Capital humano, migração, história econômica do Brasil e algoritmos confusos (fuzzy): isso sim, é ser plural!

ancestors_monasterioLeonardo Monasterio tem um artigo novo – um texto para discussão, na verdade – o qual tive o privilégio de ler antes da sua publicação.

O que eu gosto no texto? Primeiro, a originalidade no uso do método em uma pergunta tipicamente de História Econômica. Segundo, o texto está do tamanho certo: nem grande demais, nem pequeno demais. Terceiro, o uso do R. Quarto, o zelo na hora de fazer inferências mais sofisticadas (a parte final do texto).

O que eu não gosto no texto? Faltaram umas 30 páginas. 🙂

De certa forma, o artigo mostra que há alguma evidência de que as condições iniciais importam, um tema comum a alguns estudos do desenvolvimento econômico (o famoso PIB inicial nas regressões…) e também aos que seguem insights teóricos da Nova Economia Institucional (o tal path dependence).

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Existem certas verdades…

verdades

“Ah, IBGE, vamos esquecer estes gráficos…abandonemos estes números frios dos economistas…a sociedade é paixão, amor, ternura…”.

Existem certas coisas que não mudam com o tempo. Uma delas é a discussão de metas e instrumentos de política econômica. Desde que William Poole publicou seu clássico artigo em 1970, muita coisa aconteceu: a discussão original de Friedman sobre regras foi aperfeiçoada, as expectativas racionais trouxeram muitas inovações tecnológicas na forma de se fazer política econômica e, claro, a Teoria dos Jogos mudou a visão, digamos assim, de engenharia para uma abordagem microfundamentada. De certa forma, aquela história de Hayek sobre o individualismo falso e verdadeiro (um ensaio famoso dele) teve um final feliz: a visão dos microfundamentos prevaleceu (embora nem tudo o que Hayek quisesse dizer com o artigo se transformasse em realidade).

Mas existe o lado político…

Parece um tanto quanto óbvio que fazer política econômica é um problema no qual não se pode ignorar nem o “política” e nem o “econômica”. Quanto ao segundo, estamos tranquilos. Mas quanto ao primeiro, a administração Yousseff, Rousseff não tem se mostrado lá muito virtuosa e seus apoiadores, inclusive, parecem descomprometidos com a verdade (basta ouvir o rosnar dos lobos em comentários agressivos, ameaçadores e violentos na rede, acompanhados de pedidos para demissões de jornalistas, etc).

O caso do IPEA e o do IBGE mostra que há um problema com o “política” acima citado. Não se quer fazer o dever de casa ilustrado pelo gráfico acima e se pretende roubar nas regras do jogo. Pressões políticas em órgãos públicos que coletam dados? Cerceamento dos mesmos via cortes orçamentários (enquanto outros gastos bem menos nobres continuam?).

O que as autoridades acham disto tudo?

Bem, não acham nada. Ou acham, mas não falam. Ou mentem. Até agora, não vi um único membro da administração atual chamar a imprensa e fazer uma barulhenta declaração de apoio ao IBGE ou contra pesquisas técnicas de baixa qualidade do IPEA. Vejo, sim, muito diversionismo e oportunismo com tentativas de bloquear uma CPI (fazia tempo que não via esta galera, que sempre pediu CPI em outros governos, fugir assim, de forma bem covarde, da briga) e muito rosnado contra inimigos imaginários.

Manifestações insanas…e o que você acha disto tudo?

Pois é. Até o tomate virou inimigo do socialismo bolivariano brasileiro. “Amarrem o tomate ao poste!”, pedem os militantes que ganham R$ 150,00 para quebrar propriedades privadas nas ruas. “Estuprem o tomate!, diz um professor de filosofia de uma universidade federal carioca. “Julguem o tomate, mas só se ele estiver verde ainda!”, berra o cronista gaúcho enquanto saboreia sua salada.

Já a boa Ciência Econômica…

Notem como, sutilmente, estão tentando desmoralizar a pobre Ciência Econômica. Querem espalhar por aí que o IPEA é um lixo, que o IBGE é tucano e que o bom mesmo é ensinar ideologia nas faculdades de Economia. A permissividade disfarçada de pragmatismo é a regra: deixa para lá, defender a lógica dá dor de cabeça. Daqui a pouco vão promover queima de livros de Adam Smith e David Ricardo e os chefes de departamento aplaudirão.

“Queimem os livros-texto de Economia! Queimem! Mais amor! Mais emoção! Menos números frios e sem coração!” Palmas! Palmas!

Outra pesquisa do IPEA que está errada

Assista o vídeo. Como o Sachsida ressaltou, é uma ótima oportunidade do IPEA buscar voltar ao bom caminho da pesquisa sem tropeços estatísticos acompanhados de divulgação “midiática”. Além de tudo, ele dá uma pequena aula de Econometria/Estatística ao analisar os erros da pesquisa.

Eu sei que a tentação do ativismo é grande ao observar uma pesquisa, mas você deve evitá-lo.

Violência contra a mulher?

Sobre a pesquisa anterior, o Prosa também deu seu pitaco, aqui. O Estadão publicou um pequeno texto sobre o tema, entrevistando o Marcos Fernandes e Cileda Coutinho. Não sei se os leitores deste blog checaram a data da pesquisa, mas a profa. Coutinho tem um ótimo ponto:

“Antes de publicar, tem de fazer uma verificação e, para evitar erros, você faz mais de um tratamento com os dados. O instituto falhou em não fazer todas as checagens.”

A pesquisa está aqui e o primeiro parágrafo parece uma panfletagem – vocês, do IPEA, vão me desculpar, mas é a impressão que dá. Quem começou isto tudo? Pode-se ler no relatório que o início da pesquisa, com análise de questionários e tudo o mais começou em 2012.

A pesquisa intitulada “Tolerância social à violência contra a mulher” foi inspirada numa grande pesquisa nacional realizada na Colômbia, em 2009, com o objetivo de investigar hábitos, atitudes, percepções e práticas individuais, sociais e institucionais no que diz respeito à violência de gênero. No Brasil, formou-se, em 2012, um grupo de trabalho entre ONU Mulheres, Cfemea e Ipea para adaptar o questionário e levantar possibilidades de realização da pesquisa em nosso país. Os resultados foram a aplicação de um questionário em serviços de atendimento às mulheres em situação de violência do estado do Rio de Janeiro, com o foco na concepção de “tolerância institucional”, e de um questionário no âmbito do Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS), do Ipea, para uma amostra representativa do conjunto da população brasileira, com o objetivo de se aferir uma “tolerância social”, ambos no ano de 2013.

Então a ONU Mulheres, o Cfemea e o IPEA começaram a conversar em 2012 e publicaram a pesquisa em 2014.

Pois é. Mas, como diz o Marcos, há um problema de Economia Política aí:

“O problema desse trabalho é que ele parece mais guiado por ideologia do que pela ciência. E é muito perigoso quando um instituto de pesquisa permite ser mais guiados por interesses políticos e ideológicos do que pela pura pesquisa para identificar características básicas de como a sociedade brasileira se organiza, de como os brasileiros pensam, sobre suas crenças, e assim por diante”, explicou o professor.

Agora que todos já entenderam os problemas envolvidos na pesquisa, ficam perguntas no ar para futuras investigações: (1) por que a demora na checagem e crítica dos questionários?; (2) quais os interesses políticos envolvidos neste episódio? e, finalmente, (3) como investigar de maneira tecnicamente correta o problema da violência na sociedade brasileira?

Explicação aos nazi-fascistas, socialistas e outras tribos (com ou sem tatuagens)

Não é uma questão de ideologia, é uma questão técnica. Eu sei que você, nazista, enxerga muita tolerância com judeus no Brasil e acha que o país está entregue ao capital estrangeiro judaico. Mas os dados dizem isto? Não?

E você, que não gosta do nazista que acabo de citar? Acha que só sua percepção individual é válida, mas não a dele? Não senhor(a), você também está errado. As respostas para as suas perguntas – e também para as do nazista – só podem ser investigadas por métodos que tenham validade científica mas já vou adiantar: validade científica não vai te dar 100% de certeza nunca. Trata-se de Estatística.

Sim, é por conta de sua humanidade – e de suas inseguranças – que você costuma querer desprezar a Estatística e se ancorar em seus preconceitos. Ah, você conversou com seus amigos e eles pensam como você. Nada mais óbvio. Você geralmente se relaciona com gente parecida, o que não quer dizer que você consiga enxergar a média ou a mediana da sociedade.

Então é bem simples. Há uma diversidade de métodos estatísticos e todos estão sujeitos a erros. O seu tempo – assim como o meu – é escasso. Quanto mais tempo você se dedica a debater a ideologia, menos tempo aplica para entender o poder e as limitações destes métodos. Há uma escolha, portanto, a ser feita: ou você vira um militante e funda uma ONG (e, sim, paga caro (pouco) por boas (péssimas) análises estatísticas) ou você estuda mais os métodos. Não é uma escolha binária, mas é, ainda assim, uma escolha.

Eu disse antes e vou repetir: você é quem escolhe o que vai ser. Então, se seu objetivo é, de fato, diminuir a violência contra as mulheres (ou contra todos, mulheres ou não), você tem que escolher a forma mais eficiente de colaborar com este belo objetivo (eu sei, na história, é um objetivo recente, mas é nobre ainda assim). Caso sua escolha seja a da militância pura e simples e caso a sociedade tenha, em sua grande maioria, escolhido a militância pura e simples, então haverá escassez de bons técnicos ou de bons policiais. Resultado? Ligue os pontos.

UPDATE: O Leo Monasterio finalmente deu sua palavra sobre o caso.

A tal pesquisa do IPEA, corrigida: refaça seu cartaz de protesto

O IPEA deu um importante passo na direção correta, embora já tenha causado uma imensa externalidade negativa: corrigiu sua pesquisa que, bombasticamente, insinuava que a sociedade brasileira era um inferno machista.

Na verdade, 26% dos entrevistados concordaram com essa afirmação e 70% discordaram total ou parcialmente (veja arte divulgada pelo Ipea abaixo). Segundo o instituto, houve inversão dos resultados na hora de divulgar os resultados.

“Com a inversão dos resultados, relatamos equivocadamente, na semana passada, resultados extremos para a concordância com a segunda frase, que, justamente por seu valor inesperado, recebeu maior destaque nos meios de comunicação e motivou amplas manifestações e debates na sociedade ao longo dos últimos dias”, diz a nota do Ipea.

 

Então, 26% dos entrevistados, de uma amostra composta predominantemente por mulheres concordavam com uma afirmação que, em si, já é complicada. O número anterior era 65% o que dá, vamos lá, 39 pontos percentuais de diferença. Não é por acaso que o diretor responsável pediu sua própria exoneração: trata-se de uma diferença muito alta, dentro de qualquer padrão aceitável.

Obviamente, os comentários sobre a notícia são os mais diversos (de nível intelectual pior, igual ou melhor do que o que se espera de uma pessoa minimamente educada). Há os que acham que o IPEA errou porque não confirmou suas crenças pré-concebidas (preconceitos) de que, sim, a sociedade brasileira é machista, e há os que acham que o IPEA não tem credibilidade alguma por conta do evento.

Deixando de lado o culto à ignorância, o fato é que o IPEA sai desta história com um grande arranhão em sua excelente história. Não sou daqueles que vai recomendar o obscurantismo e o fim das consultas aos dados do instituto. Continuarei com a mesma recomendação que sempre fiz: leia a pesquisa antes de falar dela, seja você o divulgador da mesma, aquele que a fez (e, neste caso, tome cuidado com o que vai dizer que a pesquisa diz…) ou o leitor que pretende ficar famoso com polêmicas (ou tirando a roupa e se manifestando). Não há outro remédio.

Para o IPEA, fica sempre o desejo de que os técnicos façam sempre um bom trabalho e evitem o caminho fácil da fama por meio de resultados bombásticos, que dão ibope, mas que estão errados. Tenho bons amigos lá neste órgão e sei que eles gostariam de que tudo isto jamais tivesse acontecido. A vida deles não tem sido fácil nos últimos 12 anos, eu sei, mas não precisavam disto.

FGTS: por que ele existe e por que ele não deveria existir mais?

Não, não é um texto malvado que pretende impor um estilo de vida mais saudável, com mais dinheiro, riqueza e conhecimento sobre pobres trabalhadores que já estão bem com o marxismo do dia-a-dia, garantido, dizem alguns, pelo amigo Marcos Se Viu. Trata-se de uma análise muito interessante e técnica do FGTS.

O papel dos incentivos, como sempre, destaca-se na análise e é por isto que eu recomendo o texto em primeiro lugar. Mas há mais lá. Há bons motivos para você acreditar que o melhor seria não existir mais FGTS, conforme está aí no título.

Hoje a imprensa escondeu a CPI da Petrobrás porque ficou centrada em outros assuntos (segundo alguns) – inclusive sobre uma outra pesquisa divulgada de maneira bombástica pelo IPEA (ou pela mídia? Ambos? Não sei…) sobre um suposto “machismo” de, acreditem, mulheres brasileiras.

Sim, porque como explicou o Adolfo em um video cujo link coloquei aqui ontem, é isso que a amostra não-aleatória utilizada nos dá. É gente, vamos parar de brincar e vamos começar logo a investigar a Petrobrás? Ah, e vamos pedir para o IPEA usar melhor seus quadros para conseguir uma amostra de qualidade técnica melhor? Tem tanto economista e estatístico por lá, gente boa, então, vamos tentar reaver a reputação perdida?

Erros da presidência do IPEA

O Cristiano Costa – nossa leitura obrigatória diária de inteligência econômica – enviou-me o link do pequeno texto de colunista global sobre o esquisitíssimo – e já comentado à boca pequena no meio acadêmico – relatório da presidência do IPEA sobre a suposta produtividade superior do setor público em comparação à do setor privado.

A colunista diz que não se pode comparar estas produtividades. Na verdade, você até poderia, DESDE que as medisse da mesma forma. Como não é o caso, a carta derrapou mais do que eu imaginava. Meu colega Márcio Salvato chegou a elaborar este argumento num destes cafés que temos nos intervalos. Mais uma vez Salvato estava certo.

O pessoal do corpo técnico do IPEA é que deve estar com estranhas sensações, imagino.

IPEA para quem tem apenas segundo grau?

O Espectro Econômico mostra mais uma herança da administração da Silva que é deixada para as próximas gerações. É óbvio que me refiro ao longo prazo, não ao curto prazo, em respeito ao próprio auto-proclamado objetivo do famoso órgão público.

Dados e nós

Segundo a Receita Federal, 37,37% em 2005. Segundo o IPEADATA (citando dados apenas do IBGE), no mesmo ano, 33,83%. Normalmente eu não acharia estranho, já que são fontes diferentes. Agora, suponha que o mundo dê voltas e, na próxima estimativa, a carga tributária do IBGE ultrapasse a da Receita. Se alguém do IPEA disser que não divulgará mais o dado para não “alimentar os boatos da imprensa”, o que você pensaria disto?

É um exercício exagerado? Até recentemente, eu mesmo estaria rindo disto. Hoje, não sei mais.

As raízes do autoritarismo brasileiro ou “Se Sérgio Buarque de Hollanda estivesse vivo…”

Em um texto muito sincero, Cibele nos conta seus desapontamentos com o ensino superior público. Acho que todos que estudaram em universidades públicas passaram por situações parecidas, e em muitas situações o desânimo acaba vencendo.
Algumas situações são realmente absurdas, e suas consequências são bem piores do que alunos mal formados. Um exemplo é que na minha graduação (em economia, para quem não sabe) eu não tive em nenhum curso uma discussão sobre crescimento econômico. Olha que não estou nem pedindo um curso que abordasse crescimento endógeno, capital humano, etc. Em nenhum curso houve uma discussão mínima sobre isso. Minha graduação no fundo foi uma interminável discussão de conjuntura. O fato tristemente irônico é que hoje o presidente do Ipea, um professor desta instituição, nos diz que o Ipea será voltado ao planejamento de longo prazo. Uma piada péssima.

Publicado pelo Laurini. Um dia eu conto das tentativas de doutrinação que vivenciei na UFMG, a despeito dos bons professores que existiam isolados.

Incrível como tem gente que defende o ensino público superior fechando os olhos para o que se faz dentro da universidade. É como defender um pedófilo só porque ele mora em uma casa bacana…

Banco Central e Política Fiscal

O Cristiano fala de um novo texto do Acemoglu que poderia ser bacana para uma análise crítica da atuação de Bancos Centrais. Claro, os que não concordam com a Econometria (gente do atual IPEA saberá apreciar isto?) não estão moralmente autorizados a citar este texto em suas críticas.

Lembra do IPEA aparelhado?

Pois imagine o que seria um FMI aparelhado. Certamente é uma hipótese polêmica (não li o artigo, apenas o resumo), mas alguém pode pensar em um teste similar para o Brasil. Governos grandes e distorção de informação estão, sempre, juntos ao longo da história do mundo. Que coisa…

Como o governo destrói a vida dos pobres

O comentário do Salomão Quadros é de uma sabedoria ímpar. Reproduzido pelo Reinaldo Azevedo (e poderia ser reproduzido por gente séria da esquerda, caso houvesse…) aqui, o fato é bem simples: voltamos à era Sarney-Collor-Itamar, com um adicional que Elio Gaspari parece ter lido aqui antes: aparelhamento da burocracia com efeito prático único de empregar companheiros.

Preocupadíssimos…tanto que nem divulgam mais

Na era Collor, isto daria pano para manga de muito gente supostamente progressista. Mas, no ocaso atual, nem um economista destes que se dizem representantes de nossa classe abre a boca. Estão todos loucos por uma consultoria ou uma bolsa-esmola-de-pesquisador.

Ah, as migalhas dos intelectuais…