E o Procon se preocupa com o ovo…

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Pois é. A notícia completa está aqui e ela assusta. Vejamos: (a) o consumidor tem tantos direitos no Brasil que ele precisa guardar recibos de compras por cinco anos porque alguém, que não tem nada a ver com a sua vida, pode pedi-los; (b) a Receita pode errar e azar o seu, (c) alguém, com poderes divinos, calculou que US$ 50.01 é um valor que merece punição divina estatal.

Enquanto o Procon se preocupa com ovos…

Vamos conversar, Procons, vocês adoram dizer que vivem em função do consumidor, mas, digam-me aqui: quando a Receita erra, ela tem que agendar um encontro com o consumidor? Ela se sujeita aos mesmos trâmites legais a que sujeita os consumidores?

Realmente a manutenção do valor de US$ 50.01 para tributar algum importador de bens de consumo há anos faz sentido, senhores defensores dos direitos dos consumidores? Qual a metodologia de cálculo? Tantas multas são reajustadas, tantos impostos o são, mas este valor permanece fixo há anos. Fosse a realidade tão estável, a Receita não precisaria se preparar para sua super-estrutura de fiscalização citada na notícia. Veja um trecho:

O País tem recebido perto de 1,7 milhão de pacotes a cada mês, quando no início de 2013 o volume era da ordem de 1,2 milhão. No ano passado, foram 18,8 milhões no total, segundo dados da Receita Federal.
A maior parte dessa farra de consumo tem chegado ao comprador sem a cobrança de tributos, mas isso está prestes a mudar. Um sistema que está sendo montado em parceria com os Correios e a Receita vai automatizar a fiscalização, que hoje é feita por amostragem.

Bonito, né? Com tanto esmero, estranha-me que ainda exista corrupção no governo. Ops, espere, o governo diz que não há corrupção. Tá tudo lindo. Ah….

Honestamente, o CADE não se preocupa com a união do monopolista chamado “Correios” com o governo para fins de aumento de margem de receita? Sério que uma união de “gigantes” monopolistas só é um problema no caso do setor privado, mas não no caso do governo?

A farra do jornalismo econômico

A jornalista chama a demanda de importações de farra de consumo. Eu poderia chamar o déficit público do governo de farra de gastos públicos? E o que seria uma invasão ilegal de terras sem punição por parte de grupos de interesse que não se legalizam para poderem continuar invandindo com risco mínimo de responsabilização legal? Uma farra de invasões? E aqueles industriais que importam máquinas para renovar o parque industrial? Praticam farra de desindustrialização (mesmo quando não existe o similar nacional)?

Existe uma estranha suposição moralista na expressão (e talvez a jornalista nem tenha tido esta intenção, mas assim soou…). É como se a importação estivesse em um nível moralmente condenável: virou farra mesmo, coisa de adolescente irresponsável. Será que é assim mesmo? A jornalista não deve acreditar que seus gastos no restaurante no final de semana são uma farra gastronômica, imagino eu.

Será que não existe uma farra arrecadatória com a Receita se aproveitando para tributar só porque precisa manter seu corpo de funcionários, mais os outros de outros ministérios, etc? Podemos falar em uma farra com o dinheiro público arrecadado sempre que houver oportunidade, ainda que não haja mais justificativa econômica?

Então, é mais ou menos isto: os jornalistas usam expressões moralistas para falar de importações e os supostos defensores dos consumidores na verdade os ofendem, chamando-os de idiotas que não sabem comprar e precisam ser tutelados por, adivinhem, pessoas que conseguiram romper o ciclo da ignorância de forma pretenciosamente mágica.

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“Nada de importação para você, seu pobre recém-entrado na classe média! Fique no seu lugar de analfabeto funcional que precisamos arrecadar, imbecil!”

Lembra da minha campanha dos bookholders para todos?

Bom, outubro está chegando. Será que, com ele, teremos novas equipes econômicas que tenham algo a dizer sobre estes aspectos da vida dos cidadãos?

Sério mesmo que você, jornalista, você, do Procon, você, da Receita e vocês, leitores, acham que devemos mesmo tributar bookholders para privar os pobres do acesso ao mesmo? Realmente querem uma massa de cidadãos analfabetos que vão mal no PISA porque não estudam direito? Não digam que não, porque estão fazendo tudo para impedi-los de exercitarem seu potencial de consumidores e, não, sociólogos de porta de cadeia, consumir é uma forma de se libertar dos grilhões da ignorância sim. Ou vocês são contra o Bolsa-Família?

Abertura econômica? Para quem? A barreira dos US$ 50.01

Caso você ainda ache que importar é uma questão de “farra”, faça seu dever de casa e leia um pouco antes. Leia sobre a relação entre abertura econômica e prosperidade, por exemplo. Faça uma farra intelectual (e veja a qualidade das evidências de todos os autores envolvidos no debate).

Na história, como sabemos, a liberdade – inclusive a econômica – não evolui linearmente. Há retrocessos, há governos tributando para matar e, claro, existem os intelectuais, que sobrevivem de críticas e elogios aos poderosos, como aprendemos, por exemplo, aqui.

E aí? Vamos nos unir para amarrar os farreadores das importações nos postes?

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Então, meu chefe era um pterodoxo…o que?

Economista critica falta de correção inflacionária
O escalonamento em quatro anos do reajuste de 97% de PMs e policiais civis pode representar, no fim do período, em mais perdas. É o que afirma o doutor em economia do Ibmec Márcio Salvato. Segundo ele, o aumento deveria considerar também a inflação do período.

“É preciso que seja considerado essa inflação para que a defasagem não seja alta”, disse. Para o economista, a falta de reajuste nos salários pode favorecer a busca por uma renda paralela e, em casos extremos, propiciar a corrupção”, afirma Salvato.

Além do reajuste salarial, os policiais civis também pedem por melhores condições de trabalho. Para a categoria, o aumento atende apenas a uma parte das reivindicações. “Pedimos aumento no quadro de funcionários e melhores condições de trabalho, e isso até agora não foi apresentado”, disse o presidente do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil (Sindipol), Denilson Martins. (GS)

Embora o pessoal da imprensa tente me convencer que o prof. Salvato defende a indexação da economia, eu vou dizer a vocês, meus dois leitores: distorceram o que ele disse. Assim, este espaço está aberto para o prof. Salvato, caso queira fazer algum comentário esclarecendo o que realmente ele quis dizer.

Eu sei o que ele quis dizer, claro. Mas não sou eu que faço matérias para jornais…

Jornalista como um ser humano qualquer

Breaking with the academic tradition of considering journalists mainly as victims of the media systemand glorifying them in their role as humble servants of the public interest, we have argued that economic theory can be usefully applied to journalism. Journalists can and should be seen as rational actors seeking to promote own interests, calculating risks and benefits, reacting to material and non-material incentives and rewards while trading information for attention with their various sources.

O leitor já entendeu: jornalista não é nenhum santo. Responde a incentivos. Quais? Se tiver acesso ao artigo, leia. Há toda uma gama de problemas a serem estudados.

Nepom no Estado de Minas (cross-posting: Nepom)

Esta semana me pediram, por mensagem eletrônica, respostas a algumas perguntas. A matéria, editada, foi ao ar (e às bancas) hoje. Aqui está o link. Entretanto, a última frase da matéria, que está entre aspas, não é, de forma alguma, o que eu disse. Vejamos o original (repare no trecho em negrito):

– Vc acha que essa mudança é realmente necessária e até mesmo oportuna para fazer alterações que já eram até mesmo precisas? Pq? Quais?

Se você quer favorecer o pequeno poupador, o mais adequado seria promover mudanças que diminuissem as taxas que os administradores de fundos cobram. Ao invés disso, opta-se por uma solução na qual aquele que escolheu uma aplicação de menor ganho, mas de custo reduzido é penalizado. Não creio que esta seja a melhor medida.

Além disso, as quedas de juros promovidas pelo Copom não são eternas. Conforme as condições da economia se alterem, pode ser que as taxas de juros voltem a subir. Em um cenário como este, o pequeno poupador será mais penalizado do que seria sobre a regra atual.

Agora, compare com a frase que a jornalista Paola atribui a mim:

“Além disso, as quedas de juros promovidas pelo Copom podem se estagnar e as taxas voltarem a subir”, critica.

Eu não disse que as quedas estagnam, mas sim que podem voltar a subir.

Vamos aproveitar para informar melhor o leitor sobre a economia. Apesar do bom trabalho da jornalista Paola (exceto no caso da última frase), vale a pena falar mais sobre a questão da poupança. Assim, segue abaixo todo o conteúdo da mensagem que enviei para a jornalista, em resposta às suas perguntas. Sem edição, sem correção, mas com mais informação do que foi publicado.

De: Paola Carvalho [mailto:xxxxx]
Enviada em: segunda-feira, 27 de abril de 2009 20:01
Assunto: Entrevista Estado de Minas

Caros,

Estou fazendo matéria sobre essa polêmica em torno das mudanças na poupança. Gostaria de saber a sua opinião sobre:

– Pq o governo quer alterar as regras da poupança?

Existem duas explicações que tentam “adivinhar” as motivações do governo. Uma delas diz que o governo está preocupado com o pequeno poupador, a outra, que o governo não quer perder recursos para continuar se endividando. Historicamente, a poupança tem rendido menos do que os fundos de aplicação. Historicamente, também, o governo não tem seguido uma trajetória consistente de tentar diminuir seu gasto público. Muito pelo contrário, os últimos oito anos mostraram que se chega mesmo a ameaçar a sociedade – quem não se lembra da novela em torno da CPMF? – para garantir que o superávit primário seja sempre gerado muito mais por aumentos na arrecadação do que cortes nos gastos. Logo, parece-me que o discurso de “proteger o poupador” não ilustra bem as intenções do governo.

– Oq pode acontecer se as regras não forem alteradas?

Como o Banco Central tem atuado no sentido de diminuir os juros, os fundos de aplicação se tornam menos atrativos do que a poupança. Logo, há uma tendência de migração dos recursos dos primeiros para o segundo.

– Vc acha que essa mudança é realmente necessária e até mesmo oportuna para fazer alterações que já eram até mesmo precisas? Pq? Quais?

Se você quer favorecer o pequeno poupador, o mais adequado seria promover mudanças que diminuissem as taxas que os administradores de fundos cobram. Ao invés disso, opta-se por uma solução na qual aquele que escolheu uma aplicação de menor ganho, mas de custo reduzido é penalizado. Não creio que esta seja a melhor medida.

Além disso, as quedas de juros promovidas pelo Copom não são eternas. Conforme as condições da economia se alterem, pode ser que as taxas de juros voltem a subir. Em um cenário como este, o pequeno poupador será mais penalizado do que seria sobre a regra atual.

– Em meio a essa crise, a poupança é um bom investimento? Qual o desempenho dela em relação a outras aplicações desde o agravamento da crise? Quais as perspectivas para 2009?

Perguntas de resposta difícil. Sou economista, não astrólogo. Vamos lá. Um bom investimento é sempre dependente das preferências e condições do investidor. Uma pessoa pode muito bem aplicar em fundos e poupar, dividindo seu patrimônio de forma balanceada. Já outros preferem, por motivos individuais, poupar mais e não desejam pagar as taxas de administração de alguns fundos. É uma decisão individual. O melhor, para o indivíduo, é procurar sobre as opções que existem, verificar seu bolso e pensar sobre seu próprio desejo de assumir mais ou menos risco.

Para 2009, as perspectivas são de baixo crescimento. Não se espere milagres na economia. Eles não existem. As condições para uma retomada do crescimento não dependem apenas do Brasil, mas da economia mundial como um todo. Neste sentido, não há motivos para otimismo. O cenário só não será pior porque o Banco Central tem tido a sensatez de buscar cumprir sua meta de inflação. Imagine uma economia em recessão e com inflação: certamente seria o pior dos mundos.

– Nesse momento, quais os cuidados o investidor tem que ter?

O investidor deve sempre olhar para seu fluxo de renda futura. Um investimento arrojado, digamos assim, no momento atual implica em um elevado retorno futuro? Quais os custos disto? A resposta depende de um cuidadoso cálculo dos custos e dos retornos esperados de cada opção. Não se deve confiar cegamente em conselhos de economistas, especialistas em finanças, administradores de fundos ou gerentes de bancos. Você tem suas metas de crescimento pessoal, eles têm as deles e nem sempre o que lhes parece atrativo também o é para você. Como já disse antes: reveja suas metas, calcule cuidadosamente seus custos e respeite seu perfil de investidor (arrojado, conservador, etc). Ou seja, respeite-se enquanto tomador de decisões e se informe bem.

– É vantagem resgatar o dinheiro de outras aplicações para depositar na poupança?

Cautela é sempre necessário. É melhor aguardar pelas novas regras. O governo seria extremamente estúpido se fizesse medidas como o famoso “calote” que vimos nos anos 90. Estude as novas regras antes de mais nada. Elas são novos parâmetros para você rever suas decisões de investimento. O mundo não acabará no dia seguinte. Calma e cautela em primeiro lugar.

É isto aí, gente. Nepom na imprensa, ajudando a informar.

Desconstruindo o ufanismo

Marcelo Soares desconstrói – sim, eu adorei! – o ufanismo de uma manchete. Sim, há jornalistas sérios no país. Dentre eles, há os que trabalham direito e Marcelo consegue unir as duas qualidades (além de traduzir histórias em quadrinhos da Marvel, o que é uma virtude…).

Ah, Agência Brasil…Goebbels já morreu, né?

Gaspariwatch

Agora é o Duke que mostra como Gaspari pode, lamentavelmente, ser bem parcial em suas críticas. Mais ou menos assim: quando a administração promove um concurso viesado, é malvado e feio. Quando a mesma coisa – com o sinal trocado – ocorre sob a administração da Silva, Gaspari cai num paradoxo de jornalismo escancaradamente parcial.

Gaspari também é humano, erra. Acho que esta é a mensagem. Acho que o pessoal do Resistência vai gostar disto.

Entrevista com Renato Lima

1. Renato, este blog sempre faz críticas ao jornalismo econômico. Você, como jornalista, tem todo o direito de revidar. Como você vê a prática do jornalismo – inclusive o econômico – no Brasil? Há críticas? Elas procedem? Qual, enfim, é sua visão?

Temos alguns veículos de boa qualidade. O Estado de São Paulo faz uma das melhores coberturas nacionais e o Valor é disparado o mais abrangente veículo de economia. Na mídia regional, a qualidade flutua bastante, mas há notáveis contribuições.

Os erros do jornalismo econômico são mais fáceis de mensurar. Entretanto, acredito que mais freqüentes, e perniciosos, são os erros do jornalismo político. Aí inclui a relação questionável entre jornalistas e fontes em Brasília, muitas vezes querendo plantar matéria para ver a reação da sociedade. Em cultura, decaímos muito em relação ao que existia de cadernos culturais jornalísticos em décadas passadas. Mas ganhamos excelentes veículos na Internet, como o Digestivo Cultural. E há também o Café Colombo – um programa de rádio que está disponível para podcast, em www.cafecolombo.com.br e que sou um dos apresentadores. heheheh

Na questão da qualidade, identifico um problema geral e outro específico para o jornalismo econômico. O geral é que em jornalismo se tem uma carga de trabalho muito elevada e salários pouco atraentes. A reportagem das redações, em sua maioria, é composta de pessoas jovens. E, quanto mais jovem, mais difícil ter a memória de eventos. Dessa forma, o presidente fica livre para falar “Nunca antes neste país…”.

No caso de jornalismo econômico, há um agravante particular de seleção. Nas faculdades de jornalismo são poucas as que possuem cadeiras, com alguma qualidade, de economia. Mais difícil ainda é um foca que sonha estagiar em redação numa editoria de economia. A universidade não forma e o povo não quer. Entra, muitas vezes, porque sobra vaga e é emprego. Economia é vista como algo complicado, cheio de números, difícil de ser desvendada. Esse profissional, que cai de pára-quedas assim, é o mais fácil de ser enganado por uma fonte. Isso eu acho que dá um estudo interessante para mensuração, Cláudio…heheheh

2. Imagine que tenho um jornal e quero lucro. Publico uma matéria tendenciosa sobre algum político. Qual a solução? Menos liberdade de imprensa? Existe – e se existe, funciona? – auto-regulação da imprensa neste
aspecto? O que sua prática diz? O que você nos conta do mercado jornalístico a este respeito?

Mais, muito mais liberdade de imprensa. Para o erro de um, que exista outro veículo que vigie e aponte erros do outro. Acontece que, para isso, não basta existir apenas a liberdade formal. A qualidade de imprensa e sua liberdade estão diretamente relacionadas ao acesso a recursos/patrocínio. Quanto menor é a concentração de publicidade em alguns poucos anunciantes, mais arriscado é tocar em determinados temas.

Em um estado inchado, em que a máquina pública captura mais de 40% do PIB e o restante também virou dependente do Estado, como é possível ter liberdade para criticar? Digamos que eu faça uma revista de petróleo. Diga que a Petrobras está mal gerida, que os programas de biocombustíveis têm muita politicagem etc. Quantos anúncios da Petrobras vou ter? Zero. Ok, compreensível. E de fornecedores da indústria de petróleo? Provavelmente zero também. É muito arriscado apoiar quem bate de frente a um governo tão inchado.

No Brasil, quem mais agüenta levar “porrada” da imprensa é o poder legislativo. Eles estão sempre muito expostos. O Executivo tem suas formas de pressão e o Judiciário um enorme poder de dissuasão não amigável… Soube de caso de juiz trabalhista que ameaçou veículo de comunicação que, se publicasse determinada matéria, as causas trabalhistas em litígio pela empresa seriam todas perdidas. Criticar o Judiciário, no Brasil, é o que dá mais dor de cabeça.

3. Assessoria de imprensa e jornalismo: como você vê estas profissões? Pode-se dizer que um assessor de imprensa também tem “muita liberdade”?

Nunca trabalhei em assessoria, sempre estive do lado de cá. O que se normalmente pede do assessor é não vender pauta gato por lebre e auxiliar coisas práticas (foto do entrevistado, horário de entrevista) etc.

4. Renato, você já expressou sua opinião algumas vezes sobre o liberalismo, a economia de mercado e a sociedade brasileira. Existem liberais no Brasil? O povo é liberal? E a economia de mercado? O povo, na sua opinião, gosta de economia de mercado? Ou vivemos em uma sociedade rent-seeking?

Não sei se dá para saber se o brasileiro gosta de economia de mercado ou nunca provou – por aqui. Acho que os incentivos econômicos existentes (e aumentados) são para pedir mais proteção e rent-seeking. É uma questão de instituições. O mesmo povo que aqui pede isso vai para os Estados Unidos ou Canadá (novo destino migratório do Brasil) e trabalham arduamente. Iniciam pequenos negócios e gostam de saber que,
por lá, não tem espaço para jeitinho brasileiro.

Vivemos atualmente uma tragédia da juventude: a busca insana por concursos, estimulada pelo governo federal. A mamata pública dá, no Brasil, estabilidade de emprego e salário, greve remunerada, aposentadoria integral, status. Especialmente nas áreas meio. Todos esses benefícios que terão que ser pagos com o árduo trabalho daqueles que se sujeitam as intempéries do mercado, ao sobe e desce das cotações, às preferências dos consumidores etc. Tendo um incentivo como esse e preferir a economia de mercado é algo quase insano. Peraí que vou ali tomar o meu remédio controlado…

5. Outro dia, Adolfo Sachsida, professor universitário da UCB (Universidade Católica de Brasília), sozinho, sem apoio de qualquer entidade, fez uma passeata liberal em Brasília. Qual o significado disto para os tradicionais think tanks liberais (Ordem Livre, o Instituto Millenium, o IL-RS, o IL-RJ, o IEE e, agora, o Instituto Mises Brasil)?

Os indivíduos podem fazer a diferença na história e espero que Sachsida seja um desses. E, com a internet, o que seriam indivíduos dispersos podem se agrupar e trabalhar de forma conjunta.

Veja, eu devo boa parte da minha formação à atuação de institutos liberais. Do IL-RJ, fui um dos vencedores do I Prêmio Donald Stewart, junto com Diogo Costa, do Ordem Livre, e Rafael Ferreira, colega que fez jornalismo comigo aqui na UFPE e hoje cursa o mestrado em economia da EPGE, RJ. Comecei lendo algumas traduções do IL-RJ e aprofundei leituras depois. Do IEE já cobri umas quatro vezes o Fórum da Liberdade e acho a estrutura organizacional do grupo fantástica. É muito fechada (tem que ser empresário ou estar na linha de sucessão de uma empresa) mas tem sua justificativa (estar sujeito aos riscos de mercado).

Mas sinto falta de Think Tanks como há nos Estados Unidos ou Reino Unido. Que produzam papers e policy reports. Essas primeiras organizações liberais tiveram um papel vital de juntar pessoas para discutir idéias e traduzir obras importantes. O que deve continuar. Acho que poderíamos dar um segundo passo nesse sentido, com uma agenda mais propositiva, analítica e política mesmo – no sentido de influenciar as decisões.

6. Bem, fique à vontade para finalizar a entrevista.

Como diria Henry Hazlitt – um grande jornalista econômico – a arte da economia é perceber não apenas os efeitos imediatos, mas os efeitos de longo prazo de qualquer ação política, rastreando as suas conseqüências para todos os grupos. Isso é o que precisa ser exercitado sempre também no jornalismo econômico. Há uma dificuldade de se fazer esse bom jornalismo numa economia de mercado. Os efeitos visíveis são muito mais fáceis de serem reportados, entrevistados etc. Quando o governo aumenta o salário mínimo, por exemplo, é fácil saber quantas pessoas vão ser beneficiadas e com quanto. Os que perderam
emprego (na margem) não estão organizados em associações, estão dispersos. Da mesma forma, concurso do governo dá manchete, mas não colocam, na mesma matéria, que para custear essas novas vagas outras
terão que ser destruídas no mercado de trabalho. Se a população estivesse mais bem informada dos efeitos negativos das ditas políticas boazinhas, talvez o apoio a esse Estado intervencionista fosse menor. Mas, independente desse fim (diminuição do apoio ou não), o bom jornalismo deve ser praticado olhando efeito intencional e o efeito não intencional.

Abraços

Renato Lima

Portal UOL força a barra

Eis o anúncio do Nobel. Vamos aos fatos: Krugman é crítico de Bush? É. Ele ganhou o Nobel por isso? Não. Então a quem serve o jornalista quando divulga a notícia desta forma?

Imagine que o portal UOL cometesse uma gafe: chamasse o presidente de “bebum” e, em seguida, ganhasse um prêmio de jornalismo. Será que eles se auto-proclamariam como: “portal que chama presidente de bebum ganha prêmio”? Duvido.

Mais Laurini

Os problemas na modelagem

(…)
Também acho que a crise tem outros motivos, sendo que o principais estão relacionados a seleção adversa e risco moral. As formas de remuneração dos executivos, ligadas ao desempenho da empresa, como stock options, incentivam posições extremamente arriscadas. E outro fator óbvio está na expectativa implícita do resgate de instituições com dinheiro público, devido ao risco sistêmico. Apesar que mesmo esta explicação tem seus limites. Se sua instituição conseque empréstimos da autoridade monetária toda a direção é substituída, e assim isso não me parece uma explicação muito racional. Creio que a explicação mais razoável desta hipótese seria um resgate de mercado, no máximo coordenado pelo banco central. Resgate público é a solução mais drástica e com perdas enormes para os gestores.

Não é necessário nem pegar um artigo, um bom livro texto já resolve. Só olhar o capítulo 6 do Mas-Collel (Choice Under Uncertainty) para perceber que teoria econômica e teoria de finanças estão totalmente relacionadas. É impossível de separar as duas teorias.

Na minha opinião pessoal a formação básica dos economistas é bastante insuficiente para os padrões atuais de modelagem financeira (e como coloquei no post anterior, eu aposto nessa opinião, tanto que fui fazer um doutorado em estatística justamente por ter essa opinião).

Eis aí mais uma resposta ao Selva Brasilis, sobre Economia e Finanças. Destaco os trechos seguintes:

As formas de remuneração dos executivos, ligadas ao desempenho da empresa, como stock options, incentivam posições extremamente arriscadas. E outro fator óbvio está na expectativa implícita do resgate de instituições com dinheiro público, devido ao risco sistêmico.

E:

… a formação básica dos economistas é bastante insuficiente para os padrões atuais de modelagem financeira (e como coloquei no post anterior, eu aposto nessa opinião, tanto que fui fazer um doutorado em estatística justamente por ter essa opinião).

Eu sei que para bom entendedor, meia palavra basta, mas a blogosfera não é conhecida por terem bons entendedores em abundância. Por isto, resumo mais ainda:

(a) Incentivos –  o problema do incentivo no mercado financeiro (a questão da remuneração do mané) não é diferente do problema do incentivo na administração de bancos, faculdades, hospitais, etc: há sempre um péssimo administrador criando sistemas de incentivos irresponsavelmente ruins, que estimulam os mais diversos problemas. Só um gerente muito sem-vergonha é capaz de esconder isto dos acionistas para obter ganhos no curto prazo. Portanto, acionistas, estudem Economia e Finanças ou apliquem seu dinheiro em empresas minúsculas, familiares ou tribais (e olhe lá que índio não é bobo não…)

(b) Finanças e Estatística – conheço gente que leciona na área. A diferença entre o bom professor de Finanças e o mau caráter é a seguinte: o bom professor respeita o que não conhece (no caso, Estatística) e o mau caráter fala mal da Estatística de maneira sutil (“eu não entendo nada disto, é coisa de gente estranha que não toma banho”, etc) e diz que o mercado é muito diferente do que dizem os livros de Finanças, não no sentido de alterações nas hipóteses sob um modelo teórico básico (como diria o Laurini, o Mass-Collel…), mas naquele sentido pterodoxo de que “o mundo, o inconsciente, o meu tesão pela professorinha são mais importantes na determinação dos preços dos ativos do que este livro chato que nunca li e nem consigo porque não sei somar e subtrair”.

Preciso deixar claro isto porque, como diria Coase, se a blogosfera fosse abundante em sábios, comentarista mal-educado ou blogueiro safado não existiriam e, como sabemos todos, este tipo de gente (gente?) é ótima para deseducar as pessoas sinceras que encaram a própria ignorância como uma barreira a ser superada, não algo a ser elogiado ou visto como um sinal de sucesso (principalmente quando ocupa algum cargo público besta…).

E a dança das bolsas continua. Vejamos a imprensa ao longo do dia…

Roubini, novamente

Roubini ficou famoso por, supostamente, ter previsto a crise atual. O mais correto seria dizer que ele alertou para esta crise com antecedência (e, claro, com análises sérias). Após os eventos recentes, virou moda falar que um suposto “neoliberalismo” teria acabado. Como se a Guerra do Iraque sequer tivesse existido.

Pois bem. Hoje Roubini reclama do socorro da administração Bush ao AIG. Vejo, novamente, como nossa imprensa ansiosa por rótulos se enrola toda. Ao prever a crise, Roubini foi saudado como coveiro do liberalismo. Agora, quando o mesmo Roubini – corretamente – reclama do socorro de Bush aos banqueiros, a imprensa é incapaz de publicar suas palavras e/ou analisá-las.

Roubini está certo (e Boettke também). Resta saber o que a blogosfera ecoará: o ruído ou o sinal.

Do jornalismo engraçadinho

Há manchetes e manchetes. Mas qual o nome – no meio jornalístico – de um pseudo-furo? Em outras palavras, todos os jornalistas (e cidadãos-eleitores desta capital) sabem (e muitos jornalistas, inclusive, fazem parte deste mercado, como consumidores) da prática aludida na matéria. Há anos. Muitos anos.

O valor da matéria, portanto, cai muito. Parece muito mais algum tipo de elogio aos nobres funcionários multadores da agência regulatória da prefeitura do que uma verdadeira posição do jornal a respeito do tema.

Vamos lá, gente, se quiserem realmente fazer uma denúncia como estas, sejam os primeiros a falar do tema…no tempo certo. Não agora que a prática já está consolidada na cidade (com o beneplácito, sim, de muita suposta autoridade ocupante de cargos públicos).

Nem vale a pena comentar sobre a economia desta informalidade.