Terrorismo e islamismo: o problema é a assimilação, não a integração (e nada é tão simples quanto tentam nos vender)

Quem imigra assimila ou é integrado? Vejamos:

To decrease the risk of homegrown radicalization, we should work to improve integration of Muslim immigrants, not further isolate them. This means welcoming Syrian refugees, not excluding them. It means redefining what it means to be American or German in a way that is inclusive and doesn’t represent only the majority culture. It means showing interest in and appreciation for other cultural and religious traditions, not fearing them.

Claro, como nenhuma religião é capaz de evitar que seus seguidores matem pessoas (o Brasil, país católico-protestante-etc é um bom exemplo disto), existe sempre um problema dinâmico de se reformar a religião quando a mesma, além de não evitar comportamentos violentos (não servindo de trava moral, para lembrar a ótima defesa de tese do Sandro, na última quarta-feira cujo link não encontrei, infelizmente), incentiva-os. Uma proposta razoável é que a mudança seja endógena, mensagem do apresentador deste vídeo.

Recentemente, um debate no Twitter sobre o tema resultou em uma discussão de surdos, com algumas ofensas desnecessárias da parte dos defensores de barreiras incondicionais à imigração islâmica mostrando, mais uma vez, o quão difícil é debater o tema.

Fato é que saber os determinantes do terrorismo não é uma tarefa trivial e se alguém acha que poderá fazê-lo, ceteris paribus, sem o uso de métodos científicos, este mesmo alguém, inconscientemente pode estar facilitando a ação de terroristas (dois exemplos de pesquisas na área estão aqui e aqui.

De qualquer forma o problema segue sendo desafiador, como explica o prof. LaFree aqui.

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Muçulmanos moderados nos EUA e percepções sobre o terrorismo

Recentemente assisti este vídeo da Prager University sobre o que muçulmanos moderados significa, do ponto-de-vista dos próprios muçulmanos. É um vídeo polêmico, mas levanta pontos interessantes para uma discussão sobre o terrorismo.

Bem, agora que você já assistiu ao vídeo, eis uma questão interessante: será que muçulmanos são idênticos em suas preferências por ataques terroristas ao redor do mundo? Esta nova pesquisa feita nos EUA – para uma amostra de muçulmanos dos EUA – ajuda a colocar as coisas em perspectiva (ainda que tenha diversos problemas metodológicos, um deles a falta de um modelo teórico, por exemplo). Resumindo a pesquisa (literalmente), temos:

Tracking Radical Opinions in Polls of U.S. Muslims
Veronika Fajmonová, Sophia Moskalenko, Clark McCauley

Abstract

This Research Note examines two telephone polls (2007, 2011) and three Internet polls (2016) to track opinions of U.S. Muslims relating to the war on terrorism. Results indicate that a small but consistent minority (five to ten percent) justify suicide bombing of civilians in defense of Islam, while those seeing the war on terrorism as a war on Islam have declined from more than half to about a third. This decline coincided with a decline in perception of discrimination against Muslims in the U.S., and correlational results confirm that perceived discrimination is one source of seeing the war on terrorism as a war on Islam. Other results from both the Pew and Internet polls show that disapproval of U.S. foreign policies affecting Muslims also contributes to seeing a war on Islam.Discussion emphasizes the value of Internet polling for tracking shifts in the opinions of U.S. Muslims, but acknowledges that polling has not yet discovered what is different about the small minority who justify suicide bombing.

Percebemos que se sentir discriminado nos EUA é uma fonte de apoio ao terrorismo por parte dos muçulmanos. O que é se sentir discriminado, contudo, não é algo tão simples de se entender.

Afinal, um ponto importante que se depreende do vídeo é saber se os muçulmanos desejam ser vistos como parte de uma nova sociedade, preservando alguns valores, mas tolerando (ou até assimilando parte de) outros valores ou, por outro lado, se desembarcaram nos EUA dispostos a impor seus valores religiosos a outros, usando a força se necessário.

Neste sentido, o artigo citado aponta para a importância de se entender bem as preferências de um grupo de imigrantes. Querem ser aceitos mantendo seus valores – mas sem obrigar outros a seguí-los? – ou querem impor seus valores na sociedade que lhes recebe?

A virtude da sociedade norte-americana tem sido, ao longo dos séculos, resolver este dilema de forma pacífica (no cômputo geral da história do país, creio que soluções pacíficas ganham, a despeito de conflitos aqui e acolá).

Ah sim, economia do terrorismo é um campo de pesquisa importante (faça uma busca no google) e que vale a pena ser explorado.

Por que (tanta) xenofobia?

Todo mundo sabe que imigração é, via de regra, ótimo para o desenvolvimento econômico. Analogamente, ninguém diz que a independência do Banco Central piora o cenário inflacionário.  O que estas duas situações têm em comum? Fácil: os interesses individuais.

Não é comum ver funcionários do Banco Central fazendo greve pela independência da autoridade monetária e também não é comum ver gente fazendo passeata para que tenhamos mais médicos espanhóis, professores de história do pensamento econômico italianos ou, sei lá, faxineiros austríacos (ou mexicanos).

Aliás, não é de hoje que vejo tanta gente fazendo comentários xenófobos. É, isto mesmo. Brasileiro, o tal cordial e atencioso que ama tudo e todos, muitas vezes, vê-se com um discurso xenófobo. Outro dia uma reportagem da TV falava de “empregos roubados” por gente que veio da Europa tentar a vida aqui.

Por que isso? Talvez a xenofobia seja fruto de nossa desigualdade econômica. Por que? Vejamos um autor antigo e seu insight interessante.

Por maiores que sejam, porém, as vantagens econômicas de uma numerosa imigração para o Brasil, as resistências que ela encontraria e os problemas sociais que a sua presença poderia criar, provàvelmente não a tornariam desejável.
Nessas condições, não há possibilidade de outro tipo de imigração além de lavradores com capitais, ou de técnicos especialmente necessários ao país, que, em virtude do seu pequeno número, podem passar despercebidos. E, mesmo assim, é possível que o rápido desenvolvimento de uma classe média numerosa, a cujos desejos o Govêrno é especialmente sensível, venha restringir a aceitação dêsses técnicos aos setores da população em que a falta de nacionais credenciados seja indiscutível. (Lambert, J. (1970). Os Dois Brasis, 6a edição, p.72-3)

Lambert, então, achava que a desigualdade econômica gerava uma certa animosidade contra imigrantes (sua lógica lembra muito o discurso das “elites” que alguns tanto gostam) dado que os mesmos chegariam ao país em situação inicial melhor.

Eu tendo a ver nos grupos de interesse um motivo para maiores barreiras à imigração. Não creio que um noveaux riche, ou melhor, um recém-saído da pobreza, fica chateado em ver um estrangeiro ganhando mais do que ele. Tendo a imaginar o oposto: o sujeito que ascendeu adora usufruir de novos bens e um professor estrangeiro, por exemplo, é uma ave exótica sobre o qual ele adora contar aos amigos.

Então, não, eu não concordo com este aspecto da visão do Lambert. Não é uma questão de “orgulho” ou “amor próprio”, como ele insinua. É uma questão de grupos de interesse. Penso, por exemplo, na xenofobia – ironicamente falando – francesa, que me parece um problema econômico, não de “amor próprio”. Economia política mesmo: o sujeito não quer a concorrência do profissional estrangeiro.

Em outras palavras, a desigualdade pode aumentar a xenofobia e há grupos de interesse que lucram com isto. Pergunte-se a quem interessa, por exemplo, difundir discursos sobre “elite branca”, sobre “racismo”, numa tentativa de amplificar e distorcer a interpretação de problemas importantes em proveito próprio.

Eu me pergunto mesmo é se há algo a se reinterpretar na minha leitura de Lambert. Depois eu conto mais.

Empreendedorismo: duas histórias

A gente acorda no sábado e encontra o jornal na porta de casa. No caso, o Utiná Press, jornal dos descendentes da província de Okinawa (a mais poderosa, eu diria, no Brasil). Aí eu vejo duas histórias de empreendedorismo.

O trabalho liberta!

Primeiro, a notícia de que a pequena Melissa Kuniyoshi está a caminho de lançar seu primeiro CD no Japão. Tendo começado no programa de Raul Gil (que sempre erra a pronúncia do nome dela, não?), a menina foi para o Japão e, como diria o pessoal da “centro-periferia”, deve começar a explorar os trabalhadores dos países centrais com seu talento musical (mais um exemplo de que esta teoria não explica muita coisa mesmo…). Confira o talento dela, por exemplo, aqui, com o grande sucesso de Rumiko Koyanagi lá dos 70-80, Seto no Hanayome e também aqui, já um pouco maior, com Hanamizuki, um sucesso mais recente da cantora taiwanesa, Hitotoyo.

Eu sei, eu sei, você também acha que o Ministério Público deveria intervir impedindo esta “exploração do trabalho infantil” porque você não consegue pensar em diferentes instituições que possam permitir que o talento individual floresça em crianças que deveriam, isto sim, estar estudando filosofia e sociologia para se tornarem cidadãs. Bem, você está errado, ponto.

O trabalho no Japão não é fácil, mas a família deu um passo arriscado e, espero, que fará de Melissa um sucesso.

“A emissora de TV do Japão Nihon Terebi veio até o Brasil para fazer uma matéria com ela”, conta Milton. No ano seguinte, foi a vez da TV Fuji manifestar interesse e Melissa percorreu o caminho inverso para participar de um programa musical exibido pela emissora japonesa.

A repercussão no YouTube foi o “cartão de visitas” de Melissa para Suzuki Jun.“Ele disse que gostaria de tê-la como aluna”, lembra Milton, afirmando que o convite feito pelo compositor é raro até mesmo para os próprios japoneses. “Nessa faixa etária da Melissa é muito difícil encontrar alguém com seu talento”, garante o pai.


A decisão, no entanto, não foi das mais fáceis para a família. Afinal, se tratava de uma mudança radical, que poderia colocar em jogo não só o futuro de Melissa como também mexeria com toda a família.

Uma trajetória de sucesso? Só esperando o CD para ver. Mas dá para perceber que talento a menina tem.

Como um japonês enriqueceu fabricando cocadas

Em segundo lugar, a história de um imigrante que começou como tantos, no interior de São Paulo, na lavoura e terminou empresário. É a história de Tokujin Higa – fundador do Higa Atacados – cuja família saiu de Okinawa e veio parar neste maravilhoso país das oportunidades que faz justiça a todas as raças (eu sei, soa nazista, mas o governo brasileiro tem promovido o termo, então, por favor, seja mais solidário e aceite o nazismo oficial em seu coração…).

Voltando ao que interessa, o jornal conta a trajetória do empreendedor. Após passar pela lavoura, virou aprendiz numa fábrica de cocadas. Obviamente, passou a vender cocadas nas ruas, em Campinas. Quando o dono da fábrica se retirou, ele assumiu. Passou a fabricar e a vender cocadas. Nada mais bonito do que ler:

Os utensílios utilizados desde esta época foram guardados com carinho por Tokujin, desde as ferramentas utilizadas para quebrar as cascas do coco, as colheres de medidas para fazer as cocadas, o primeiro tacho utilizado na fabricação dos doces e a cesta de bambu que utilizava para fazer as vendas. Tudo guardado, datado e catalogado. (Utiná Press, Mar/2014, p.22)

A expansão do negócio fez com que ele trouxesse os irmãos para a empresa. A reportagem prossegue contando como evoluiu o negócio de Higa com a construção de uma fábrica e a incorporação de novos produtos (doces) ao catálogo da empresa. Após a era heterodoxa de “planos” para combater a inflação veio a crise dos anos 90 que fez com que a fábrica parasse. O fim da produção dos doces veio com a mudança da empresa que passou a trabalhar com atacado e varejo, comercializando produtos de terceiros.

Ah sim, existe um Museu Histórico “particular” (assim nos conta o jornal), com o registro da trajetória da empresa. Mais ainda, parece que exist um livro, lançado pela ocasião dos 50 anos da empresa (1964-2014).

Pois é…

Interessante esta tal de Economia, não? Japoneses que percebem as preferências dos consumidores e aprendem a fabricar cocadas (e não doces de feijão) ou crianças que cantam músicas que agradam consumidores do outro lado do mundo usam seu talento para melhorar suas vidas.

Quem poderia ser contra empreendedores? Só mesmo gente que não trabalha ou que não tem talento. Afinal, empreender faz parte do DNA humano, não é mesmo? Bom dia.

Okinawa e o Japão

Vários de nós, descendentes, já conhecemos a ultrapassada – e errônea – visão dos japoneses quanto a Okinawa. Mas a melhor frase que resume este preconceito ao mesmo tempo em que destaca a real peculiaridade de Okinawa é esta:

“…okinawa está para os japonêses, como os japonêses estão para os brasileiros”. [Vieira, Francisca I.S.. O Japonês na Frente de Expansão Paulista, USP, 1973, p.79]

A despeito disto, Okinawa tem, sim uma cultura bem peculiar em relação ao Japão. Por isto a frase acima pode ser tomada do ponto de vista negativo (preconceito) e também positivo (a peculiaridade de Okinawa).  Por falar nisto, 2011 foi o ano do Begin no Brasil e, infelizmente, eu não pude ir ao show.

Quem acha que o Japão tem uma “cultura uniforme” (ou que qualquer cultura é “uniforme”) deveria rever seus conceitos…

Grupos de interesse

No Brasil, infelizmente, 90% dos economistas se rendeu às barreiras à entrada dos profissionais de Ciência Política e afins e não estudam muito grupos de interesse. Uma minoria, vá lá, faz isto. Eis aqui um exemplo aplicado aos EUA.

Working Paper No. 08/244: Do Interest Groups Affect U.S. Immigration Policy?

Author/Editor: Facchini, Giovanni ; Mayda, Anna Maria ; Mishra, Prachi

Summary: While anecdotal evidence suggests that interest groups play a key role in shaping immigration policy, there is no systematic empirical analysis of this issue. In this paper, we construct an industry-level dataset for the United States, by combining information on the number of temporary work visas with data on lobbying activity associated with immigration. We find robust evidence that both pro- and anti-immigration interest groups play a statistically significant and economically relevant role in shaping migration across sectors. Barriers to migration are lower in sectors in which business interest groups incur larger lobby expenditures and higher in sectors where labor unions are more important.
http://www.imf.org/external/pubs/cat/longres.cfm?sk=22377.0