Mais armas, menos crimes?

Tema sempre polêmico. Como cientista, não vi evidências definitivas contra ou a favor da tese. Como cidadão, em princípio, acho que – qualificando vários trechos da fala do sr. Bene – mais armas, menos crimes. Qualifico, principalmente, porque não creio que “estudos científicos” possam “comprovar” coisa alguma. Há também a questão polêmica envolvendo John Lott Jr. que não se pode desprezar (o problema da base de dados, etc).

Sobre a questão ideológica, não custa lembrar que há variáveis reais que ajudam a explicar o posicionamento das pessoas no que diz respeito à liberação do porte de armas. Eu, Salvato, Fabio e Ari, há alguns anos, fizemos um estudo sobre isto (aqui está). O próprio Ari tem um outro artigo, analisando aquela história do Levitt, sobre aborto e crimes.

Aliás, para falarmos de teste de hipóteses precisamos, primeiramente, trabalhar com uma amostra que seja compatível com a população que se deseja estudar: a brasileira (mas é legítimo fazer comparações internacionais, desde que se entenda os limites e o alcance da análise). Em segundo lugar, é preciso verificar custos e benefícios do porte de armas, não apenas custos ou benefícios, o que é sempre um problema na maioria dos estudos que já vi.

O debate é muito importante e válido, dado o nível de violência que, anedoticamente, vemos por aí (e também nos dados, quando eles estão disponíveis).

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A qualidade do ensino no Brasil

Está fazendo muito sucesso na internet um video, no mínimo triste. Aparentemente, o professor parece mais preocupado em doutrinar do que em ensinar e, não, não vou entrar neste debate de que “ensinar é uma doutrina”. Nós sabemos muito bem do que estamos falando quando assistimos um video como este. Perturbador? Para muitos pais totalmente despreocupados com os filhos, não. Para outros, sim.

Após assistir o video, eu me lembrei de um artigo (que foi publicado em algum journal) do Lott, na época em que ele ainda tinha um pouco mais de brilho (ele perdeu credibilidade em um caso lamentável que você pode pesquisar por aí, na internet).

Mas seu trabalho anterior era muito bom. Aliás, o artigo é este aqui. Veja um trecho da introdução para saber do que se trata.

The standard public goods argument for education assumes that a better educated populace is more likely to support democracy. This presupposes that either more educated people are inclined to make decisions for themselves or that education inherently instills the belief that democracy is desirable (Cohn, 1979, p. 206 and Solmon,
1982, p. 8). These arguments largely depend on the level of marketable human capital, such as literacy and reasoning ability, and ignores the question of methods: subsidies versus public provision. Yet, politicians in more totalitarian countries should wish to avoid creating a more independent and critically reasoning constituency. Hence, the public good explanation would imply a consistent negative relationship between totalitarianism and expenditures on public schooling. I will provide evidence that this is not the relationship that we observe.

John Lott Jr. pode ser acusado de muitas coisas, mas não se pode negar que ele tinha excelentes idéias sobre como testar hipóteses. Também mostrou ser inteligente no argumento central deste artigo. Afinal, alguém acredita que educação tem que ser subsidiada se o objetivo é aterrorizar as pessoas? Acho que não, né? Então, mais devagar com esta história de que devemos gastar mais no ensino público.

Mais um pouco do texto.

Governments have gone to great lengths to instill desired values in children. Yet, it is not just Germany during the 1930’s and 1940’s or communist countries like the former Soviet Union that have actively tried to influence children’s views. A good example is Sweden, which aggressively instituted a very costly system of nursery school care. When Ingvar Carlsson (the current Prime Minister) was education minister he said: “School is the spearhead of Socialism” and “pre-school training is essential ‘to eliminate the social heritage’” of undesirable parental views (Huntford, 1972, pp.222 and 233). Swedish educational theorists even advocated tax and government employment policies “to get both parents out of the home, so that children are forced out as well” (p. 222, and see also
Rosen, 1996).

Pois é. Não se trata apenas de ditaduras. Claro, Lott é economista e, portanto, seu argumento é inspirado em um outro modelo, mais famoso na literatura de Regulação, do Sam Peltzman.

Building on Peltzman’s (1976) work, my model showed that public educational expenditures should increase with “totalitarianism” as well as government transfers (Lott, 1990, pp. 201-8). The model assumes that totalitarianism has two effects: 1) it increases the cost of organizing opposition groups but 2) it restricts the opportunity set of individuals and hence lowers their real wealth, and this works to increase the level of opposition.

Interessante, não? Vou te ajudar nesta. Trechos da conclusão e negritos por minha conta.

A consistent relationship exists between the form of government and the level of investments made in public education. Totalitarian governments and governments with high transfers spend a lot on public education and are likely to own television stations. This cannot be explained simply by greater involvement in all sectors, as data on health care show. The finding is borne out from crosssectional time-series evidence across countries. A similar relationship was also found for public educational expenditures during Eastern Europe’s and the former Soviet Union’s recent transition from communism. In addition, this paper examined a broad array of phenomena that are consistent with more totalitarian and socialist governments raising the costs of parental involvement in shaping their children’s values. Examples ranged from raising the female labor participation rate, the illegitimate birth rate, and divorce rates, as well as lowering the school age for the public school system.

Eu não tenho nada contra a mulher no mercado de trabalho (nem Lott tem), mas o fato é que as evidências empíricas do artigo corroboravam a tese de que governos com tendências autoritárias buscam moldar o pensamento das pessoas. Não é novidade, eu sei, mas duvido que alguém já tenha visto evidências empíricas antes. O discurso é sempre uma retórica bonita, mas inútil, com memes de Marx ou Mises, frases de efeito, etc.

O que Lott apresenta no artigo é muito mais interessante e sofisticado do que a retórica que tanto encanta o brasileiro que acha bonito ver um poema na sentença de um juiz, mesmo que ele calcule as indenizações de forma totalmente errada. Mas o leitor médio deste blog não faz parte desta parcela do Brasil.

De verdade mesmo, eu queria era ver um estudo similar, aplicado ao Brasil. Queria ver o quanto estas tentativas de doutrinar com sociologia, filosofia, história geram em ganhos monetários para o futuro trabalhador. Gostaria de saber como os defensores da doutrinação explicam os nossos resultados em testes como o PISA. Bem, eu sei que sou curioso, mas só estas duas perguntas já seriam suficientes para eu entender um pouco a cabeça de quem pensa e também a de quem não pensa.