Incentivos importam? O caos microeconômico criado pelo coletivismo soviético

Eis um artigo mais antigo, mas importante, sobre o problema dos anticomuns (o problema oposto ao famoso problema dos comuns). O livro de Cooter & Ulen (acabei de falar dele no post anterior) descreve o exemplo interessante dos apartamentos que, após a Revolução Russa, foram divididos entre várias famílias (sabe aquela história de que “se o socialismo for implantado no Brasil, você terá que dividir seu apartamento”? Pois é, ela não é uma ficção…).

Como era feita a divisão de um apartamento? Pode-se esperar que as famílias dividam os cômodos e, de comum acordo, compartilhem o(s) banheiro(s) e cozinha. Bem, aí vem o problema.

Quando o comunismo acabou, essas famílias achavam que tinham direitos de propriedade contínuos a suas peças individuais e aos espaços comuns. Suponha que, se transformado num imóvel para um único proprietário, o valor do apartmento – ou ‘kommunalka’, como era chamado – seria de US$ 500 mil. Suponha que atualmente haja quatro famílias de inquilinos e, cada uma ocupe uma peça e compartilhe o uso dos espaços comuns. Vendidos separadamente, os interesses dos inquilinos alcançariam, segundo nossa suposição, U$ 25 mil – ou US$ 100 mil no total. Converter a ‘kommunalka’ num único apartamento criaria US$ 400 mil em valor. Mas ocorreu frequentemente que os custos da combinação dos interesses individuais dos inquilinos eram tão grandes que impediam o uso mais valioso do recurso. [Cooter & Ulen, Análise Econômica do Direito, 2010, p.139]

Esta é uma das interessantes distorções microeconômicas geradas pelo modelo econômico socialista soviético. Repare que não é um problema exclusivo da ex-URSS. Sempre que há excesso de direitos de propriedade (no sentido de que há ‘superproprietarização’, ou seja, há um número excessivo de direitos de propriedade em relação ao seu ótimo), o problema aparece. Já li em algum lugar que este é um problema atual da indústria de smartphones, na qual se tenta patentear até o deslizar dos dedos sobre a tela.

 

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Problemas de principal-agente no Brasil…colônia: Antonil

Os braços de que se vale o senhor do engenho para o bom governo da gente e da fazenda, são os feitores. Porém, se cada um deles quiser ser cabeça, será o governo monstruoso e um verdadeiro retrato do cão Cérbero, a quem os poetas fabulosamente dão três cabeças. Eu não digo que se não dê autoridade aos feitores; digo que esta autoridade há de ser bem ordenada e dependente, não absoluta, de sorte que os menores se hajam com subordinação ao maior, e todos ao senhor a quem servem. [Antonil, A.J. (1982) [original de 1711], Cultura e Opulência do Brasil. Ed. Itatiaia, p.83]

Já dizia o velho Antonil: na prática, a administração de recursos escassos não se dá sem bons incentivos. Bom, ele disse isso de outra forma, mais poética, mas alguém discordará de minha interpretação? Olha que, na vida real, este é um problema bem comum (veja, por exemplo, o que dizem os experimentos em laboratório).

A citação do Antonil parece inocente e simples à primeira vista, eu sei. Mas se você estudou um pouco de problemas de principal-agente, certamente irá enxergá-la com olhos mais, digamos, de economista, ou seja, pensando no problema dos incentivos. ^_^

antonil

Incentivos importam: cinema

Suponha que você é um diretor de cinema e trabalha com dois roteiristas. Qual é a melhor forma de produzir um sucesso comercial?

a) Um roteirista escreve e o outro critica;
b) Ambos escrevem juntos a história do início ao fim.

Ou seja, a tecnologia de uso dos fatores de produção é distinta (dois roteiristas, mas dois modos distintos de combinar suas habilidades). Qual é sua aposta?

Depois que apostar, veja aqui a dica de gabarito (compare também com outra descrição, aqui). ^_^

Incentivos importam? O caso das leis de divórcio e o consumo

Incentivos importam? Bem, vejam este estudo.

Voena, Alessandra. 2015. “Yours, Mine, and Ours: Do Divorce Laws Affect the Intertemporal Behavior of Married Couples?” American Economic Review, 105(8): 2295-2332.
Abstract

This paper examines how divorce laws affect couples’ intertemporal choices and well-being. Exploiting panel variation in US laws, I estimate the parameters of a model of household decision-making. Household survey data indicate that the introduction of unilateral divorce in states that imposed an equal division of property is associated with higher household savings and lower female employment, implying a distortion in household assets accumulation and a transfer toward wives whose share in household resources is smaller than the one of their husband. When spouses share consumption equally, separate property or prenuptial agreements can reduce distortions and increase equity. (JEL D13, D14, D91, J12, J16, K36)

Eu falava, hoje, em uma aula introdutória, sobre o papel dos incentivos. Bem, nada mais ilustrativo…

Atravessar a faixa de pedestre com o sinal fechado para você, pedestre, é racional. Não atravessar…também.

Olha que acabei até falando um pouco de psicologia evolutiva, mesmo sem querer (e até citei o glorioso Esporte Clube Pelotas!). ^_^

Cerveja com preço ajustável…e uma idéia de política pública

Eis uma idéia interessante.

One of Beijing’s micro-brew companies, Jing-A Brewing, was rolling out its latest brew, an IPA called the Airpocalypse, the price of which would be based on the amount of fine particulates in Beijing’s air. If the AQI hit 500 or above, a measurement identified on the U.S. Embassy’s Beijing Air Twitter feed as “beyond index,” the beer would be free.

Agora, a proposta de política pública (um exemplo rapidamente pensado e hipotético): se o nível de solução de crimes e devolução dos objetos roubados for abaixo daquele determinado por uma terceira parte neutra, que não é sequer contratada para avaliar a eficiência policial, o valor das receitas pagas em multas para o Estado cai.

Que tal?

Impacto da lei ou não? – PEC das domésticas

Em 2013, cresceu o número de empregadas domésticas diaristas e diminuiu o de mensalistas com e sem carteira de trabalho assinada. Elevou-se o rendimento médio real por hora das diaristas e das mensalistas com carteira de trabalho; o aumento foi o maior dos últimos 17 anos. Mais de 80% das mensalistas sem carteira assinada e das diaristas não contribuem para a Previdência Social.

Os dados estão aqui e o estudo completo, aqui. Sim, trata-se de São Paulo apenas. Mas já é uma interessante questão para se pensar: como é que podemos saber se a mudança na lei teve impacto? O economista responsável pela pesquisa, no Estadão, diz que não se pode atribuir esta queda exclusivamente à lei e, sem um estudo mais detalhado, não há como discordar dele.

Mas a pergunta permanece no ar e a teoria nos diz que, sim, a lei deve ter tido (ou ainda gera) este efeito. A dificuldade, claro, é separar o efeito da lei de outras variáveis importantes que têm mudado ao mesmo tempo (como a inflação, o crescimento tímido do PIB per capita, a expectativa de novas leis, etc).

Alguém se candidata ao estudo?

Como o sistema tributário é um incentivo em si?

O blog Yen for Living tem um ótimo post hoje, sobre como o governo japonês afeta a produção de cerveja daquele país por meio de sua estrutura tributária. Acho uma lição interessante a do texto. Embora eu conheça gente que insiste em dizer que empresários são enganados pelo governo porque não são racionais e tudo o mais, a notícia mostra que, na verdade, é um pouco diferente: justamente por serem racionais, eles aprendem e reagem.

Não existe almoço grátis, meu caro e há um bom motivo para isto.

Mas o que realmente causou a Revolução Industrial na Inglaterra?

Em recente artigo, Gragnolati, Moschella & Pugliese (2014) analisam os incentivos que, segundo eles, poderiam responder esta pergunta. Em sua revisão da literatura, os autores nos informam de duas hipóteses: (a) cultural e (b) preços relativos (vai aqui uma tradução livre, ok?).

A bem da verdade, a primeira (Mokyr (2009)) é a de que a cultura inglesa teria uma tendência relativa maior ao uso de “conhecimento pragmático”, o que teria favorecido o desenvolvimento de capital humano pró-invenções. Então, se há algo de “cultural”, claro, teríamos que investigar se existiu mesmo, nesta época, alguma concentração distintiva deste tipo de conhecimento nas ilhas britânicas.

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Em contraste, dizem os autores, Allen (2009) e Broadberry & Gupta (2009) seriam representantes de uma abordagem mais tradicional: econômica. Assim, a questão seria de preços relativos e, portanto, a Inglaterra teria desfrutado de um preço relativo do trabalho (relativamente ao capital) mais elevado. Veja, se o preço relativo do trabalho em relação ao capital é elevado, no longo prazo, eu, empresário, tenderia a substituir meu estoque de capital por algum novo capital com tecnologia poupadora de mão-de-obra, certo?

Hayek chamou isto de efeito Ricardo. Em Hayek (1942), temos:

When in a recent essay on industrial fluctuations the author introduced the ‘familiar Ricardian proposition that a rise in wages will encourage capitalists to substitute machinery for labour’, this was done under the illusion that thus an argument he had long employed could be stated in a more familiar and readily acceptable form. (The Ricardo Effect, Economica, IX, n.34, May/1942, 127-52, reproduzido como o nono capítulo de Individualism and Economic Order, University of Chicago Press, 1947)

Para ser mais preciso, talvez Hayek tenha sido o popularizador deste conceito que, muito cuidado, não deve ser confundido com a proposição ricardiana (Equivalência Barro-Ricardiana, na boa definição de Buchanan). São coisas completamente distintas, embora o Ricardo seja o mesmo (e não seja o Ricardão, até prova em contrário).

Embora Hayek pareça irritado com o argumento, o fato é que há autores que encontram evidências empíricas de que o mesmo teria ocorrido e teria sido uma das causas da Revolução Industrial, quer Hayek (ou qualquer outro) goste ou não.

Mas veja como é legal esta tal de história econômica! Os autores nos dizem que há uma terceira hipótese! Sabemos que tudo começa com preços e quantidade, né? Bem, o efeito Ricardo fala de preços e eles:

Also the present work provides an economic account of the Industrial Revolution, but the key advantage for England is shown to have laid in its higher consumer demand rather than its favorable relative prices. More precisely, taking demand into account permits to explain the location and timing of the Industrial Revolution much more accurately than relative prices alone, essentially due to the presence of scale economies. (Gragnolati et al (2014), p.6)

Veja como os autores colocam seu argumento de forma simples e elegante, sem firulas. Então, temos preços e quantidades. Mas preços não nos permitem fazer uma análise mais precisa no tempo e no espaço! Já com a demanda (quantidade), afirmam, é possível fazer isto. Como? Ah, aí vem a parte mais bonita, a ligação com outro conceito simples de primeiro ano do curso: economias de escala.

Vamos ser honestos. Eu fico morrendo de vontade de ler o resto do texto após ler uma introdução destas! Os argumentos estão explicados de forma que até um pré-calouro consegue entender! Um aluno de primeiro ano pode não entender se não ler o texto, mas não fica tão perdido.

Eu vou ver se leio este texto aí durante minhas horas vagas nesta semana. O artigo está no último número da Cliometrica. Gosta de história econômica? Recomendo que se associe à Cliometric Society. Sai um pouco caro, mas vale o dinheiro.

p.s. olha o boletim!

Multa ou desconto? Racionamento de água e nós

Discussão do dia: as administrações da Silva e Rousseff não conseguiram. Não deram conta e há um risco de apagão. Isto é um fato e cara-de-pau tem é quem não quer ouvir a verdade.

Posto isto, uma questão relevante é: como lidar com a situação? Em São Paulo há uma discussão muito interessante. Veja o trecho da notícia:

Após o programa de descontos criado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) para quem reduzir o consumo de água na Grande São Paulo, o comitê anticrise criado para tentar evitar o racionamento generalizado nas cidades abastecidas pelo Sistema Cantareira deve propor hoje que prefeituras paulistas adotem medidas efetivas para coibir o desperdício.

Entre as medidas estão a aplicação de multas por desperdício, além da cobrança para que entidades que representam as indústrias e os grandes produtores rurais estimulem o uso racional da água.

Antes de qualquer coisa, que bom ver que a discussão saiu da torpe briga ideológica na qual uns analfabetos funcionais insistem em dizer que “cobrar pela água é neoliberalismo”. Bom saber que, na burocracia do governo paulista, há gente séria.

Sim, sim, embora alguns achem que exista almoço grátis, não, ele não existe. O caso da água é um exemplo de livro-texto tão óbvio que dói falar dele desta forma. Em outras palavras, esta história de não individualizar a cobrança do consumo da água já deveria ter sido deixada para trás faz tempo. O bem água é, sim, rival e excludente. Seu consumo de água é rival ao do seu vizinho e é bem simples cobrar por ele de forma individual, tal como se cobra a conta de luz no prédio.

Mas, por motivos, muitas vezes, políticos, a mudança na forma de se cobrar a água não ocorre. E não é preciso estimar nem uma reta de regressão para adivinhar que, do jeito que cobramos pela água, incentivamos o seu desperdício.

Então, eis aí o problema de incentivos: existem multas e descontos. Multas pelo desperdício (medido de alguma forma) e descontos pela economia (também medido de algum jeito). Digamos que os dois métodos gerem queda no desperdício. Entretanto, implementá-los tem algum custo. Certamente, imagino eu, o custo de qualquer um deles, no curto prazo, é menor do que o de trocar a medição conjunta do consumo de água pela individualizada. Então, sim, vamos de multas e descontos.

Mas, haverá alguma diferença no impacto destes incentivos? O grande problema é saber qual será a base a partir do qual se falará de “desperdício”. Famílias têm composição distintas, riquezas distintas e necessidades distintas. Mas todo mundo adora economizar. Eu imaginaria que estabelecer uma política de descontos seja menos impopular e possa incentivar a economia de água, conforme o tamanho dos descontos (alguém tem que estimar isto). Por outro lado, a economia dos descontos pode ser pequena e a multa pode ter um impacto distinto sobre o indivíduo.

Engraçado é que, no fundo, você está simplesmente criando um incentivo que olha para aumentos e para quedas no consumo de formas distintas. Talvez o mais simples fosse aumentar o preço da tarifa e deixar que as famílias se ajustassem, você dirá. Mas este é justamente o problema de não termos consumo individualizado. A multa ou o desconto não melhorarão muito a situação neste aspecto (os gastadores continuarão fazendo com que os poupadores paguem no consumo de água de um prédio).

Bem, eu não sou especialista no estudo da economia dos recursos naturais. Engenheiros têm algo a dizer sobre o tema, certamente. Economistas, idem. Na verdade, você deveria ter uma estimativa da demanda de água, como fizeram estes autores, na Austrália. Veja o resumo do trabalho:

We estimate an aggregate daily water demand for Sydney using rainfall, temperature, and price data for the period 1994-2005. The estimated demand is used to calculate the difference in Marshallian surplus between using the metered price of household water to regulate total consumption in Sydney versus mandatory water restrictions for the period 2004/2005. Using a choke price of $5.05/kL for outdoor water demand, equal to the levelised cost of supplying and storing rainwater in a household water tank, we calculate the loss in Marshallian surplus from using mandatory water restrictions to be $235 million for the period 1 June 2004 to 1 June 2005. On a per capita basis this equates to approximately $55 per person or about $150 per household — a little less than half the average Sydney household water bill in 2005.

Neste texto, eu aprendo que (negritos meus):

The justification for rationing water versus charging a higher volumetric price is threefold. First, if water is considered a basic need then allocating it on the basis of price, especially if demand is price inelastic, may be inequitable because it can place a large cost burden on poorer and larger households. Second, in some communities, especially in poor countries, household water consumption is not metered. Thus raising the water price in the form of a fixed charge provides no financial incentive to consumers to reduce their demand. Third, even when households are metered and are charged a volumetric price for their water the billing period is such (usually quarterly) that if an immediate and temporary reduction in demand is required, it may be more effective to implement a rationing scheme rather than raise the price.

Notou, né? Então, qual é a elasticidade-preço da demanda no Brasil? Em São Paulo? Ou na sua cidade? Para começar a discussão, temos que começar com esta demanda. Em segundo lugar, algo que é, no curto prazo, dado, é esta questão da mensuração do consumo de água. Passamos da época de medir o consumo individualmente, não? Finalmente, para quem estuda Ciências Econômicas, este texto não deixa de ter um valor didático. Afinal, elasticidades, curto e longo prazo, excedente do consumidor, todos estes conceitos são memorizados e engolidos por milhares de alunos que nem sempre param para se perguntar sobre o porquê de se aprender isto tudo.

Bem, olha você não pergunta o porquê das coisas, agora tem que racionar água. Acho que dá para entender as fontes do problema, né?

Incentivos e um pouco sobre bons “journals”

Os trabalhos mais interessantes em Economia, para mim, não estão no Quarterly ou no AER ou na Econometrica. Claro que há muita coisa importante lá, mas aplicações interessantes de economia ou econometria aparecem sempre em alguns journals menos considerados pelo radar hard science. Por exemplo, o excelente Cliometrica. Veja só que artigo bacana este sobre incentivos no século XVI.

Outro journal que aprecio muito é o Journal of Law & Economics (e seus parentes nacionais: o journal da AMDE e o da UCB). Há também o Economics and Human Biology, cuja ligação com a História Econômica é, hoje em dia, mais do que conhecida e, arrisco dizer, óbvia.

Claro, há os pequenos comunicados de resultados de pesquisa como o Economics Bulletin, com resultados de trabalhos sempre interessantes, não necessariamente ligados a um único tema. Neste sentido, também é bacana acompanhar os journals de econometria aplicada (fui “acusado”, no V Congresso da AMDE,  de não me interessar mais por Teoria Econômica e sim por Econometria Aplicada pelo malandrão do Ronald). Assim, melhor do que o R Journal, só mesmo o Journal of Statistical Software.

Bem, vamos lá ler um pouco.

Novas aquisições

Finalmente chegou mais um daqueles livros cujo título faz a gente gostar (mais ainda) de ler: Why popcorn costs so much at the movies & other pricing puzzles. O autor – já conheço coisas dele de longa data – é o Richard B. McKenzie. Não li ainda, mas a folheada inicial promete.

Escolha seu curso de administração

Eis abaixo o resumo de um interessante artigo apresentado na ANPEC deste ano (você pode obtê-lo na página da ANPEC):

A Escolha da Faculdade pelo Aluno: Estimação da Demanda e Precificação dos Atributos
Eduardo de Carvalho Andrade, Rodrigo Moita, Carlos Eduardo Lobo e Silva

Resumo

Este trabalho usa um modelo logit agregado para estimar a demanda pelos cursos de Administração do estado de São Paulo. Os resultados indicam que algumas características das faculdades são importantes na determinação do seu market share: o preço, a nota dos ingressantes do Enade (‘peer effect’), o ranking do ‘Guia do Estudante’ e o percentual de doutores no corpo docente da instituição. Reputação e qualidade da infra-estrutura não têm impacto significativo. Sem perda de market share, aumentar em 1 ponto a nota do Enade, aumentar o percentual de doutores em 1% e passar de 4 para 5 estrelas no ‘Guia’ permitiria a faculdade elevar a mensalidade, respectivamente, em 16,6, 3,31 e 486,14 reais. Por fim, parece existir uma intersecção importante entre as variáveis consideradas relevantes pelos estudantes na escolha do curso e aquelas que compõem o ranking do MEC.

Para mim, o que surpreende no resumo é o fato de a reputação não ser relevante, pelo menos para os cursos de Administração das faculdades de São Paulo. Seria um problema da variável utilizada? Ou a competição é apenas por preço mesmo?

Outro ponto interessante: infra-estrutura não importa. Interessante é que se a faculdade tiver mais de um curso, a pergunta que eu faria diria respeito à relevância disto. Digamos que a faculdade tenha um curso de Administração, outro de Contabilidade e um de Engenharia da Produção. Quer você queira ou não, a infra-estrutura será relevante – em termos de laboratórios, por exemplo – apenas para um curso (ou predominantemente para um curso), logo, que ela não seja relevante para Administração é quase que óbvio. Mais interessante parecem ser as elasticidades encontradas. Pode ser interessante, obviamente, ter mais doutores no curso, como encontrado pelos autores, mas é espantoso o resultado encontrado pelo impacto do Guia.

De qualquer forma, vale a leitura.

O escândalo dos ambientalistas auto-interessados…mesmo

O escândalo dos ambientalistas que manipulavam dados tem sido praticamente banido de nossa imprensa – inclusive a especializada – o que é péssimo para quem se preocupa, realmente, com o meio ambiente. Afinal, se cientistas falsificam dados para ganharem uma discussão, fica difícil manter esta suposta “aura de pureza” que professores universitários e cientistas tentam vender ao público.

Vamos aos fatos: ninguém é imune aos incentivos. Cientistas também adoram status, fama e fundos de pesquisa, privados ou públicos. Segundo, se percebem que perderão os fundos porque seus estudos vão contra o patrocinador, nem sempre se portam honestamente. Veja, isto vale tanto para o patrocinador privado quanto o público que, ao contrário da fantasia (quase obsessiva) de alguns, está longe de representar os interesses da sociedade.

Por isso é que não me espanto com o escândalo e nem com sua baixa repercussão em um país no qual um diploma – mesmo que seja apenas um pedaço de papel, sem correspondente aumento de produtividade – dê retornos tão elevados a seu portador. Quem é medíocre sabe que o é e não quer perder a boquinha. Simples assim.

Como surgiram as revistas em quadrinhos ou “como o capitalismo lhe deu os gibis”

Esta é do interessante livro de Gonçalo Junior, “A guerra dos gibis”, editado pela Companhia das Letras:

O comic book nasceu de uma idéia simples, porém revolucionária, pela praticidade de manuseio e também do ponto de vista comercial. Bastava dobrar o tablóide ao meio e grampeá-lo para ter uma revista com o dobro de páginas, mas com o custo quase igual – somente algum tempo depois adotou-se uma capa impressa em papel de melhor qualidade. [p.66]

Nossos leitores mais antigos se lembram de outras abordagens feitas, aqui, sobre os quadrinhos. Por exemplo, esta.

p.s. eu jurava que já havia falado aqui sobre algo similar, mas na cultura japonesa, sobre os mangás. Um dia destes eu conto de novo (ou publico pela primeira vez aqui) sobre o tema.