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Como um cão, um gato, um rato e a burocracia portuguesa geraram uma inimizade eterna? Você vai se surpreeender.

A última frase do título é besta, porque não tem nada mais ridículo, na era do Facebook, do que esta suposta “surpresa” que alguém possa ter em vídeos ou notícias. Mas a história diz respeito a uma folclórica estória que se contava em Pernambuco. Coletada por Sílvio Romero em Cantos Populares do Brasil (editora Itatiaia, 1985, p.114-115), ela mostra bem como, no Brasil, um pedaço de papel pode ser mais importante do que a infomalidade das pessoas.

De certa forma, isso me faz pensar se nosso problema não é o tipo de instituições (sempre no sentido Northiano…) que temos, não apenas se simplesmente temos alguma mas, então, estou divagando sobre um mero conto popular. Ei-lo, comentado (entre parênteses):

A Alforria do Cachorro

No tempo em que o rei francês
Regia os seus naturais,
Houve uma guerra civil
Entre os burros e animais.
Neste tempo era o cachorro
Cativo por natureza;
Vivia sem liberdade
Na sua infeliz baixeza.
Chamava-se o dito senhor
Dom Fernando de Turquia;
E foi o tal cão passando
De vileza a fidalguia.

(Ok, aqui temos a formalização da ascenção social do cachorro. Não basta, no Brasil, o critério econômico, é necessário que alguma “autoridade” assine…mas tudo bem…sigamos)

E daí a poucos anos
Cresceu tanto em pundonor,
Que os cães o chamaram logo
De Castela Imperador.
Veio o herdeiro do tal
Dom Fernando de Turquia,
Veio a certos negócios
Na cidade da Bahia.
Chegou dentro da cidade,
Foi a casa de um tal gato;
E este o recebeu
Com muito grande aparato.
Fez entrega de uma carta.
E ele a recebeu;
Recolheu-se ao escritório,
Abriu a carta e leu.
E então dizia a carta:

“Ilustríssimo Senhor
Maurício – Violento – Sodré –
Ligeiro – Gonçalves – Cunha –
Sutil – Maior – Ponte-Pé.
Dou-lhe, amigo, agora a parte
De que me acho aumentado,
Que estou de governador
Nesta cidade aclamado.
Remeto-lhe esta patente
De governador lavrada;
Pela minha própria letra
Foi a dita confirmada”.
Ora o gato, na verdade,
Como bom procurador,
Na gaveta do telhado
Pegou na carta e guardou.

(Até aqui, apenas o de sempre: o governador vai ao cartório, leva a carta e o tabelião, como sempre, guarda-a em algum lugar)

O rato como malvado,
Assim que escureceu,
Foi à gaveta do gato,
Abriu a carta e leu.
Vendo que era a alforria
Do cachorro, por judeu,
Por ser de má consciência,
Pegou na carta e roeu.
Roeu-a de ponta à ponta,
E pô-la em mil pedacinhos,
E depois as suas tiras
Repartiu-as pelos ninhos.
O gato, por ocupado
Lá na sua Relação,
Não se lembrava da carta
Pela grande ocupação.
E depois se foi lembrando,
Foi caçá-la e não achou,
E por ser maravilhoso
Disto muito se importou.

………………………………..

(Não sei quanto a vocês, mas, “judeu”? Fiquei imaginando se isso não é uma alusão aos cristãos-novos, que mudaram de “status” com a conversão. De qualquer forma, esta compliacação que é fazer de um cartório o templo da legitimidade aumenta os custos de oportunidade do tabelião que se esquece da carta e, quando a toma em mãos, dá conta do problema. Segundo a interpretação de Sílvio Romero, este é um fragmento de um romance popular que explica a inimizade entre cães, gatos e ratos. Bem, ironicamente, podemos dizer que, até nisso, o Brasil é burocrático: a origem do ódio se dá por um problema legal criado…no cartório. Há algo de irônico nisto tudo, não?)

A alforria do gato e do rato…um posfácio ao texto

Estava procurando uma imagem de gatos, ratos e cães para colocar aqui e, claro pensei em Tom, Jerry e Spike. Bem, eu não sabia, mas o desenho, em plena Guerra Fria, foi produzido, por um tempo, do lado de lá da Cortina de Ferro (é a fase dos desenhos mais toscos da série…).

In 1960, MGM revived the Tom and Jerry franchise, and contacted European animation studio Rembrandt Films to produce thirteen Tom and Jerry shorts overseas.[10][11][12][13]All thirteen shorts were directed by Gene Deitch and produced by William L. Snyder in Prague, Czechoslovakia.[10][13] Štěpán Koníček, a student of Karel Ančerl and conductor of the Prague Film Symphony Orchestra, and Václav Lídl provided the musical score for the Deitch shorts, while Larz Bourne, Chris Jenkyns, and Eli Bauer wrote the cartoons. The majority of vocal effects and voices in Deitch’s films were provided by Allen Swift.[14]
Deitch states that, being an animator for the United Productions of America (UPA), he has always had a personal dislike of Tom and Jerry, citing them as the “primary bad example of senseless violence – humor based on pain – attack and revenge – to say nothing of the tasteless use of a headless black woman stereotype house servant.”[15] He nonetheless admired the “great timing, facial expressions, double takes, squash and stretch” that were present in the Hanna-Barbera Tom and Jerry cartoons.[16]
For the purposes of avoiding being linked to Communism, Deitch altered the names for his crew in the opening credits of the shorts (e.g., Štěpán Koníček became “Steven Konichek”, Václav Lídl became “Victor Little”).[15] These shorts are among the few Tom and Jerry cartoons not to carry the “Made In Hollywood, U.S.A.” phrase on the end title card.[15] Due to Deitch’s studio being behind the Iron Curtain, the production studio’s location is omitted entirely on it.[15] After the thirteen shorts were completed, Joe Vogel, the head of production, was fired from MGM. Vogel had approved of Deitch and his team’s work, but MGM decided not to renew their contract after Vogel was fired.[15] The final of the thirteen shorts, Carmen Get It!, was released on December 1, 1962.[11]

Não é incrível o que os mercados fazem? Derrubam até barreiras ideológicas…

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Cultura e o Saci-Pererê: seja criativo e pare com a xenofobia, mané!

O Saci-Pererê não precisa de lei para aparecer, seu estúpido!

Na Wikipedia menos viesada, que é a de língua inglesa, Cultura aparece assim:

The term “culture,” which originally meant the cultivation of the soul or mind, acquires most of its later modern meanings in the writings of the 18th-century German thinkers, who were on various levels developing Rousseau‘s criticism of ″modern liberalism and Enlightenment″. Thus a contrast between “culture” and “civilization” is usually implied in these authors, even when not expressed as such. Two primary meanings of culture emerge from this period: culture as the folk-spirit having a unique identity and culture as cultivation of waywardness or free individuality. The first meaning is predominant in our current use of the term “culture,” although the second still plays a large role in what we think culture should achieve, namely the full “expression” of the unique or “authentic” self.

Pois é. Complicado, não? Eu gosto da dicotomia apontada porque, na verdade, ela nos aponta uma síntese do que realmente é a cultura: algo que emerge da ação não-planejada das pessoas. Vá atrás de nosso folclore, por exemplo, com as obras de Luís da Câmara Cascudo, e você verá o quanto nossa cultura não é geograficamente determinada, mas fruto de uma interação anárquica de “culturas” várias, relativas às várias tribos de índios que tínhamos, os vários africanos e as culturas portuguesas das diversas regiões de Portugal.

Neste blog, muitas vezes, apresentei – e apresento – evidências de que “cultura” seja algo importante no estudo do Desenvolvimento Econômico, sempre ressaltando que: (a) é necessário definir uma variável como esta operacionalmente, o que implica abrir mão de sua complexidade até algum grau, (b) é um conceito dinâmico, não estático.

Os coxinhas intervencionistas querem matar nossa criatividade? Querem. Mas como são habilidosos…

Então, neste sentido, eu vejo com desdém uma manifestação que poderíamos chamar de manifestação coxinha, no sentido que alguns infelizes resolveram dar ao delicioso salgadinho. Estes mesmos infelizes, ocorre, também são, via de regra, fortemente xenófobos com relação a alguns países (ou seja, são hipócritas neste aspecto porque xenofobia vale para todos, não?). A manifestação coxinha atrai também alguns incautos que não compram este discurso, mas, no caso da cultura, sentem-se bem consigo mesmos pela sensação de que estariam “defendendo a cultura nacional”.

Que manifestação é esta? É a guerra cultural – ainda de proporções infantis – contra o halloween. Ora bolas, se as pessoas gostam da festa norte-americana, vamos aproveitar! É bom para a economia, é bom para a família, é bom para a cultura! Os adeptos do nacionalismo tacanho, contudo, protestam: “e o folclore nacional”? Simples, né? Fantasie-se de Saci, Bumba-meu-Boi, Aiocá, Ipupiara, Jurupari, Kilaino, Boitatá, Minhocão. Crie um grupo de Caboclinhos, vá cantar e dançar no estilo Cururu, ou dance a Marrafa. Como? Você não conhece metade do que eu disse? Então pára de xenofobia, meu caro! Muito de nossa cultura desapareceu, modificou-se ou sobreviveu (modificada ou não). Simples assim. Vou repetir: cultura não é um conjunto congelado/fossilizado de figuras que você conheceu quando era criança. Acorda, cara! Estamos no século XXI!

Cultura é mais do que pensam (sic) os coxinhas intervencionistas! Viva a Ordem Espontânea!

O conceito de ordem espontânea de Hayek é, creio, o ideal para se entender meu ponto. Embora muita gente queira que o governo comande suas vidas até no que podem ou não manifestar, culturalmente (olha o tamanho da contradição nesta frase!), o certo é que a cultura é uma manifestação espontânea, leitor(es). Surge e sobrevive conforme os usos e costumes do povo, não de cima para baixo. Trata-se, portanto, de um conjunto de valores, crenças que surge espontaneamente e, se aceita por todos, prevalece, não sem modificações, ao longo do tempo. Como diria meu amigo Burian: “- É a vida”.

O que me enerva nestas queixas é a confissão de que o povo brasileiro, famoso por sua criatividade, sua capacidade de mesclar culturas, hábitos, etc, empobreceu. Vai ver recebeu tanto subsídio do governo e tanta ordem de cima para baixo que perdeu sua vibrante capacidade de criar. Estamos mesmo reduzidos a xenófobos ranzinzas que não podem ver uma influência “estrangeira” que já ficamos incomodados? Justamente este país que não existiria sem japoneses, chineses, libaneses, judeus, portugueses, alemães, italianos, ingleses, norte-americanos, etc? Sério mesmo?

Provavelmente é exagero meu, mas é o que sinto ao ler certas manifestações por aí, na internet.

Ofensa educativa: deixa de ser Papangu!

Quer saber? Deixa de ser Papangu! Parece até que quer ver o Pinto Piroca!! Calma, leitor(a). Pinto Piroca é uma ‘visagem’ amazônica. Como nos explica Cascudo em seu etern(izad)o dicionário do nosso folclore:

Um habitante de Jocojó assim o descreveu: – Ninguém ainda viu o Pinto Piroca, mas de vez em quando a gente ouve o seu pio. Dizem que ele se parece com um pinto gigante com o pescoço pelado, mas ninguém sabe direito. Nossos pais é que contavam assim. A gente repete o que eles diziam. Os velhos sabem melhor que a gente. O Pinto Piroca é tratado como as outras ‘visagens’, o melhor é evitar a sua aproximação, fazer qualquer zoada ou provocação. As crianças aprendem desde cedo a comportar-se diante das ‘visagens’ para não atrair a sua malignidade (…). [Cascudo, L.C. Dicionário do Folclore Brasileiro, 12a ed, 2012, Global Editora, 564]

Pois é, leitor. Cuidado para não confundir nosso Pinto Piroca com a festa da fertilidade japonesa lá de Kawasaki. Estamos falando de outra(s) cultura(s).

Concluindo: seja mais empreendedor e menos passivo. Transforme o halloween – que veio para ficar – em uma festa divertida. Crie novas tradições! Momentos vibrantes na história de um país são aqueles nos quais seu povo trata sua cultura como uma criação constante, que se renova, modifica e que é tudo menos uma tradição ou, como talvez diria Hayek, a única tradição aqui seria a de potencializar ao máximo a quebra das tradições conforme a ação desordenada e criativa das pessoas.

Eis porque sou liberal, a despeito de tudo. Ah sim, viva o Saci-Pererê!

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Isso são outros quinhentos, meu caro banco central…

Outros quinhentos, segundo Câmara Cascudo, diz respeito a:

A partir do séc.XIII os fidalgos de linhagem na Península Ibérica podiam requerer satisfação de qualquer injúria, sendo condenado o agressor em 500 soldos. Quem não pertencesse a essa hierarquia alcançava apenas 300. Compreende-se que outra qualquer vilta, vitupério sem razão, posterior à multa cobrada, não seria incluída na primeira. Matéria para novo julgamento. Outra culpa. Outro dever. Seriam evidentemente, outros quinhentos soldos.[Luís da Câmara Cascudo – Locuções Tradicionais no Brasil, Itatiaia, 1986, p.41]

Fidalgos de linhagem adoram cobrar por injúrias, não? Veja, não sou eu quem diz, mas Luís da Câmara Cascudo, o grande folclorista brasileiro.

Ah, a fidalguia nobiliárquica…tão sensível…
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Momento Folclórico do Dia (intervalo)

10. O Caboclo Namorado (Sergipe)

Um caboclo dizia sempre a uma senhora que via à janela: Bom dia, meu cravo! Sabendo, o marido fê-la responder: – Bom dia, meu amor! e convidá-lo para voltar durante a noite. Fingindo-se surpreendida pelo marido a mulher esconde o caboclo debaixo da cama que está cheia de urtigas. Inchado de coçar-se, ferido pelos espinhos, o caboclo geme e remexe-se. O marido pergunta: – Quem está aí debaixo da cama? – O caboclo responde: É o cachorro! – E cachorro fala? – Muito aperreado fala – disse o caboclo. O homem obrigou-o a sair, deu-lhe uma sova de chibata e mandou-o carregar água para os depósitos da casa durante o resto da noite. Depois deixou-o sair. Pela tarde de um outro dia, vendo o caboclo, a mulher cumprimentou-o: – Boa tarde, meu cravo, boa tarde, meu amor! O caboclo respondeu, ainda furioso com as chibatadas e as urtigas:
Não sou seu cravo
Nem seu amor.
Tempo de escravo
Já se acabou!
[Sílvio Romero, Contos populares do Brasil, Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, 1985 (original da 2a ed. de 1897), p.186]

Sou só eu que acho que a única a ganhar nesta história foi a esperta da mulher? Afinal, o marido, ofendido pela “insinuação”, gastou um tempo com o caboclo que, nem se comenta, dançou bonito. A mulher, bem, a mulher escondeu o caboclo embaixo da cama com o consentimento do marido e não levou sova por dar mole ao jovem.

Ah, o folclore…dia destes farei um texto no estilo destas narrativas para explicar um problema de maximização. ^_^…