Mais individualismo, menos risco país.

Evidências de que Hayek vence a ideologia que suporta Chavez-Maduro e e afins.
 
Anúncios

Concorrência de moedas hayekiana funciona?

hayekdefeated

Acho que o melhor resumo do argumento teórico desfavorável ao otimismo hayekiano nunca foi tão bem resumido como por Hadba (1994). É, basicamente, o argumento de Milton Friedman.

Pode-se achar interessante o trabalho de Hayek sobre uma possível estrutura de mercado na qual há concorrência entre moedas (eu mesmo sempre destaquei a importância de se ler o pequeno livro dele).

Mas é fato que a lógica econômica não é tão favorável assim ao argumento hayekiano. Obviamente, qualquer crítica séria ao argumento acima precisa enfrentar a lógica simples pois: (a) não há como negar que a racionalidade econômica opere (Rmg = Cmg), (b) também não vejo a tecnologia mudando o fato de que o Cmg é praticamente zero na emissão de uma nota adicional. Logo, não há como escapar de (c). Caso haja, gostaria de ver o argumento.

Por falar nisto, como anda o tal bitcoin? Não vejo mais notícias sobre esta moeda como via antes o que, de certa forma, é supreendente para mim, já que estamos com uma inflação que, no mínimo, incentivaria seu maior uso (não vou dizer ceteris paribus a regulação do Banco Central porque sabemos que o pessoal sempre dá um jeito de burlar leis que vão contra as trocas voluntárias).

Buchanan sobre Hayek

The “Hayeks” of the world are scarce; but with appropriate incentives there are many who can, and will, make significant contributions to the free society that we all must seek.

É, eu queria muito ter esta estatura intelectual (tanto do Buchanan, quanto do Hayek) mas, claro, aí eu seria um forte candidato ao Nobel. ^_^

Hayek e a economia chinesa

Eis um texto para discussão interessante. Ah sim, também acho legal pensar nos problemas de variáveis omitidas, instrumentos, etc. Mas, por enquanto, fique com o título e resumo do texto.

Hayek, Local Information, and the Decentralization of State-Owned Enterprises in China

Zhangkai Huang,Lixing Li, Guangrong Ma & Lixin Colin Xu
World Bank Policy Research Working Paper No. 7321
Abstract:
Hayek argues that local knowledge is a key for understanding whether production should be decentralized. This paper tests Hayek’s predictions by examining the causes of the Chinese government’s decision to decentralize state-owned enterprises. Since the government located closer to a state-owned enterprise has more information over that enterprise, a greater distance between the government and the enterprise should lead to a higher likelihood of decentralization. Moreover, where communication costs and the government’s uncertainty over an enterprise’s performance are greater, the government is more likely to decentralize enterprises so that it can better utilize local information. This paper finds empirical support for these implications.

Muito legal, não? Descentralização…instituições…ah…tem muita coisa legal aí.

Qual é o sentido da vida? Onde ele está?

Uma das respostas mais sensacionais para uma criança de quase 7 anos. O truque, aqui, é lembrar que esta criança de 7 anos pode ser você.

De certa forma, o físico não distoa da mensagem do grupo humorístico Monthy Phyton em seu clássico “The Meaning of Life” ou em outros filmes. Repare que há uma certa sabedoria perene, universal, que nos diz que o sentido da vida é, primeiramente, individual, gerado com liberdade (ou seja, sua “qualidade” pode variar conforme o grau de liberdade que você tem), podendo, claro, ser monitorado por adultos responsáveis (pais e mães que não são permissivos e nem idolatram os fihos, mas também não os sufocam).

Valores assim, acredito, são a base de sociedades prósperas. Repare que o grande desafio é fazer com que estes valores surjam e se mantenham em torno de um tecido social estável e, ao mesmo tempo, dinâmico. Soa familiar para quem já estudou um pouco de Hayek (e a famosa “ordem espontânea”), não?

Pois é. Esta é uma daquelas grandes questões que me fazem pensar, novamente, no conceito de emporiofobia, termo cunhado pelo prof. Paul Rubin em uma conferência na Southern Economic Association, há algum tempo (por que? Leia o texto lá para ter seus próprios insights).

São momentos como este que me fazem pensar na importância da pesquisa acadêmica em relação ao ensino de sala de aula. Ambas são tarefas nobres mas, honestamente, qual delas te motiva mais: a exposição da teoria em sala ou a possibilidade de se sentar com o professor e discutir como testar, criar ou pensar no problema de forma cientificamente organizada?

Repare bem: sou um defensor de ambas as atividades e vejo-as como complementares. Sua exploração, quando criança, do mundo, como diz o prof. Tyson, vai te ajudar a pensar o mundo lá na frente. Mas isso precisa ser feito sob alguma disciplina. Um sábio fonoaudiólogo, há alguns anos, ensinou-me que a espontaneidade surge da disciplina e isto não é tão paradoxal. Afinal, você pensará melhor cientificamente após aprender o método científico, o que exige, sim, disciplina.

A arte está em saber combinar estas coisas de forma a maximizar seu bem-estar a cada instante. Certamente não é fácil, mas é por isso que alguns cientistas – e aí posso falar dos economistas – como Hayek, North e tantos outros devem ser lidos: eles pensaram nestes problemas e em como resolvê-los. Como seres humanos imperfeitos (quem não o é?), não chegaram à pedra filosofal, mas abriram novos caminhos.

Quem quiser explorá-los, é bem-vindo.

p.s. Este seria um bom texto para um discurso de abertura de um grupo de estudos, heim?

Cultura e o Saci-Pererê: seja criativo e pare com a xenofobia, mané!

O Saci-Pererê não precisa de lei para aparecer, seu estúpido!

Na Wikipedia menos viesada, que é a de língua inglesa, Cultura aparece assim:

The term “culture,” which originally meant the cultivation of the soul or mind, acquires most of its later modern meanings in the writings of the 18th-century German thinkers, who were on various levels developing Rousseau‘s criticism of ″modern liberalism and Enlightenment″. Thus a contrast between “culture” and “civilization” is usually implied in these authors, even when not expressed as such. Two primary meanings of culture emerge from this period: culture as the folk-spirit having a unique identity and culture as cultivation of waywardness or free individuality. The first meaning is predominant in our current use of the term “culture,” although the second still plays a large role in what we think culture should achieve, namely the full “expression” of the unique or “authentic” self.

Pois é. Complicado, não? Eu gosto da dicotomia apontada porque, na verdade, ela nos aponta uma síntese do que realmente é a cultura: algo que emerge da ação não-planejada das pessoas. Vá atrás de nosso folclore, por exemplo, com as obras de Luís da Câmara Cascudo, e você verá o quanto nossa cultura não é geograficamente determinada, mas fruto de uma interação anárquica de “culturas” várias, relativas às várias tribos de índios que tínhamos, os vários africanos e as culturas portuguesas das diversas regiões de Portugal.

Neste blog, muitas vezes, apresentei – e apresento – evidências de que “cultura” seja algo importante no estudo do Desenvolvimento Econômico, sempre ressaltando que: (a) é necessário definir uma variável como esta operacionalmente, o que implica abrir mão de sua complexidade até algum grau, (b) é um conceito dinâmico, não estático.

Os coxinhas intervencionistas querem matar nossa criatividade? Querem. Mas como são habilidosos…

Então, neste sentido, eu vejo com desdém uma manifestação que poderíamos chamar de manifestação coxinha, no sentido que alguns infelizes resolveram dar ao delicioso salgadinho. Estes mesmos infelizes, ocorre, também são, via de regra, fortemente xenófobos com relação a alguns países (ou seja, são hipócritas neste aspecto porque xenofobia vale para todos, não?). A manifestação coxinha atrai também alguns incautos que não compram este discurso, mas, no caso da cultura, sentem-se bem consigo mesmos pela sensação de que estariam “defendendo a cultura nacional”.

Que manifestação é esta? É a guerra cultural – ainda de proporções infantis – contra o halloween. Ora bolas, se as pessoas gostam da festa norte-americana, vamos aproveitar! É bom para a economia, é bom para a família, é bom para a cultura! Os adeptos do nacionalismo tacanho, contudo, protestam: “e o folclore nacional”? Simples, né? Fantasie-se de Saci, Bumba-meu-Boi, Aiocá, Ipupiara, Jurupari, Kilaino, Boitatá, Minhocão. Crie um grupo de Caboclinhos, vá cantar e dançar no estilo Cururu, ou dance a Marrafa. Como? Você não conhece metade do que eu disse? Então pára de xenofobia, meu caro! Muito de nossa cultura desapareceu, modificou-se ou sobreviveu (modificada ou não). Simples assim. Vou repetir: cultura não é um conjunto congelado/fossilizado de figuras que você conheceu quando era criança. Acorda, cara! Estamos no século XXI!

Cultura é mais do que pensam (sic) os coxinhas intervencionistas! Viva a Ordem Espontânea!

O conceito de ordem espontânea de Hayek é, creio, o ideal para se entender meu ponto. Embora muita gente queira que o governo comande suas vidas até no que podem ou não manifestar, culturalmente (olha o tamanho da contradição nesta frase!), o certo é que a cultura é uma manifestação espontânea, leitor(es). Surge e sobrevive conforme os usos e costumes do povo, não de cima para baixo. Trata-se, portanto, de um conjunto de valores, crenças que surge espontaneamente e, se aceita por todos, prevalece, não sem modificações, ao longo do tempo. Como diria meu amigo Burian: “- É a vida”.

O que me enerva nestas queixas é a confissão de que o povo brasileiro, famoso por sua criatividade, sua capacidade de mesclar culturas, hábitos, etc, empobreceu. Vai ver recebeu tanto subsídio do governo e tanta ordem de cima para baixo que perdeu sua vibrante capacidade de criar. Estamos mesmo reduzidos a xenófobos ranzinzas que não podem ver uma influência “estrangeira” que já ficamos incomodados? Justamente este país que não existiria sem japoneses, chineses, libaneses, judeus, portugueses, alemães, italianos, ingleses, norte-americanos, etc? Sério mesmo?

Provavelmente é exagero meu, mas é o que sinto ao ler certas manifestações por aí, na internet.

Ofensa educativa: deixa de ser Papangu!

Quer saber? Deixa de ser Papangu! Parece até que quer ver o Pinto Piroca!! Calma, leitor(a). Pinto Piroca é uma ‘visagem’ amazônica. Como nos explica Cascudo em seu etern(izad)o dicionário do nosso folclore:

Um habitante de Jocojó assim o descreveu: – Ninguém ainda viu o Pinto Piroca, mas de vez em quando a gente ouve o seu pio. Dizem que ele se parece com um pinto gigante com o pescoço pelado, mas ninguém sabe direito. Nossos pais é que contavam assim. A gente repete o que eles diziam. Os velhos sabem melhor que a gente. O Pinto Piroca é tratado como as outras ‘visagens’, o melhor é evitar a sua aproximação, fazer qualquer zoada ou provocação. As crianças aprendem desde cedo a comportar-se diante das ‘visagens’ para não atrair a sua malignidade (…). [Cascudo, L.C. Dicionário do Folclore Brasileiro, 12a ed, 2012, Global Editora, 564]

Pois é, leitor. Cuidado para não confundir nosso Pinto Piroca com a festa da fertilidade japonesa lá de Kawasaki. Estamos falando de outra(s) cultura(s).

Concluindo: seja mais empreendedor e menos passivo. Transforme o halloween – que veio para ficar – em uma festa divertida. Crie novas tradições! Momentos vibrantes na história de um país são aqueles nos quais seu povo trata sua cultura como uma criação constante, que se renova, modifica e que é tudo menos uma tradição ou, como talvez diria Hayek, a única tradição aqui seria a de potencializar ao máximo a quebra das tradições conforme a ação desordenada e criativa das pessoas.

Eis porque sou liberal, a despeito de tudo. Ah sim, viva o Saci-Pererê!

Por que mudanças marginais? – a justificativa conservadora

Meu amigo – e ex-patrão – Afonso, presenteou-me, outro dia, com o As idéias conservadoras de João Pereira Coutinho. Como já li de Karl Marx e Adolf Hitler a Thoreau passando por Anuários do IBGE e Zé Carioca sem preconceito algum, não seria com este livro diferente, né? Há quem me chame de conservador, embora eu ainda afirme que sempre achei minha autocrítica bem ruinzinha.

Voltando ao livro, o Coutinho nos lembra de um ponto que já foi muito bem explicado por Hayek em vários de seus textos: a questão da imperfeição humana. Por que devemos ser cautelosos quanto a projetos de mudanças amplas e ambiciosas? Nossa imperfeição.

Somos imperfeitos, intelectualmente imperfeitos, não porque tenhamos nascido livres e nos encontremos aprisionados em toda parte (a célebre proclamação de Jean-Jacques Rousseau que não é mais do que a corruptela bíblica sobre a queda do homem), mas porque a complexidade dos fenômenos sociais não pode ser abarcada, muito menos radicalmente transformada rumo à perfeição, por matéria tão precária. [Coutinho, J.P., As Ideias Conservadoras explicadas a recolucionários e reacionários, Três Estrelas, 2014, p.34]

É incrível como esta idéia simples ainda não tenha gerado maior cautela por parte de mais gente, independentemente de seu posicionamento no espectro ideológico. A arrogância humana e a má fé dos vendedores de sonhos nunca tiveram muito valor (lei da escassez, claro!), mas minha impaciência com a espécie (supostamente humana) sempre me deixa cansado de tanta lentidão para optarmos por soluções mais, digamos, “pé no chão”.

Seja você um liberal (libertário) ou não, este é um ponto que não deveria ser ignorado em suas análises da realidade. Afinal, somos todos imperfeitos e é por isto que você termina este meu texto achando que ele poderia ter sido escrito de forma mais talentosa. Poderia mesmo.

 

Ciclos econômicos, Keynes, Hayek

Eis um resumo (os artigos do Vox são sempre resumos de pequisas) de um trabalho em que os autores tentam ver aspectos hayekianos e keynesianos em ciclos econômicos, de forma integrada. Aparentemente, os autores encontram evidências de que Hayek e Keynes podem estar, ambos, corretos.

Para entender como isto ocorre, você precisa abandonar o discurso juvenil de que “quem lê Keynes precisa ser exorcizado” ou “não preciso ler Keynes, está tudo claro lá no Ação Humana” ou “se você não leu Keynes, não entendeu nada” e variantes que são difundidas por aí pelo pessoal que não quer incentivar o pensamento, mas sim a adesão a uma causa.

Obviamente, mesmo abrindo mão de seus preconceitos, é preciso manter o espírito cético e crítico, que caracteriza a análise científica – e não adianta sentar e fazer birra dizendo que “Economia não é Ciência” – dos fatos econômicos. Em outras palavras, é preciso ler criticamente o argumento dos autores, considerando tanto problemas de consistência teórica quanto seus aspectos empíricos.

O que restar disto aí, se você avançou, é uma posição nova na qual você não cai mais na conversa açucarada dos doutrinadores, mas também não enxerga a realidade de forma confusa. Encarar a complexidade de frente é um exercício que jamais deve ser esquecido pelo bom pesquisador, por pior que a realidade possa parecer…

Ortodoxia, sim! Por que não? Tem até beijo gay na novela das oito!

Rebuliço e reboliços heterodoxos

Recentemente houve um certo rebuliço (isso mesmo) acerca de um artigo do Paul Krugman publicado, acho, ontem. Alguma coisa sobre choro heterodoxo. Ok, o povo adora discutir Paul Krugman porque, primeiro, dá ibope para o blog, segundo, porque pode ser que ele tenha algo a dizer que seja útil, ao invés de suas críticas ao Partido Republicano, sempre sujeitas a erros crassos.

Mas eu prefiro não citar o Krugman. Prefiro este professor de Oxford, Simon Wren-Lewis, que diz, sobre a economia mainstream:

●     Of course mainstream theory can be conservative. It has been used by some to support a particular ideology. I complain a lot about both. But the most important reason mainstream economics has become dominant is not because of these things, but because it has proved far more useful than all of its heterodox alternatives put together. I agree with Roger Farmer here: economics is a science. Its response to data and events may be slow compared to the normal sciences, for obvious reasons, but it is progressive. I cannot see any fundamental barriers to its continuing development.

●     This is because mainstream economics can be remarkably flexible. One of the sad things about the way economics is often taught is that students do not see much of the interesting stuff that is going on in both micro and macro, and instead just learn what the discipline looked like 50 years ago.

Ele se refere a uma discussão específica, de um povo lá de Manchester, mas creio que levantou bons pontos em seu texto. Note que um dos grandes erros das pessoas é imaginarem que economistas são caricaturas que pensam de maneira binária (sim, a vasta maioria dos críticos de nossa Ciência tem esta visão deformada que, aliás, dizem criticar).

Quem nunca viu um texto de Douglass North citado aqui, levante o braço. Quem acha que a Nova Economia Institucional é sinônimo de Ortodoxia, vá estudar mais antes de falar besteira. Quem acha que este blog tem posts sobre Econometria aplicada porque é ortodoxo, por favor, vá ler um pouco e praticar Economia antes de cometer tamanho erro. Dói mais em você – que morrerá de vergonha ao lado de quem entende do assunto (mas não ao lado dos idiotas que acham que o mundo a ser criticado é o de “cabeças de planilha”) – do que em mim, que tenho que perder minutos do meu tempo valioso para explicar o óbvio: Ciência não é Religião. Aliás, pega lá o A Solidão da Cidadania do Alberto Oliva e leia sobre a diferença entre ciência e religião. Já ajuda um bocado.

À guisa de conclusão

Uma anedota curiosa. Um amigo pessoal meu e também colega de trabalho, o Ari, é um sujeito chegado na econometria. Nada de errado com isto, certo? Pois é. Mas eu, que lia um pouco de Economia Austríaca (ainda leio) porque, sei lá, vai ver eu queria pegar mulher, ou porque eu achava (ainda acho) que há algo válido lá para meu crescimento pessoal (no pun intended, ok?). Pois é. Um belo dia, um sujeito que se diz libertário, perguntou ao Ari como é que ele podia trabalhar comigo pois ele usava econometria e eu falava de Hayek.

Ou seja, o preconceito do sujeito é tal que ele já assume como verdade universal e inabalável que se Mises fez xixi no livro de econometria, todos devem fazê-lo. Mises não sofre de dispersão do conhecimento e, claro, o método científico só vale se for o de, adivinhe, Mises. E ele se diz libertário, pluralista e tal. Não me perguntem o nome do sujeito. Não vou dizer. Mas perceba como a visão do leigo – que não é da área – é sempre tão preconceituosa quanto a dos economistas que dizem criticar.

“And the libertarian girl only wanted to talk about date, Rousseff, ops, Yousef. No mention to the PSDB vs PT eternal and important debate”.

Pterodoxia não é só verborragia

Eu criei o termo e já o defini aqui um dia. Hoje eu chamo a atenção para uma dimensão, digamos, humana, do termo. Para ser honesto, quem chamou foi o Mansueto. Meu ex-orientador, Ronald, ensinou-me bem: “você pode falar nada com verborragia ou com modelos matemáticos elegantes”.

Pois é. Ser pterodoxo não é só falar bobagens como “a matemática tá comendo a economia”, “o homem não é racional”, “cadê os seres humanos neste modelo de equilíbrio geral”. É também achar que a matemática resolve tudo. Bom, em outro contexto, no debate do cálculo econômico, Hayek e o Mises (que alguns idolatram tanto quanto os pterodoxos que idolatram Celso Furtado) mostraram que nem só de computação vive o homem em sociedade.

Permita-me citar Mansueto para vocês:

Por que resolvi comentar este artigo aqui? Por duas coisas. Primeiro, devido ao currículo de quem o escreveu. Não esperava ver um professor emérito de física da Unicamp escrever tamanho absurdo. Segundo, porque mesmo os físicos mais brilhantes cometem erros grandes quando se trata de desenvolvimento econômico, como este aqui:

 

“I am convinced there is only one way to eliminate (the) grave ills (of capitalism), namely through the establishment of a socialist economy….A planned economy, which adjusts production to the needs of the community, would distribute the work…and guarantee a livelihood to every man, woman and child. (Albert Eistein, Why Socialism?)

 

No entanto, há uma grande diferença. Albert Einstein escreveu isso em 1949, quando ainda se podia aceitar ou questionar se o socialismo daria certo. Mas em pleno século XXI e depois da queda do muro de Berlim e com toda a evidência história e científica da riqueza das nações ou por que as nações fracassam é difícil aceitar que o problema de Cuba seja os EUA ou que o tipo de contratação dos médicos cubanos seja uma ajuda humanitária. E o mais impressionante é que este tipo de argumentação venha de um Doutor em física formado na prestigiosa Universidade de Sorbonne em Paris. Tenho certeza que outros doutores formados por Sorbonee pensam diferente.

Retoricamente, falando, eu sei. Mansueto não está “surpreso” em absoluto. Ele, como eu, já viu muita gente com Ph.D. falar besteiras (um antigo professor de demografia da minha graduação tinha um nome um tanto quanto cruel, mas direto para este pessoal: Ph.Bos**… acho o termo forte e desnecessário, mas expressa bem a revolta de quem lê certas coisas).

Não é comum ver gente dizendo que estudou muito e sabe o que é melhor para os outros. Entretanto, não é bem assim, não é? Thomas Sowell, em Os Intelectuais e a Sociedade, mostra como a arrogância intelectual cega bons homens quanto à sabedoria do dia-a-dia.

Veja, não é que o pipoqueiro saiba mais Física do que o físico citado – cuja competência em Física ninguém põe em questão agora – mas talvez, sim, o pipoqueiro entenda melhor de alguns outros assuntos que ele. Normal. Eu não me arrogo o direito de saber o que é melhor para um cubano: viver em Cuba ou fugir de Cuba. Mas eu tenho uma opinião muito clara sobre isto e acho que Mansueto e o autor do artigo também. Afinal, nenhum de nós tentou, sem sucesso, mudar-se para Cuba.

Próximas aulas em “A Economia Política dos Gibis”!

Aula 5 – Jorge Amado, Aizen e a Microeconomia

Aula 6 – Batistas e Contrabandistas no Mercado de Gibis

Aula 7 – Gilberto Freyre concordaria com Hayek?

Aula 8 – Carlos Lacerda não entendeu nada

Aula 9 – Grupos de Interesse, Olson e os quadrinhos

Aula 10 – Novamente os grupos de interesse e os gibis

Aula 11 – Conclusão…e vamos ler um gibi?

Lembro que a Aula 4 está online e, claro, a próxima vai ao ar na quinta-feira. As aulas anteriores, obviamente, estão lá, para quem quiser assistir.

 

Pode o setor privado resolver um problema de bem público?

Pode. Mas para se convencer, você precisa discutir o tema. Há muitos detalhes e cada caso, claro, é um caso. Uma perspectiva algo hayekiana diria que é importante você pensar na geração de conhecimento local, espontânea e, claro, empresarial (no sentido kirzneriano-misesiano, etc do termo).

Pois bem. Se esta é sua praia, dê uma olhada nos textos que estão ligados à este texto principal, de Peter Boettke. Este é um tema que é pouco discutido no Brasil onde, geralmente, só se fala de iniciativa local quando se quer criticar a liberdade econômica. Os exemplos que a história nos dá, contudo, mostram uma realidade muito mais rica e contrária a este pré-conceito.

Quer saber mais? Tente Elinor Ostrom no mecanismo de busca. Você verá muita coisa bacana.

Regras abstratas e pretensão racional em Hayek…em um único diagrama

From Drop Box

Muito economista austríaco vai me agradecer por este diagrama (vamos usar aqui o conceito de direitos de propriedade, né?) ultra-funcional, didático e informativo.

Quem quiser saber mais pode me remunerar sem interferência governamental que eu explico.

Frases que eu gostaria de ter dito

Direto de David Henderson:

A friend of mine, Michael Walker, the former head of the Fraser Institute in Canada, once asked Hayek why it was so hard to convince people of the value of economic freedom. Hayek smiled and said:

One of the forms of private property that people cherish most is their ideas. If you convince them that their ideas are wrong, you have caused them to suffer a capital loss.

Eis aí uma lição interessante.

Pós-Keynesianos não servem para explicar a crise

Peter Boettke, que transita bem entre a galera heterodoxa, acha realmente que os tais pós-xxx não ajudam muito agora. Difícil discordar dele. Para Boettke, a explicação teórica tem endereço certo.

The current financial fiasco is not a consequence of market instability, but because of the inability of government to engage in “apt intervention” due to knowledge and incentive issues, and that in reality it is nowhere as dangerous as in the hands of politicians who presume they have that knowledge to effectively tackle the problem that they in fact do not. Since they don’t have the knowledge required but must act as if they do, they will instead respond to political incentives of the election cycle and their ideological whim. When you breakdown the “institutional structures” of an economy to engage in “apt intervention” when you cannot “aptly” accomplish what you plan to do, then don’t be surprised when things go crazy.

This isn’t libertarian, this is economics. The epistemic turn in economics that Hayek forged, and the public choice turn in political economy that Buchanan forged, provide us with the appropriate tools to understand the dynamics of interventionism and why the instability introduced through failed intervention tends to be met by every increasing attempts at “apt intervention”. Rather than policy, we need politics — changes in the rules that are consistent with the “generality principle.”

É isto aí, Pete!

O maior inimigo da Escola Austríaca, frequentemente, é o Economista Austríaco, também seu melhor amigo. Como assim?

“Nada de dogmatismos, meus caros”. É o que digo aos amigos austríacos sempre. Primeiro, eu acho que é importante notar os artigos da RAE. Temos aqui Horwitz & Lewin usando derivadas, Cowen baseando-se em literatura “neoclássica”, Mulligan usando somatórios e derivadas, Levy & Peart usando previsões para discutir um interessante problema de metodologia, McCabe usando economia experimental (dados, dados, dados!) para falar de bons insights austríacos e, finalmente, Wagner & Oprea fazem uma crítica do livro de Roger Garrison, Time and Money, no qual se vê que bons economistas austríacos estão longe da idolatria (Rothbard nunca errou, Mises está sempre certo, Hayek é um Deus, Kirzner é um gênio), mesmo que esta seja uma perigosa armadilha para os austríacos (que podem transformá-los em pterodoxos, como a muitos “heterodoxos” brasileiros):

If Austrians wish to join the discussion of contemporary macroeconomics, they must let contemporary macroeconomics join the Austrian discussion. This means necessarily that the Austrian tradition will be subject to transformations as it grows, incorporates the better ideas of modern macroeconomics and becomes more robust to its critics. If the tradition is viewed as a fort, this transformation will be viewed as a corruption. But if the tradition is viewed as a town, it will be viewed as healthy infusion of new ideas. This is both the price and reward of participating in a living tradition.

Creio que a jovem blogosfera austríaca tem todo o potencial para fazer algo como Horwitz, Boettke e Garrison, ou seja, levar os insights austríacos para a Teoria Econômica sem medo ou necessidade de rótulos (“se não se chamar austríaco, não brinco”).

Em homenagem ao meu austríaco preferido, Hayek, reproduzo a nota de rodapé 2 do texto de Caplan – um sujeito que gosta de Rothbard, Mises, Hayek e outros, mas não os idolatra – cujo link fiz acima.

While modern admirers of Hayek often present his work as a radical alternative to mainstream economics, there is little evidence that Hayek thought this. Contrast Mises and Rothbard’s stringent rejection of mathematical economics with Hayek’s desire to “…avoid giving the impression that I generally reject the mathematical method in economics. I regard it as indeed the great advantage of the mathematical technique that it allows us to describe, by algebraic equations, the general character of a pattern even where we are ignorant of the numerical values determining its particular manifestation. Without this algebraic technique we could scarcely have achieved that comprehensive picture of the mutual interdependencies of the different events in the market.” (F.A. Hayek, “The Pretense of Knowledge,” in F.A. Hayek, Unemployment and Monetary Policy (Washington, D.C.: Cato Institute, 1979), p.28.

Hayek é como Minas, para os mineiristas radicais que adoram este amontoado de minério, queijo, goiabada e políticos estranhos: Hayek são muitos. Confio na capacidade intelectual dos jovens economistas austríacos brasileiros como confio em minha própria capacidade: com muita (auto-)crítica.

p.s. claro que se formos discutir filosofia com base em insights austríacos, estou muito pouco qualificado. Só posso falar da (ir)relevância de idéias austríacas na teoria econômica.

Debates e Pluralismo…com boa educação, estas coisas funcionam

Pedro Sette e Ronald publicam, hoje, textos similares no espírito. Qual espírito? O do bom debate. Ocorre que pluralismo, em ciência (ou em debates religiosos com e sem liberais), envolve algo que já foi analisado de forma pioneira por Mises e Hayek e ainda hoje é alvo de estudos em Economia: o mercado das idéias.

No fundo, creio, há uma questão moral, normativa mesmo, que vai além do bom debate. O sujeito tem que aceitar correr o risco de se admitir errado neste ou naquele ponto da discussão. Isto implica que as barreiras à entrada devem ser as menores possíveis o que nem sempre é compatível com o ego deste ou daquele sujeito.

Claro que eu acredito que o bom debate e a mudança de paradigmas são coisas que deveriam ser mais bem aceitas por todos mas, justamente nesta hora é que o sujeito treme. De qualquer forma, os dois pequenos textos são recomendáveis. Nem tanto por alguma solução para este problema “de egos”, mas pelo conforto que trazem: mostram-nos que há esperança no debate.

Roger Kimball

Após um inexplicável (até o momento) atraso, recebi minha Dicta & Contradicta. Só li, até agora, a análise de um poema de Camões por Pedro Sette (não é que este é um exercício que o colégio me ensinou de forma bem precária?), o excelente texto do Kimball sobre Hayek (este deveria ser lido e relido por todos que curtem o bom austríaco) e o conto do Ruy Goiaba que muito me lembra o meu – sucesso de vendas no mundo – Tire a mão da minha linguiça, só que com o talento goiabal que só o Ruy consegue imprimir aos seus textos.

Será que no próximo semestre eu consigo organizar um grupo de estudos de economia para ler Hayek? Talvez eu tenha ajuda…