que vibrei e estou me deliciando com isto até agora, né? Tá até difícil voltar a ler o texto. ^_^

Momento 日本語 do Dia

Considere esta frase, retirada desta notícia:

2014年は、4月の消費増税が波乱要因となる.
(2014-Nen wa, shigatsu no shōhi zōzei ga haran yōin to naru)
Literalmente: “Em 2014, o aumento do imposto sobre o consumo, em Abril, é o fator de turbulência”. O aumento (増税 = zouzei) do imposto sobre consumo (消費 = Shouhi) tornou-se o fator turbulento (波乱要因 = haran youin).

O legal é a etmologia da coisa. Digo, do “turbulento” (波乱 = haran ou melhor, “onda” + “guerra civil/caos”). Agora imagine a visão de ondas do mar super-agitadas. Não é o que passa pela sua cabeça quando te falam de um aumento de imposto?

Engraçado é que, como todos já sabem, provavelmente estas “ondas” já foram suavizadas, mas não deixa de ser uma imagem bem evocativa do que se espera de um aumento de imposto…