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A lacuna do Liberalismo Clássico, segundo James Buchanan

The lacuna in classical liberalism lies in its failure to offer a satisfactory alternative to the socialist-collectivist thrust  that reflects the pervasive desire for the parental role of the state. For persons who seek, even if unconsciously, dependence on the collectivity, the classical liberal argument for independence amounts to negation. Classical liberals have not involved themselves in the psychological elements of public support for or against the market order. [Buchanan, J.M. (2005). Afraid to be free: Dependency as desideratum. Public Choice, 124, p.27]

Belo insight.

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Maximização do tamanho do clube e os protestos de 2013: uma breve nota sobre o livro de Flávio Morgenstern

Quem não se lembra da Teoria dos Clubes, de James Buchanan? O Leo Monasterio adora o Teorema de Alchian-Allen e eu, como ele, tenho meus favoritos na literatura econômica. Também gosto do citado teorema, mas também curto muito a teoria dos clubes (e os benefícios concentrados com custos dispersos).

Falo isto tudo porque comecei a ler o ótimo livro do Flavio Morgenstern e me deparei com esta interessante proposição:

Os teóricos dos movimentos sociais conhecem, discutem e criam diversas estratégias para que as manifestações públicas consigam chamar ‘o máximo possível de pessoas’. Dizer qual é seu objetivo chamará apenas as pessoas que ‘já concordam com ele’ – o que nem sempre resultará em um número significativo. Não dar de cara toda a sua agenda pode ser uma arma estratégica muito boa, porque, além dos seus cupinchas, uma manifestação pode receber ainda apoio expressivo de numerosas pessoas que não entenderam bem por que razão aderiram a ela… [Morgenstern, F. (2015): 39]

A questão, então, é a mesma colocada por Buchanan em seu clássico artigo: como encontrar o número ótimo de participantes do ‘clube’, no caso, da manifestação? A similaridade, contudo, tem que ser qualificada. Afinal, uma ‘manifestação’ não é um clube no sentido tradicional do termo. É, no máximo, um clube de curta duração (se bem que o objetivo poderia ser maximizar uma sequência temporal de clubes de curta duração…).

Interessante notar também outro ponto colocado pelo autor: esta maximização pode ser mais eficiente se você diminui a quantidade de informação disponível no curto prazo. Vale dizer: o clube, o clube mesmo, é de longo prazo, mais restrito, apenas com sócios (nefastos sócios?) mas, para que ele atinja seus objetivos, é necessário ter um número maior de indivíduos no curto prazo (para encher as manifestações).

Não há como não se lembrar das teorias dos sindicatos (aquele resumo bom, lá dos anos 90, bem resenhadas naquele livrinho da Hucitec, escrito pelo economista Edward Amadeo. Também não há como não lembrar das eternas discussões de Escolha Pública sobre os partidos políticos, competições eleitorais, etc.

Talvez nos falte, creio, uma teoria geral de Escolha Pública, na qual grupos de interesse se utilizam de partidos políticos ou revoluções (e, no meio disto, na zona cinzenta, ‘manifestações’) para alcançarem seus objetivos. Uma leitura interessante do livro do Morgenstern seria esta. Digo, levem o livro para a sala de aula, peguem o manual de Escolha Pública, e comecem a notar a quantidade imensa de exemplos que o livro nos fornece.

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p.s. Infelizmente, não recebi nem um único trocado para fazer esta publicidade gratuita do livro. O capitalismo é realmante terrível, nunca recebo o que creio ser o meu merecido retorno pecuniário… ^_^

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Quem poderia condená-lo por escolher seus amigos?

The New York Times piece about Jim’s passing said that he was an austere man who put people and students off. This is a half-truth. For sure, Jim did not suffer fools gladly. On the other hand, if Jim admitted you to the circle of people that he did not consider to a be a fool, you could not have had a better friend. [Tollison, R.D. “James M. Buchanan: In Memoriam”, Southern Economic Journal, 2013, 80(1), p.1-4]

Não conheço ninguém que não seja como James Buchanan neste aspecto. Saber escolher amigos é um aprendizado. Qualquer indivíduo racional consegue desenvolver esta habilidade depois de algum tempo.

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Soluções privadas: quando o Google faz mais por você do que o governo, no trânsito

Não tem jeito. A inovação está no DNA do mercado. Veja este caso, por exemplo. Claro que estar no DNA não significa que o mesmo não possa ser corrompido, como aprendemos com todos aqueles textos do Buchanan, Tullock e o pessoal de Public Choice.

Note o leitor que a Google está longe de ser uma empresa em “concorrência perfeita”, o que não impede que pressões concorrenciais a façam inovar. Um monopólio pode, sim, gerar benefícios para a sociedade. Não há nada de errado em uma empresa ter poder de monopólio em si. O que temos que entender são os incentivos que operam sobre o monopólio (lembre-se de quando Baumol e associados criaram o conceito de mercados contestáveis por exemplo…). Falei sobre isto brevemente nesta video-aula, ano passado.

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Nacional-desenvolvimentismo (inflacionismo) latino-americano e a armadilha das idéias estúpidas

Eis duas notícias para vocês dormirem à noite com a consciência tranquila. Primeiro, o governo nacional-desenvolvimentista – o mesmo que está enfiando “marxismo” goela abaixo das faculdades de economia argentina (e já falam em fazer algo assim aqui, de maneira muito dissimulada…) resolveu que a internet deve ser controlada. Para quem adora falar mal da NSA norte-americana e apelar para um nacionalismo primitivo, este é um chute no meio das pernas (eu ia dizer isto de uma forma mais “rolezinho”, mas resolvi ser educado).

Bom, mas antes que você diga que isto é o mínimo que se pode fazer para barrar esta “inimiga dos pobres, a globalização excludente que destrói o meio ambiente e aumenta a temperatura da Terra”, adiciono a segunda notícia, a de que governo venezuelano,  mais saudosista que Itamar Franco do Fusca ineficiente dos anos 50, apelou para taxas múltiplas de câmbio.

O que estas duas notícias nos mostram? Acho que o prof. Caplan, há alguns anos, deixou isto claro para nós por meio da armadilha das idéias. Já a citei aqui antes, mas repito:

Thus, the least pleasant places in the world to live normally have three features in common: First, low economic growth; second, policies that discourage growth; and third, resistance to the idea that other policies would be better. I have a theory to explain this curious combination.3Imagine that the three variables I just named—growth, policy, and ideas—capture the essence of a country’s economic/political situation. Then suppose that three “laws of motion” govern this system. The first two are almost true by definition:

  1. 1. Good ideas cause good policies.
  2. 2. Good policies cause good growth.

The third law is much less intuitive:

  1. 3. Good growth causes good ideas.

The third law only dawned on me when I was studying the public’s beliefs about economics,4 and noticed that income growth seems to increase economic literacy, even though income level does not. (…)

(…) The bad news is that you can also get mired in the opposite outcome. A society can get stuck in an “idea trap,” where bad ideas lead to bad policy, bad policy leads to bad growth, and bad growth cements bad ideas.

Pior de tudo é que você pode se perguntar: está tudo perdido? O que pode mudar isto?

If both good and bad combinations of growth, policy, and ideas are stable, why does anything ever change? The answer, in my model, is luck. An economy in the idea trap usually stays in the idea trap. But once in a while, it wins a little lottery. Maybe the president of the country happens to read Bastiat during his last term, and decides to try a more free-market approach. This increases growth, which in turn improves the climate of public opinion. And maybe—just maybe—public opinion changes enough to elect another president who embraces his predecessor’s reforms.

Você não precisa acreditar neste texto. De qualquer forma, a formalização do modelo do Caplan está aqui. Aparentemente, a sociedade argentina e a venezuelana caíram na armadilha e, por anos, permitiram que seus governantes fizessem besteiras atrás de besteiras. Aliás, alguém já disse que cada povo tem o governo que merece. Quanto a isto, é bom lembrar o saudoso Barão de Itararé que disse: Cada povo tem o governo que merece, mas não é menos verdade que muitos povos não merecem o governo que têm. De certa forma, o dito do irônico barão é compatível com a proposição de Caplan.

O que notar?

Eu chamaria a atenção para o problema das instituições formais e informais para o desenvolvimento econômico. O único jeito de sair desta armadilha é ensinar para as pessoas acerca da importância das instituições – já cientificamente debatida há anos – para que uma sociedade saia do buraco. Este tema é recorrente neste blog e não preciso cansar os leitores com isto novamente.

Outra coisa a se notar é aquela minha hipótese da tecnologia da política econômica. Em resumo, sim, eu acredito que aprendemos a fazer política econômica e sabemos como lidar com a inflação. Também não ignoramos o ciclo político-econômico. Contudo, este conhecimento e os incentivos para que façamos a coisa certa não são fluidamente transmissíveis de geração em geração. Então, sim, quem fez o Plano Real acontecer tem um mérito imenso. Da mesma forma, não há motivos para se esperar que burocratas e políticos posteriores ao plano tenham a mesma capacidade intelectual e/ou os mesmos incentivos para manter a estabilidade de preços e lutar por um crescimento econômico saudável, no qual o governo não se comporta de maneira prejudicial.

Acho que foi Buchanan quem cunhou o termo Economia Política Constitucional. Nunca foi tão atual…

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Prêmio Nobel: um pouco sobre Williamson e um pouco mais sobre Elinor Ostrom

Estive longe de um terminal de computador por alguns dias, mas consegui me informar sobre o Nobel. Bem, não li ainda o que meus colegas de blogosfera publicaram, mas eis o que eu penso sobre este Nobel.

Em primeiro lugar, creio que este Nobel segue uma lógica que vem desde a concessão do prêmio para Hayek e Myrdal (por dizerem praticamente o oposto, mas por terem em comum a preocupação com o desenvolvimento e o uso do conhecimento).

Depois veríamos Douglass North e Ronald Coase serem igualmente agraciados com o prêmio por falarem de custos de transação na história e em geral. O ponto comum, novamente, é claro: o que atrapalha o funcionamento dos mercados?

James Buchanan também é parte desta história, já que ampliou nosso conhecimento sobre como o sistema político influi no funcionamento dos mercados ao invés de corrigi-lo, como reza a cartilha do “planejador benevolente”.

Se pensarmos um pouco no significado de prêmios como este, poderíamos até falar de Gary Becker e outros que abriram campos de pesquisa por meio do relaxamento de hipóteses dos modelos, digamos assim, canônicos (embora este não seja um bom nome, creio).

Oliver Williamson – na minha opinião – é simplesmente a versão North-Coase aplicada a aspectos de Organização Industrial. Já merecia ter ganho o prêmio há mais tempo. Não é uma de minhas leituras favoritas – acho até que ele é muito prolixo – mas é, sem dúvida, um importante autor na área de Organização Industrial. Sem cair no canto da sereia pterodoxo, Williamson foi capaz de reler o funcionamento dos mercados sob a ótica dos custos de transação. Estranho mesmo é pensar que Baumol ainda não ganhou o prêmio por lançar muitos dos conceitos que nós – Williamson incluso – tomaríamos como base para o avanço da teoria de Organização Industrial nos últimos anos.

O outro prêmio, o de Elinor Ostrom, é bastante merecido. Lembro-me de ter começado minha dissertação, graças ao Marcos Fernandes, com a leitura de Vincent Ostrom, seu marido, que tratava do federalismo como uma instituição. Por meio dele, acabei descobrindo os artigos de Elinor Ostrom sobre problemas de bens de uso comum. Rules, Games and Common Poll Resources, editado por ela e mais alguns outros pesquisadores, foi um dos primeiros livros que li na tradição dos estudos empíricos de economia sobre o problema (ou a tragédia) dos comuns. Não foi o livro que mais me entusiasmou na época, mas a abordagem empírica me atraiu. Depois eu teria contato com gente como Bruce Benson (a lei como ordem espontânea), Robert Ellickson (Order without Law), John Umbeck e Jack Hirshleifer (o uso da violência como forma alternativa de alocar recursos na sociedade), dentre outros.

Talvez possamos associar o prêmio de Elinor Ostrom com o de alguns anos atrás, ganho por Vernon Smith por suas contribuições à economia experimental. Talvez se possa pensar no prêmio como mais um representante do “ampliação das fronteiras do conhecimento” (Becker, Buchanan, etc), já que a profa. Ostrom, como tantos antes dela, mostrou que instituições importam para o funcionamento dos mercados. Mais ainda, não é apenas “instituições importam”, mas também como importam.

Não é um convite para que economistas fujam da economia para estudar sociologia ou antropologia. É um convite para que cientistas sociais (e alguns economistas) leiam mais Elinor Ostrom.

Agora vou ler o que meus colegas escreveram a respeito. Boa terça-feira, leitor.

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Custo e Escolha

O Ordem Livre acaba de disponibilizar mais um interessante livro: Custo e Escolha, de James Buchanan. Eu diria, sem nenhuma dúvida, que é um excelente serviço prestado ao pessoal que estuda história do pensamento econômico. Alguns ensaios são muito específicos, o que torna o livro um tanto quanto difícil de ler. Talvez o mais importante seja a conceituação do custo de oportunidade. O prefácio do livro, se bem me lembro, foi uma das melhores coisas que já li em Economia logo após meu mestrado.