Incentivos importam: a votação do UBER

Como políticos da bancada do táxi, para usar um termo que não é fictício agiram para excluir qualquer audiência pública sobre um projeto claramente ruim para todos e ainda conseguiram aprová-lo?

Descubra neste detalhado texto.

Uma observação adicional: há tempos desisti de chamar à razão alguns entusiastas de causas com as quais tenho até afinidades ideológicas. Alguns chegam ao ponto de dizer que qualquer investigação científica é “desnecessária” ou, pior, fruto de meu “apego à econometria que não serve para nada”, sem falar no popular “modelos em economia não ajudam”.

Não conheço o autor do texto acima, mas vi que ele não escreve de forma superficial e precisou estudar um bocado para entender os incentivos políticos que – de forma muito clara – desnuda ao leitor.

É um texto de qualidade que apóia minha tese: sem evidências empíricas, sem método científico, sem o ceticismo sincero, não se avança em nada, exceto na gritaria habitual (que pode até render alguma audiência, mas não adiciona valor ao debate). Eu sei, é um desabafo. O lado bom é que encontrei este texto (graças à minha ex-orientanda, Luciana), o que é um bom sinal de que existe uma interessante comunidade na blogosfera para se ler.

Grupos de interesse causam esclerose econômica?

Olson disse que sim e eu e o Leo Monasterio checamos o resultado para o Brasil em um dos meus artigos mais interessantes (para mim). Entretanto, eis que surge um artigo com novas conclusões para um grupo de países. Ele foi publicado na edição de Outubro do Southern Economic Journal (não tenho o link, mas é fácil de achar). Eis seu resumo:

Interest Groups and the ‘‘Rise and Decline’’ of Growth
Jac C. Heckelman and Bonnie Wilson

Interest groups are known to exert a sclerotic impact on mean growth, à la Olson (1982). It is unknown, however, what impact (if any) groups exert on the volatility of growth—an important hindrance to development. In this article, we first consider what impact we should expect Olson groups to have on the volatility of growth. We then estimate the relation between groups and growth volatility in a cross-country panel, using system generalized method of moments. The findings indicate that groups are associated with growth stability. In addition, the findings suggest that interest groups may be a source of the stability observed in democracies.

Tudo depende, então, de se os benefícios menos os custos da estabilidade são ou não, em termos líquidos, positivos. O texto levanta novas questões sobre este – sempre polêmico – tema. Sobre os dados: são 824 observações de um painel não-balanceado (164 países nos períodos: 1973–1977, 1980–1984, 1985–1989, 1995–1999, 1999–2003, 2002–2006).

É, tenho que ler mais. Assim que tiver tempo.

Quando o Estado faz controle populacional

A cena acima, do filme “Logan’s Run” (depois transformado em série para a TV), ilustra o chamado “Carrosel”. Nesta cerimônia, todos os que atingiram 30 anos de idade são assassinados voluntariamente pois pensam que nascerão novamente (uma espécie de ressurreição).

Na verdade, trata-se de um dos mais cruéis controles populacionais já imaginados. Não deve ser difícil encontrar culturas antigas que uniam religião e poder estatal para fazer algo similar, aposto eu. De qualquer forma, quando alguém lhe falar em controle populacional à revelia dos cidadãos, lembre-se disto.

O mesmo fenômeno pode ser disfarçado sob uma forma aparentemente mais branda. Por exemplo, o Estado pode decidir o que você pode comer, baseado em religião (fé) ou, pior, em conclusões científicas (que, se são seriamente feitas, terão sempre uma margem de erro e, portanto, não são nunca definitivas).

Claro que é muito barato, hoje em dia, com a internet e tudo o mais, informar ao cidadão das conclusões e deixar que ele decida o que fará com sua vida. Entretanto, a lógica de manutenção do poder leva os encastelados a propor a venda de políticas públicas que exacerbam o lado megalomaníaco das pessoas, o famoso: “eu sei o que é melhor para você porque….(eu estudei, sou mais inteligente, sou médico, sou maluco, sou cientista, etc)”.

Assim, vende-se proibições para uma população que adora achar que sabe o que é bom para os outros (certamente existem explicações psicológicas/sociológicas simples para isso) e, no final, a possibilidade de indivíduos pensarem e decidirem é soterrada sob as determinações proibitivas disfarçadas de “amáveis-políticas-que-pensam-em-você,  bobinho”.

Nos anos 70, a sociedade norte-americana resistiu a estas invasões com muito mais força (veja a cultura pop da época) do que própria sociedade brasileira no mesmo período (e isso é algo que vale a pena tentar entender). O carrossel sempre foi mais querido nos trópicos do que no Hemisfério Norte. Afinal, se mesmo após saber que nativos latino-americanos arrancavam o coração de outros nativo-americanos e jogavam escadaria abaixo (um daqueles povos da América Central), as pessoas ainda sintam pena dos derrotados diante da colonização hispânica, não poderíamos esperar outra coisa, não é?

Como a sociedade evitará o carrossel que o Estado deseja lhe vender como o paraíso?

 

 

Perguntinha do dia

Sinto falta de algum estudo analisando filiação partidária e agências reguladoras. Será que um CADE, um BC ou uma Anvisa estariam se desviando gradualmente da escolha do eleitor mediano?

Fica aí a sugestão aos pesquisadores e demais interessados.

Genial e importante artigo de Dora Kramer hoje

Quer entender a economia política do Brasil atual? Pois leia o artigo de Dora Kramer de hoje. Certamente ela foi ao ponto e, claro, muita gente adotará a estratégia do silêncio para ignorá-la (e haverá muito trabalho de bastidor para fazê-la calar-se). Antes que eles façam isso, leia o artigo.

Violência no campo, governos e conflito

Um bom texto para discussão do Barros, Araujo Jr e Faria.

Veja o resumo:

This paper analyzes conflicts and violence in Brazil involving landless peasants occupying privately-owned land, for the period 2000-2008. It is the first study to be undertaken at a national level, with a contemporary data span, using a count data model that allows for heterogeneity, endogeneity and dynamics. Results from the estimated model show that the violent land occupation grows with left-wing political support for land occupation, rural population density, and agricultural credit, and decreases with poverty, agricultural productivity. The study discusses the interconnection of land reform, poverty and conflict.

Fascinante, não? Se você gosta do assunto, veja também este outro texto, para Minas Gerais e vários dos textos do Bernardo Mueller (com seus bons co-autores) que se encontram aqui.

Elites

Rolf Kuntz era um nome do qual não nos esquecíamos na faculdade, já que ele havia escrito um livro sobre os fisiocratas que os professores pterodoxos adoravam usar (até ele escrever artigos excelentes nos jornais, quando, então, a pterodoxia o abandonou como leitura para párias fosse).

Este seu artigo sobre “elites brasileiras” está ótimo. Recomendo.

Democracia e pluralismo

Lá na Venezuela, defender a propriedade privada em uma campanha pacífica na imprensa é algo que os chavistas (bolivarianos) acham errado e passível de processo na Justiça. Ah sim, o governo venezuelano se diz um bastião da democracia.

Já em Honduras, os grupos de interesse mostram que manifestações populares nem sempre são apenas espontâneas.

Jornalista como um ser humano qualquer

Breaking with the academic tradition of considering journalists mainly as victims of the media systemand glorifying them in their role as humble servants of the public interest, we have argued that economic theory can be usefully applied to journalism. Journalists can and should be seen as rational actors seeking to promote own interests, calculating risks and benefits, reacting to material and non-material incentives and rewards while trading information for attention with their various sources.

O leitor já entendeu: jornalista não é nenhum santo. Responde a incentivos. Quais? Se tiver acesso ao artigo, leia. Há toda uma gama de problemas a serem estudados.

A sociedade civil organizada e o acordo ortográfico

Qual o custo-benefício para o brasileiro de um acordo como esta maluquice que ora se impõe – dentre tantas outras imposições do governo aos “pagadores de impostos” (vulgo “contribuintes”)? Esta é uma boa pergunta. Enquanto isto, em Portugal, percebe-se melhor o custo disto.

Sem-terra, mas Com-poder

É o que concluo disto. Incrível mesmo é o “controle” da imprensa (“não existe liberdade de imprensa, mas sim liberdade de grupos fortes e apoiados pelo governo”, né?) pelo grupo de interesse que se auto-denomina (não legalmente, claro) “sem-terra”.

São os “movimentos” “sociais” afro-africanos democráticos?

Ainda estão calados quanto a isto. Por que será?

p.s. a discriminação é tão descarada que Thomas Sowell ou Walter Williams nunca são lembrados.

Libertários são libertários…ponto.

Ao dizer “capitalismo”, as pessoas não querem dizer simplesmente livre mercado, nem simplesmente o sistema neomercantilista vigente. Ao invés disso, o que a maioria das pessoas quer dizer com “capitalismo” é esse sistema de livre mercado que atualmente prevalece no ocidente. Em resumo, o termo “capitalismo”, da forma como é geralmente utilizado, esconde uma suposição de que o sistema atual é um sistema de mercados livres. E já que o sistema atual é, na realidade, o sistema do favorecimento governamental de empresas, o uso comum do termo carrega consigo a suposição de que o livre mercado é o favorecimento governamental de algumas empresas (23).

Então, agarrar-se ao termo “capitalismo” pode ser um dos fatores que reforçam a confusão do libertarianismo com a defesa do corporativismo (24). De qualquer forma, se a defesa dos princípios libertários não é mal compreendida – ou pior, se é compreendida corretamente! – como a defesa das corporações, a relação antitética entre o livre mercado e o poder corporativo deverá ser continuamente destacada.

Trecho tirado daqui.

Rent-seeking e um doutor que nunca o foi

A história de um grupo de interesse representado por um sujeito que parece não ser o que é. Sim, falamos de um popular comentarista de economia na imprensa que tenta mudar a alocação de verbas públicas para universidades de maneira escancarada. O Erik foi ao ponto e, claro, a imprensa não se importa com isto, mas adora malhar economistas por conta da crise mundial. Que comecem com a crítica do rent-seeking, não?

Velha controvérsia de Rasmusen

O grande prof. Rasmusen, de Teoria dos Jogos, em uma recoleção pessoal dos fatos que o envolveram em uma complicada controvérsia com a patota do “politicamente correto”, o novo tipo de fascismo que engana até mesmo os mais bem-intecionados. A controvérsia, em si, é um barril de pólvora. Mas saber que existe mesmo a tal NAMBLA é o mais maluco de tudo…

República dos Sindicatos: bem-vindo ao neo-mercantilismo

Com seis anos de atraso, os sindicalistas chegaram ao poder na Receita Federal. Desde que assumiu o cargo, no dia 31 de julho, a nova comandante do órgão, Lina Maria Vieira, vem discretamente substituindo os ocupantes dos principais cargos. O processo tem o seguinte padrão: para as superintendências regionais, preferencialmente sindicalistas; para a estrutura central da Receita em Brasília, técnicos.

Pronto. Eis aí uma reportagem interessante que jamais apareceria num país sem liberdade de imprensa, ainda que, como tudo na vida (inclusive o poder de argumentação dos que não gostam da dita liberdade), é imperfeita.

Grupos de interesse

No Brasil, infelizmente, 90% dos economistas se rendeu às barreiras à entrada dos profissionais de Ciência Política e afins e não estudam muito grupos de interesse. Uma minoria, vá lá, faz isto. Eis aqui um exemplo aplicado aos EUA.

Working Paper No. 08/244: Do Interest Groups Affect U.S. Immigration Policy?

Author/Editor: Facchini, Giovanni ; Mayda, Anna Maria ; Mishra, Prachi

Summary: While anecdotal evidence suggests that interest groups play a key role in shaping immigration policy, there is no systematic empirical analysis of this issue. In this paper, we construct an industry-level dataset for the United States, by combining information on the number of temporary work visas with data on lobbying activity associated with immigration. We find robust evidence that both pro- and anti-immigration interest groups play a statistically significant and economically relevant role in shaping migration across sectors. Barriers to migration are lower in sectors in which business interest groups incur larger lobby expenditures and higher in sectors where labor unions are more important.
http://www.imf.org/external/pubs/cat/longres.cfm?sk=22377.0

Quem desmata mais? Quem financia o desmatamento?

A nossa patota da esquerda dizia que era a “classe dominante”. Contudo, agora eles devem enfiar a cabeça no buraco e, quem sabe, ler Milovan Djilas (eu diria “reler”, mas eles não leram) e pensar sobre a nova classe.

p.s. Djilas não é um liberal. E seus dois livros mostram a essência do socialismo real, aquele que existe com ou sem o charme dos amigos culturais de Gramsci.

A Economia política e os grupos de interesses nas Olimpíadas

O Renato mandou um comentário com esta matéria. Há vários problemas aí. Primeiro, o resultado de uma competição não é apenas fruto do esforço do atleta brasileiro, mas sim do total de competidores na disputa. Uma das formas de se pensar isto é modelar a probabilidade de sucesso do sujeito como o seu esforço sobre a soma dos esforços (Pi = ei/(ei+ej), para dois competidores). Esta é a famosa expressão utilizada por Gordon Tullock em um antigo artigo sobre rent-seeking.

Mas não é só isto.

O resultado em uma competição também é função de fatores aleatórios e, claro, tudo isto depende de quanto dinheiro se investe e como. Esta, aliás, é a tônica da matéria no Contas Abertas. Entretanto, as críticas apontadas lá não me parecem muito sólidas. Reclama-se, por exemplo, que o esporte deveria não apenas tornar os praticantes mais eficientes, mas também transformá-los em “cidadãos”. Péssima idéia. Se você quer alocar recursos para esportes, faça-o da forma mais eficiente. Se quer alocar para a educação, idem. Mas juntar dois objetivos com uma mesma verba é dar um tiro no pé. Ao final, nem cidadão (seja lá o que isto for, já que não há uma definição disto na matéria), nem desportista.

A matéria fala de rediscutir prioridades de investimentos e esta é a eterna desculpa de todos. Perdi a competição? A culpa é da má alocação. Você perdeu e eu ganhei? Claro que foi mérito meu (e da boa alocação), enquanto você dirá que a culpa é da má alocação dos recursos. É óbvio que um critério técnico para a aplicação dos recurso é necessário, por mais que o governo se enfronhe mais do que nunca na regulamentação dos esportes. Aliás, o argumento exposto na matéria é engraçado. Veja:

Segundo diversos especialistas, como José Cruz, da editoria de esportes do Correio Braziliense, embora não se pretenda que a política esportiva do Brasil seja dirigida apenas para a formação de atletas – o prioritário é que a educação esportiva ajude na formação do cidadão, na saúde e na inclusão social – a ampliação “da base da pirâmide” do esporte de alto rendimento depende da estreita relação entre o esporte e a educação, assim como acontece nos Estados Unidos, na China e em Cuba (apesar de não ter sido destaque em Pequim).

Então ganhamos poucas medalhas porque gastamos mal os recursos mas, veja, Cuba também não foi grandes coisas, mas alocou bem os recursos. Entre os dez primeiros países, em total de medalhas, temos Austrália, EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Coréia do Sul e Itália (mais a China, com o enclave de Hong Kong livre, Ucrânia e a Rússia). Será que o exemplo está em Cuba?

Eu gosto do argumento dos “cidadãos formados”. Só que, para mim, estes cidadãos têm melhor formação quando vivem em países com instituições mais favoráveis à livre expressão – inclusive de seus talentos nos esportes – à livre troca, etc. É verdade que medalhas podem ser conquistadas por países cujos governos possuem instituições horrorosas, mas a questão é o que você quer fazer após ganhar as medalhas: voltar a um país no qual o burocrata pensa saber melhor do que você o que é um “cidadão” ou voltar a um país no qual sua cidadania possa descoberta por você mesmo?

Assim, mais calma nestas críticas. Há muito o que se discutir sobre metas, instrumentos, recursos e resultados e, certamente, a resposta não se encontra em modelos ditatoriais (aliás, alguém se deu ao trabalho de ver o desempenho da Venezuela na tabela acima? Vale a pena). Há muitos grupos de interesse envolvidos na alocação de recursos para esportes no Brasil, tal como em outras áreas. Se a crítica é apenas a de que se deve aumentar a arrecadação e distribuir os recursos para mais grupos, o problema não será resolvido. Pode até piorar.

Aposto que acusarão a Lei de “ser de direita”

Comecem a rastrear as contas que, aposto, a coisa ficará interessante pois difícil. Movimentos sociais sabem socializar os prejuízos quando lhe convém.