Capital humano, migração, história econômica do Brasil e algoritmos confusos (fuzzy): isso sim, é ser plural!

ancestors_monasterioLeonardo Monasterio tem um artigo novo – um texto para discussão, na verdade – o qual tive o privilégio de ler antes da sua publicação.

O que eu gosto no texto? Primeiro, a originalidade no uso do método em uma pergunta tipicamente de História Econômica. Segundo, o texto está do tamanho certo: nem grande demais, nem pequeno demais. Terceiro, o uso do R. Quarto, o zelo na hora de fazer inferências mais sofisticadas (a parte final do texto).

O que eu não gosto no texto? Faltaram umas 30 páginas.🙂

De certa forma, o artigo mostra que há alguma evidência de que as condições iniciais importam, um tema comum a alguns estudos do desenvolvimento econômico (o famoso PIB inicial nas regressões…) e também aos que seguem insights teóricos da Nova Economia Institucional (o tal path dependence).

Ensino de Economia no colégio?

Bernardo acha que sim e o Leo acha que não. Aliás, como diz este último (o Leo): muitos com diplomas de economistas sequer entendem vantagens comparativas e, digo mais, alguns não querem mesmo entender este conceito. A idéia de que se tivesse este ensino nas escolas é boa? Não sei.

Já fui a favor, mas acho que o aluno, hoje, tem ótimas opções sem precisar entrar em sala de aula (estou pensando nos vídeos do portal do Carlos Eduardo, o tal “Porquê”)  e penso que seria legal investigarmos, empiricamente, o grau de analfabetismo econômico entre economistas e também entre não-economistas (penso em algo assim).

De qualquer forma, a discussão me faz lembrar de um pequeno artigo (acho que foi uma palestra convertida em artigo) de Bryan Caplan que nos dá motivos para defendermos a proposta de ensino nas escolas, ceteris paribus a existência massiva de professores de economia que entendem vantagens comparativas.

Mais comércio, mais bem-estar! (cliometria é show!)

A família imperial dos Castro só quer uma vida melhor! É, querem consumir bens melhores. Simples assim.

Muita gente acha contraditório – e, de certo ponto-de-vista, é mesmo – um sujeito apoiar Fidel Castro e, ao mesmo tempo, reclamar do bloqueio comercial dos EUA (que parece ter chegado ao fim no apagar das luzes da administração Obama).

Ideologicamente, claro, é um nó. Mas a Ciência Econômica, quando separa o seu lado positivo do normativo, é capaz de explicar o aparente paradoxo. A questão é bem simples: mais comércio significa mais bem-estar! Adicione a isto uma pitada de Public Choice e você verá que há bons motivos para que ditadores adorem comércio.

Veja, por exemplo, como países notoriamente não-democráticos (no sentido moderno) se beneficiaram do comércio. O pesquisador Nuno Palma, em seu: Sailing away from Malthus: intercontinental trade and European economic growth, 1500–1800, publicado na Cliometrica de Maio deste ano, mostra-nos que:

What was the contribution of intercontinental trade to the development of the European early modern economies? Previous attempts to answer this question have focused on static measures of the weight of trade in the aggregate economy at a given point in time, or on the comparison of the income of specific imperial nations just before and after the loss of their overseas empire. These static accounting approaches are inappropriate if dynamic and spillover effects are at work, as seems likely. In this paper, I use a panel dataset of 10 countries in a dynamic model that allows for spillover effects, multiple channels of causality, persistence, and country-specific fixed effects. Using this dynamic model, simulations suggest that in the counterfactual absence of intercontinental trade, rates of early modern economic growth and urbanization would have been moderately to substantially lower. For the four main long-distance traders, by 1800, the real wage was, depending on the country, 6.1–22.7 % higher, and urbanization was 4.0–11.7 percentage points higher, than they would have otherwise been. For some countries, the effect was quite pronounced: in The Netherlands between 1600 and 1750, for instance, intercontinental trade was responsible for most of the observed increase in real wages and for a large share of the observed increase in urbanization. At the same time, countries which did not engage in long-distance trade would have had real wage increases in the order of 5.4–17.8 % and urbanization increases of 2.2–3.2 percentage points, should they have done so at the same level as the four main traders. Intercontinental trade appears to have played an important role for all nations that engaged in it, with the exception of France. These conclusions stand in contrast to the earlier literature that uses a partial equilibrium and static accounting approach.

Prestou atenção nos números? Pois é. Nem vou grifar ou comentar.

Eu arriscaria dizer mais. Diria que, em democracias, mais comércio é sempre bem-vindo. Já em países menos democráticos, as tentativas de limitar as liberdades civis (e, portanto, individuais) de boa parte da população (exceto, claro, as das elites governantes) em conjunto com liberalizações econômicas geralmente criam mais distorções do que as resolvem, pelo simples fato de que é impossível para um ser humano controlar os fluxos de trocas individuais (surgem os mercados negros, pessoas negociam ilegalmente com oficiais das alfândegas, etc).

Hayek bem nos ensinou sobre a necessidade de sermos menos pretenciosos quanto às variáveis que podemos controlar (Friedman disse algo similar sobre a política monetária) e continuo achando seu insight importante…o que não significa que um governo não possa adotar uma política (há um papel para o governo, claro) de abertura comercial, por exemplo.

Alilás, você sabe o que é cliometria? Sabe como fazer pesquisa na área? O Leo Monasterio responde, neste ótimo bem público (gerado privadamente pelo prof. Cajueiro).

Estupidez humana

Bom dia para você que acordou inspirado. As dicas para entender a figura acima são: esta, esta e a versão brasileira, fortemente correlacionada às cinco leis de Cipolla, famosa na academia brasileira, que se encontra neste livro do Leo (a regra dos “dois desvios-padrões”).

História Econômica do Brasil: a tipologia das colônias

Pois é. Um dos meus temas favoritos. Este texto do Leo e do Philipp é muito bacana. Uma verdadeira história do pensamento econômico focada nos conceitos de colônias de povoamento e de exploração que, não, não foram inventados por Caio Prado Jr.

Vai lá ler e depois comenta aqui. ^_^

Grécia e Restrição Orçamentária Não-Rígida

O Leo Monasterio nos lembra que, para entender a questão da Grécia, você tem que entender um pouco do conceito de Market Preserving Federalism, ou melhor, de soft budget constraint.

O Boueri chama-a de restrição orçamentária maleável, embora eu – e outros – prefiramos restrição orçamentária frouxa (ou não-rígida). Talvez Boueri possa ver um exemplo de reflexão sobre a realidade brasileira usando estes conceitos em um trabalho escrito alguns anos antes do ótimo livro citado pelo Leo, aqui (o segundo colocado tem um trabalho sobre isto, aplicado a Minas Gerais).

Continuo insistindo que Janos Kornai merece um Nobel pela introdução deste belíssimo conceito (restrição orçamentária não-rígida) juntamente com o Barry Weingast (já que Ronald McKinnon faleceu). É uma aposta remota para um Nobel, eu sei, mas com os problemas da Grécia vemos, novamente, que o problema da rigidez da restrição orçamentária é muito atual.

Sim, seria um prazer imenso voltar ao tema e ver novos trabalhos tentando medir, empiricamente, o grau de rigidez de restrições orçamentárias municipais, estaduais, nacionais…ou, melhor ainda, estudando a questão de seus determinantes. Eis aí um tema de monografia que não deveria ser desprezado.

DEA em R?

O Leo Monasterio deu a dica. Aliás, que dica excepcional! Faz tempo que larguei mão de mexer com DEA. Bateu aquela vontade de trabalhar de novo com isto. ^_^

Por que eu cansei? É que começou uma onda de alunos que só queriam decorar comandos e fazer monografias de 10 (dez) páginas sem a menor preocupação com a interpretação dos resultados e disposição zero de estudar.

Aí eu cansei. Mas antes disto, co-autores alguns bons trabalhos com, por exemplo, Daniela (que foi orientada pelo Ari) e o Rodrigo (precisa criar o perfil para o acesso gratuito). Ambas renderam artigos (outros artigos meus estão aqui).

Redução da Maioridade Penal – subsídios

Primeiro, o problema da estatística. Ah sim, não apenas o da existência dos dados, mas também o segundo problema: gente que não quer acreditar nas evidências empíricas de maneira patológica (esta última dica veio daqui).

Por último, não, gente, quando o sujeito diz: “sua abordagem é muito simples porque considera que o criminoso só faz conta de custo-benefício e desconsidera o meio em que ele vive”, este mesmo sujeito mostra que não entendeu nada da análise.

Para começo de conversa, a crítica infeliz é ao modelo econômico do comportamento criminoso, devido a Gary Becker. O cálculo de custo-benefício, obviamente, pode, sem muita dificuldade, ser feito sob restrições bem especificadas (aliás, não pode ser feito de outra forma). Ora bolas, não preciso ir muito longe no argumento. Basta observar a quantidade de estudos mostrando testes de hipóteses deste modelo com relação aos ciclos econômicos (exemplos aqui e aqui).

Eu? Eu acho que criminoso tem que ser punido. Mas acredito que a lei tem custos e benefícios e devemos considerá-los na análise. Falei disto outro dia aqui. Ah sim, é importante você também ler este texto, mais técnico.

A discussão, para mim, não é só de filosofia e ética. Sem dados, não serve. Não serve para a Academia e nem para nós, o povo.

Crítica às instituições: elas importam mesmo?

Leo Monasterio aponta críticas de um pesquisador. A meta-piada é que, se não importassem, pessoas não ficariam lendo sobre elas. ^_^

Agora, sério, a crítica sobre as variáveis utilizadas (como as do Polity IV) na parte 1, não me parecem tão poderosas assim. Em dois aspectos: (a) esta crítica não é exclusiva para a abordagem institucional (isto não a desmerece, mas torna-a mais geral) e, (b) se a questão é a escala de medida da variável, o ponto importante é usar o método estatístico mais adequado.

Quanto à parte 2, achei ótimo o autor lembrar do injustiçado Albouy, que fez uma crítica correta ao problema dos dados de mortalidade dos colonizadores (e foi criticado de forma exagerada por Acemoglu na réplica).

Acho promissor pensar em uma abordagem mais data-driven para medir o impacto de instituições sobre o crescimento econômico. Mais ainda, acho que o crescimento econômico é apenas um dos aspectos. Há a qualidade dos governos, por exemplo, que é uma variável para lá de importante.

Mas uma crítica mais séria, creio, é que precisamos definir melhor o que entendemos por instituições. Sério. Esta literatura tem se tornado um bocado extensa e algo confusa em algumas ocasiões. Claro, é difícil definir instituições, mas os artigos nem sempre deixam isto claro (acho que consegui dizer algo sobre isto aqui).

Ficou tão bom que reproduzo

O problema de ler pouco

 
O ex-ministro do Trabalho Antônio Magri disse que só tinha lido dois livros na vida . “Ler muito confunde as ideias”, teria dito. Ele estava certo. A leitura realmente deixa o cara confuso. Só que isso é bom, porque nos faz menos cheio de certezas e prontos para julgar melhor.
Tomemos o caso de quem só leu “Formação Econômica do Brasil” do Furtado  e “A Economia Brasileira em Marcha Forçada” do Barros de Castro. Ainda mais se o cara fez uma leitura rasteira, ele sai seguro que crises são oportunidades [bip! bip! Alerta de clichê] e que, via gasto público, é moleza garantir a demanda agregada ou superar o gargalo externo “levando a economia brasileira para outro patamar” (seja lá o que isso queira dizer).
Contudo, quem também leu Suzigan, Peláez, Bonelli, Malan, Fishlow – só para ficar na geração que produziu sobre tais temas nos anos 70 e 80 – aprende que tudo é bem mais complicado do que contam as histórias reconfortantes da bibliografia básica das disciplinas de Economia Brasileira.

Não vou dizer mais nada.

O fiscal do fiscal e outros trabalhos de Sanson (e um breve comentário)

Meu – sumido – amigo Sanson em alguns bons momentos. Primeiramente, o curto ensaio sobre a fiscalização no setor público. Em segundo lugar, dois textos de fôlego que mostram a riqueza da nova economia institucional na análise do crescimento econômico. Este aqui e este. Creio que Sanson – e seus orientandos – tanto quanto Leo Monasterio – idem – são fontes de leitura cada vez mais obrigatória nesta época em que economia regional não é mais aquela dos anos 50, mas sim algo perfeitamente integrado com a teoria econômica (ver Krugman e seu Nobel) ou a prática (ora, ora, veja a econometria espacial).