Não somos tão racistas assim

O título acima poderia ser reescrito como: somos, mas não tanto, comparativamente. Digo isto por conta das evidências usadas neste artigo interessante sobre os impactos do racismo sobre o desenvolvimento econômico. Na amostra utilizada – 94 países – o Brasil aparece na 85a colocação.

O artigo é basicamente empírico – o argumento teórico é apenas verbal – e testado econometricamente e envolve história econômica, instituições (logo, colonização). Vale a leitura do texto e, sim, eis a figura que todo mundo gosta de ver.

notsoracist

Política industrial sul-coreana…na prática cinematográfica: os saudosos anos 70

Ou deveríamos falar de política cultural-industrial cepalina-novamatrizeconômico-desenvolvimentista? Sim, isso mesmo. Vejamos um momento da carreira de Shin, o diretor mais famoso da Coréia do Sul nos anos 60 e 70:

(…) o governo o levara aos tribunais, acusando-o de apropriação indébita, fraude e evasão fiscal por afirmar falsamente que seu último lançamento, ‘Monkey Goes West’ (…) fora uma uma coprodução com o estúdio Shaw Brothers, de Hong Kong (…). [Vou simplificar minha citação: http://www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=29140, p.104]

Por que Shin faria isto?

Precisando de uma coprodução para atender às cotas de importação do governo, Shin comprara uma cópia de Run Run Shaw, introduzira algumas cenas com um de seus atores coreanos e seus próprios créditos e dublara os diálogos, lançando o filme como seu. Foi considerado culpado e multado em 210 milhões de wons (775 mil dólares), mas, surpreendentemente, recebeu permissão para lançar o filme. [mesmo livro, mesma página]

Ah sim, eu mencionei que ele era muito próximo ao presidente Park? Substituição de importações, relações perigosas entre um diretor de cinema e o governo. Mas por que pararmos neste exemplo? A página 104 do ótimo livro tem mais um exemplo.

Muitos cineastas coreanos eram improvisadores criativos quando se tratava de encontrar maneiras de contornar as regras, mas Shin era o mais sagaz de todos. Quando a lei proibiu as companhias de produzirem mais de cinco filmes, ele discretamente reorganizou a Shin Filmes no que, tecnicamente, eram quatro companhias menores, consequentemente sendo capaz de produzir vinte. [idem]

Sensacional, não?

Alocação ineficiente: o cálculo socialista vai ao cinema norte-coreano

Vejam só esta pérola, depoimento do desertor duplo (desertou para a Coréia do Norte e, nos anos 2000, resolveu desertar de volta para o Ocidente), Charles Jenkins.

“Eles não usavam nenhum bom senso ao planejar as filmagens. Por exemplo, frequentemente filmavam as cenas na ordem em que surgiam no roteiro, em vez de usar uma maneira mais eficiente. Se, digamos, houvesse uma cena no escritório de Claus, outra em meu escritório e uma terceira novamente no escritório de Claus, eles filmavam nessa ordem, desmanchando o escritório de Claus e depois montando tudo de novo após filmar minha cena, em vez de filmar as duas cenas no escritório de Claus e depois a cena em meu escritório […]. (…) Suspeito que parte da razão para filmarem dessa maneira era o fato de em geral a história ser escrita enquanto era filmada, às vezes no mesmo dia”. [Fischer, Paul, Uma produção de Kim Jong-il, Record, 2016, p.94]

Impressionante, não?

Três artigos que fiquei com vontade de ler

Um sobre economia do crime, outro sobre história econômica da China e um sobre as contribuições de James Buchanan à economia monetária. Este pessoal da George Mason University é bom mesmo.

Capital humano, migração, história econômica do Brasil e algoritmos confusos (fuzzy): isso sim, é ser plural!

ancestors_monasterioLeonardo Monasterio tem um artigo novo – um texto para discussão, na verdade – o qual tive o privilégio de ler antes da sua publicação.

O que eu gosto no texto? Primeiro, a originalidade no uso do método em uma pergunta tipicamente de História Econômica. Segundo, o texto está do tamanho certo: nem grande demais, nem pequeno demais. Terceiro, o uso do R. Quarto, o zelo na hora de fazer inferências mais sofisticadas (a parte final do texto).

O que eu não gosto no texto? Faltaram umas 30 páginas. 🙂

De certa forma, o artigo mostra que há alguma evidência de que as condições iniciais importam, um tema comum a alguns estudos do desenvolvimento econômico (o famoso PIB inicial nas regressões…) e também aos que seguem insights teóricos da Nova Economia Institucional (o tal path dependence).

Custo de oportunidade é importante? – o exemplo da Companhia Fiação e Tecidos Pelotense

Como o leitor sabe, a resposta à pergunta acima é: sim, é claro que é importante! Mas vamos ao esclarecedor trecho.

Os navios que levavam o charque de Pelotas para o Nordeste do País retornavam vazios, tornando os custos proibitivos, pois aos índices normais somava-se o ‘frete morto’, ou valor dos porões não ocupados.
Decidiu-se, então, que o problema estaria resolvido com a instalação de uma fiação e tecelagem de algodão em Pelotas, voltando os navios que levassem o charque ao Nordeste, carregados de algodão.
Assim, nasceu a Companhia Fiação e Tecidos Pelotense. Nasceu de um fato econômico. De uma solução econômica’. [Companhia Fiação e Tecidos Pelotense. In: Pelotas Memória, especial 1992, p.15]

Preciso explicar mais? A oportunidade perdida era o porão “não ocupado”. Repare na importância do custo implícito, aquele que nem sempre as pessoas percebem, já que subjetivo. Para você, pode ser que o porão vazio pudesse ser preenchido com um carregamento de linguiças. Para mim, talvez por um carregamento de cervejas. Mas para o ator importante desta história, valia a pena trazer algodão e abrir uma grande tecelagem.

Exemplo legal, heim?

O quinto é sempre o quinto: quanto perderia Portugal sem o império?

Excelente notícia (já não tão nova) é o trabalho a seguir, com uma estatística importante para estudiosos de história econômica. O título? The Great Escape? The Contribution of the Empire to Portugal’s Economic Growth, 1500-1800, de Leonor Freire Costa, Nuno Palma e Jaime Reis. Eis o resumo (as citações vão sem numerações de páginas porque o documento não as tem).

Newly assembled macroeconomic statistics for early modern Portugal reveal one of Europe’s most vigorous colonial traders and at the same time one of its least successful growth records. Using an estimated model in the spirit of Allen (2009) we conclude that intercontinental trade had a substantial and increasingly positive impact on economic growth. In the heyday of colonial expansion, eliminating the economic links to empire would have reduced Portugal’s per capita income by roughly a fifth. While the empire helped the domestic economy it was not sufficient to annul the tendency towards decline in relation to Europe’s advanced core which set in from the 17th century onwards. We conclude that the explanation for Portugal’s long-term backwardness must be sought primarily in domestic conditions.

Ironicamente, a perda seria de 20% (ou seja, um quinto).

Como dizem os autores, a pergunta geralmente feita é: quão importante foram as colônias para Portugal? Páginas e páginas já foram escritas sobre isto, mas poucos tiveram: (a) acesso a dados que lhes permitissem responder esta pergunta, (b) vontade de procurar dados e fugir da verborragia infértil, mas sedutora, (c) conhecimento de teoria econômica e métodos quantitativos adequados para responder ao questionamento.

Colônias eram importantes? Os autores, como não poderia deixar de ser, dizem que sim e explicam os motivos.

Colonies were beneficial to the home country in many ways. They allowed the mobilization of unused natural resources situated overseas, thereby creating some slack in Europe’s Malthusian constraint. They helped to reallocate underutilised domestic resources to the same destination and thus enhanced their productivity. They created new markets to serve as outlets for domestic production and as a result promoted scale economies and the division of labour. Thanks to the use of political and military might, imperial powers were also able to earn rents by distorting price mechanisms in the markets strung out along the chains of supply which connected them to their ultramarine possessions.

Para medir o desempenho, algum critério deveria ser adotado.

To encompass this diversity within a simple metric is no easy matter. One solution is to calculate separately the gains and losses from the many relevant types of activity, and then weight and aggregate those using appropriate prices. The alternative is to employ as a proxy a value index of each country’s total transoceanic trade and deflate it with a suitable set of commodity prices.

Sobre as conclusões, um desafio a algumas interpretações anteriores:

We conclude that in the long run Portugal’s empire demonstrated a considerable degree of dynamism and contributed positively to the economic fortunes of the mother country. This goes against the common belief in a “long-term stagnation of the [Iberian] colonial economies” (Coatsworth 2005, 237). Our paper also diverges from the approach of the proponents of “modern world-systems” (Wallerstein 1980) in that we show semi-peripheral Portugal was able to gain as much or more from its empire in relative terms as the leaders of the Early Modern core. At the same time, Portugal’s imperial strength did not translate into economic convergence to its colonial archrivals, which were also the richer economies of the day: England and the Netherlands.

Muito legal, não é?

Teorema de Alchian-Allen na Pernambuco colonial: o caso dos escravos exportados

O Leo Monasterio é quem vai gostar deste trecho, do Colonização e Monopólio no Nordeste Brasileiro, de José Ribeiro Júnior (Hucitec, 2004):

Em 1766 a junta tomara a resolução de enviar para a Capital da colônia alguns escravos ‘dos milhores’ para lhes dar saída por melhor preço e a fim de evitar a despesa que se fazia no Recife ‘aonde tem decahido muito do seu valor’. O fato de deixar o pior escravo para Pernambuco provocaria a observação do governador José César de Menezes, dizendo que era preciso adquirir 10 escravos ruins para fazer o serviço de 8, tornando mais caro o custo de mão-de-obra na capitania servida pela sociedade mercantil, detentora do privilégio. [Ribeiro Jr (2004), p.129]

Não é que o monopolista – no caso, a Companhia de Comércio de Pernambuco e Paraíba – segue a lógica que foi exposta no famoso Teorema de Alchian-Allen?

Nunca ouviu falar do teorema? Alguns o chamam de Terceira Lei de Demanda. O Leo Monasterio explica aqui (incluindo o famoso vídeo do falecido Olavo Rocha). Eu também já tentei explicar o Teorema em outras ocasiões (como esta, inclusive, pensando em um exemplo hipotético sobre a escravidão).

Ironicamente, neste caso, aqueles que pensam em conspirações (a motivação básica de Alchian e de Allen era mostrar que devemos pensar na lógica econômica ao invés de apelarmos para explicações muito fantasiosas como conspirações…) podem se ver em uma situação em que o monopolista – geralmente criticado como um agente conspirador em onze de cada dez romances, não necessariamente sem base empírica… – também respeita a lógica econômica do teorema.

O Marquês de Pombal explica o conceito de custo de oportunidade

Segundo narrativa citada em Ribeiro Jr (2004):

(…) se à sua sala concorrião Fidalgos e Negociantes para lhe falar em negócios, attendia primeiro a estes, dizendo, que o tempo lhes era muito precioso, e que geralmente fallando, vinhão trazer entretanto que aquelles vinhão commumente buscar, e tinhão pouco em que empregar o seu tempo. [Ribeiro Jr. Colonização e Monopólio no Nordeste Brasileiro, Hucitec, 2004, 2a ed., p.52, citando, obviamente, outro autor mais antigo]

Percebeu? Entre atender aos nobres (Fidalgos) e os homens de negócios, Pombal – que também tinha um custo de oportunidade com seu tempo – atendia primeiro aqueles que lhe tomavam menos tempo que eram, aliás, os que tinham o custo de oportunidade do uso do tempo mais elevado (relativamente aos nobres).

Sim, eu sei muito bem que o tempo tem uma utilidade e minimizo meus custos!

Moxlad em novo endereço…e com bases de dados ampliadas!

Lembram da Moxlad? Pois é. Vou ter que atualizar os links laterais. Mudaram de endereço mas a boa notícia é que expandiram a base. Agora é de 1870 a 2010. Sabem quem vai gostar disto? O Leo Monasterio (que, se bobear, já deu a notícia antes de mim).

moxlad

“Trade-offs” em pesquisas econômicas: o caso do consumo de alimentos na ex-URSS

Eu sei: você achou que eu iria falar do R em comparação com o Stata. Ou achou que eu repetiria o que digo de vez em quando em sala sobre pesquisas com dados macroeconômicos comparados com estudos de séries de tempo mais longas para um único país. Ou, quem sabe, pensou que eu iria falar sobre a estimação de um vetor de cointegração pela metodologia de Johansen ou pelas alternativas existentes.

Na verdade, hoje, eu me inspirei para falar de outro trade-off, por conta de um link enviado pelo Matizes Escondidos. Trata-se deste, sobre o puzzle do consumo de alimentos na (ex-)URSS. O trade-off, neste caso, é entre você sair correndo para estimar alguma coisa com a base de dados que acabou de descobrir ou se pesquisa um pouco sobre os dados antes de correr para o computador.

O trabalho do autor do post para ter algum grau de certeza sobre a veracidade dos dados de consumo de alimentos na ex-URSS ocupa um bocado de tempo de leitura (sim, vale a pena ler com calma, mas você vai levar um bom tempo, já aviso…) e você poderia dizer para mim que basta deixar uma “nota de rodapé” que está tudo bem. Bom, isso depende do que você pretende fazer.

Digamos que eu queira fazer um post sobre o uso do R (faz tempo que não faço um, né?). Neste caso, eu concordo que seria suficiente, mas gostaria de um rodapé bem claro sobre o limite dos dados e, claro, o leitor faz o resto.

Agora, digamos que eu queira ser conhecido como um pesquisador cuidadoso sobre alimentos na ex-URSS e, ao mesmo tempo, fazer o exemplo do R. Neste caso, acho que demoraria bem mais para publicar algo e teria que ser em partes, um pouco como o autor do inspirador post tem feito no blog dele.

Claro, você poderia imaginar outros casos e o meu ponto é que você sempre seja o mais correto (honesto) possível ao descrever seus dados, deixando claro o alcance e limitação dos mesmos. Sempre que possível, é bom não deixar o leitor no escuro (embora isso também dependa do limite de espaço que um editor te dá em um artigo científico publicado, mas é bem menos complicado quando se faz um texto para um blog pessoal).

Este é um trade-off bem em comum quando se trabalha com história econômica. Claro, eu gosto de cliometria e acho que esta é uma das áreas mais interessantes para se trabalhar. Ela envolve um esforço para se conseguir dados (é, dá preguiça, não está tudo pronto em algum site, na maioria das vezes…), você tem que entender o contexto histórico e adaptar a teoria econômica para estudar o problema (o que exige um pouco de exercício mental para saber como não fazer isto de forma a colocar tudo a perder…) e ainda tem algum tipo de teste de hipótese a ser feito.

Não é trivial fazer um artigo nesta área que seja pouco trabalhoso e é por isso que muita gente desiste e parte para um estudo de história menos rigoroso e até mais perigoso, baseado apenas na retórica e não nos dados.

Enfim, apenas algumas reflexões de quem está com problemas para dormir bem, mas não por falta de nutrientes…

Ciclos reais e instituições: no diagnóstico das boas mentes desde, pelo menos, o século XIX

A locomotiva e o telégrafo são choques tecnológicos, ninguém duvida disto. Eles facilitam a transmissão de informações? Claro e as pessoas sempre perceberam isto (e não é à toa que os economistas incorporaram estes insights em seus modelos teóricos desde há tempos…), como se percebe neste entusiasmado artigo liberal na São Paulo do século XIX.

saopaulo_liberal

Claro, existe também a questão institucional. Nem tudo é choque tecnológico, certo? Pois é. Novamente, o que economistas fizeram foi trazer este insight para dentro dos modelos. Ainda que não definidas explicitamente no trecho a seguir, creio que qualquer leitor moderno de Douglass North e da tradição criada por ele concordará que o redator do trecho abaixo tinha a mesma percepção…saopaulo_liberal2

Interessante como muitas vezes somos acusados de trazer conceitos “estranhos” à realidade para nossos modelos teóricos quando, na verdade, só fazemos observar o mundo à nossa volta e tentar entendê-lo de forma cientificamente organizada. Um pouco disto é culpa nossa, por não nos expressarmos tão bem, mas um pouco também é culpa de leitores que, a despeito de seus telhados de cristal, atiram pedras na vidraça dos economistas (e, como bem diria Bastiat, desperdiçam tempo precioso fazendo isto…).

Anti-Semitismo no Sacro Império Romano: história econômica

Como sempre, não posso deixar de divulgar pesquisas com temas interessantes. Eis aqui uma que me deixou intrigado. Veja só que resumo legal:

Plague, Politics, and Pogroms: The Black Death, Rule of Law, and the Persecution of Jews in the Holy Roman Empire

Theresa S Finley

Mark Koyama

Abstract:     

This paper explores the institutional determinants of persecution by studying the intensity of the Black Death pogroms in the Holy Roman Empire. Political fragmentation exacerbated rent-seeking in the Holy Roman Empire. We argue that this fragmentation led to Jewish communities facing more intense persecutions during the Black Death. We test this argument using data on the intensity of pogroms, historical trade routes, ecclesiastical and political boundaries. In line with our model, we find that communities close to Archbishoprics, Bishoprics, and Imperial Free cities experienced more intense and violent persecutions than did those governed by the emperor. We discuss the implications this has for the enforcement of the rule of law in weak states.

Bateu aquela inveja deste pessoal que coleta dados interessantes, não bateu?

Napoleão é um bom instrumento?

Eis um artigo interessante para quem deseja entender o básico de variáveis instrumentais. O autor usa a pressão napoleônica como instrumento para o desempenho dos alunos. Como assim? Vejamos a explicação, em primeiro lugar.

The theory of Ramirez and Boli (1987) can best be described by a quote from their paper: “Our view is that European states became engaged in authorizing, funding, and managing mass schooling as a part of the endeavour to construct a unified national policy.” […] “External challenges […] were important stimuli to state action in education […]” (Ramirez and Boli, 1987, p. 3). Napoleon can be seen as one of the most pronounced external challenges of this era. Ramirez and Boli (1987) illustrate their theory by describing this process in seven European regions: Prussia, Denmark, Austria, Sweden, Italy, France, and England. Sweden, France, and England experienced a general call from within for mandatory, universal and free education later than other countries. [p.4]

Dito isto, o autor estima:

napoleonic_wars

Para o desempenho, usa-se o teste PISA e, para o tracking:

Two aspects of tracking in education systems are used: the number of tracks available to 15- year-old pupils and the age of first selection. These measures are obtained from OECD (2007, table 5.2) and adjusted for the German states using Woessmann (2007) and Kultusminister Konferenz (2013) and for French and Flemish Belgium using Eurydice (2013).

A discussão que se segue sobre as limitações e a robustez do modelo valem a leitura. Divirta-se.

O capital humano das reduções jesuíticas

(…) a primeira prensa entrou no Brasil apenas em 1808, em um tempo em que até os índios das reduções jesuíticas espanholas tinham as suas; foi trazida a um lugar em que não havia faculdades – quando as primeiras universidades dos Estados Unidos datavam do início do século XVII. [Caldeira, Jorge. Nem céu nem inferno. Editora Três Estrelas, 2015, p.233]

Sim, as reduções jesuíticas espanholas já avançavam em capital humano. Entretanto, talvez seja difícil dizer que as reduções alcançaram um desenvolvimento superior às colônias portuguesas e, portanto, teríamos aqui uma pista de que, sim, instituições são importantes. Ou será que não?

Contudo, concedo ao leitor o benefício da dúvida já que não fiz mais que citar um insight de um autor. Vejamos, então, o que diz a história, quando analisada adequadamente, ou seja, com um estudo estatístico sério dos dados. Sim, isso mesmo, um economista já trabalhou sobre o tema. Veja o resumo a seguir (e a página do autor vale a atenção):

This article examines the long-term consequences of a historical human capital intervention. The Jesuit order founded religious missions amongst the Guarani, in modern-day Argentina, Brazil, and Paraguay. Missionaries instructed indigenous inhabitants in reading, writing and various crafts, before their expulsion in 1767. Using archival records and municipal census data, I demonstrate that educational attainment was and remains higher after 250 years in areas of former Jesuit presence. These differences also translate into 10% higher incomes. The effect of Jesuit missions emerges clearly after comparing them with abandoned Jesuit missions, Franciscan Guarani Missions and using an Instrumental Variables strategy. In addition, I collect survey data and conduct behavioral experiments, finding that respondents in missionary areas exhibit higher non-cognitive abilities and collaborative behavior. Such enduring differences are consistent with transmission mechanisms of occupational persistence, inter-generational knowledge transmission and indigenous assimilation. Robustness checks suggest that the results are not driven by migration, urbanization and tourism.

História econômica é um campo muito interessante, não? Os resultados do autor, aparentemente, corroboram o insight de Caldeira. O que o seu professor de história do colégio lhe contou eu não sei, mas o que as pesquisas mostram, isto sim, eu sei.

Herança portuguesa?

Como poder independente, o Parlamento é, em primeiro lugar, muito mais antigo do que o Executivo: funciona com regularidade no país desde 1826. (…) Então, para o Brasil, é uma experiência única, que com certeza não é herança portuguesa; basta examinar a história de Portugal para se constatar que o Parlamento do país funciona para valer depois da Revolução dos Cravos, no século XX. [Caldeira, J. Nem céu nem inferno, Ed. Três Estrelas, 2015, 199-200]

Caso Caldeira esteja correto no que diz neste trecho, então temos que ter muito cuidado antes de cair na conversa fácil de que o que está errado aqui é culpa de Portugal, ou do Reino Unido, ou dos EUA. Citei um trecho, mas Caldeira surra este ponto várias vezes ao longo do livro.

Acho interessante porque me lembro do argumento de Brender e Drazen em um artigo muito bom, no qual eles conciliam duas hipóteses sobre o comportamento do eleitor, por meio de um raciocínio engenhoso. Mais ou menos, a coisa é assim: existem duas hipóteses importantes sobre o comportamento dos eleitores: ou são racionalmente ignorantes (são facilmente enganados e, assim, políticos geram ciclos político-econômicos desviando-se dos desejos dos eleitores nos níveis das variáveis-meta das políticas fiscais ou monetárias) ou racionais (os eleitores não são bobos e punem os políticos que se desviam, etc, etc).

caldeiraOs autores, então, mostram que, ao separar a amostra de países em “novas” e “velhas” democracias, obtém-se que: nas “velhas” democracias, o comportamento dos eleitores corrobora a hipótese do eleitor racional e, nas “novas democracias”, a hipótese corroborada é a de ignorância racional. Assim, conclui-se que é a prática política que diminui o viés de ignorância dos eleitores. Ou seja, mais democracia tenderia a gerar cidadãos mais e mais vigilantes quanto aos comportamentos dos políticos.

Eu gosto deste artigo e acho a argumentação bacana mas o problema está nesta definição de “nova” e “velha” democracia que não é independente da disponibilidade de dados. Em outras palavras, a extensão do período de tempo analisado pode alterar o que os autores chamam de “nova” ou “velha” democracia.

Por um lado, não é um problema porque a definição dos autores é basicamente funcional: não há uma ambição exagerada de criar uma nova taxonomia de regimes políticos. Mas fico com aquela sensação de que se o modelo do artigo para períodos mais recuados no tempo (pode ser que existam dados, mas não afirmo de maneira inequívoca…), talvez o Brasil se saísse até melhor.

Quando eu e o Leo fizemos um teste da hipótese de Olson sobre grupos de interesse e rent-seeking, tivemos que lidar com um período de tempo que incluía, ao mesmo tempo, democracia e ditadura. Não sei se nossa solução foi a melhor possível, mas foi a melhor que conseguimos fazer na época. De qualquer forma, uso meu artigo como exemplo apenas para chamar a atenção para possíveis interessados em incursar neste campo interessante de estudos de Economia Política (no sentido moderno do termo).

p.s. Sobre a história de Portugal eu pesquisei há algum tempo e meu conhecimento gira em torno disto.

Consumo de água na Pelotas do início do século XX e os incentivos econômicos

Graças à indicação do Leo Monasterio, fui a um sebo cujo dono não é um amador em história(s) – e ele tem um blog –  e adquiri o fascículo terceiro de “Pelotas Memória”, publicado em 1989. O motivo de comprar exatamente este fascículo foi o que encontrei em sua página dezenove: um pequeno resumo de como a prefeitura cobrava pela água em 1913. Vamos à mesma:

“ÁGUA – O fornecimento d’água é feito do seguinte modo, sendo responsáveis pelo pagamento os proprietários dos prédios:
Pena de 500 litros diários 5$000, por mês.
Hidrômetros, à razão de 3 litros por um real.
Serão concedidos os seguintes abatimentos para os consumos mensais de:

100.000 a 500.000 litros………5%
500.000 a 1.000.000 litros….10%

O fornecimento d’água é cobrado adiantadamente, por trimestre.” [Magalhães, N.N. “Pelotas Memória”, fascículo III, 1989, p.19]

Curiosamente, o abatimento era maior para quem consumia mais água e, ao contrário do que se faz hoje, a cobrança se dava no início do trimestre. Há também a multa (pena). Como será que podemos explicar estas características da regulação acima?

Um pouco de Economia…

Primeiramente, por que cobrar no início do trimestre? Imagino que a inflação praticamente desprezível (o efeito Olivera-Tanzi era praticamente zero) possibilitava a cobrança não apenas trimestral, mas também no início do mês. Quem leu aquele pequeno “30 Anos de Indexação”, do falecido M.H. Simonsen, provavelmente vai se lembrar da relação entre inflação e indexação, que se tornou mais forte bem depois do período em questão (1913).

Quanto à “pena”, recorro a outra fonte, Silveira [Silveira, Alice M. “De fontes e aguadeiros à penas d’água: reflexões sobre o sistema de abastecimento de água e as transformações da arquitetura residencial do final do século XIX em Pelotas – RS”, Tese de Doutorado, FAU/USP, 2009]:

As reclamações da companhia quanto a esta situação referiam-se ao fato de que os usuários permitiam que outras pessoas se abastecessem de água nas suas penas, sem pagar as taxas de adesão ao serviço da empresa. [Silveira (2009) : 207]

Em outras palavras, a água ainda não era tão rival e excludente assim, para que seu consumo pudesse ser racionado de forma precisa pelo sistema de preços (a existência de “gatos” era comum no caso da água, tal qual o é no fornecimento de TV por assinatura hoje em dia…). É interessante pensar em como era a “entrega” da mercadoria “água” ao consumidor final no início do século XX, não?

Quanto aos descontos por volume, acho curioso porque a empresa privada que fornecia a água – e que tinha problemas com os “gatos” – foi municipalizada em 1908. Neste ponto específico, não sei qual seria a motivação para fornecer descontos maiores para consumos maiores. Eu imaginaria que o poder público iria, ao menos no discurso, dizer que iria se esforçar para diminuir o desperdício de água. Algumas hipóteses me passam pela cabeça, mas prefiro deixar esta questão para a sugestão dos leitores.

Ah sim, pensando na Teoria do Consumidor, eis um exercício simples: mostre, graficamente, qual é a restrição orçamentária de um consumidor levando em conta o sistema de descontos citado acima. Este, contudo, fica para o leitor que está estudando microeconomia.

O meu exemplar chegou…

20151113_172259Auto-propaganda deslavada? Sim. Como o Leo já divulgou, eu finalmente recebi o novo livro do William Summerhill e, sim, também me sinto mais um carona neste time de craques (que inclui o Leo, obviamente) citados nos agradecimentos.

O prof. Summerhill tem sido um grande estímulo à minha insistência em acreditar que é possível fazer História Econômica de uma forma séria, cientificamente correta e, claro, com temas interessantes.

Aí está a capa do livro (eu diria que está até bem mais atual e que poderíamos trocar os cafeicultores por alguns capitalistas que se comportam mais como crony capitalists do que como empreendedores).

É, vou começar a leitura do livro em breve e, sim, eu acho que sua faculdade deveria comprar ao menos um exemplar. Já passou da hora de tratarmos a História Econômica com o carinho que ela merece.
20151113_172319

Os efeitos de longo prazo da escravidão…na Georgia, USA

Contrafactuais, experimentos aleatórios, enfim, termos que assustam os estudiosos da História Econômica. Certamente dá muito trabalho não só pensar nisto, como imaginar formas de se fazer um bom estudo, ainda mais quando o tema é escravidão.

Eu diria que um exemplo de boa tentativa é este artigo.

Slavery, Path Dependence, and Development: Evidence from the Georgia Experiment

Tyler Beck Goodspeed
Abstract –  From 1735 to 1751, the Board of Trustees of the Province of Georgia imposed the only ban on slavery among the North American colonies. Exploiting the historical boundary between the 88 counties of Trustee Georgia and the 71 counties that were appended to the colony after 1751, I analyze the effects of this initial institutional difference on subsequent differences in slave dependence, land inequality, income, and poverty. I find that counties that had been covered by the initial Trustee ban subsequently had lower slave population density, fewer farms holding more than 10 slaves, and higher income and lower poverty rates today. I further find that while counties affected by the ban did not have significant differences in pre-Civil War land inequality, productivity, industrial development, or educational investment, their economic output was significantly more diversified and less reliant upon the production of cash crops. Finally, I demonstrate that controlling for pre-war output diversification significantly reduces the estimated relationship between Trusteeship and current income. Results therefore suggest that the effects of initial differences in labor institutions can persist even where those differences are not determined by geography, and that a primary channel of persistence is the path-dependence of early economic specialization.

Legal, heim?

Comércio de escravos, preços de noivas, etc.

Pode o comércio de escravos gerar efeitos de longo prazo negativos na África? Pode. Antes que você saia por aí usando este resultado para avançar sua agenda política, repare que colocar preços em noivas (pagamentos de dotes à família da noiva) também pode ter efeitos de longo prazo positivos sobre a educação destas.

Em poucas palavras, antes de sair por aí trombeteando sua corneta ideológica, estude econometria e pense bem no que está fazendo porque a pesquisa não é nunca um caminho monótono. Resultados contraintuitivos podem surgir e você tem que pensar neles com calma. Ou você também achava que a venda de esposas na Inglaterra pré-Revolução Industrial era algo que prejudicava as mulheres envolvidas?

E a escravidão, heim?

Este ótimo texto da profa Bertocchi tem um resumo que é útil para responder minha descontraída pergunta:

Within a county-level analysis of the state of São Paulo, the largest in the country, Summerhill (2010) finds that the intensity of slavery has a negligible effect on income in 2000. Moreover, a measure of agricultural inequality for 1905 exerts no negative influence on long-term development. He therefore concludes that neither slavery nor historical inequality have a discernable economic effect in the long run. However, a negative influence of past slavery emerges in other studies that concentrate on human capital formation. Across Brazilian federal units, Wegenast (2010) uncovers a negative correlation between past land inequality, which was strongly correlated with the presence of crops suitable for the use of slave labor and thus with slavery, and quantitative and qualitative measures of contemporary education, such as secondary school attendance in 2000 and school quality in 2005. In the latifundia system based on slave labor, landlords historically had no incentive to develop mass educational institutions, and this attitude persisted even after abolition in 1888, with consequences still visible today.

Pois é. Evidências mistas, né? No mínimo, para começarmos a discussão, é preciso estudar um pouco os dados e sair do mundo fácil e (potencialmente) enganador das correlações parciais. Mais adiante, no mesmo texto, a autora afirma (e eu concordo):

These mixed results may be due to the confounding influence of other interacting factors common to the South-Central America experience, such as the generally slow expansion of mass education – irrespectively of race – on the one hand (see Mariscal and Sokoloff, 2000) and a culture of assimilation favoring integration and racial mixing on the other.

Sei que tem gente que não gosta disto, acha que só há um tipo de escravidão e que tudo é igual aqui ou nos EUA, mas, infelizmente – para esta galera – a realidade é muito mais rica no que a análise das evidências nos mostra.

Uma característica bacana do texto é o uso simples e despretencioso de regressões simples, estimadas pelo MQO (o famoso OLS, em inglês). Há quem não entenda que mesmo regressões simples podem ser extremamente úteis desde que corretamente adequadas à argumentação do autor. A profa Bertocchi faz isto muito bem. Recomendo a leitura do texto, mesmo sendo apenas um texto para discussão.

escravoobediente

Instituições…mais um livro promissor!

Sugestão do Ronald que acabou fazendo com que eu comprasse mais um livro.

livronovo_greif

Só o índice já me deixou curioso. O capítulo do Greif parece promissor pelo tema: o que faz com que instituições pró-trocas (eu diria: não-emporiofóbicas) surjam e prevaleçam? Afinal, muita gente gosta de mostrar correlações com, digamos, “liberdade econômica” e alguma medida de riqueza e dizer que aquilo significa algo. Será? Eu bem que simpatizo com a idéia de que a correlação – positiva, no caso – faz sentido. Mas não se aprende mais sobre a relação apenas com panfletagem.

Bom, o capítulo do Greif promete. Infelizmente, eu é que estou um pouco indisposto hoje e não estou lá muito rápido no gatilho. Caso contrário, o capítulo já estaria estudado porque vontade de ler o livro não falta.