Penn Jillette sobre libertarianismo

O melhor vídeo já feito sobre o tema, na minha opinião. Longe dos – sempre prejudiciais – chavões e das propagandas panfletárias destinadas a pessoas com QI, suspeito, de ameba (é, eu me cansei de ser apenas ofendido por gente assim). Assista-o aqui. É um belo vídeo.

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Robin Hanson mostra o caminho…

Excelente manifesto este aqui. Um comentário “crítico” é este. Ao fim, parece que aqueles que se recusam a fazer trabalhos empíricos vão, novamente, perder o bonde da história. Não por falta de aviso, claro, mas a galera que gosta de abortar boas idéias antes que elas saiam do controle de seus confortáveis critérios anti-empirismo tem, no Brasil, uma influência muito forte sobre uma geração Z carente de atenção e mimos. É só para dizer para o moleque que ele, com seu texto no blog, mudou os rumos da humanidade que ele já se acha o John Galt e que vai pegar a garota mais gostosa da turma. De quebra, diz que os velhos são ingênuos, bobos ou babões.

Nem precisa de conspiração bolivariana ou revolução gramsciana para acabar com a criatividade humana: é só deixar a quinta coluna agir, compactuar com ela e não a criticar.

Um dos melhores textos libertários dos últimos anos e, claro, ele não está nos grandes portais libertários

É isso mesmo. E é o melhor texto por dizer o óbvio ululante (bem, deveria sê-lo, para os que, supostamente, não são analfabetos funcionais ou preguiçosos). O trecho que vale ouro é este:

Mas confesso que é um pouco deprimente ver essa bandeira — forjada dentro de um movimento que defendia o uso da razão (iluminismo) — ser carregada como uma arma anti-petista cuja munição não emana da análise da evidência empírica, mas simplesmente da repetição cega de mantras liberais — quase que como uma espécie de culto que replica práticas comuns do movimento simétrico oposto que criticam. Se vai ser anti-esquerda por uma via liberal, que seja com lastro empírico. E os resultados do exercício acima oferecem munição empírica para quem deseja apontar as deficiências dos últimos dez anos de governo.

Disse tudo, não? Para quem já foi vítima de ataques do Hamas libertário do Brasil, é um prazer inenarrável ler este trecho. Sei que não há somente o obscurantismo no meio libertário. Conheço diversos alunos promissores em meio a este ótimo movimento e alguns deles já me confidenciaram o cansaço com a tentativa, de alguns, de evitarem, a todo o custo, o uso de qualquer método empírico em estudos de políticas públicas.

Outros já perceberam que muitos supostos libertários vivem confortavelmente em posições de poder monopolista e, claro, não têm interesse em financiar estudos empíricos sobre concorrência (qualquer leitor de Mises notará que o próprio sabia disto, a despeito dos membros do Hamas libertário do Brasil…).

Ah sim, sobre o método do controle sintético que o Sérgio cita, eu o conheci por conta do prof. Felipe Garcia (PPGOM-UFPel) que fez um ótimo texto com Kang e Stein sobre Cuba (está em algum lugar da internet…).

UPDATE: leia lá o texto original. É uma interessante aplicação de controle sintético ao Brasil. Aí sim, você pode discutir seriamente algumas evidências empíricas…

Liberalismo Clássico: uma breve explicação

Antes de me perguntar porque gosto do liberalismo, veja este vídeo. É um belo resumo. Impressionante mesmo, na era da internet, é como tem cara preguiçoso que nem vê o vídeo até fim e sai por aí falando mal do liberalismo sem, sequer, tentar contra-argumentar cada um dos dez princípios explicados (brevemente) neste vídeo.

Dica do Ronald.

O que a criança quer? O que a criança pode ter?

Diga a uma criança que você tem um novo método para fazê-la ganhar mais brinquedos e ela não medirá esforços em lhe convencer que ela será uma ótima cobaia. Alguém duvida? Acho que não. Qualquer um que já tenha visto uma criança deve saber do que falo. Quem nunca viu uma, sugiro que invista alguns poucos minutos neste pequeno experimento.

Todos nós somos um pouco criança, já disse algum (ou vários) poeta(s). Queremos a felicidade e achamos que temos um jeito simples de fazer isso. O presidente não conseguiu acabar com a fome? Só pode ser porque forças malignas o impediram de fazer isto. Existe gente espancando homossexuais? Só pode ser porque existe uma elite hipócrita que promove este espancamento. Há pobreza no mundo? Claro que a culpa é dos judeus. Racismo? Obviamente uma promoção de alguma maçonaria de supostos arianos.

Pois é certo que existem os que desejam conspirar, ora bolas. Mas entre o desejo de conspirar e o fazer acontecer há muito mais problemas como sabe qualquer funcionário de empresa que vê seu chefe cometer besteira sobre besteira sem ser punido. Enquanto isso, claro, a criança interior berra por solução. Onde está a vontade política? Por que meus desejos não se realizam? Simples: por que existem forças poderosas que me impedem de alcançá-los. Tem estupro de mulher na Índia? Faltou passeata de vadia. Só isso.

Mas talvez o mundo não seja tão generoso conosco, crianças. Talvez não existam soluções fáceis. Não basta marchar, não basta acusar judeus (e talvez nem sejam eles os culpados) e nem tudo é culpa de Israel (ou do Bush). O discurso mais fácil para convencer uma criança é o do “bem” contra o “mal”. Infelizmente, não é o discurso verdadeiro.

Na verdade, discursos como este geram crianças arrogantes. Crianças que pensam que tudo é uma questão de vontade. Tem uma galera que não percebe que a inflação subiu? Bem, o povo é ignóbil e precisa de um guia que os leve à compreensão plena, diz-nos a criança que habita nosso coração.  A criança quer muito que o mundo seja explicado desta forma. Chega a dar raiva quando o discurso não “cola” nos fatos. Vai ver existe uma versão judaico-militar da história que precisa ser substituída pela – vamos chama-la desta forma – versão infantil.

A imagem da criança evoca também a juventude e esta, claro, evoca energia, vontade, uma suposta facilidade em se resolver as coisas porque se é jovem. Jovens espancando pais? Não é apenas a Revolução Cultural de Mao – um legítimo experimento socialista – que promoveu este tipo de coisa. Houve também o Khmer Vermelho, hoje, devidamente colocado sob o tapete nas aulas de História. Por que? Porque estas terríveis imagens conflitam com a versão infantil dos fatos. Por que arrancar a inocência da juventude?

O interessante é que a criança interior se esquece da humildade. Será que sua versão explica mesmo os fatos? É só uma questão de conspirações? A explicação fácil não dói, mas a explicação complexa, ah sim, dói muito. Como é possível o socialismo discriminar e massacrar homossexuais? Mas é o que ocorreu em diversos países socialistas. Falar de racismo em Marx ou em Engels é quase pecado, mas é impossível negar os escritos deles (ainda que discretos e colocados, novamente, debaixo do tapete).

Seria o liberalismo (ou libertarianismo, para diferenciar o liberal norte-americano, que é, atualmente, exatamente o oposto do liberal no sentido clássico) compatível com alguma explicação fácil da realidade? Não.

O liberalismo não promete 100% de sucesso. O liberalismo é o que há de mais moderno, complexo e interessante, na minha opinião, e mesmo assim não garante sucesso. Aliás, não é diferente da inteligência artificial ou da computação. Como é que nós, crianças, pretendemos moldar indivíduos que sequer entendemos à nossa imagem e semelhança…que sequer é perfeita sob qualquer aspecto? A pergunta, tal como em outros momentos deste texto, também foi para debaixo do tapete que, inclusive, já se mostra desconfortavelmente irregular em sua superfície.

O liberalismo é uma solução que evoca a ordem espontânea, termo tão citado quanto pouco compreendido. Ainda há quem, no século XXI, acredite que há como moldar o ser humano segundo algum critério. Tentativas não faltam, claro. Há quem veja na propaganda uma arma poderosa (embora não consiga explicar como escapou da mesma). Outros falam de neurolinguística (embora continuem existindo disputas entre políticos). A lavagem cerebral também está na ordem do dia, mas é indefensável por um liberal.

Há também aqueles que pensam que alguns liberais são lacaios inconscientes da conspiração judaica-cristã, embora se vejam puros de similares influências. Quem é liberal, claro, só pode ter “viés ideológico”. Um não-liberal, obviamente, nunca se assume como viesado. O problema do debate político envolve, assim, uma criança que sofre ao encarar o mundo sob uma outra perspectiva que nem sempre lhe dará o conforto da certeza ou do autocentrismo. Envolve também a capacidade de enxergar um tapete irregular e de altura consideravelmente distante do normal e dizer que é apenas uma ilusão de ótica.

O liberal nunca prometeu a solução correta, apenas o método menos agressivo à natureza humana e que gere mais prosperidade para todos. Não há garantias que haverá igualdade de X ou Y em cada nano-segundo. Não há garantias de que o liberalismo não possa ser vencido por crianças que tenham dificuldades de enxergar outros pontos de vista e até de mudar de opinião. Não garante o liberalismo que nada de errado ocorrerá e, claro, não garante que não possam nascer pessoas que pensem como anti-liberais.

Para que serve, então, o liberalismo? Talvez devamos perguntar: onde nos levará uma criança auto-cêntrica que não muda de opinião? Esta sim, é a pergunta interessante para nós, adultos e, com alguma esperança, para muitas crianças.

Lógica dos mercados ou lógica das pessoas?

Engraçado como são as coisas, leitor. Você chegou aqui, nesta página, intencionalmente ou não. Se irá prosseguir com a leitura ou não depende tão apenas de você. Duvido que alguém o esteja obrigando a ler este texto mas, se houver, é porque provavelmente a leitura faz parte de alguma tarefa escolar que vale pontos que você, novamente, escolheu não deixar passar porque, há algum tempo, escolheu fazer um curso superior. Claro, você pode ter escolhido o curso superior por gosto ou porque seu pai o obrigou. Exceto por uma incrível coincidência de gostos, você estará insatisfeito no segundo caso.

Agora, imagine seu amigo internauta que mora em Cuba. Provavelmente ele faz várias escolhas no seu dia-a-dia. A diferença (por enquanto) é que, lá, o conjunto de escolhas possíveis que ele pode fazer é mais limitado. Limitado não apenas pelo grau de desenvolvimento tecnológico do pais, pelo progresso, pelas condições naturais da região em que vive ou pela sua educação, mas também por um governo que lhe tolhe estas escolhas. Você poderia imaginar um outro amigo sueco, um espanhol, um chinês e um boliviano. A essência do fenômeno não mudaria, como você já deve ter percebido.

As escolhas individuais são, essencialmente, suas. Se você se acha inteligente porque escolheu se formar em Engenharia ou em Direito, é um problema seu: o mendigo da rua também faz escolhas individuais de forma tão inteligente quanto você. É verdade que ele tem menos opções de escolha, mas, por isso mesmo, pela escassez de opções, é provável que seja até mais rápido do que você ao optar entre vender balas no sinal e dormir no passeio. Ironicamente, é provável que muitos sejam mais eficientes do que você em suas escolhas.

Agora, não lhe parece que estou falando obviedades? Alguém poderia escolher debater um ou outro aspecto do que foi dito até agora, mas não haveria discordância sobre o papel das escolhas (veja, alguém escolhe debater). A verdade é que todos os exemplos acima ilustram a lógica da ação individual, do ponto de vista do que se ensina na Ciência Econômica.  Por motivos os mais diversos, incluindo uma dose de parcialidade e desonestidade intelectual, alguns chamam esta lógica de “lógica de mercado”. Ou seja, se eu escolho comprar um exemplar de “O Capital”, eu sigo a lógica de mercado.

A história do termo “lógica do mercado”, aposto, é similar à do “capitalismo”. Este último, como nos ensina a história, foi um termo criado pelos que propagandeavam uma supostamente ótima alternativa, o socialismo. Ninguém, até então, chamava a lógica da ação individual de “lógica do mercado”. Mesmo porque, “mercado” é algo que pode ser definido das mais diversas formas, incluindo o ato de consumir afeto materno, carinho paterno, ou assistir a uma peça de teatro.

Devido a uma característica muito comum aos seres humanos: a vaidade, é difícil ver algum adepto do termo “lógica do mercado” aceitar, sem dificuldades puramente idiossincráticas, o fato de que esta é a lógica de suas próprias ações. Isso, claro, implicaria em entender o mercado, algo que muita gente pretende saber e/ou não deseja estudar, por temor de, provavelmente, acabar curtindo (para usar um termo da era Facebook). Alguns poderiam dizer que a vaidade é a causa do wishful thinking que caracteriza a maior parte das discussões humanas (até mesmo a científica, em algumas tristes ocasiões).

Para combater a compreensão da lógica da ação das pessoas (ou individual, ou ainda “da ação humana”, na concepção de Mises), alguns debatedores se valem dos mais variados artifícios retóricos. Em outras palavras, alguns debatedores escolhem até mesmo a desonestidade intelectual para vencer o debate. Se assim o fazem porque acreditam em algum objetivo universal ou apenas por vaidade (ou alguma insegurança, etc), não importa muito pois, no final, trata-se de uma escolha.

Poderíamos dizer que esta escolha pela desonestidade deveria ser coibida pelo governo. Alguns adorariam corrigir a humanidade desta forma. O problema é que o governo também é feito de seres humanos (até prova em contrário) e que, portanto, também escolhem. Por que alguém acreditaria que escolhem o melhor para você e não para si próprio? Digamos que haja uma bondosa alma como esta. Ainda assim, quem (ou o que) garantiria que a sua escolha é a melhor para todos?

Alguns dirão: “- Mas tem a ciência! A ciência prova que o cigarro mata”. É verdade que o cigarro não é lá aquela maravilha para os pulmões de alguém. Mas a ciência não prova nada. Como disse Alberto Oliva em seu belo A Solidão da Cidadania, cuja referência bibliográfica completa agora me escapa, certezas, só na religião e, ao contrário do que muita gente pensa, às vezes é preciso ter algumas certezas na vida. Até ateus procuram certezas (como: Deus certamente não existe).

Além disso, vale lembrar, cientistas escolhem e, assim, como disse Ronald Coase (em Essays on Economics and Economists. The University of Chicago Press, 1994), não é a “ciência” que avança, mas os cientistas e seus interesses. Certos cientistas escolhem a fama, outros escolhem a pesquisa e, claro, outros escolhem avançar suas agendas baseadas em seus financiadores. Se o financiador é o governo ou uma produtora de fumo, como já vimos, não faz muita diferença pois não há garantias de que o governo saiba o que é melhor para você.

Portanto, a lógica das pessoas, como a chamei, trouxe-nos até a questão final deste texto: como é que a vida em sociedade pode ser a melhor possível diante desta inexorável lógica? Alguns diriam: mais governo! Mais legislação! Depois de termos compreendido o fato óbvio de que o governo é uma miríade de interesses, este argumento perde força. Outros gostariam de dizer que o melhor é não ter governo algum. Na verdade, sempre haverá algum tipo de governo, mesmo em uma sociedade sem um governo formal, como nos ensinam diversos autores (por exemplo: Terry L. Anderson e Peter J. Hill com seu instrutivo The not so wild, wild west – property rights on the frontier).

Certamente eu poderia escolher dizer para o leitor que há uma escolha melhor – provavelmente aquela baseada em meus desejos mais sádicos e insanos – mas o fato é que eu escolho a honestidade intelectual e enuncio aqui que: “eu não sei qual é a melhor solução”. Entretanto, de uma coisa eu sei: não é tolhendo a sua, a minha liberdade(s) que chegaremos à melhor forma de governo.

O leitor deve estar cansado de tanta repetição, mas este texto tem um objetivo bem didático mesmo. Deve ter ficado claro que a “lógica de mercado” deveria ser chamada e/ou compreendida como a “lógica de suas ações” e que, portanto, tentar entende-la pode alterar sua percepção de mundo. Isto gerará um conflito em sua mente e você, em última instância, terá de escolher entre o discurso fácil e reconfortante – mas que nega a lógica de suas ações pois alguém saberia o que é melhor para você – e a escolha da humildade, que implica que vamos, sim, respeitar a divisão de trabalho na sociedade, de que, de fato, alguns sabem mais de algumas coisas do que outros, mas também que tal divisão não será a melhor se tiver sido construída artificialmente sob a vontade de alguém, supostamente onisciente e que…sabe melhor escolher para você do que você mesmo.

Caso você acredite nesta última opção, peço que tente, de todas as formas, impedir a leitura deste texto. 

Quem deve decidir com quem você vai se casar?

Quando eu estudava economia lá pelos anos 80, algum colega, certamente um depravado (para os padrões da época), pergunto ao professor sobre o tal “liberalismo econômico”. A resposta foi interessante e, resumindo-a, seria algo como: o liberalismo é coisa do passado. Já no século XIX, Marx mostrou que ele não funcionaria, etc. O raciocínio implícito no argumento é o da pretensão científica que o marxismo supostamente teria.

Bonito, não? Provavelmente alguém deveria ter que dizer a você o que fazer com suas horas de trabalho porque deixar que você as venda para um capitalista é péssimo. Péssimo? Para quem? Hoje sabemos que o concorrente do capitalista era o burocrata autoritário dos regimes socialistas. Os professores de história de hoje parecem não querer se lembrar, mas nós sabemos o que foi o Camboja sob o Khmer Vermelho, a Alemanha Oriental, a União Soviética e, claro, há Cuba, que segue inexplicavelmente inocentada por alguns que juraram estudar a história.

O argumento “temporal” é bastante risível, para dizer o mínimo. Basta pensar em um alemão vivendo em 1930. Para ele, pela lógica acima, o nacional-socialismo seria superior ao socialismo pois veio depois do mesmo. Ah sim, e não nos esqueçamos do caráter científico da ideologia nacional-socialista, com suas menções a uma raça ariana e tudo o mais. Tal como no socialismo, também já foi mostrado pela história que muitos destes belos mitos não passavam de desculpas para realocações coercitivas de recursos com o uso, inclusive, da violência, para o enriquecimento de alguns poucos. No caso dos nazistas, veja-se, por exemplo, a descrição de Heather Pringle sobre os rent-seekers de Himmler em The Master Plan, Harper Perennial, 2006. No campo socialista, os exemplos abundam e o mais famoso talvez seja o soviético Trofim Lysenko.

Apesar de tudo isto, outro dia ouvi o exemplo mais exótico de argumento contra o “demoníaco liberalismo que defende o mercado sem rosto e coração contra o cangaceiro popular e pobre”. Segundo o relato, o argumento era mais ou menos assim: “o liberalismo é uma coisa que talvez funcione no futuro, mas não agora”. Espere, você leu direito? Leu sim. O argumento do século XXI para – supostamente – derrubar o liberalismo (ou o libertarianismo) é exatamente o oposto do argumento que ouvi nos meus anos de graduação. Como a comunidade acadêmica evoluiu de lá para cá…

O novo argumento tem um sabor de sadismo: ele reconhece que o defensor do liberalismo pode até ter razão, mas o mundo real, este safado, não está pronto para ele. Não duvidaria se alguém me dissesse que o argumento se baseia na seguinte falácia: “para o liberalismo funcionar, deveríamos ter pessoas que colocassem o bem comum acima do bem individual”. Já ouviu isso antes? Sim, esta falácia era usada para se justificar revoluções de esquerda nos tempos do regime militar. Além do fato de que pode, inclusive, ser impossível, existir o tal conceito de “bem comum”, o argumento mostra que alguém precisa fazer o dever de casa e ler Adam Smith. Quem disse que o liberalismo só funciona com gente castrada de interesse próprio? Pois é justamente o contrário e é por isso, provavelmente, que muitos acham contra-intuitivo entender que o liberalismo gera felicidade e prosperidade para mais gente do que em outros arranjos sociais justamente por se basear nas ações auto-interessadas dos indivíduos.

A pretensão anti-liberal é a de que a interação de milhares de indivíduos é inferior a algum tipo de planejamento (erroneamente pensado como superior ao processo social) de algum grupo de pessoas que podem até representar uma classe de seres humanos bem-intencionados. Deste raciocínio surge o que eu chamo de vício de engenheiro. Tal vício surge com bastante frequência quando se discute liberalismo com alguns profissionais de formação em Ciências Exatas. Muitos deles argumentam que “se deve consertar estas injustiças controlando estas ações individuais”. Mesmo que não haja um consenso científico, digamos, sobre quem deveria decidir com quem se casar, defendem os viciados, nós, que estudamos mais do que eles e sabemos que pessoas são como tijolinhos, vamos decidir com quem cada um vai se casar.

Daí se segue um discurso até simpático, creditando à suposta Razão Humana (seja lá o que isso for), a capacidade de alterar a natureza a seu favor, gerando progresso, etc. Lembra muito o argumento inicial apresentado neste texto. Não é preciso ler Hayek – embora se você quiser entender o argumento liberal, você deva fazê-lo – para ver que, primeiro, pessoas não são tijolinhos e, segundo, o conhecimento não surge do céu, de alguma Razão Humana que more no Olimpo (ou em algumas faculdades de engenharia, sociologia, direito ou economia, dentre outras) e atinge os seres humanos em cheio.

A realidade é bem mais interessante e complicada de se entender e é por isso que penso que se há um lugar no qual a anarquia sempre nos leva a uma vida melhor, este lugar é na pesquisa científica (e também nas artes em geral). Ninguém sabe melhor do que eu com quem eu devo me casar. Eu posso até estar enganado, mas você não me conhece melhor do que eu mesmo. Da mesma forma, eu não sei se é melhor você não comer hambúrgueres. Você é quem sabe. Vá ao médico, veja suas perspectivas de vida e decida por si. Por que eu deveria decidir por você? Nem que eu fosse eleito!

Interessante como o liberalismo (libertarianismo) nunca prejudica as pessoas por suas crenças. Você é gay? Problema seu. É um islâmico? Problema seu. Desde que você não obrigue ninguém a fazer algo contra sua vontade pelo uso da força física, não há problema. Você pode defender a morte de milhões (como os nacional-socialistas e os socialistas), mas se você encostar o dedo em alguém com esta intenção, os vigilantes da liberdade o levarão para o tribunal.

O liberalismo é bom demais para ser deixado para o passado ou postergado para o futuro. Este sim, é um ponto para se refletir.

Ganhadores do concurso do Fraser Institute

Assista todos os vídeos! O da limonada, o “let it be” e Sarah são os melhores, para mim. Eis o anúncio oficial (os links dos vídeos cortesia deste blogueiro).

Winners of Fraser Institute student video contest showcase economic prowess, filmmaking skills

Release Date: January 26, 2010
VANCOUVER, B.C.—Sixteen students from across Canada and the U.S. share $10,000 in prizes in the annual student video contest held by the Fraser Institute, one of Canada’s leading public policy think-tanks.

Students in Victoria, Vancouver, Calgary, Thunder Bay, Toronto, and Ottawa received awards for their entries. A complete list of the winners is below.

Students were asked to create a video answering the question “what is the appropriate role of government in the economy?” Sixty-two videos submitted by 133 university and high school students from across Canada and the U.S. were entered in the contest—more than triple the number of videos entered in last year’s contest.

“The creativity and adept analyses these students put into their videos is remarkable. It’s very encouraging to see young people engaged in such a critical debate about the role of government in the economy,” said Peter Cowley, Fraser Institute senior vice president of operations.

The winning entries were selected based on originality, clear expression of ideas, production values, quality of story, and understanding of the topic. A special Viewer’s Choice Award was also awarded in each category to the videos with the highest rating on YouTube. All videos can be viewed at http://www.youtube.com/fraserinstitute.

Brendan Conway-Smith from the University of Ottawa took second prize in the post-secondary category.

“Brendan’s video was a clear standout. The high production values and sharp examination of the topic made this an impressive entry,” Cowley said.

Jason Killion from Reynolds Secondary School in Victoria, B.C. won third prize in the high school category.

“Another great entry showcasing a keen grasp of economics and video production—very well done,” Cowley said.

The contest was sponsored by The Lotte and John Hecht Memorial Foundation.

2009 Student Video Contest winners

Post-secondary category

1st place ($2,000)
My Friend Sarah
Created by Mark Meranta (George Mason University—Fairfax, V.A.)
and Terra Strong (George Mason University—Fairfax, V.A.)

2nd place ($1,500)
Letting Be
Created by Brendan Conway-Smith (University of Ottawa—Ottawa, O.N.)

3rd place ($750)
Laissez Faire
Created by Ty Mills (University of Calgary—Calgary, A.B.)
Kasper Woiceshyn (University of Toronto—Toronto, O.N.)
Robert Wensley (Bob Jones University—Greenville, S.C.)
Marc LeClair (Westmount Charter School—Calgary, A.B.)

Runner-up (received a handheld camcorder valued at $500)
Let it be
Created by Tori Finlayson (University of British Columbia—Vancouver, B.C.)

Viewer’s Choice Award ($750)
My Friend Sarah
Created by Mark Meranta (George Mason University—Fairfax, V.A.)
and Terra Strong (George Mason University—Fairfax, V.A.)

High school category

1st place ($1,500)
Government’s Practical & Moral Role
Created by Lance Knight (Peripatos Academy—Pittsboro, N.C.)

2nd place ($1,000)
Public Option, Post Office—Are You PO’d Yet?
Created by Travis Knight (Peripatos Academy—Pittsboro, N.C.)

3rd place ($750)
My Crazy Dad and the Role of the Government
Created by Jason Killion (Reynolds Secondary School—Victoria, B.C.)

Runner-up (received a handheld camcorder valued at $500)
Capitalist Rap
Created by Aiden Wilks (St. Mary’s Senior High School—Calgary, A.B.)
Paula Turcotte (St. Mary’s Senior High School—Calgary, A.B.)
Matthew Tiberio (St. Mary’s Senior High School—Calgary, A.B.)

Viewer’s Choice Award ($750)
A Tale of Two Citrus—A Canadian Allegory
Created by Lucas McEachern (Westgate Collegiate & Vocational Institute—Thunder Bay, O.N.)
and Craig Draeger (Westgate Collegiate & Vocational Institute—Thunder Bay, O.N.)

View the winning videos at www.youtube.com/FraserInstitute.

John Stagliano

Meu amigo Hamdan insistia que ele havia morrido. Foi desmentido (aqui). O brasileiro médio, que não entende direito o que é liberalismo (ou libertarianismo) e conservadorismo, geralmente fica sem entender nada quando lê uma notícia como esta. Afinal, Stagliano está ao lado dos “neoliberais”?

Já falei inúmeras vezes – aqui e em outros lugares – sobre a estupidez de se usar este rótulo bizarro (“neoliberal”) e no quanto ele mais confunde do que realmente ajuda a entender o espectro político.

De qualquer jeito, eis Stagliano em mais um caso de liberdade de expressão – alguém ainda se lembra do polêmico filme sobre Larry Flynt?

Novo partido político: Liber

Os libertários aparecem no Estadão: Juliano Torres é o entrevistado. Você pode não ser um anarquista de mercado, como ele. Mas o nascente partido é, pelo menos em termos programáticos, um colírio. O partido conseguirá se manter? Sucumbirá à corrupção? Questões como esta aguardam estes jovens 500 fundadores.

Vale a pena procurar saber mais sobre Liber. Veja, por exemplo, esta página. Juliano Torres já apareceu por aqui, diga-se de passagem, em nosso e-book sobre a lei seca.

Tipos de liberais

Só para lembrar, nos EUA, “liberal” é sinônimo de “social-democrata”. Já “conservative” é algo como “conservador” mesmo. Logo, os liberais americanos se chamam de “libertarians”. Bem, vamos ao caso. Tyler Cowen criou uma taxionomia sobre os libertários dos EUA:

1. Cato-influenced (for lack of a better word).  There is an orthodox reading of what “being libertarian” means, defined by the troika of free markets, non-interventionism, and civil liberties.  It is based on individual rights but does not insist on anarchism.  A ruling principle is that libertarians should not endorse state interventions.  I read Palmer’s book as belonging to this tradition, broadly speaking.

2. Rothbardian anarchism.  Free-market protection agencies will replace government-as-we-know-it.  War is evil and the problems of anarchy pale in comparison.  David Friedman offered a more utilitarian-sounding version of this approach, shorn of Misesian influence.

3. Mises Institute nationalism.  Gold standard, a priori reasoning, monetary apocalypse, and suspicious of immigration because maybe private landowners would not have let those people into their living rooms.

4. Jeff Friedman and Critical Review: Everything is up for grabs, let’s be consequentialists and focus on the welfare state because that’s where the action is.  Marx is dead.  The case for some version of libertarianism ultimately rests upon voter ignorance and, dare I say it, voter irrationality.

5. “Hayek libertarianism.”  All or most of the great libertarian thinkers are ultimately compatible with each other and we have a big tent of all sorts of classical liberal ideas.  Hayek and Friedman are the chosen “public faces” of this approach.  “There’s a classical liberal tradition and classical liberal values and we can be fuzzy on a lot of other things.”

Acho que fico entre 1 e 5 tendo simpatia pela abordagem de David Friedman que eu não classificaria como Rothbardiana já que o fundamento não-austríaco de Friedman costuma ser rejeitado por boa parte dos seguidores de Rothbard.

Como toda taxionomia, esta é sujeita a críticas, mas eu gostei. Gostaria, na verdade, era ver uma classificação liberal para o Brasil. Aposto que quase não existem tendências.

Amanhã

Amanhã é o dia da fundação do Libertários. Se você estiver em Belo Horizonte, dê um pulo lá. Eu, por motivos a serem revelados, não poderei estar presente.

O diretório do Libertários de Minas Gerais, honrado em sediar a reunião de fundação do partido e no intuito de melhor acolher os visitantes dos outros estados, vem através deste informar a programação para o dia 20 de junho de 2009, em Belo Horizonte.

A partir das 17:30, no Hotel Mercure Casablanca, teremos uma reunião prévia, extra-oficial, com duração de 1 hora e 30 minutos, para acertarmos os detalhes pertinentes à reunião de fundação. Ato contínuo, às 19:00h horas, no mesmo local, terá início a reunião solene de fundação do partido.

Na reunião prévia (17:30-19:00) serão colocados em pauta para discussão os seguintes temas:

1- Estatuto – deliberação sobre a minuta a ser apresentada na reunião de fundação e espaço para alterações.

2- Programa – deliberação sobre a minuta a ser colocada em votação na reunião de fundação e espaço para alterações.

3- Logo e cores – debate e seleção dos cinco melhores logo e cores do partido, para votação na reunião de fundação.

4- Chapas – espaço para discussão das chapas que concorrerão ao Diretório Nacional após a fundação do Libertários.

Na reunião de Fundação (19:00-20:30) será seguido o protocolo abaixo:

1- Abertura da Mesa (composta pelo atual Diretório Nacional)

2- Leitura do Estatuto e Programa pelo Presidente

3- Votação do Estatuto e Programa

4- Abertura da eleição – inscrição e apresentação das chapas.

5- Eleição e posse do novo Diretório Nacional

6- Encerramento dos trabalhos.

Após o encerramento da reunião, convidamos a todos a comemorar a fundação do Libertários no [local a ser definido].

Endereço do local da reunião: Mercure Casablanca
Rua Guajajaras, 885 Centro – Belo Horizonte/MG
Endereço do local da comemoração: [local a ser definido]

Para maiores informações entrem em contato por julianotorres@msn.com ou (31) 97824940.

O fracasso do libertarianismo, o liberalismo mais ou menos e o sucesso do comunismo?

Sempre é interessante verificar tendências. Graças a Eric Crampton pude fazer um pequeno exercício de descoberta de tendências. A ferramenta é o “Google Insights”. Só para explorar o tema, vejamos quem é o campeão na preferência das buscas.

Atenção: calma com as análises, heim? O fato de um termo ser popular nas buscas significa apenas que vale o ditado: “falem mal, mas falem de mim”. Em outras palavras, pode ser que um sujeito busque por um termo não porque o ame, mas porque busque notícias negativas sobre o mesmo. Claro, também há o que busca um termo porque gosta do mesmo. No mínimo, é um bom indicador de interesse, seja ele positivo ou negativo.

Aí vão (clique nas figuras para ampliar):

From Drop Box
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Libertarian Papers

Novo ejournal. Pena que começa com artigos já lidos exceto, creio, o último deles……….o que me lembra minha eterna crítica aos austríacos radicais: não produzem nada de novo, apenas reciclam antigos pensadores. Isto não é uma boa prática, seja para libertários, austríacos ou qualquer um.

Se você quer publicar novamente um artigo antigo clássico de alguém crie logo uma biblioteca virtual com os seus “clássicos”. Journal é para novos artigos, reflexões de autores que fazem acontecer. Deixe os mortos com sua honra para a posteridade…

No mais, tomara que tenha futuro este “Libertarian Papers”.

Libertários são libertários…ponto.

Ao dizer “capitalismo”, as pessoas não querem dizer simplesmente livre mercado, nem simplesmente o sistema neomercantilista vigente. Ao invés disso, o que a maioria das pessoas quer dizer com “capitalismo” é esse sistema de livre mercado que atualmente prevalece no ocidente. Em resumo, o termo “capitalismo”, da forma como é geralmente utilizado, esconde uma suposição de que o sistema atual é um sistema de mercados livres. E já que o sistema atual é, na realidade, o sistema do favorecimento governamental de empresas, o uso comum do termo carrega consigo a suposição de que o livre mercado é o favorecimento governamental de algumas empresas (23).

Então, agarrar-se ao termo “capitalismo” pode ser um dos fatores que reforçam a confusão do libertarianismo com a defesa do corporativismo (24). De qualquer forma, se a defesa dos princípios libertários não é mal compreendida – ou pior, se é compreendida corretamente! – como a defesa das corporações, a relação antitética entre o livre mercado e o poder corporativo deverá ser continuamente destacada.

Trecho tirado daqui.

Seminário Libertário (que, aliás, não defende o padrão-ouro)

Aqui. Olha só a programação:

Seminar Schedule
8:40 – 9:20
Registration (Coffee and Tea)
9:20 – 9:30
Opening Remarks
9:30 – 10:30
The Case for Free Trade and Against Barrierism David Henderson
10:30 – 11:00
Discussion Groups
11:00 – 11:15
Break
11:20 – 12:20
Why Fractional Reserve Banking is More Libertarian Than the Gold Standard Jeffrey Hummel
12:25 – 1:25
Lunch
1:30 – 2:30
The Non-recession of 2008:
An Overblown Crisis and Unnecessary Bailout Jeffrey Hummel
2:30 – 3:00
Discussion Groups
3:00 – 3:15
Break
3:15 – 4:15
The Paulson Bailout: Bush’s Road to Serfdom David Henderson
4:15

Adjournment

Qual o custo da delinquência?

Aqui está uma estimativa, para o Chile. A autora é Maria Elena Arzola e ela trabalha na Libertad y Desarrollo. Esta é a diferença entre os think tanks liberais brasileiros e os similares norte-americanos (e chilenos): não se dá, aqui, importância à pesquisa.

Claro que isto empobrece o discurso dos defensores da economia de mercado e os deixa perigosamente próximos dos seus detratores, no sentido de apenas se basearem em princípios ideológicos.