Meta-modelo beckeriano

Não é todo dia que você estuda o Becker (1991) em um restaurante.

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Redução da Maioridade Penal – subsídios

Primeiro, o problema da estatística. Ah sim, não apenas o da existência dos dados, mas também o segundo problema: gente que não quer acreditar nas evidências empíricas de maneira patológica (esta última dica veio daqui).

Por último, não, gente, quando o sujeito diz: “sua abordagem é muito simples porque considera que o criminoso só faz conta de custo-benefício e desconsidera o meio em que ele vive”, este mesmo sujeito mostra que não entendeu nada da análise.

Para começo de conversa, a crítica infeliz é ao modelo econômico do comportamento criminoso, devido a Gary Becker. O cálculo de custo-benefício, obviamente, pode, sem muita dificuldade, ser feito sob restrições bem especificadas (aliás, não pode ser feito de outra forma). Ora bolas, não preciso ir muito longe no argumento. Basta observar a quantidade de estudos mostrando testes de hipóteses deste modelo com relação aos ciclos econômicos (exemplos aqui e aqui).

Eu? Eu acho que criminoso tem que ser punido. Mas acredito que a lei tem custos e benefícios e devemos considerá-los na análise. Falei disto outro dia aqui. Ah sim, é importante você também ler este texto, mais técnico.

A discussão, para mim, não é só de filosofia e ética. Sem dados, não serve. Não serve para a Academia e nem para nós, o povo.

Você escolhe fumar: sim, isso mesmo

Kevin Murphy e o recém-falecido Gary Becker causaram muita polêmica quando apresentaram seu modelo do vício racional (rational addiction). Houve choro, birra, ódio e, claro, algumas pessoas inteligentes resolveram debater o tema.

Tem sempre uma reclamação sobre o modelo não ter uma contrapartida na realidade, que a história é importante e tal (geralmente esta crítica não vem acompanhada de contra-exemplos históricos, mas há exceções honrosas, claro). Pois é. Tudo isto é muito bonito, impressiona as meninas no bar, mas o bom mesmo é buscar evidências empíricas. Assim, enquanto você dormia, alguém foi lá e publicou no último número da Cliometrica o seguinte artigo:

The demand for tobacco in post-unification Italy
Carlo Ciccarelli and Gianni De Fraja
Abstract
This paper studies the demand for tobacco products in post-unification Italy. We construct a very detailed panel data set of yearly consumption in the 69 Italian provinces from 1871 to 1913 and use it to estimate the demand for tobacco products. We find support for the Becker and Murphy (J Polit Econ 96:675–700, 1988) rational addiction model. We also find that, in the period considered, tobacco was a normal good in Italy: aggregate tobacco consumption increased with income. Subsequently, we consider separately the four types of products which aggregate tobacco comprises (fine-cut tobacco, snuff, cigars, and cigarettes), and tentatively suggest that habit formation was a stronger factor on the persistence of consumption than physical addiction. The paper ends by showing that the introduction of the Bonsack machine in the early 1890s did not coincide with changes in the structure of the demand for tobacco, suggesting cost-driven technological change.

Keywords Smoking Italian Kingdom Rational addiction Panel data

Pois é. Então  vamos parar com este papo furado e vamos fazer trabalhos empíricos? Vamos parar de culpar o Dr. Smith pela nossa preguiça e trabalhar. Afinal, você não é um robô movido à bateria, né?

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A juventude se diverte mais no carnaval, trabalha mais ou estuda mais?

Em suas aulas de Macroeconomia, lá no início do curso, você já deve ter ouvido falar de “estoques” e “fluxos”. Deve ter visto um diagrama, ouvido umas histórias e, se aprendeu algo, nem precisa ler este texto porque vou apenas usar estes conceitos com uma reportagem que li hoje de manhã. É, você já notou que o “carnaval” do título foi só para te enganar…

Vamos lá?

Estoques e fluxos: mercado de trabalho

Diz lá o Estadão, citando o IBRE:

Os reajustes salariais tiveram, em 2013, o menor peso no crescimento da renda do trabalho desde 2005. Do aumento de 1,8% no rendimento (também o menor avanço desde 2005), 0,7 ponto porcentual, ou 40% do total, deveu-se ao fato de menos jovens estarem entrando no mercado de trabalho, segundo estudo inédito do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Sim, é verdade que estamos tendo menos filhos, mas não é este, ainda, o ponto central desta queda. A matéria não é sobre o fluxo de jovens, mas sobre o estoque atual e, neste, um bocado deles resolveu esticar seus estudos. Como se diz lá em casa, “trabalhar que é bom, nada”.

Mas isso é ótimo por um lado (embora os pobres pais tenham que pagar, geralmente, para o moleque um almoço, janta e até uma ajuda para as farras…): o número de anos estudados por indivíduo está aumentando.

Duas mudanças socioeconômicas acompanham o fenômeno: o aumento da escolaridade e o crescimento real da renda das famílias nos últimos anos. “Antes do fim da década de 1990, se você pegasse pessoas de 22 anos de idade, só 30% chegavam ao ensino médio. Hoje, são mais de 70%”, diz o economista Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas (CPP) do Insper.

O crescimento econômico com crescimento da base da pirâmide da classe média.

Sem a frieza dos dados estatísticos, Ricardo do Nascimento Reis, gerente de metodologia do Grupo Multi, sente essas mudanças na demanda pelos cursos técnicos. Segundo Reis, entre os jovens, sobretudo entre 15 e 20 anos, há uma pressa latente de alcançar cargos mais altos. Por isso, muitos preferem se afastar do mercado de trabalho ou atrasar o início da profissão para se qualificar e conseguir cargos melhores.

Há jornalistas e jornalistas e alguns não parecem ter superado o preconceito de associar “dados estatísticos” com “temperaturas polares”. O Estadão é um ótimo jornal, mas de vez em quando você lê estas frases estranhas. A ironia da coisa é que os jovens estudam, estudam, mas nem sempre aprendem tudo. Por exemplo, alguns continuam com a idéia de que dados estatísticos são “frios”. Um aumento do PIB em 2% é frio, uma desvalorização da taxa de câmbio em 1% é fria, mas, um “black bloc” espancando jornalista, bem, isto é quente.

Fluxos, Estoques…intertemporais…

Mas vamos seguir em frente, sem a frieza do preconceito contra dados estatísticos (a matéria é bem escrita, exceto por esta frase).

Além disso, há também um fator demográfico estrutural por trás do fenômeno. “Está caindo o porcentual de jovens na população em idade ativa (PIA), e aí, logicamente, você tem um menor contingente de jovens no mercado de trabalho”, ressalta Moura, do Ibre/FGV.

Eu já havia falado lá em cima, né? Aqui está a questão do fluxo. O fluxo de jovens está diminuindo. O estoque futuro, portanto, deve ser menor do que o atual, diz o pesquisador do Ibre implicitamente. Não apenas isto, mas este estoque tem a característica de alongar seu período de estudos. Nem discutimos a qualidade do ensino, mas tão somente a quantidade de tempo que o sujeito fica sem trabalhar (ou trabalhando pouco) para estudar. Por exemplo, o garçom – oriundo da classe média – que resolveu estudar mais, daqui a um tempo, anotará seu pedido em um português que todos entendam? Espero que sim.

Repare como a alteração nos estoques (via fluxos) dá-se por meio de milhares e milhares de decisões descentralizadas individuais não apenas de jovens que decidem estudar, mas também de pais que decidem ter mais ou menos filhos. Não é meio óbvio que as consequências macroeconômicas são fundamentadas em decisões microeconômicas? Por que é que você acha que economistas desenvolveram pesquisas em tópicos como a economia da família (veja também este texto), etc?

Ok, vamos em frente.

Possíveis reflexos de um melhor capital humano? Digressão idiossincrática.

Tenha em mente que o estoque de capital humano de um país é parte integrante do desenvolvimento econômico do mesmo (basta lembrar do modelo de Solow, né?). Quer ver algo que eu esperaria de um país que se quer desenvolvido com um capital humano decente? Eu esperaria:

1. Comentários civilizados: Páginas de jornais e outras páginas estão cheias de comentários mal escritos, curtos, sem conteúdo e/ou com apenas xingamentos. Isto sem falar nas frases desconexas. Melhorar o capital humano significa melhorar o conteúdo dos comentários em todas estas dimensões.

2. Aumento na produção de vídeos educativos: Meu amigo Diogo sempre comenta sobre sua decepção com a quantidade de vídeos educativos produzidos aqui e (como diriam os nacional-desenvolvimentistas) alhures. Acho que ele pretende fazer um post sobre isto no blog dele, então não vou me aprofundar (mas se ele demorar…).

3. Banheiros mais limpos: Espero que a educação escolar, lá na creche complemente a educação doméstica e a civilização geralmente vem acompanhada de gente que não chuta catracas, quebra paredes ou deixa as privadas em estado calamitoso.

Ok, o último ponto é menos relacionado com os anos de estudo, mas não é menos importante…certo?

Prêmio Nobel: um pouco sobre Williamson e um pouco mais sobre Elinor Ostrom

Estive longe de um terminal de computador por alguns dias, mas consegui me informar sobre o Nobel. Bem, não li ainda o que meus colegas de blogosfera publicaram, mas eis o que eu penso sobre este Nobel.

Em primeiro lugar, creio que este Nobel segue uma lógica que vem desde a concessão do prêmio para Hayek e Myrdal (por dizerem praticamente o oposto, mas por terem em comum a preocupação com o desenvolvimento e o uso do conhecimento).

Depois veríamos Douglass North e Ronald Coase serem igualmente agraciados com o prêmio por falarem de custos de transação na história e em geral. O ponto comum, novamente, é claro: o que atrapalha o funcionamento dos mercados?

James Buchanan também é parte desta história, já que ampliou nosso conhecimento sobre como o sistema político influi no funcionamento dos mercados ao invés de corrigi-lo, como reza a cartilha do “planejador benevolente”.

Se pensarmos um pouco no significado de prêmios como este, poderíamos até falar de Gary Becker e outros que abriram campos de pesquisa por meio do relaxamento de hipóteses dos modelos, digamos assim, canônicos (embora este não seja um bom nome, creio).

Oliver Williamson – na minha opinião – é simplesmente a versão North-Coase aplicada a aspectos de Organização Industrial. Já merecia ter ganho o prêmio há mais tempo. Não é uma de minhas leituras favoritas – acho até que ele é muito prolixo – mas é, sem dúvida, um importante autor na área de Organização Industrial. Sem cair no canto da sereia pterodoxo, Williamson foi capaz de reler o funcionamento dos mercados sob a ótica dos custos de transação. Estranho mesmo é pensar que Baumol ainda não ganhou o prêmio por lançar muitos dos conceitos que nós – Williamson incluso – tomaríamos como base para o avanço da teoria de Organização Industrial nos últimos anos.

O outro prêmio, o de Elinor Ostrom, é bastante merecido. Lembro-me de ter começado minha dissertação, graças ao Marcos Fernandes, com a leitura de Vincent Ostrom, seu marido, que tratava do federalismo como uma instituição. Por meio dele, acabei descobrindo os artigos de Elinor Ostrom sobre problemas de bens de uso comum. Rules, Games and Common Poll Resources, editado por ela e mais alguns outros pesquisadores, foi um dos primeiros livros que li na tradição dos estudos empíricos de economia sobre o problema (ou a tragédia) dos comuns. Não foi o livro que mais me entusiasmou na época, mas a abordagem empírica me atraiu. Depois eu teria contato com gente como Bruce Benson (a lei como ordem espontânea), Robert Ellickson (Order without Law), John Umbeck e Jack Hirshleifer (o uso da violência como forma alternativa de alocar recursos na sociedade), dentre outros.

Talvez possamos associar o prêmio de Elinor Ostrom com o de alguns anos atrás, ganho por Vernon Smith por suas contribuições à economia experimental. Talvez se possa pensar no prêmio como mais um representante do “ampliação das fronteiras do conhecimento” (Becker, Buchanan, etc), já que a profa. Ostrom, como tantos antes dela, mostrou que instituições importam para o funcionamento dos mercados. Mais ainda, não é apenas “instituições importam”, mas também como importam.

Não é um convite para que economistas fujam da economia para estudar sociologia ou antropologia. É um convite para que cientistas sociais (e alguns economistas) leiam mais Elinor Ostrom.

Agora vou ler o que meus colegas escreveram a respeito. Boa terça-feira, leitor.

A economia dos bebês

From Drop Box

Esta aí em cima é a minha sobrinha Teresa. Que consequências os bebês trazem para a economia? Bem, que tal isto? Ou talvez isto. Mais aqui, aqui e aqui. Aliás, o último reúne dois gigantes do pensamento econômico: Robert Barro e Gary Becker.