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Sobre o erro do IBGE: dois pontos breves

Eu poderia falar um pouco sobre a virtude da concorrência, quando o próprio IBGE reconhece que chegou ao erro por comentários de outros pesquisadores, que estranharam os resultados. Também poderia falar do problema que a chefe do Mantega criou para si mesmo ao afirmar, peremptoriamente, que o papel da imprensa não é o de investigar, o que significa que ela quer que erros do IBGE ou de outros órgãos públicos jamais sejam alvo de investigação pela imprensa, indo na contramão do que eu disse três linhas acima.

É, eu poderia falar disso tudo. Eu sei. Mas eu prefiro falar de um outro aspecto importante: dados. Há muito o que falar sobre isso, mas eu nunca me esqueci das aulas que assisti na UCLA com o prof. Jean-Laurent Rosenthal. Em uma ocasião, ele falou mais ou menos com estas palavras, em sala que: quando usamos apenas dados públicos oficiais (obrigado, Monasterio, pela correção!), fazemos apenas as pesquisas que o governo quer que façamos, não as que queremos (ou poderíamos) fazer. O ponto, simples, é que você deveria dar mais atenção às suas aulas de Estatística, estudar um pouco e coletar seus dados quando esta coleta se encaixa mais na sua hipótese de trabalho.

O povo da História Econômica que não tem medo de calculadora sabe disto, pois coletam dados em fontes as mais inusitadas porque não podem esperar encontrar o que precisam nos arquivos do IBGE apenas.

No final do dia, o erro do IBGE não é tão diferente do erro de Rogoff e Reinhart, não é? O erro ocorreu e foi rapidamente corrigido, o que é um mérito. Isso me leva a um segundo ponto: a velocidade em que a informação circula hoje em dia. Os chamados dados em tempo real são uma realidade (estive na banca de doutorado de uma tese sobre o assunto há alguns anos) e, junto com ela vem a comunidade de economistas que publicam comentários na internet. Por enquanto, esta comunidade é livre, embora uma das candidatas esteja quase explicitamente fazendo uma propaganda enganosa contra a liberdade de expressão sempre que a “expressão” é contrária ao que ela acha bom para ela mesma.

O que acontece quando esta comunidade recebe o dado e o comenta em tempo real? Simples. Caso haja um erro, como este do IBGE, o comentário passa de alguma coisa (certa ou errada) para, definitivamente, errado. Claro, podemos discutir isso em graus, mas o fato é que não se pode analisar uma foto da realidade – a que nos é dada pelos dados (sic) – se a mesma está errada.

São dois pontos sobre os quais vale a pena pensar tomando um café. Dados que eu mesmo coleto (e como lidar com os erros de medida – sobre isto, veja o ótimo livro de Econometria – nível graduação – de Stock e Watson, em sua 3a edição) e a pressa em se analisar dados porque, no mundo atual, a disseminação de dados é muito rápida.

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Rogoff, sobre a Obanomics

Rogoff tem uma visão bem menos fantasiosa sobre o pacote de Obama do que seus entusiastas no Brasil. Vale a leitura da entrevista. Dois excelentes trechos:

Como o sr. viu o pacote de socorro para a indústria automobilística?

Isto realmente é política. Sou simpático à idéia de que, quando o governo assina cheques a torto e a direito para o sistema financeiro, é difícil dizer não para as montadoras. Mas o dinheiro é basicamente um presente para os acionistas das montadoras, e não acho que vá salvar muitos empregos. As empresas deveriam ter sido levadas à concordata. É um completo desperdício de dinheiro. Não acho que os Estados Unidos estarão fabricando carros daqui a 15 anos, da mesma forma como já não fazemos televisões. É uma indústria moribunda.

Os recursos do impulso fiscal poderão ser mal empregados?

Isso vai acontecer. O governo Obama tem de arrumar uma maneira de mitigar esse problema, mas isso é um trabalho difícil quando se gasta dinheiro nestas proporções. Uma parte grande do dinheiro vai para os governos estaduais e municipais, e nós já estamos vendo em Chicago o que pode acontecer, com episódios como o do (Rod) Blagojevich (governador de Illinois, acusado na Justiça de tentar vender uma vaga de senador): ele deve estar tão aborrecido em deixar o seu cargo logo agora que ia receber dinheiro como nunca.

Vá lá e termine a leitura. Vale, como disse, a pena.