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Os efeitos de longo prazo da escravidão…na Georgia, USA

Contrafactuais, experimentos aleatórios, enfim, termos que assustam os estudiosos da História Econômica. Certamente dá muito trabalho não só pensar nisto, como imaginar formas de se fazer um bom estudo, ainda mais quando o tema é escravidão.

Eu diria que um exemplo de boa tentativa é este artigo.

Slavery, Path Dependence, and Development: Evidence from the Georgia Experiment

Tyler Beck Goodspeed
Abstract –  From 1735 to 1751, the Board of Trustees of the Province of Georgia imposed the only ban on slavery among the North American colonies. Exploiting the historical boundary between the 88 counties of Trustee Georgia and the 71 counties that were appended to the colony after 1751, I analyze the effects of this initial institutional difference on subsequent differences in slave dependence, land inequality, income, and poverty. I find that counties that had been covered by the initial Trustee ban subsequently had lower slave population density, fewer farms holding more than 10 slaves, and higher income and lower poverty rates today. I further find that while counties affected by the ban did not have significant differences in pre-Civil War land inequality, productivity, industrial development, or educational investment, their economic output was significantly more diversified and less reliant upon the production of cash crops. Finally, I demonstrate that controlling for pre-war output diversification significantly reduces the estimated relationship between Trusteeship and current income. Results therefore suggest that the effects of initial differences in labor institutions can persist even where those differences are not determined by geography, and that a primary channel of persistence is the path-dependence of early economic specialization.

Legal, heim?

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Comércio de escravos, preços de noivas, etc.

Pode o comércio de escravos gerar efeitos de longo prazo negativos na África? Pode. Antes que você saia por aí usando este resultado para avançar sua agenda política, repare que colocar preços em noivas (pagamentos de dotes à família da noiva) também pode ter efeitos de longo prazo positivos sobre a educação destas.

Em poucas palavras, antes de sair por aí trombeteando sua corneta ideológica, estude econometria e pense bem no que está fazendo porque a pesquisa não é nunca um caminho monótono. Resultados contraintuitivos podem surgir e você tem que pensar neles com calma. Ou você também achava que a venda de esposas na Inglaterra pré-Revolução Industrial era algo que prejudicava as mulheres envolvidas?

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E a escravidão, heim?

Este ótimo texto da profa Bertocchi tem um resumo que é útil para responder minha descontraída pergunta:

Within a county-level analysis of the state of São Paulo, the largest in the country, Summerhill (2010) finds that the intensity of slavery has a negligible effect on income in 2000. Moreover, a measure of agricultural inequality for 1905 exerts no negative influence on long-term development. He therefore concludes that neither slavery nor historical inequality have a discernable economic effect in the long run. However, a negative influence of past slavery emerges in other studies that concentrate on human capital formation. Across Brazilian federal units, Wegenast (2010) uncovers a negative correlation between past land inequality, which was strongly correlated with the presence of crops suitable for the use of slave labor and thus with slavery, and quantitative and qualitative measures of contemporary education, such as secondary school attendance in 2000 and school quality in 2005. In the latifundia system based on slave labor, landlords historically had no incentive to develop mass educational institutions, and this attitude persisted even after abolition in 1888, with consequences still visible today.

Pois é. Evidências mistas, né? No mínimo, para começarmos a discussão, é preciso estudar um pouco os dados e sair do mundo fácil e (potencialmente) enganador das correlações parciais. Mais adiante, no mesmo texto, a autora afirma (e eu concordo):

These mixed results may be due to the confounding influence of other interacting factors common to the South-Central America experience, such as the generally slow expansion of mass education – irrespectively of race – on the one hand (see Mariscal and Sokoloff, 2000) and a culture of assimilation favoring integration and racial mixing on the other.

Sei que tem gente que não gosta disto, acha que só há um tipo de escravidão e que tudo é igual aqui ou nos EUA, mas, infelizmente – para esta galera – a realidade é muito mais rica no que a análise das evidências nos mostra.

Uma característica bacana do texto é o uso simples e despretencioso de regressões simples, estimadas pelo MQO (o famoso OLS, em inglês). Há quem não entenda que mesmo regressões simples podem ser extremamente úteis desde que corretamente adequadas à argumentação do autor. A profa Bertocchi faz isto muito bem. Recomendo a leitura do texto, mesmo sendo apenas um texto para discussão.

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Instituições…mais um livro promissor!

Sugestão do Ronald que acabou fazendo com que eu comprasse mais um livro.

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Só o índice já me deixou curioso. O capítulo do Greif parece promissor pelo tema: o que faz com que instituições pró-trocas (eu diria: não-emporiofóbicas) surjam e prevaleçam? Afinal, muita gente gosta de mostrar correlações com, digamos, “liberdade econômica” e alguma medida de riqueza e dizer que aquilo significa algo. Será? Eu bem que simpatizo com a idéia de que a correlação – positiva, no caso – faz sentido. Mas não se aprende mais sobre a relação apenas com panfletagem.

Bom, o capítulo do Greif promete. Infelizmente, eu é que estou um pouco indisposto hoje e não estou lá muito rápido no gatilho. Caso contrário, o capítulo já estaria estudado porque vontade de ler o livro não falta.

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Colonização e História Econômica

A colonização se paga?

Colonial adventures in tropical agriculture: new estimates of returns to investment in the Netherlands Indies, 1919–1938

Frans Buelens and Ewout Frankema
Abstract
How profitable were foreign investments in plantation agriculture in the Netherlands Indies during the late colonial era? We use a new dataset of monthly quoted stock prices and dividends of international companies at the Brussels stock exchange to estimate the returns to investment in tropical agriculture (1919–1938). We adopt the Dimson–March–Staunton method to compute real geometric annual average rates of return and assess our estimates in an international comparative perspective. We find that returns to colonial FDI in the Netherlands Indies during 1919–1928 were impressive (14.3 %), being almost 3 percentage points higher than the world average. In the following decade 1929–1938 fortunes reversed, with a rate of return of −2.8 % compared to a world average of 2.2 %. Over the entire period the returns to colonial FDI (5.4 % in 1919–1938) were about a factor 2.5 higher than returns to investment in the Dutch domestic economy (2.1 % in 1920–1939). We argue that these returns should be interpreted in a colonial context of systematic labour repression, but that they may also partly reflect a higher risk-premium of investments in colonial commodities.

História econômica é legal, né?

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Quanto mais longe…mais caro

O Leo Monasterio me deu a dica: Orbis, de Stanford. Ainda por cima vem com pesquisas (working papers) que aplicam o interessantíssimo Orbis como, por exemplo, esta. Veja que interessante o resumo:

Explaining the maritime freight charges in Diocletian’s Price Edict
Walter Scheidel
Abstract: Geospatial modeling enables us to relate the maritime freight charges imposed by the tetrarchic price controls of 301 CE to simulated sailing time. This exercise demonstrates that price variation is to a large extent a function of variation in sailing time and suggests that the published rates are more realistic than previously assumed.

Pois é. Império romano, frete marítimo e as leis econômicas, mais uma vez, em ação.

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História Monetária: o caso da Itália

História das instituições monetárias? Tudo bem! Que tal falar de competição entre bancos na criação de moedas?

Adverse clearings in a monetary system with multiple note issuers: the case of Italy (1861–1893)
Giuseppina Gianfreda, Fabrizio Mattesini

Abstract
We study the regime of multiple note issuers that characterized the Italian monetary system from the unification of Italy in 1861 to the creation of the Bank of Italy in 1893. We describe how the system evolved and we analyze how it functioned by studying the clearing of notes among banks. Since by law banknotes had to be redeemed at par, we focus on the ability of banks to keep notes in circulation before redemption. We estimate adverse clearings of notes issued by the dominant bank [Banca Nazionale degli Stati Sardi (BNS)] in the provinces where this bank had branches and we find that the entry of a smaller issuer limited the BNS’s capacity to keep its notes in circulation at the local level. We take this as evidence that competition in note issuance worked as an effective discipline device. Our results are consistent with the analysis of Pareto (Journal des économistes 3–28, 1893) who maintained that the fall of the Italian system was not due to the failure of the competitive mechanism, but rather to the altering of the rules of the game by the government.

Repare que o velho Pareto já havia estudado o mesmo tópico.

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Crítica às instituições: elas importam mesmo?

Leo Monasterio aponta críticas de um pesquisador. A meta-piada é que, se não importassem, pessoas não ficariam lendo sobre elas. ^_^

Agora, sério, a crítica sobre as variáveis utilizadas (como as do Polity IV) na parte 1, não me parecem tão poderosas assim. Em dois aspectos: (a) esta crítica não é exclusiva para a abordagem institucional (isto não a desmerece, mas torna-a mais geral) e, (b) se a questão é a escala de medida da variável, o ponto importante é usar o método estatístico mais adequado.

Quanto à parte 2, achei ótimo o autor lembrar do injustiçado Albouy, que fez uma crítica correta ao problema dos dados de mortalidade dos colonizadores (e foi criticado de forma exagerada por Acemoglu na réplica).

Acho promissor pensar em uma abordagem mais data-driven para medir o impacto de instituições sobre o crescimento econômico. Mais ainda, acho que o crescimento econômico é apenas um dos aspectos. Há a qualidade dos governos, por exemplo, que é uma variável para lá de importante.

Mas uma crítica mais séria, creio, é que precisamos definir melhor o que entendemos por instituições. Sério. Esta literatura tem se tornado um bocado extensa e algo confusa em algumas ocasiões. Claro, é difícil definir instituições, mas os artigos nem sempre deixam isto claro (acho que consegui dizer algo sobre isto aqui).

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Restrições (Condicionantes) Fisiológicos do Desenvolvimento Econômico

Olha aí outro uso da modelagem econômica que nos ajuda a levantar novas hipóteses sobre a história.

Physiological Constraints and Comparative Economic Development

Carl-Johan Dalgaard
and Holger Strulik
Abstract. It is a well known fact that economic development and distance to the equator are positively correlated variables in the world today. It is perhaps less well known that as recently as 1500 C.E. it was the other way around. The present paper provides a theory of why the “latitude gradient” seemingly changed sign in the course of the last half millennium. In particular, we develop a dynamic model of economic and physiological development in which households decide upon the number and nutrition of their offspring. In this setting we demonstrate that relatively high metabolic costs of fertility, which may have emerged due to positive selection towards greater cold tolerance in locations away from the equator, would work to stifle economic development during pre-industrial times,
yet allow for an early onset of sustained growth. As a result, the theory suggests a reversal of fortune whereby economic activity gradually shifts away from the equator in the process of long-term economic development.

Fala que Economia não é bacana agora, fala!

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O preço da civilização são os impostos?

The tribute system, for all its injustice and cruelty, preserved something of the Arawaks’ old social arrangements: they retained their old leaders under control of the king’s viceroy, and royal directions to the viceroy might ultimately have worked some mitigation of their hardships. But the Spanish settlers of Española did not care for this centralized method of exploitation. They wanted a share of the land and its people, and when their demands were not met they revolted against the government of Columbus. In 1499 they forced him to abandon the system of obtaining tribute through the Arawak chieftains for a new one in which both land and people were turned over to individual Spaniards for exploitation as they saw fit. This was the beginning of the system of repartimientos or encomiendas later extended to other areas of Spanish occupation. With its inauguration, Columbus’ economic control of Española effectively ceased, and even his political authority was revoked later in the same year when the king appointed a new governor.

O restante do texto não entusiasma tanto, mas a descrição acima é um bom exemplo de como a criação de um sistema tributário está muito mais distante da visão romântica dos livros de Finanças Públicas e bem mais próxima da descrição dos escritos de Buchanan, Tullock ou Olson (Mancur Olson Jr.).

O preço da civilização só é igual à existência de tributos quando estes tributos não são vistos como uma forma inferior de exploração pelo governo. Foi só Colombo ficar um pouco mais poderoso e os colonos e a Coroa acabaram com sua festa. De quebra, acabaram com mais algumas vidas…

Pois é. Como entender a história econômica sem usar a teoria econômica e a compreensão do papel dos incentivos? Como fazer isso tudo sem hipóteses testáveis? Não tem jeito. Aliás, até tem, mas aí é questão de religião…

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Viva a interdisciplinaridade! História Econômica e Complexidade, juntas!

Pois é. A História Econômica é sempre um tópico interdisciplinar. Veja:

We are very pleased to announce the creation of the Team “Cliometrics and Complexity” (CAC) hosted by IXXI – ENS Lyon, the Complex Systems Institute in Rhône-Alpes (ixxi.fr). The IXXI “Complex System Institute” has already a practice of interdisciplinary collaboration in the modeling of complex systems since it hosts several research fields, currently Mathematics, Computer sciences, Biology and Physics. CAC is not intended to be a Lab but a research project within IXXI – ENS Lyon, aiming at bringing together complex systems modeling and the new discipline of Cliometrics, which aims at modeling long historical macroeconomic and financial data.

Não é ótimo? A Cliometria já é um ramo interdisciplinar, unindo Econometria e História Econômica (como fazer análises sem usar dados de forma cientificamente adequada?). Agora, seguindo ao apelo de tantos – que sempre falam de “renovar” a Ciência Econômica – eis esta genial iniciativa.

Claro, se você fala em “renovar”, mas apenas usa isto como desculpa para esconder sua falta de habilidade com a Estatística ou a Matemática, então você poderá não gostar tanto assim desta iniciativa.

Deixe de lado seus medos e preconceitos por alguns instantes. Vale a pena.

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Um herói injustiçado da abolição

Por que? Descubra aqui. É, estou repetindo um tema antigo, mas pensar em história econômica “jogando fora” a teoria porque “ela é neoclássica, e não austríaca ou marxista”, como querem alguns black blocs maoístas, é de uma ignorância terrível e eu, como professor, posso não estar qualificado para ministrar um castigo por sua falta de educação, mas sou obrigado a puxar a orelha das pessoas. 

É muito comum enfrentar este tipo de arrogância em debates. O sujeito é mais ou menos assim:

Sentado atrás de uma escrivaninha, anotando palavras e números num papel, ele tende a supervalorizar o significado de seu trabalho. Como o patrão, ele escreve e lê as coisas que outros colegas anotaram, conversa diretamente ou por telefone com outras pessoas. Muito vaidoso, imagina-se parte da elite gerencial da empresa e compara suas tarefas com as do chefe. (Mises, L. (1988). A Mentalidade Anticapitalista, p.24)

Cheio de dinheiro, herdeiro de um negócio mais ou menos bem-sucedido, ou pelo rent-seeking ou pelo empreendedorismo knightiano-kirzneriano (profit-seeking), pensa que porque leu três páginas de um livro de quatrocentas, já viu a verdade (sem sequer se questionar se faz sentido buscar alguma suposta verdade…). 

Não é muito diferente do colega intelectual do departamento de (s)ociologia (obrigado, Gaspari, por criar o termo…) que olha para o colega rico, senta-se à mesa e suspira de tristeza pensando em como a riqueza do colega não o tirou do comportamento racional, mesquinho que, aliás, crê, teoricamente não fazer sentido pois a alienação de classe…e por aí vai. 

No final do dia, eu fico com Alberto Oliva:

(…) não cabe impor ao pesquisador a tarefa de fazer inventários ontológicos que retratem fidedignamente o que a realidade é em si mesma. Sua missão deve ser a de elaborar teorias que se revelem capazes de explicar as propriedades essenciais dos entes aos quais se está conferindo primazia ontológica. (Oliva, A. (1999). Conhecimento e Liberdade, p.114)

Não que isto resolva a questão, como se vê, de quem está correto ou errado, mas creio que nos mostra a impossibilidade de fugir da liberdade que a investigação científica necessita ter. Esta liberdade, obviamente, não é sinônimo de unanimidade (nem poderia), mas é um dos pilares que nos ajuda a avançar. 

Ah sim, a tentativa de desqualificar o adversário, claro, não ajuda muito neste debate. Em última instância, a investigação científica – notadamente a da história econômica – vai nos desvelando camadas e camadas de poeira que turvam a visão. Camadas que estavam lá pelo tempo e camadas que estavam lá porque somos preconceituosos demais para percebermos que o buraco é mais embaixo.

A história econômica já sofreu demais nas mãos de pseudo-professores e também dos doutrinadores. 

Para terminar, apenas um viva. Para quem? Para Manuel Pinho de Sousa Dantas! 

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História Econômica: grandes obras elegem ditadores?

Como brasileiros adoram votar em políticos que fazem grandes promessas de infra-estrutura, dentre outras, não custa lembrar que nem sempre o final da história é feliz.

Eis aí um exemplo.

HIGHWAY TO HITLER
Nico Voigtländer & Hans-Joachim Voth

Abstract: Can infrastructure investment win “hearts and minds”? We analyze a famous case in the early stages of dictatorship – the building of the motorway network in Nazi Germany. The Autobahn was one of the most important projects of the Hitler government. It was intended to reduce unemployment, and was widely used for propaganda purposes. We examine its role in increasing support for the NS regime by analyzing new data on
motorway construction and the 1934 plebiscite, which gave Hitler greater powers as head of state. Our results suggest that road building was highly effective, reducing opposition
to the nascent Nazi regime.

Pois é. Controlar o uso dos recursos públicos não tem apenas um lado, digamos, contábil. Não se trata apenas de ciclo político-econômico. Pode significar evitar algo bem mais sério…

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Um pouco de Nova Economia Institucional

O prof. Aoki deveria ser mais lido pelo pessoal que se diz adepto da Nova Economia Institucional, não acha? Veja que ótimo artigo:

Economic and Political Transitions from Premodern to Modern States in the Meiji Restoration and Xinhai Revolution: A Strategic Approach

Date: 2014-06-19
By: Aoki, Masahiko (Asian Development Bank Institute)
URL: http://d.repec.org/n?u=RePEc:ris:adbiwp:0486&r=his
Economists often identify a reduction in the share of agricultural employment as a quantitative indication of the economic growth of nations. But this process did not occur in earnest in the People’s Republic of China until the 1980s and to some extent in Japan until well into the mid-20th century. Were extractive political regimes, commonly regarded as the primary drivers of economic performance, solely responsible for the lateness of these developments? This paper deals with this question from a strategic perspective by examining the interactions between the polity and the economy in both countries. It begins by characterizing the complementary nature of the peasant-based economy and the agrarian-tax state in premodern China and Japan. It then describes how endogenous strategic forces evolved from among the intermediate organizations in each country to challenge the incumbent dynastic ruler in response to the commercialization of the peasant-based economy on one hand and the fiscal and military weakening of the agrarian-tax state on the other. The paper then introduces a three-person game model between a ruler and two challenging organizations, and derives conditions for multiple equilbria and their comparative static. The analytical results help to identify the endogenous strategic forces that led the Meiji Restoration and the Xinhai Revolution to move from a premodern state of play to nation-state building and modern economic regimes in each country.

 

 

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Cultura é importante demais para ser deixada nas mãos de amadores

Quantas vezes já entrei na sala de aula, comecei uma conversa de um tema da aula e alguém me veio com: “- Mas, professor, é a cultura!!”. Sempre há alguém que procura na “cultura” a resposta para o que não entende.

Mas não basta invocar a “cultura”, como se fosse uma daquelas palavras que se grita antes de se disparar um raio de luz pelas mãos. Como diria a propaganda do Gelol, “tem que participar”.

Neste blog, por diversas vezes, tive a oportunidade de divulgar trabalhos e discussões sobre a tal “cultura”. Já deve estar claro para os leitores mais antigos que o buraco, como diria o mineiro chileno, é mais embaixo. É óbvio demais que a cultura não é um conceito estático: ele muda (muito, eu diria) no tempo.

A cultura do brasileiro de 1500 não é a mesma da do brasileiro de 1700, 1800, 1900 ou 2000. Pegue aí um dicionário de folclore como o de Câmara Cascudo, o grande estudioso do gênero para ver como nossa riqueza cultural não advém da cristalização de estórias ou hábitos. Mas não é só isso.

A cultura é um complexo feixe de valores que não são necessariamente a última instância da explicação das coisas (não me venha com esta mania marxista de querer reduzir tudo a alguma condição econômica…). Pode ser, como já verificaram alguns estudiosos, que a cultura seja gerada por uma trajetória histórica mais antiga, relacionada às culturas agrícolas. Por exemplo, conforme Aoki (1988), em um comentário sobre um conjunto de estudos:

In an interesting and provocative chapter, Platteau and Hayami argued that a contrasting way of farming – farming on vast land by mobile farmers in severe ecological conditions – in Sub-Saharan Africa may have been responsible for the formation of a different type of norms of economic behaviour, the ‘sharing of ‘good fortunes’ ‘, which may have been responsible for the formation of a different type of norms of economic behaviour (…) which may in turn account for comparatively inadequate developmental performance in that region. (Aoki, M. (1988) The Role of Community Norms and Government in East Asian Rural-Inclusive Development and Institutional Building. In: Hayami, Y.& Aoki, M. The Institutional Foundations of East Asian Economic Development, MacMillan, 1988, p.532)

De certa forma, observamos que a relação entre condições econômicas e valores culturais não é tão simples assim. Dado isto, considere então este novo estudo cujo resumo reproduzo:

The persistence of cultural attitudes is an important determinant of the success of institutional reforms, and of the impact of immigration on a country’s culture. This column presents evidence from a study of European immigrants to the US. Some cultural traits – such as deep religious values – are highly persistent, whereas others – such as attitudes towards cooperation and redistribution – change more quickly. Many cultural attitudes evolve significantly between the second and fourth generations, and the persistence of different attitudes varies across countries of origin. (originalmente aqui)

Percebeu o tamanho do problema que temos que estudar? Mudanças nos valores culturais existem e não sou o primeiro a falar disto. Muita gente importante já falou disto antes (Putnam, Coleman, North, etc). Só que o pessoal continua confundindo as coisas porque pensa sob uma ótica ideológica simplista: acha que tudo é marxismo ou gramscianismo. Com estas lentes de alcance curto, senão erradas, concluem que a cultura é determinada pelas condições econômicas e ponto final.

O que temos é uma relação muito mais sofisticada e testável empiricamente e não classes sociais que se eternizam no modelo “feudal-capital-social-comunal” que alguns buscaram, esquizofrenicamente, eu diria, encontrar nas capitanias hereditárias brasileiras (na civilização, havia gente mais famosa no debate como Maurice Dobb, Paul Sweezy, Takahashi e outros).

Bem, a cultura pode ser importante, mas se você entrou na faculdade achando que ela explica tudo e saiu da faculdade pensando do mesmo jeito, há o risco de você não ter evoluído nada porque, em qualquer curso sério – de Ciências Econômicas ou não – não há como você manter seus preconceitos escolares por mais de cinco minutos de leituras. Até meus amigos marxistas (é, eu tenho um) sabem disso.

No Brasil, infelizmente, ainda é tabu entre economistas falar do tema. Há um ou outro falando, mas geralmente ele é confundido com pterodoxos – que não são um contingente desprezível de passado histórico hegeliano, se é que você me entende… – ou é desprezado porque não usou GMM em uma amostra de dados que não comporta um GMM. É uma longa caminhada até que tenhamos uma massa crítica intelectual relevante para melhorar a qualidade das nossas pesquisas. Mas chegaremos lá, eventualmente.

 

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Você escolhe fumar: sim, isso mesmo

Kevin Murphy e o recém-falecido Gary Becker causaram muita polêmica quando apresentaram seu modelo do vício racional (rational addiction). Houve choro, birra, ódio e, claro, algumas pessoas inteligentes resolveram debater o tema.

Tem sempre uma reclamação sobre o modelo não ter uma contrapartida na realidade, que a história é importante e tal (geralmente esta crítica não vem acompanhada de contra-exemplos históricos, mas há exceções honrosas, claro). Pois é. Tudo isto é muito bonito, impressiona as meninas no bar, mas o bom mesmo é buscar evidências empíricas. Assim, enquanto você dormia, alguém foi lá e publicou no último número da Cliometrica o seguinte artigo:

The demand for tobacco in post-unification Italy
Carlo Ciccarelli and Gianni De Fraja
Abstract
This paper studies the demand for tobacco products in post-unification Italy. We construct a very detailed panel data set of yearly consumption in the 69 Italian provinces from 1871 to 1913 and use it to estimate the demand for tobacco products. We find support for the Becker and Murphy (J Polit Econ 96:675–700, 1988) rational addiction model. We also find that, in the period considered, tobacco was a normal good in Italy: aggregate tobacco consumption increased with income. Subsequently, we consider separately the four types of products which aggregate tobacco comprises (fine-cut tobacco, snuff, cigars, and cigarettes), and tentatively suggest that habit formation was a stronger factor on the persistence of consumption than physical addiction. The paper ends by showing that the introduction of the Bonsack machine in the early 1890s did not coincide with changes in the structure of the demand for tobacco, suggesting cost-driven technological change.

Keywords Smoking Italian Kingdom Rational addiction Panel data

Pois é. Então  vamos parar com este papo furado e vamos fazer trabalhos empíricos? Vamos parar de culpar o Dr. Smith pela nossa preguiça e trabalhar. Afinal, você não é um robô movido à bateria, né?

20140515_211030

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História para quem precisa

20140508_070000Havia visto na mesa de trabalho do Ronald, quando, recentemente, estive no PPGE para a defesa de tese do Rodrigo. Obviamente, perguntei sobre o livro e, como Ronald fez comentários muito interessantes, não tive como fugir: comprei. Tema interessante, teoria interessante e área  de trabalho dentro da zona de ataque é sempre assim: vira livro na fila.

Ah, a foto acima foi feita num Galaxy.

 

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História Econômica para quem precisa

Colonial Institutions, Commodity Booms, and the Diffusion of Elementary Education in Brazil, 1889-1930
Aldo Musacchio, Andre Martinez, and Martina Viarengo
NBER Working Paper No. 20029
April 2014
JEL No. H40,N46
ABSTRACT
We explain how the decentralization of fiscal responsibility among Brazilian states between 1889 and 1930 promoted a unequal expansion in public schooling. We document how the variation in state export tax revenues, product of commodity booms, explains increases in expenditures on education, literacy, and schools per children. Yet we also find that such improvements did not take place in states that either had more slaves before abolition or cultivated cotton during colonial times. Beyond path dependence, ours story emphasizes the interaction between colonial institutions and subsequent fiscal changes to explain radical changes in the ranking of states which persists until today.

 

Enquanto o governo brasileiro luta contra a realidade, nem que tenha que, para isto, queimar a reputação de seus IBGE e IPEA, pesquisadores encontram em países civilizados ambiente para pesquisas…sobre o Brasil.

Preciso dizer que o texto é promissor?