Onde está o espírito americano?

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Instituições informais importam? Taiwaneses e chineses sob o confucionismo

Da versão rascunho:

Confucianism and Preferences: Evidence from Lab Experiments in Taiwan and China

Elaine M. Liu Department of Economics, University of Houston
Juanjuan Meng Guanghua School of Management, Peking University
Joseph Tao-yi Wang Department of Economics, National Taiwan University

Abstract

This paper investigates how Confucianism affects individual decision making in Taiwan and in China. We found that Chinese subjects in our experiments became less accepting of Confucian values, such that they became significantly more risk loving, less loss averse, and more impatient after being primed with Confucianism, whereas Taiwanese subjects became significantly less present-based and were inclined to be more trustworthy after being primed by Confucianism. Combining the evidence from the incentivized laboratory experiments and subjective survey measures, we found evidence that Chinese subjects and Taiwanese subjects reacted differently to Confucianism.

Foi publicado aqui. Questão interessante, não? Por que será que os estudantes taiwaneses e chineses (do continente, da China comunista) reagem diferente? Não tenho nem uma hipótese para oferecer, mas digo uma coisa: o tema é, sim, muito interessante.

p.s. conheça mais sobre economia da religião aqui. [Marcos Fernandes me corrigiu: na verdade, seria algo como economia da cultura…vou deixar o link, contudo, porque seja a cultura ou a religião, ambos fazem parte das instituições informais, no sentido northiano, e o link pode ser útil. De qualquer forma, sigam o prof. Fernandes: é cultura, não religião!]

Armando cidadãos e elegendo oficiais: o que Douglass North diria?

Após confrontar-se com um motim de militares, Diogo A. Feijó…

Para garantir a ordem no Rio de Janeiro, a população foi armada para cuidar de sua própria defesa. Em todo o país, a recém-criada Guarda Nacional, formada por cidadãos, assumiria o papel dos demitidos. Naquele momento, um dos mais preciosos colaboradores de Feijó foi o major Luís Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, que dividia seu tempo entre o Exército, o treinamento militar dos cidadãos, o controle dos motins que se sucediam e o apaziaguamento dos ânimos. [Caldeira (2015), 104]

Então, armar ou não a população não é uma questão filosófica ou humanitária para políticos. Trata-se, simplesmente, de uma questão pragmática. Primeiro ponto: defensores atuais do desarmamento dos cidadãos podem estar a serviço de uma agenda que lhes é oculta? Claro, é uma pergunta polêmica, mas a evidência histórica acima (e as milícias que Maduro incentiva na Venezuela) mostram que “desarmar ou não os cidadãos” é uma questão vista pelos governantes com muito menos, digamos, preocupações humanitárias.

Bom, esta foi a pergunta de economia política mas há também a outra pergunta: a Guarda Nacional foi mais eficaz na garantia da segurança dos habitantes do Rio de Janeiro do que a polícia (muitos policiais foram demitidos por conta do citado motim)? Como construir um experimento para verificar este impacto? Existem dados?

Ah sim, existem aspectos institucionais interessantes (há muita literatura ruim, em português, sobre Douglass North e sobre o que sejam as instituições em sua visão. Assim, sugiro apenas este texto, do próprio). Vamos a eles.

Os guardas nacionais deveriam ser repartidos pelas Câmaras Municipais em unidades dentro dos distritos de cada município. A principio, as unidades seriam da arma de infantaria, ficando a cargo do governo decidir sobre a criação de unidades de cavalaria e artilharia. [C]abia ao governo escolher os Coronéis e os Majores de Legião da Guarda Nacional. Os demais oficiais, inicialmente, eram escolhidos através de eleições em que votavam todos os guardas nacionais para exercerem um posto pelo prazo de quatro anos, porém tal fórmula foi modificada após a promulgação do Ato Adicional (1834), sendo substituída por nomeações provinciais, propostas das Câmaras Municipais e, mais tarde, por indicações dos comandantes dos corpos. [o citado verbete da Wikipedia sobre Guarda Nacional]

Eleições? Desperta a curiosidade sobre se a adoção deste mecanismo tinha algum impacto na eficiência no trabalho da Guarda Nacional, relativamente às forças militares tradicionais e, não, não penso apenas em uma conversa informal, mas em algum estudo com dados empíricos.

A zelosa burocracia weberiana brasileira e a corrupção

Sobre a escravidão no Brasil após 1831, lemos que:

Os traficantes ainda contaram com o alto grau de corruptibilidade das autoridades brasileiras, desde os mais baixos até os mais elevados escalões, subornando ministros, parlamentares, militares, magistrados, chefes de polícia, policiais, funcionários alfandegários, etc. [Soares, L.C. O “Povo de Cam” na Capital do Brasil: A Escravidão Urbana no Rio de Janeiro do Século XIX, 2007 p.42]

Imagina o que aconteceria se alguém fizesse um boneco inflado de alguma autoridade naquele Brasil. Certamente seria vítima dos donos do poder, seja por liminares, processos ou, quem sabe, até atos violentos.

Ainda bem que o Brasil mudou, né?

Por que você deve dizer não à emporiofobia? Porque sociedades pró-mercado também são as mais tolerantes.

Porque você quer mais tolerância na sociedade (ah, sim, emporiofobia foi definida aqui). Mas, voltando ao tema, Berggren & Therese (2012) [a versão final foi publicada, creio, em 2015], têm uma veja a ótima explicação acerca da relação causal entre instituições pró-economia de mercado e tolerância:

“(…) the basic idea is that economic freedom entails both market institutions of a certain kind – in particular an equal and predictable legal system that, among other things, de facto protects private property – and market processes that affect the way people think and feel about others. Market institutions offer a framework under which it becomes less risky with good faith in unknown members of various groups different from one’s own. Market processes imply interaction and exchange with people different from oneself, which, under equal and predictable institutions, can lead to a realization that differences need not pose a threat and to increased understanding; they also make intolerance come at a cost, in that rejection of groups of people for other reasons than low productivity lowers profits for firms and the well-being of consumers. These are, we propose, the main mechanisms that speak in favor of a positive relationship. However, there is also the possibility of a negative relationship, if markets bring about greed and a perception that certain groups benefit in an unfair way from market exchange (see Hirschman 1982)”. [Bergreen & Therese (2012), p.5]

Repare no final do trecho acima. Vamos repetir:

However, there is also the possibility of a negative relationship, if markets bring about greed and a perception that certain groups benefit in an unfair way from market exchange (see Hirschman 1982).

Não sei se você notou, mas este último trecho é uma descrição compatível com a de uma sociedade rent-seeking que eu e o Leo descrevemos, há anos, em um artigo publicado na Dados. Hoje em dia, a moda é falar de capitalismo de laços ou capitalismo de compadres. Essencialmente, é a mesma coisa.

Posso imaginar que a percepção de que sou explorado (exploited) por um grupo da sociedade aumenta quando vejo que o governo adota políticas que tributam a todos mas concentram benefícios. Pode ser um capitalismo de laços sim. Pode ser que empresários ganhem câmbio desvalorizado por apoiarem o partido do governo. Pode também ser que o cara da associação de bairro ganhe bolsa-XXX apenas por garantir votos para o neo-coronel populista (eu sei, também pode ser a simples maldade de uma pessoa querer ver a outra morrer de fome, embora eu ache que isto ocorra em menos frequência, mas concedo o argumento).

Os autores partem para o teste empírico e, aparentemente, juntam-se a mais um conjunto de evidências que mostram que o medo dos mercados (a emporiofobia) anda junto com a intolerância.

Não sei quanto a você, leitor, mas achei a explicação dos autores muito didática e convincente. O mecanismo pelo qual se supõe que as instituições que suportam os mercados mais livres também gerem mais tolerância está bem claro. Não achou? Bom, dá uma lida novamente. Vale a pena.

Epílogo

Uma vez fui fortemente criticado em uma discussão por uma pessoa que não aceitava que minha defesa da tolerância com minorias fosse baseada na minha crença nas instituições pró-mercado (reforçada por evidências empíricas, mas a pessoa em questão não é lá muito conhecedora da inferência estatística, então, não era um argumento que ela considerava). Talvez ela leia este texto (acho pouco provável) e perceba, espero eu, que a questão é muito mais interessante e rica do que preconceitos ideológicos: não se trata de fé cega em livre mercado.

O Judiciário merece este orçamento todo? (e toda esta confiança?)

Boa pergunta, né? Que tal começar a pensar nela lendo isto. Olha o resumo:

One issue that affects the economic and social development of a country is the ability of the judiciary to present itself as a legitimate instance in resolving conflicts that arise in the social, business and economic development. One way to measure this is through legitimacy of the motivations that lead citizens to trust or not in the Judiciary. We created the Brazilian Confidence in Justice Index (BCJI) as a validation argument for our confidence measure. The BCJI is a measure of perception, which shows the opinion of the population about Brazil’s judiciary. Our results indicate that race and gender are important predictors once controlled for other characteristics of respondents. Blacks have a slightly lower level of confidence in the judiciary than whites. Women also present less confidence than men. We also show that people with low income have lower levels of trust. Our findings also have other important implications for confidence in the judicial system. We show that there is a positive and strong relationship between confidence in the judicial system and propensity to seek the judiciary.


TRUST IN THE JUDICIAL SYSTEM: EVIDENCE FROM BRAZIL
. Available from: https://www.researchgate.net/publication/280730834_TRUST_IN_THE_JUDICIAL_SYSTEM_EVIDENCE_FROM_BRAZIL?showFulltext=true [accessed Aug 7, 2015].

O texto é do Rodrigo de Losso Bueno, Joelson Sampaio e Luciana Cunha e, mais uma vez, eu diria, temos evidências de que instituições importam muito. Bom, melhor do que acreditar em mim é ler o texto.

Incentivos importam: os idosos no avião e as instituições

Quem nunca viu aquela fila de idosos na fila preferencial na hora do embarque em um vôo? Agora, como os mesmos idosos se comportam quando o avião pousa?

Recentemente tive esta curiosa experiência. Sentado, com uma vontade louca de tirar o cinto de segurança já que o avião já andava lentamente para o acoplamento daquele corredor móvel que nos possibilitaria o desembarque, não pude deixar de observar vários daqueles idosos – que pareciam tão frágeis – tirarem o cinto e levantarem-se, junto com vários outros passageiros, bem antes da liberação oficial.

Viajo de avião há algum tempo, mas de uns 10 anos para cá – acho que esta é uma boa estimativa – vejo que brasileiros (eu mesmo já fiz isso, embora uma certa culpa católica me incomode de vez em quando) – gradativamente involuíram no respeito às regras que regem a segurança de um vôo e é sempre na chegada, no momento em que o avião tocou a pista. Não tem jeito: pousou, ouço alguns cintos sendo liberados.

Mas idosos? Acho que foi a primeira vez. Claro, não são todos. Entretanto, alguns deles não seriam minha aposta.

Novamente, a questão é de incentivos e ninguém duvida disto. Mas acho curioso que idosos, geralmente os símbolos de um tempo em que educação (no sentido de respeito e cortesia) era a regra, serem tão desrespeitosos quando os mais jovens. Para mim, que tinha uma expectativa mais elevada quanto à maioria (pelo menos a maioria…) dos idosos, foi um pouco triste observar isto.

Digo isto tudo porque sempre ouço uns pré-conceitos sobre idosos serem sempre mais educados que os mais novos. Nada disso. Grosseria, falta de educação ou mesmo o desrespeito às regras de segurança de uma aeronave (ou ônibus, trem, barco, etc) não é um privilégio triste de jovens: idosos também têm maus comportamentos.

Agora, uma coisa eu não sei ao certo: será que em outros países, o fenômeno se repete com a mesma intensidade? Note, são duas perguntas: (a) ele se repete e (b) com a mesma intensidade. Digo isto porque imagino que velhos mal educados existam no Nepal, bem como nos EUA ou no Brasil. Mas será que os incentivos mudaram da mesma forma para todos os vôos? Mais ainda? Quanto disto é reflexo da leniência de uma sociedade com crimes?

No fundo, eu queria mesmo era fazer uma pergunta sobre instituições. Talvez meus amigos que viajam mais pelo mundo possam me ajudar na evidência anedótica.

p.s. com o envelhecimento da população, em breve, vão ter que acabar com as filas preferenciais.

Como um cão, um gato, um rato e a burocracia portuguesa geraram uma inimizade eterna? Você vai se surpreeender.

A última frase do título é besta, porque não tem nada mais ridículo, na era do Facebook, do que esta suposta “surpresa” que alguém possa ter em vídeos ou notícias. Mas a história diz respeito a uma folclórica estória que se contava em Pernambuco. Coletada por Sílvio Romero em Cantos Populares do Brasil (editora Itatiaia, 1985, p.114-115), ela mostra bem como, no Brasil, um pedaço de papel pode ser mais importante do que a infomalidade das pessoas.

De certa forma, isso me faz pensar se nosso problema não é o tipo de instituições (sempre no sentido Northiano…) que temos, não apenas se simplesmente temos alguma mas, então, estou divagando sobre um mero conto popular. Ei-lo, comentado (entre parênteses):

A Alforria do Cachorro

No tempo em que o rei francês
Regia os seus naturais,
Houve uma guerra civil
Entre os burros e animais.
Neste tempo era o cachorro
Cativo por natureza;
Vivia sem liberdade
Na sua infeliz baixeza.
Chamava-se o dito senhor
Dom Fernando de Turquia;
E foi o tal cão passando
De vileza a fidalguia.

(Ok, aqui temos a formalização da ascenção social do cachorro. Não basta, no Brasil, o critério econômico, é necessário que alguma “autoridade” assine…mas tudo bem…sigamos)

E daí a poucos anos
Cresceu tanto em pundonor,
Que os cães o chamaram logo
De Castela Imperador.
Veio o herdeiro do tal
Dom Fernando de Turquia,
Veio a certos negócios
Na cidade da Bahia.
Chegou dentro da cidade,
Foi a casa de um tal gato;
E este o recebeu
Com muito grande aparato.
Fez entrega de uma carta.
E ele a recebeu;
Recolheu-se ao escritório,
Abriu a carta e leu.
E então dizia a carta:

“Ilustríssimo Senhor
Maurício – Violento – Sodré –
Ligeiro – Gonçalves – Cunha –
Sutil – Maior – Ponte-Pé.
Dou-lhe, amigo, agora a parte
De que me acho aumentado,
Que estou de governador
Nesta cidade aclamado.
Remeto-lhe esta patente
De governador lavrada;
Pela minha própria letra
Foi a dita confirmada”.
Ora o gato, na verdade,
Como bom procurador,
Na gaveta do telhado
Pegou na carta e guardou.

(Até aqui, apenas o de sempre: o governador vai ao cartório, leva a carta e o tabelião, como sempre, guarda-a em algum lugar)

O rato como malvado,
Assim que escureceu,
Foi à gaveta do gato,
Abriu a carta e leu.
Vendo que era a alforria
Do cachorro, por judeu,
Por ser de má consciência,
Pegou na carta e roeu.
Roeu-a de ponta à ponta,
E pô-la em mil pedacinhos,
E depois as suas tiras
Repartiu-as pelos ninhos.
O gato, por ocupado
Lá na sua Relação,
Não se lembrava da carta
Pela grande ocupação.
E depois se foi lembrando,
Foi caçá-la e não achou,
E por ser maravilhoso
Disto muito se importou.

………………………………..

(Não sei quanto a vocês, mas, “judeu”? Fiquei imaginando se isso não é uma alusão aos cristãos-novos, que mudaram de “status” com a conversão. De qualquer forma, esta compliacação que é fazer de um cartório o templo da legitimidade aumenta os custos de oportunidade do tabelião que se esquece da carta e, quando a toma em mãos, dá conta do problema. Segundo a interpretação de Sílvio Romero, este é um fragmento de um romance popular que explica a inimizade entre cães, gatos e ratos. Bem, ironicamente, podemos dizer que, até nisso, o Brasil é burocrático: a origem do ódio se dá por um problema legal criado…no cartório. Há algo de irônico nisto tudo, não?)

A alforria do gato e do rato…um posfácio ao texto

Estava procurando uma imagem de gatos, ratos e cães para colocar aqui e, claro pensei em Tom, Jerry e Spike. Bem, eu não sabia, mas o desenho, em plena Guerra Fria, foi produzido, por um tempo, do lado de lá da Cortina de Ferro (é a fase dos desenhos mais toscos da série…).

In 1960, MGM revived the Tom and Jerry franchise, and contacted European animation studio Rembrandt Films to produce thirteen Tom and Jerry shorts overseas.[10][11][12][13]All thirteen shorts were directed by Gene Deitch and produced by William L. Snyder in Prague, Czechoslovakia.[10][13] Štěpán Koníček, a student of Karel Ančerl and conductor of the Prague Film Symphony Orchestra, and Václav Lídl provided the musical score for the Deitch shorts, while Larz Bourne, Chris Jenkyns, and Eli Bauer wrote the cartoons. The majority of vocal effects and voices in Deitch’s films were provided by Allen Swift.[14]
Deitch states that, being an animator for the United Productions of America (UPA), he has always had a personal dislike of Tom and Jerry, citing them as the “primary bad example of senseless violence – humor based on pain – attack and revenge – to say nothing of the tasteless use of a headless black woman stereotype house servant.”[15] He nonetheless admired the “great timing, facial expressions, double takes, squash and stretch” that were present in the Hanna-Barbera Tom and Jerry cartoons.[16]
For the purposes of avoiding being linked to Communism, Deitch altered the names for his crew in the opening credits of the shorts (e.g., Štěpán Koníček became “Steven Konichek”, Václav Lídl became “Victor Little”).[15] These shorts are among the few Tom and Jerry cartoons not to carry the “Made In Hollywood, U.S.A.” phrase on the end title card.[15] Due to Deitch’s studio being behind the Iron Curtain, the production studio’s location is omitted entirely on it.[15] After the thirteen shorts were completed, Joe Vogel, the head of production, was fired from MGM. Vogel had approved of Deitch and his team’s work, but MGM decided not to renew their contract after Vogel was fired.[15] The final of the thirteen shorts, Carmen Get It!, was released on December 1, 1962.[11]

Não é incrível o que os mercados fazem? Derrubam até barreiras ideológicas…

Gays são mais felizes em países mais coletivistas? Em países mais individualistas? Mais um pouco de correlações para sua reflexão.

Como sabemos, as dimensões culturais de Hofstede são úteis para algumas investigações sobre valores informais (no dizer de Douglass North) e desenvolvimento econômico. Ora bolas, no final, queremos mais bem-estar, não é mesmo?

Vamos dar uma olhadinhas em quatro das dimensões? Citando da Wikipedia em língua inglesa (negritos meus, ok?):

  • Power distance index (PDI): “Power distance is the extent to which the less powerful members of organizations and institutions (like the family) accept and expect that power is distributed unequally.” Individuals in a society that exhibit a high degree of power distance accept hierarchies in which everyone has a place without the need for justification. Societies with low power distance seek to have equal distribution of power.[6]Cultures that endorse low power distance expect and accept power relations that are more consultative or democratic.
  • Individualism (IDV) vs. collectivism: “The degree to which individuals are integrated into groups”. In individualistic societies, the stress is put on personal achievements and individual rights. People are expected to stand up for themselves and their immediate family, and to choose their own affiliations. In contrast, in collectivist societies, individuals act predominantly as members of a lifelong and cohesive group or organization (note: “The word collectivism in this sense has no political meaning: it refers to the group, not to the state”). People have large extended families, which are used as a protection in exchange for unquestioning loyalty.
  • Uncertainty avoidance index (UAI): “a society’s tolerance for uncertainty and ambiguity“. It reflects the extent to which members of a society attempt to cope with anxiety by minimizing uncertainty. People in cultures with high uncertainty avoidance tend to be more emotional. They try to minimize the occurrence of unknown and unusual circumstances and to proceed with careful changes step by step planning and by implementing rules, laws and regulations. In contrast, low uncertainty avoidance cultures accept and feel comfortable in unstructured situations or changeable environments and try to have as few rules as possible. People in these cultures tend to be morepragmatic, they are more tolerant of change.
  • Masculinity (MAS), vs. femininity: “The distribution of emotional roles between the genders“. Masculine cultures’ values are competitiveness, assertiveness, materialism, ambition and power, whereas feminine cultures place more value on relationships and quality of life. In masculine cultures, the differences between gender roles are more dramatic and less fluid than in feminine cultures where men and women have the same values emphasizing modesty and caring. As a result of the taboo on sexuality in many cultures, particularly masculine ones, and because of the obvious gender generalizations implied by Hofstede’s terminology, this dimension is often renamed by users of Hofstede’s work, e.g. to Quantity of Life vs. Quality of Life.

Ok, o que eu esperaria? Eu esperaria que a felicidade gay tivesse uma relação negativa com PDI, positiva com IDV, negativa com MAS e, quanto a UAI, eu não tenho uma hipótese inicial muito clara, não sei bem o que esperar (acredite, leitor, eu fiz as hipóteses antes de olhar para os gráficos…).

Ah sim, eu também esperaria que a felicidade dos não-gays também tivessem relações similares, mas não vou calcular estas correlações aqui porque não tenho os dados acerca dos percentuais de gays não-gays nos países.

gay_pdi gay_idv gay_mas gay_uaiBem, qual não foi minha surpresa quando vi que as correlações ficaram mais ou menos parecidas com o que eu esperava. Mais ainda, as medidas de Hofstede parecem ser razoáveis indicadores de valores informais (ou culturais) de uma sociedade, não?

Minha ex-aluna Charline, há algum tempo, fez-me o favor de tabular estes dados (refiro-me ao Hofstede) e devo agradecê-la por isso pois sempre que penso em estudar um problema institucional (meus leitores sabem que sou um entusiasta da história econômica tal como preconizada por Douglass North e colegas, né?), acabo usando estas variáveis para ter uma noção inicial do problema.

De qualquer forma, no post anterior, falei do porte de armas como uma proxy de liberdade individual. Sei que é polêmico, mas a intenção era mesmo chamar a atenção (a minha também) para o problema das instituições. A bem da verdade, o que está no âmago da discussão sobre bem-estar e instituições é a questão da dinâmica institucional (como as instituições mudam). Vejam o caso do casamento gay nos EUA, por exemplo. Será que estas mudanças têm a ver com valores (que não são necessariamente rígidos) de uma sociedade?

Repare como, novamente, as mesmas instituições que suportam uma liberdade econômica (como a liberdade de trocas voluntárias que é, essencialmente, uma dimensão individualista e que requer confiança – trust – entre as partes) também suportam a felicidade da turma LGBT. Suspeito, cada vez mais, que os maiores entusiastas do liberalismo ainda não saíram do armário. Será que existe uma discriminação de gays coletivistas contra gays liberais? Eu tenho um palpite, mas vamos deixar para outro dia.

p.s. Nos gráficos, o “humank_2010”  é uma medida de capital humano (educação, para os leigos…). Quanto maior o tamanho da bolinha, maior o nível de capital humano do país.

Felicidade Gay e porte de armas! Polêmica!

Acredito que uma das mais importantes representações da liberdade individual seja o direito de portar armas legalmente. Sei que é polêmico – os leitores frequentes deste blog sabem disto – mas a polêmica não deveria ser um critério para se proibir as pessoas de investigarem correlações, causalidades, etc.

Assim, só para provocar, notamos que a correlação entre a felicidade gay e o número de armas legalmente em posse de cidadãos em um país é positiva. Aliás, um gay não gostaria de ser assaltado, tanto quanto um hetero, né?

gay_guns

Novamente, sabemos que uma correlação não diz muita coisa, mas serve de início para pesquisas mais detalhadas sobre o tema. Note: aquele que usar apenas estas correlações para avançar argumentos estará cometendo um crime intelectual. Aquele que citar, indicando os possíveis problemas, estará correto.

Ah sim, como professor, não é uma ótima chance de mostrar ao aluno que insiste em escrever que “provou uma hipótese” ou “provou que a hipótese é verdadeira” na prova o quanto ele está, indubitavelmente, errado? Ou você vai jogar o nome da sua mãe no fogo se esta correlação não for, realmente, a prova definitiva de suas crenças pró-armas (ou pró-gays)? Heim?

Por outro lado, goste-se ou não do porte de armas (como já falei, sou favorável, filosoficamente, porque defendo o direito de gays e não-gays de se defenderem, dentro do império da lei), ele é, sem dúvida, uma proxy dos direitos individuais em um país (talvez não seja a melhor, mas eu nunca disse que era, né?). Ora, o direito a uma felicidade segura não é privilégio de heterossexuais, negros ou torcedores do Londrina. Logo…

p.s. Sim, estou pensando muito sobre uma discussão louca que alguém tentou ter comigo há anos. A pessoa achava um absurdo eu defender os gays e, ao mesmo tempo, o livre mercado. Bem, pelo que vejo nos dados, a dita cuja está do lado desinformado da história. Não que os dados digam tudo, mas eles não dizem o que a pessoa dizia…

UPDATE: Veja só como é a correlação quando diferenciamos os países pela origem de seu código legal (em homenagem aos amantes da Suprema Corte dos EUA).

gays_gun2

Repare que não há muita diferença na correlação, mesmo que a amostra seja dividida pela variável dummy (ou, caso prefira, o fator) da origem do código legal do país.

Eu prefiro me defender com minhas armas, obrigado.

Cultura pró-mercado e felicidade gay andam juntas?

Como prometi ontem, eis aqui uma correlação simples e interessante.

gay_2

Em escala logaritmica, temos o valor do índice de felicidade gay no país e a medida de cultura usada por Claudia Williamson em um artigo (e por mim, Ari e Pedro neste). A medida de cultura é compatível com a aprovação social do mecanismo de mercado como forma de alocação de recursos.

Ainda estou buscando tempo para uma análise mais apurada, mas esta talvez seja mais uma evidência de que o pessoal LGBT não quer, mesmo, viver sob teocracias ou sob ditaduras bolivarianas. A evidência histórica de perseguição a este pessoal sob estas ditaduras, aliás, não desabona esta correlação.

Claro, não dá para falar muita coisa com uma simples relação entre duas variáveis, mas já é um começo, não? Ah sim, aposto que a emporiofobia não é uma característica aprovada pelos gays, mas isto fica para mais tarde.

Será que homossexuais gostam de liberdade econômica? (Gays gostam de Uber?)

gay_economic_freedomEis a correlação – ao longo dos próximos dias talvez eu analise uma base de dados maior – entre a liberdade econômica (valor do índice) e o de felicidade gay (valor do índice). Parece que algumas minorias estão se auto-enganando? Serão os(as) homossexuais menos emporiofóbicos?

Dados originais aqui e aqui.

Instituições…mais um livro promissor!

Sugestão do Ronald que acabou fazendo com que eu comprasse mais um livro.

livronovo_greif

Só o índice já me deixou curioso. O capítulo do Greif parece promissor pelo tema: o que faz com que instituições pró-trocas (eu diria: não-emporiofóbicas) surjam e prevaleçam? Afinal, muita gente gosta de mostrar correlações com, digamos, “liberdade econômica” e alguma medida de riqueza e dizer que aquilo significa algo. Será? Eu bem que simpatizo com a idéia de que a correlação – positiva, no caso – faz sentido. Mas não se aprende mais sobre a relação apenas com panfletagem.

Bom, o capítulo do Greif promete. Infelizmente, eu é que estou um pouco indisposto hoje e não estou lá muito rápido no gatilho. Caso contrário, o capítulo já estaria estudado porque vontade de ler o livro não falta.

Corrupção no Brasil: instituições e liberdade de imprensa

Texto interessante, descoberto por meio do Mansueto. Destaco, inicialmente um trecho cujo tema que tenho sempre enfatizado aqui: a liberdade de imprensa.

Brazil seems to be unique in terms of how citizens view the role of the media in the fight against corruption. In the 2010–11 Global Corruption Barometer, Brazil was the country where the media was selected as the institution most trusted in the fight against corruption with 37 percent of those surveyed choosing the media from the selection of institutions in the survey, the highest percentage of all
countries (n= 99). The corresponding figures for Chile, Argentina, and Mexico were 11 percent, 24 percent, and 16 percent.

The independent nature of Brazil’s web of accountability institutions has the potential to elevate the cost of political wrongdoings even from a politically and constitutionally powerful executive. The mensalão was the most publicised event pertaining to corruption in Brazil. In 2005 and 2006 there were over 28,000 exposés in national newspapers about the mensalão (see Figure 12). The Clean Slate Law (discussed below) ran a close second. Under the current PT government,many proposals for regulating the media have been proposed in reaction to its role in uncovering official wrongdoing.

Entendeu? Como a imprensa investiga, os políticos que estão há mais de uma década no poder ficam incomodados. Ah, vamos ver outro trecho.

Alston, Melo, Mueller, and Pereira (2010) propose a checks-and-balance index built with information on the quality of state institutions: the audit courts, the state public ministries, the share of independent media in states, the quality of regulatory bodies, the local judicial systems, along with the NGO density in the different states. Table 2 contains the states’ scores for two periods in time. Figure 13 plots the checks-and-balance scores against the level of political pluralism in the state, reflecting the degree of competition within their elections.

Alston et al. found that wealth accumulation by state political elites is much greater in states with weak checks and balances. On average, a decrease of one point in
their checks-and-balances index implies that the probability of self-enrichment rises by 8 percent. Media independence shows great variation across the states. States’political elites control about 8 percent of all local concessions for radio and TV in Rio Grande do Sul, but 100 percent in the state of Roraima. The study shows that the more independent the media, the less the degree of wealth accumulation in the states.

Pois é. Vejam como são as coisas. Ao invés de elogiar uma revista e criticar a outra, você deveria defender a existência de uma imprensa livre. Muito mais importante, né?

A Teoria Econômica do Empreendedorismo

Olha eu de novo na minha resenha bibliográfica. Mas, desta vez, o texto é puramente teórico e eu queria deixar a referência aqui apenas para lembrá-los de que meu candidato eterno ao Nobel é William Baumol.

Journal of Institutional Economics (2011), 7: 1, 47–75

The interaction of entrepreneurship and institutions
Magnus Henrekson & Tino Sanandaji
Abstract: Previous research, notably Baumol (1990), has highlighted the role of institutions in channeling entrepreneurial supply into productive, unproductive,
or destructive activities. However, entrepreneurship is not only influenced by institutions – entrepreneurs often help shape institutions themselves. The bilateral causal relation between entrepreneurs and institutions is examined in this paper. Entrepreneurs affect institutions in at least three ways. Entrepreneurship ‘abiding’ by existing institutions is occasionally disruptive enough to challenge the foundations of prevailing institutions. Entrepreneurs sometimes have the opportunity to ‘evade’ institutions, which tends to undermine the effectiveness of the institutions, or cause institutions to change for the better. Lastly,entrepreneurs can directly ‘alter’ institutions through innovative political entrepreneurship. Like business entrepreneurship, innovative political activity may be productive or unproductive, depending on the incentives facing entrepreneurs.

Legal, né? Por isso é que eu acho que Baumol merece o Nobel. Não apenas por este papo de empreendedorismo, mas pelo conjunto da obra: mercados contestáveis, doença do custo, etc, sem falar no livro mais didático de equações diferenciais para graduação que já vi (e nunca achei para comprar). Estudei com aquele livro por vários semestres…

Instituições e Estado Leviatã, em tempos imemoriais

The form Fune no Fuhito (or Fune no Fumibito, etc) in the Nihon shoki reading tradition was originally a hereditary title granted to Oo Shinni to designate his role as recorder of ships’ taxes (…). [Seeley, Christopher (1991). A history of writing in Japan. University of Hawai’i Press, p.7, footnote 15]

Nihon Shoki (talvez seja melhor aqui) é um destes antigos registros japoneses sobre os quais se debruçam os historiadores e estudiosos da língua japonesa.

Agora, neste trecho de Seeley (1991), temos uma daquelas evidências milenares de que governos sempre se preocuparam em coletar tributos. Nada muito estranho a quem estuda história, eu sei, mas é algo que, muitas vezes, escapa à percepção das pessoas, acostumadas a imaginar que governo existem para proverem alguns bens que o setor privado não provê.Isto pode ser verdade, mas não porque governos sejam benevolentes.

Pois é. o Nihon Shoki é um dos textos mais antigos do mundo, mas não nega a importância do capital humano para a expropriação. Interessante, não?

Instituições importam? Por que o Brasil pode piorar muito se um dos candidatos ganhar?

O Leo Monasterio reclamou outro dia da desconsideração do problema institucional. Trecho:

No fim dos anos 80, eu ouvi de um professor meu (eu acho que foi o Barros de Castro) : “E se depois da inflação acabar descobrirmos que o problema do Brasil não é esse? E se descobrirmos que nem temos o caos inflacionário como desculpa?”
A realidade mostrou que a estabilidade foi condição necessária, mas não suficiente para o país tomar jeito. Hoje existem dois entraves consensuais ao crescimento: 1) infra-estrutura; 2) educação. A infra-estrutura é um gargalo óbvio e eu não tenho nada a acrescentar. A minha dúvida é sobre a educação.
Meu medo: fazemos um choque de educação, aumentamos o número e a qualidade do ensino e aí… nada acontece. Depois de 20 anos descobriremos que nossas instituições são uma porcaria e impedem o desenvolvimento econômico. Perceberemos que o acúmulo de coalizões distributivas* nos tornou incapazes de fazer as reformas urgentes.

Ele tem razão. Só educar não basta. Há várias formas de se mostrar isto e geralmente eu tentaria fazê-lo aqui. Mas basta lembrar dois fatos que li hoje: (a) a insanidade do governo argentino, que não mede esforços em destruir a cooperação dos indivíduos – algo próprio das economias de mercado com limitações de margens de lucro (algo similar ao que o caótico governo venezuelano faz com seu próprio povo e, (b) o tratamento que o governo iraniano – este, que muitos de nossos diplomatas governistas adoram louvar como aliado e exemplo a ser seguido (sei lá em que áreas…) – deu aos perigosíssimos jovens que resolveram dançar Happy de Pharrell Williams.

Aí você me pergunta: e o Brasil? Está longe disto? Olha, eu estava pronto para dizer que sim, mas aí nosso governo forçou a barra para demitirem uma funcionária de um banco, nosso Banco Central tentou calar um de seus críticos (de forma muito seletiva, porque há críticos muito mais virulentos que não mereceram a atenção dos atentos encarregados do Banco Central…) e agora, claro, o governo – com a aprovação de seus militantes (pergunte a um deles se ele é contra este tópico do discurso: não encontrei um que saísse fora da partitura…) ataca um patrimônio de anos e anos de trabalho de economistas e funcionários públicos brasileiros: a política monetária moderna, isto é, a que se faz com um Banco Central independente (ou autônomo, ou independente de facto, etc).

Então, não, não estamos tão longe assim. Muita gente ajudou a piorar a situação e, como sabemos, os incentivos importam.

Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples Alferes.
Recebeu trinta dinheiros…
– e tu muitas coisas pedes:
pensão para toda a vida,
perdão para quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glórias e privilégios.
E andas tão bem na cobrança
que quase tudo recebes!
[Cecília Meireles, O Romanceiro da Inconfidência]

Não é mesmo?

Entendeu, …ecil?

“Acho muito ruim a ideia de que o governo possa intimidar empresas privadas, sobretudo essas que precisam se expressar diante de seus clientes. O governo tem opinião, instituições financeiras têm opinião, os jornais e revistas têm opinião. E isso é uma democracia, todo mundo tem o direito de expressar sua opinião. Essa opinião em particular não era polêmica a ponto de despertar essa confusão”, disse Franco, que participou do evento “Vinte Anos Depois do Real: O Debate sobre o Futuro do Brasil”, realizado na Casa do Saber, no Rio.

Preciso explicar?

Como a descarga da privada do shopping pode nos dizer algo sobre a omissão dos indivíduos diante da perseguição a analistas de bancos?

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A foto acima é, realmente, a cara do Brasil. “Boulevard Shopping” é um shopping de Belo Horizonte. No banheiro masculino, todas as descargas estavam assim. Dá para adivinhar o porquê disto?

Para ser honesto – e eu sempre digo que no longo prazo somos todos otimistas (não é difícil ver o porquê, mas aqui está um resumo) – nem todo grande estabelecimento de lojas assina suas descargas. Há outras formas de se controlar isto como, por exemplo, colocar um funcionário nos banheiros para a limpeza e…checagem.

Há vários aspectos nesta foto, mas um deles é o da importância das instituições formais e informais para o bom funcionamento dos mercados. Este é um tema mais do que recorrente neste blog como bem o sabem os leitores sobreviventes. Obviamente, o tema não é originalmente meu, mas uma construção de vários anos de pesquisa aos quais devemos associar os nomes de alguns ganhadores do Nobel como Douglass North, Ronald Coase, Oliver Williamson e Elinor Ostrom, dentre outros.

De novo este papo?

Na verdade, não. Não há muito o que acrescentar. Os leitores que usaram a caixa de “busca” no alto da página podem encontrar textos positivos ou normativos (fortemente opinativos) que escrevi neste blog ao longo dos anos. Mas vale a pena lembrar, novamente, a relevância do tema. Eis um resumo rápido.

Outro ponto importante é a relação entre governo e setor privado. Digo, a relação incestuosa.

Mas um problema importante que decorre da má formatação das instituições é o (sub)desenvolvimento dos mercados. Disse Adam Smith – na tradução mais famosa, devida a George Stigler – que a divisão do trabalho é função direta da extensão dos mercados (o prof. Bodreaux conta como a vida de seu filho foi salva por isto aqui).

Voltemos à foto

Pergunte-se novamente sobre a foto acima. O que ela mostra? Uma imensa falta de confiança nas pessoas. Melhor dizendo, uma falta de confiança entre as pessoas: ninguém confia em ninguém. Todos pensam que serão roubados. Esta visão preconceituosa contra as pessoas tem a ver, obviamente, com a verificação empírica de que muitas coisas já devem ter sido roubadas naquele shopping ou em outros lugares.

Como boa parte dos roubos no Brasil não resultam em atuação eficiente da polícia (é até difícil obter estatísticas simples como a do percentual de recuperação de objetos roubados), as pessoas tentam se defender de algum jeito, no caso, tentando “marcar” a peça para diminuir seu valor ao potencial ladrão.

Agora, voltemos ao Adam Smith. Para que mercados funcionem bem, é necessário que haja uma divisão de trabalho digna do nome. Esta somente se desenvolve se a extensão do mercado atinge um certo tamanho (não me perguntem qual é o tamanho, não sei). Para que isto aconteça, dentre outros fatores, é importante que acreditemos que nosso trabalho será recompensado e, portanto, devemos contar com uma sociedade na qual não existam muitos incentivos ao roubo.

Aí eu te pergunto: qual é a visão sobre “mercados” que você tinha quando estava no colégio? Caso você não se lembre, vou ajudar: assista isto aqui. Pois é. No caso do Brasil não é apenas a desconfiança com a eficiência da segurança pública que faz com que tenhamos que assinar descargas, amarrar canetas com correntes ou algo assim. Há também a visão de que mercados são jogos de soma zero (“se eu ganho, você perde”).

A politização do ensino é tal que predomina a unilateralidade de uma única visão sobre o funcionamento dos mercados. Até mesmo futuros empreendedores, quando entram nas faculdades, espantam-se ao descobrir que mercados não são jogos de soma zero (aliás, nunca foram). Educar, no Brasil, também é um árduo trabalho de desfazer preconceitos…

O ocaso do Santander e o capitalismo de compadres: um reflexo da nossa sociedade e história?

Você viu algum porta-voz de algum “conselho”, “ordem” ou “sindicato” se manifestar sobre a bizarra demissão da analista do Santander? Não. Por que? Porque existe uam significativa parcela da sociedade brasileira que realmente não acredita no funcionamento dos mercados. Tendo vivido sobre um capitalismo de compadres (crony capitalism) por séculos, crê que esta é a regra.

Só pode ser contra as trocas voluntárias (outro nome para mercado) quem é contra a democracia, não é? Provavelente.  Pois veja o Brasil no ranking do Latinobarometro. Quem dá nome de rua a ex-ditador (Getúlio Vargas) pode não saber o que está fazendo exatamente, mas ao fazer pouco caso da demissão da analista do Santander, percebe-se que a sensação é a de que não vale a pena se preocupar com um desconhecido, não é?

Mas não é este o fundamento das trocas que faz mercados crescerem? Não é a confiança de que quem vendeu vai te entregar a mercadoria?  Não é na base da confiança com desconhecidos que você entra em um táxi, em um ônibus ou em uma farmácia? 

Há aí, sim, um pouco de história sobre liberdade de trocas, liberdade civil ou econômica. Embora o discurso ideologizado, politizado, não-científico tente negar, os dados não dão espaço a tanta descaso com a liberdade de expressão.

Não, não me venha falar, subitamente, de seu amor às leis. Você e eu sabemos que você (e eu) passamos boa parte de nossas vidas reclamando de leis irreais ou sem sentido. Aliás, nem houve qualquer apelo legal para a demissão (só para deixar claro, nem faço idéia de quem seja a demitida, ok?).

O campo que estudo, na História Econômica, está praticamente repleto de estudos mostrando que nem todos os sistemas legais são pró-prosperidade (ou, se você quiser, pró-pobre, embora saibamos que haja alguma controvérsia no uso de ambos como sinônimos, mas duvido que entre os polemicistas haja algum defendendo o fim da liberdade de expressão). Leis também são dinâmicas, meus amigos leitores, e mudam com o tempo. Mudam com a ação dos homens, os mesmo que, agora, estão se calando diante da demissão citada. 

Conclusão inconclusa…

Talvez este seja um aspecto esquecido neste episódio negro na história da democracia brasileira: o fato de que muitos de nós se satisfazem com a demissão de uma desconhecida. Afinal, desconhecido não é digno de confiança e confiança, como vimos, é um dos pilares do desenvolvimento dos países e os países desenvolvidos, ensinam-nos nas escolas, só o são porque nos exploram (alguém precisa estudar com calma a inexistência, na língua portuguesa, da distinção entre exploitation exploration…acho que foi Pedro Sette quem me chamou a atenção para isto há anos…).

Pois é. Você não confia na analista econômica, mas confia em um político. Pela mesma lógica, deveria abandonar seu médico e se consultar com um qualquer eleito para a Câmara Municipal. Não sei o resultado, mas sei que você faz parte de uma sociedade doente mesmo…

Desculpem-me pelo texto tão longo e algo desorganizado. Prometo tentar algo melhor, ainda que você, meu caro, provavelmente não me conheça pessoalmente…

Um pouco de Nova Economia Institucional

O prof. Aoki deveria ser mais lido pelo pessoal que se diz adepto da Nova Economia Institucional, não acha? Veja que ótimo artigo:

Economic and Political Transitions from Premodern to Modern States in the Meiji Restoration and Xinhai Revolution: A Strategic Approach

Date: 2014-06-19
By: Aoki, Masahiko (Asian Development Bank Institute)
URL: http://d.repec.org/n?u=RePEc:ris:adbiwp:0486&r=his
Economists often identify a reduction in the share of agricultural employment as a quantitative indication of the economic growth of nations. But this process did not occur in earnest in the People’s Republic of China until the 1980s and to some extent in Japan until well into the mid-20th century. Were extractive political regimes, commonly regarded as the primary drivers of economic performance, solely responsible for the lateness of these developments? This paper deals with this question from a strategic perspective by examining the interactions between the polity and the economy in both countries. It begins by characterizing the complementary nature of the peasant-based economy and the agrarian-tax state in premodern China and Japan. It then describes how endogenous strategic forces evolved from among the intermediate organizations in each country to challenge the incumbent dynastic ruler in response to the commercialization of the peasant-based economy on one hand and the fiscal and military weakening of the agrarian-tax state on the other. The paper then introduces a three-person game model between a ruler and two challenging organizations, and derives conditions for multiple equilbria and their comparative static. The analytical results help to identify the endogenous strategic forces that led the Meiji Restoration and the Xinhai Revolution to move from a premodern state of play to nation-state building and modern economic regimes in each country.

 

 

A cultura da liberdade e o respeito aos direitos de propriedade

direitospropriedade

 

Eu já falei deste indicador de “cultura” aqui antes. Ele está definido, por exemplo, em nosso artigo de 2011 publicado aqui. Já tendo dito muitas vezes que correlação não é causalidade, não reivindico muito mais do que um fato estilizado aqui. O IPRI é o índice de respeito aos direitos de propriedade (em sua edição de 2013) que pode ser encontrado aqui.

Ensina-nos Hernando de Soto que os direitos de propriedade são importante fonte de geração de riqueza (algo que já foi dito também por Ronald Coase e outros). É simples, neste sentido, aliviar a situação de pobreza pela qual tantos passam: basta dar-lhes o direito de propriedade sobre suas propriedades (penso em uma favela, como no caso do Cantagalo, no Rio de Janeiro).

Neste sentido, o que a correlação acima nos mostra? Eu a vejo da seguinte forma: sociedades que se educam para uma cultura que valorize a liberdade e os princípios que regem as trocas voluntárias aceleram seu processo de saída da pobreza e também o de crescimento econômico. É muito mais difícil, obviamente, tirar proveito dos direitos de propriedade em uma sociedade que acredita ser o mercado um ente malvado e o mercado um jogo de soma zero (algo que só é possível para alguém que nunca, mas nunca mesmo, leu um livro introdutório de Economia).

Pois é. Instituições informais e formais são importantes para a prosperidade. Gente com um viés burocrático tende a acreditar que bastam criar leis e leis e mais leis e obrigar as pessoas a serem felizes. Claro que há graus de graus nisto aí e o caso extremo é o de pessoas que acreditam no que Hayek chamava de engenharia social.

Entretanto, eu vejo um problema muito mais sério no que diz respeito às instituições informais. Sabotá-las em nome de uma vaga revolução socialista, ainda que o objetivo seja apenas o de criar uma nova classe, uma aliança entre burocratas e alguns empresários tal como na versão nacionalista do socialismo (daí o nome: nacional-socialismo que, em tons mediterrâneos, ganha o nome de fascismo e não carrega consigo o ódio racial) é, isto sim, brincar perigosamente com a vida das pessoas.

Afinal, instituições informais são difíceis de se compreender (digo, a sua dinâmica, como mudam, etc), mas são muito importantes. Bem, esta é a minha interpretação do gráfico acima mas, claro, é necessário se estudar um pouco mais e ir além das correlações. Com tanta gente se dizendo, orgulhosamente, membro de algo chamado ESTUDANTE pela Liberdade (EPL), eu só posso esperar que surjam estudos empíricos mais sérios e robustos sobre o tema. Não é mesmo?

Mas eu sou um pessimista. Não vejo isto acontecendo. Obviamente, posso estar enganado. Caso meu amigo Adriano Gianturco tenha razão em seu otimismo, não precisaremos esperar nem cinco anos para o surgimento de mais estudos neste sentido. Vamos ver quem tem razão: o italiano otimista ou o nipo-brasileiro cético.