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A Copa do Mundo é boa ou ruim para a economia do país?

Bem, vejamos o que diz o Gallup:

Brazilians’ hopes are likely high Friday as their national team faces Colombia in the quarterfinals of the World Cup. Shortly before the tournament began, however, the Brazilian public was rather skeptical about the economic benefits of hosting the most expensive World Cup in history. In May, 55% of Brazilians said the World Cup will hurt the Brazilian economy, while 31% believed that it will help.

Pois é. O pessoal tem um palpite de que a Copa não é tão boa assim para a sociedade brasileira. Bem, caso você pense que nós, economistas, não temos nada com isso, dê uma espiada na lista de trabalhos aprovados para a ANPEC regional do sul deste ano. Lá você encontrará um trabalho que busca responder a pergunta do título deste post. O título do artigo é: Impacto Econômico da Copa do Mundo: Uma Avaliação pelo Método de Controle Sintético e seu autores são: André Carraro, Claudio Shikida, Felipe Garcia, João de Araújo, Vinícius Halmenschlager.

Resumidamente, o que nós fazemos é avaliar o impacto da Copa do Mundo sobre o PIB per capita do país ao longo dos anos após o evento, no período de 1990 a 2006. A análise incluiu as copas realizadas na Itália, Estados Unidos, França, Coréia do Sul, Japão e Alemanha. Mas além do PIB per capita, resolvemos também analisar a trajetória dos gastos de turistas no país-sede. O que foi que encontramos?

Conforme a literatura dos megaeventos, não há ganho significativo para o PIB per capita dos países-sede. Para o caso de Alemanha e Japão, encontramos que gastos de turistas aumentaram após a realização do evento, o que pode ser uma evidência de que há algum ganho na formação da poupança externa dos países-sede.

Repare que nossa análise foi individualizada, i.e., fizemos o mesmo estudo para cada país-sede, o que nos permitiu obter resultados desagregados. Assim, por exemplo, nossas estimativas nos dizem que o ganho de gastos em turismo na Alemanha foi de US$ 23 bilhões no período 2005-2010. Para o Japão obtivemos que este ganho foi de US$ 32 bilhões no período 2003-2009. Estes efeitos, claro, foram obtidos já livres de outras influências que, esperamos, foram controladas na construção de nossos contrafactuais.

O artigo ainda está sob revisão – pretendemos fazer mais algumas brincadeiras – mas se você queria uma resposta preliminar sobre os impactos da Copa do Mundo sobre a economia, aí está. Talvez os resultados da pesquisa do Gallup estejam nos dizendo mesmo algo sobre os impactos econômicos deste megaevento. Além disso, para terminar este texto com tristeza, é muito desagradável ver que a pressa em cumprir o desejo do ex-presidente da Silva possa resultar em desastres como este (veja o vídeo abaixo com o exato momento em que uma obra do PAC da Copa se transforma em tragédia).

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E no Brasil? Qual a visão do brasileiro acerca do comércio exterior?

Nossa Receita Federal, eu sei, acha que o comércio exterior é uma imensa desculpa para tributarem qualquer importação. Agora, o que o brasileiro pensa? Será que a resposta será similar à dos norte-americanos?

Alguém conhece uma pesquisa similar? Este bando de políticos que fazem campanha e que dizem representar os brasileiros têm alguma pesquisa a respeito? Eu gostaria de saber. Jovens brasileiros parecem insistir em uma noção de comércio que eu diria, até, esquizofrênica. Mais ou menos assim: o brasileiro adora consumir mais produtos, mas sofre de um certo chavismo infantil – talvez fruto de uma doutrinação tímida misturada à falta de informação – no qual ele percebe qualquer produto estrangeiro como uma ameaça.

Em resumo: um IPAD é ótimo, mas um IPAD é uma ameaça (maligna) contra nossa nação.

Epílogo: “nação”, cara-pálida?

Aliás, o que é mesmo uma nação? Vamos subverter um pouco o sujeito que está em sua zona de conforto.

Consider two nations, each claiming the same piece of territory. Each may try to gain its ends by force, threats, or offers of payment or exchange. It seems reasonable to suppose that the outcome will be efficient, that the territory will end in the control of the nation willing to pay the higher price. The alternative conjecture would be that the stronger nation will usually be the winner, since it can, if necessary, annihilate the other. Under circumstances of total war, this is doubtless true. But in a world of many nations, the winner of a war of annihilation, although better off than the loser, may be seriously disadvantaged with regard to all other nations. The use of such tactics is then unprofitable and the threat of them implausible. So it seems reasonable to suppose that what determines the winner is not the total resources possessed by each nation but the resources each nation is willing to spend to gain its end and that this will correspond roughly to the value of the end. 

Territory may be of value to a nation for many reasons of strategy, sentiment, politics, or economics. We will assume that the reason of chief importance for the phenomena we wish to explore is economic. More specifically, we assume that the value to a nation of any territory is the increase in tax collections made possible by control of that territory, net of collection costs. 

Sensacional, não? Neste artigo de 1977, David Friedman faz a pergunta que nem sempre ocorre às pessoas: não seria uma nação aquilo que foi conquistado por alguém, com fins de maximização de riqueza? Assim, não é uma nação aquilo que se caracteriza por uma “cultura”, “língua”, “povo”. Na verdade, o que prevaleceu na conquista foi alguma “cultura(s)”, “língua(s)” ou “povo(s)”. Acha estranho? Então me explica a diversidade cultural, linguística e de populações da China comunista.

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Eleitores medianos, profissionais de marketing e políticos: qual a relação entre eles?

Diante destes últimos resultados divulgados pelo Gallup, você já imagina onde está o eleitor mediano dos EUA em termos do assunto “China”, não é? Por exemplo, digamos que a análise seja em torno da dimensão “poder militar”. Segundo a pesquisa:

Though Gallup last year found that most Americans regard China as more friend than foe, many Americans regard China’s military strength and economic power as a threat to the vital interests of the U.S. Americans are more likely to perceive China’s economy (52%) than its military (46%) as a “critical” threat to U.S. vital interests over the next 10 years, suggesting that, for now, U.S. residents see China’s growing influence through more of an economic lens.

Então temos 46% dos entrevistados imaginando que o poder militar chinês é uma ameaça aos interessos dos EUA. Obviamente, aqueles que já ouviram falar em Teorema do Eleitor Mediano não podem deixar de pensar no tema. Afinal, o que um político norte-americano fará ao perceber que 46% dos seus potenciais eleitores temem o poder militar chinês? Aliás, você conhece o teorema?

O eleitor mediano

É muito interessante pensar no significado do eleitor mediano em termos das preferências. Um exemplo disto está aqui. Na verdade, é um resultado bem interessante. Duncan Black fez sua prova nos anos 50. Você já viu o Teorema? Eis aqui a tradução do mesmo, tal como em Ordeshook (1986):

Se todos os cidadãos têm preferências de pico único em uma única dimensão, então a preferência ideal mediana é um vencedor de Condorcet e a ordenação da preferência social sob a regra de maioria simples é transitiva, com o seu ponto máximo na mediana. (p.162)

A dimensão única a que ele se refere nos diz que esta versão do teorema é a mais simples, ou seja, ele é demonstrado apenas em uma única dimensão. Digamos que a dimensão em discussão seja o valor mensal a ser pago como subsídio para blogueiros de economia que escrevem poesias e elogios para governantes do Brasil. Imagine que estes valores são contínuos no intervalo [0, 100]. Pronto. Então estamos discutindo os subsídios para estes sicofantas.

Imagine que existam diversos políticos, cada qual com um ponto máximo de utilidade. Por exemplo, o político Zé Cirneu prefere acha ideal que que estes blogueiros tão simpáticos ao seu governo recebam R$ 100,00 mensais. Este é o ponto que lhe dá maior utilidade. Já Zelúbio estará mais satisfeito se seus amigos receberem R$ 50,00. Há também a Narima Selva, que não vê com muitos bons olhos este programa. Para ela, o ideal são R$ 10,00. Há mais políticos na mesa de negociação, digamos, com propostas de valores menores do que R$ 10.00 e outros, mais gastadores, com propostas de valores maiores do que R$ 100,00.  Digamos que R$ 50,00 seja a mediana destas propostas.

Narima, que prefere R$ 10,00, sabe que R$ 50,00 é a proposta mediana, ou seja, aquela que divide os votos dos parlamentares em 50% para cada lado. Assim, se ela votar em R$ 10,00, ela atrai votos dos outros deputados que preferem dar pouco subsídio aos blogueiros, mas perde os votos daqueles que desejam pagar mais do que R$ 10,00. Caso Narima resolva fazer um sacrifício e votar por R$ 100,00, junto com Zé Cirneu, ela perde votos na outra ponta. Note que o mesmo raciocínio vale para Zé Cirneu e para todos os outros deputados.

Isto acontece porque a regra de votação é a de maioria simples (ganha quem tiver 51% dos votos). Então, se a proposta mediana é R$ 50,00, a tendência é que todos votem muito perto de R$ 50,00. A proposta de R$ 50,00, aliás, é o vencedor de Condorcet.

Aqueles que já estudaram um pouco de Ciências Econômicas percebem que estamos trabalhando com uma preferência do tipo ponto de saciedade (que é o ponto de maior satisfação gerado para uma dada cesta, no caso, uma cesta de um único bem chamado “bolsa para blogueiros sicofantas”). E o que acontece quando as preferências não têm pico único? Simplesmente não será possível construir uma preferências social, que agregue as preferências individuais destes políticos.

Preferências com mais de um pico

Fiquemos apenas com nossos três candidatos para facilitar. Assim , usaremos a letra “P” para denotar a relação de preferência. Por exemplo, 10 P 3 será lido como “10 é preferido à 3”. Então, para Zé Cirneu, as preferências são: {100 P 10 P 50}. Para Zelúbio, as preferências são {50 P 100 P 10}. Finalmente, Narima ordena suas preferências como {10 P 50 P 100}.

O ponto importante é que cada um dos políticos envolvidos neste debate possuem, cada qual um único valor de subsídio ao qual atribuem a sua maior utilidade. Ou seja, cada um tem preferências de pico único (o pico máximo de utilidade). Repare o que acontece quando estes três políticos negociam. Digamos que eles se falam ao telefone. Como são políticos, são desconfiados e negociam separadamente.

Assim, numa negociação estratégica, qual seria o acordo entre Zé e Zelúbio? Repare que 50 e 10 são as piores opções para Zé e Zelúbio. Então, um acordo entre eles seria possível com 100 que é a melhor opção de Zé e a segunda melhor de Zelúbio. 

Como ficaria a negociação entre Zé e Narima? Seguindo a mesma lógica do exemplo anterior, 50 e 100 provavelmente serão descartadas e o resultador seria 10, a primeira opção de Narima e segunda de Zé. Finalmente, Zelúbio e Narima. Neste caso, 10 e 100 serão descartadas e o resultado será 50.

Então, neste caso, perceba, não há como obter uma proposta que satisfaça os três ao mesmo tempo. Este é a forma simplificada do conhecido resultado da impossibilidade de Arrow, vale dizer, o resultado de que não há como obter uma preferência social (a não ser que um dos três imponha sua preferência sobre as dos demais, de forma ditatorial).

Por que investir em pesquisas de opinião?

Garanto que você sempre imaginou que investir nestas pesquisas fosse importante para empresários. Mas, não se engane, políticos adoram pesquisas de opinião. Claro que a exigência quanto à qualidade da pesquisa é função do quão importante é atender as preferências dos eleitores afim de ganhar uma eleição, por um lado, e da qualidade daqueles que ofertam as pesquisas, de outro. Não é coincidência que testemunhemos mais casos de perigosas amizades entre gente barra pesada do meio publicitário e políticos do que entre empresários e gente de agências de comunicação, não?

Aliás, isto nos faz pensar em outros problemas como os que tratei anteriormente, sobre liberdade de imprensa e liberdade econômica, mas isto é uma outra conversa (e é uma conversa antiga neste blog).

Finalmente…

Claro, o Teorema do Eleitor Mediano pode ser demonstrado também sob uma realidade multidimensional e o leitor interessado poderá achar mais em Ordeshook, Peter C. Game Theory and Political Theory – an introduction. Cambridge University Press, 1986.

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Confiante em seu futuro?

Gallup acabou de divulgar o índice de confiança econômica dos EUA, estado por estado. A boa notícia é que a notícia poderia ser pior. Em outras palavras, negativo, mas menos. Você pode visualizar o mapa aqui.

Confiança na economia, eu sei, é algo meio etéreo. Do que depende a confiança econômica? Em princípio, de uma infinidade – literalmente – de variáveis. Entretanto, é fácil ver que, com um pouco de correlação, descobre-se que a confiança nas condições econômicas, geralmente, tem a ver com…as condições econômicas, ora bolas! Eu diria que depende do que tem ocorrido e também do que se espera do futuro. Aliás, é assim que boa parte – senão todos – os índices de confiança do consumidor é feita.

Lá vamos nós!

A confiança do consumidor (ou do empresário, ou de um amostra de pessoas) na economia é o que podemos chamar de um índice antecedente no sentido de que ele antecede movimentos da economia. Agora, como a correlação nem sempre é bonita, com um ajuste de 100%, isto significa que a previsão que busca anteceder movimentos dos ciclos econômicos, supostamente dada pelo grau de confiança (ou por sua variação) também não é perfeita (leia o texto do Mark Thoma que citei acima). Veja, por exemplo, o caso do índice de confiança do consumidor da Fecomércio-SP (dados do IPEADATA).

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Quando observamos as variações deste índice em conjunto com as variações do IBC-Br (aquele índice de atividade econômica do Banco Central que, supostamente, é uma proxy do PIB), o que encontramos?

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Na melhor das hipóteses, a correlação é muito baixa. Mas, antes de jogar fora o bebê junto com a água, lembre-se que os dados podem conter movimentos sazonais que podem mascarar a relação (ou, para os mais próximos, o sinal) da correlação, caso haja alguma. Aliás, em nosso caso, veja o que acontece quando fazemos um exercício simples, supondo, ora que a confiança é exógena, ora endógena (respectivamente, colunas 1 e 2).

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Ok, percebemos que a sazonalidade existe (as variáveis SEASON…) e é significativa, mas a correlação entre as variações da confiança e da atividade econômica desaparecem (ah, depois que publiquei o texto: viu que a sazonalidade nem sempre parece importante quando você muda a variável dependente da regressão? Pois é, não é nenhum teste de exogeneidade, mas é uma boa dica de por onde você deve começar a se preocupar…). Você, com razão, vai me perguntar sobre o porquê disto. Bem, eu diria que há um problema básico nesta tabela que é a de que estamos ignorando a possível autocorrelação que cada uma destas séries, independentemente, pode possuir. Em outras palavras, é possível que o humor do consumidor, neste mês, seja fortemente relacionado com o próprio humor, no mês anterior. O mesmo vale para a atividade econômica.

Acabou a história? Posso entregar o relatório e ganhar nota alta?

Não tão rápido. Uma breve olhadela nas funções de autocorrelação destas variáveis nos diz que pode ser que este seja o caso.

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A atividade econômica, destacadamente, apresenta um padrão sazonal ainda, mesmo quando observamos a variações da atividade e não seu nível (veja lá a autocorrelação significativa existente nos dados na frequência de doze em doze meses). Algo mais fraco parece existir na confiança, de sete em sete meses.

Pausa para o lanche

Creio que se restou algum leitor por aqui, deve estar já com sono. Mas eis aí uma dica: neste exercício, simples, uma extensão é fazer um modelo ADL com estas duas variáveis. Claro, existe o problema de saber quem (variável exógena) causa quem (variável endógena). Quem conhece mais de séries de tempo poderá sugerir que você saia deste dilema usando uma abordagem de vetores autoregressivos e, bem, a conversa poderia ir mais longe, conforme sua curiosidade quanto à suposta existência de relação entre a confiança do consumidor – note bem, a confiança, não o consumo em si – e a atividade econômica do país.

Certamente, outras perguntas surgirão. Por exemplo: que confiança é esta? A confiança dos empresários é mais importante? O IBC-Br é, de fato, uma proxy da atividade econômica? Eu não deveria olhar os estoques, faturamento ou produção? E esta coisa toda de relacionar variáveis? Não deveríamos incluir mais algumas como a taxa de câmbio, a taxa de juros, etc?

Todas estas perguntas são legítimas, mas significam estender a idéia inicial em direções distintas. Meu objetivo aqui era só falar um pouco da relação entre confiança do consumidor e atividade econômica (e eu nem me aprofundei na metodologia de construção destas variáveis, note bem). Aproveitei para discutir um pouco de econometria aplicada e de que, como sempre, não se deve ser apressado em tirar conclusões com correlações. Aliás, correlação é coisa de aluno de 1o ou 2o ano de uma faculdade que leva 4 anos para se completar e, ainda assim, você sai com o diploma e não pode se arrogar conhecer todos os métodos econométricos.

No final disto tudo, paradoxalmente, talvez você fique mais confiante em seu futuro como economista. Afinal, reconhecer a humildade é, sim, botar os pés no chão. Olhando sempre para o alto e avante, mas com os pés no chão.