Tudo o que você gostaria de saber sobre o Bolsa Família, mas não tinha coragem de perguntar

Novo artigo com dois amigos de alto nível sobre o Bolsa Família recém-publicado. Trata-se de um survey e, por isso, o título bem-humorado (e verdadeiro, creio) deste post.

Anúncios

Educando os pais

Na biografia do Mussum (vários momentos aqui), um trecho que me chamou a atenção, logo no início do livro, é quando o autor descreve como o famoso sambista se alfabetizou e, quase ao mesmo tempo, alfabetizou a mãe. É um dos trechos mais bonitos do livro.

Bem, ele não é uma exceção. Tomando como base este artigo, para o Brasil, alfabetização é muito importante para quem é muito pobre.

Este trabalho tem por objetivo investigar a possível existência de um benefício positivo da educação das crianças em idade escolar para os adultos analfabetos, inseridos no Programa Bolsa Família, em decorrência das condicionalidades educacionais do Programa. Buscam-se sinais de externalidade da alfabetização no sentido dos filhos para os pais/adultos analfabetos, no quesito rendimento do trabalho. Utiliza-se o modelo de seleção de Heckman para corrigir o problema de autosseleção dos indivíduos em participar do mercado de trabalho. Os resultados apontam que os pais/adultos analfabetos, beneficiários do Programa Bolsa Família (PBF), e que residem com ao menos um filho alfabetizado recebem, em média, 10,96% a mais do que os pais/adultos analfabetos, beneficiários do PBF, que não residem com filhos alfabetizados.

Legal, né?

Bolsa-Família e eleições: artigo novo publicado!

Tema quente, não? Desde nossa primeira contribuição (cuja citação é sempre um problema, uns citam em ordem alfabética e meu amigo André Carraro fica feliz, outros seguem a sugestão do journal original, e eu fico feliz, etc), o tema volta a me assombrar de tempos em tempos. Não só a mim, mas quem quer que olhe a blogosfera (veja o Carlos Cinelli no Análise Real, o blog do Estadão, etc) sabe que o assunto é polêmico.

Nos últimos anos, trabalhei junto com o Nakabashi e com a Ana e, posteriormente, com o Felipe, numa sequência colaborativa que resultou em uma versão inicial, então, em nosso último artigo publicado.

Meus alunos de Econometria III de um ou dois semestres atrás tiveram acesso a uma das versões preliminares e, com prazer, agora posso lhes mostrar a versão definitiva.

O tema, como sabemos, é popular e a análise empírica é sempre polêmica. Bem, este foi um artigo que deu bastante trabalho.

dilma_bf

Economia da Educação: e o ensino técnico?

Mercado de trabalho e ensino técnico: quais são as evidências para o Brasil? Três autores exploram isto em um texto interessante, aqui. Eis o resumo:

Este trabalho utiliza uma base de dados ainda não explorada na literatura de economia da educação para investigar o impacto do ensino técnico sobre variáveis de mercado de trabalho. Os dados, estruturadas em painel, permitem utilizar diferenças em diferenças com efeito fixo do indivíduo aliado com variáveis instrumentais para lidar com os tradicionais problemas de endogeneidade nesse tipo de trabalho. As Estimações são realizadas para diversas subamostras para captar eventuais efeitos heterogêneos. Os resultados apontam que há impacto, notadamente sobre ocupação (principalmente entre as mulheres) e salários (com maior intensidade entre os homens).

Aí está, pessoal, mais um pouco de econometria aplicada.

A Copa do Mundo é boa ou ruim para a economia do país?

Bem, vejamos o que diz o Gallup:

Brazilians’ hopes are likely high Friday as their national team faces Colombia in the quarterfinals of the World Cup. Shortly before the tournament began, however, the Brazilian public was rather skeptical about the economic benefits of hosting the most expensive World Cup in history. In May, 55% of Brazilians said the World Cup will hurt the Brazilian economy, while 31% believed that it will help.

Pois é. O pessoal tem um palpite de que a Copa não é tão boa assim para a sociedade brasileira. Bem, caso você pense que nós, economistas, não temos nada com isso, dê uma espiada na lista de trabalhos aprovados para a ANPEC regional do sul deste ano. Lá você encontrará um trabalho que busca responder a pergunta do título deste post. O título do artigo é: Impacto Econômico da Copa do Mundo: Uma Avaliação pelo Método de Controle Sintético e seu autores são: André Carraro, Claudio Shikida, Felipe Garcia, João de Araújo, Vinícius Halmenschlager.

Resumidamente, o que nós fazemos é avaliar o impacto da Copa do Mundo sobre o PIB per capita do país ao longo dos anos após o evento, no período de 1990 a 2006. A análise incluiu as copas realizadas na Itália, Estados Unidos, França, Coréia do Sul, Japão e Alemanha. Mas além do PIB per capita, resolvemos também analisar a trajetória dos gastos de turistas no país-sede. O que foi que encontramos?

Conforme a literatura dos megaeventos, não há ganho significativo para o PIB per capita dos países-sede. Para o caso de Alemanha e Japão, encontramos que gastos de turistas aumentaram após a realização do evento, o que pode ser uma evidência de que há algum ganho na formação da poupança externa dos países-sede.

Repare que nossa análise foi individualizada, i.e., fizemos o mesmo estudo para cada país-sede, o que nos permitiu obter resultados desagregados. Assim, por exemplo, nossas estimativas nos dizem que o ganho de gastos em turismo na Alemanha foi de US$ 23 bilhões no período 2005-2010. Para o Japão obtivemos que este ganho foi de US$ 32 bilhões no período 2003-2009. Estes efeitos, claro, foram obtidos já livres de outras influências que, esperamos, foram controladas na construção de nossos contrafactuais.

O artigo ainda está sob revisão – pretendemos fazer mais algumas brincadeiras – mas se você queria uma resposta preliminar sobre os impactos da Copa do Mundo sobre a economia, aí está. Talvez os resultados da pesquisa do Gallup estejam nos dizendo mesmo algo sobre os impactos econômicos deste megaevento. Além disso, para terminar este texto com tristeza, é muito desagradável ver que a pressa em cumprir o desejo do ex-presidente da Silva possa resultar em desastres como este (veja o vídeo abaixo com o exato momento em que uma obra do PAC da Copa se transforma em tragédia).

Mais Abenomics

Em alguns dos últimos posts eu falei um pouco da Abenomics. O leitor já notou que estou usando o tema como um exemplo didático para quem realmente acredita que o professor pode ensinar fora da sala de aula. Digo “realmente” porque tem uns alunos que adoram usar a internet, mas não conseguem saber o que é, digamos, a Wikipedia ou onde fica a seção de downloads do IBGE.

Mas nossos leitores são um pouco mais loucos e interessantes do que a massa comedora de brioches que infesta nosso Febeapá (que, por sua vez, infesta nosso país, como nos disse o saudoso Stanislaw Ponte Preta). Hoje, vou aproveitar para citar rapidamente um pequeno artigo que bem poderia ser usado por alguns mais chegados em dados de painel. O artigo é de Toshihiko Hayashi e foi publicado no último número do International Advances Economic Research que é um dos dois journals da International Atlantic Economic Society. Acho que o journal não tem um fator de impacto muito alto, mas, enfim, é um lugar bom para se encontrar alguns artigos pequenos, de leitura rápida e, muitas vezes, interessante.

Abenomics, novamente!

Assim, do que trata Hayashi (2014)? Cito o resumo (abstract):

Abstract: This study is an attempt to assess the impact of policy initiatives launched by Japan’s new Prime Minister Shinzo Abe on Japan’s real gross domestic product (GDP) in his first quarter in office. We use as a benchmark for measurement a counterfactual estimate of GDP. Since the Japanese economy is also in the midst of reconstruction from the 2011 Tohoku disaster in the first quarter of 2013, we first estimate the counterfactual GDP that would have materialized in the absence of that disaster. We will use a dummy variable method and the statistical method proposed by Cheng Hsiao and others. We check the validity of these methods with regard to the Kobe earthquake of 1995 and then estimate the post-disaster counterfactual GDP in the absence of the Tohoku disaster. We measure the impact of government policies as the difference between the actual and counterfactual GDP. By doing so, we conclude that government policies have failed to lift Japan’s GDP to the expected level. Even with the help of Abenomics, the gap remains in the range of 6 to 14 trillion yen per year.

Para alguns leitores, imagino, a novidade é o termo contrafactual, um conceito que eu diria “inventado” por Robert Fogel para estudos similares a este, em História Econômica e que, hoje, é a moda do pessoal que faz análise de políticas públicas. Há um belo texto, já citado aqui, que faz um contrafactual sobre a economia cubana. O contrafactual, naquele caso, é: como teria sido o desempenho da economia cubana caso não tivesse havido a implantação da ditadura de Castro (uma versão do artigo, de 2011, é esta)?

É óbvio que não é simples construir um contrafactual e há diversas metodologias disponíveis para tal (eu recomendo o estudo do Felipe, Thomas e Stein, inclusive, pela inovadora forma como tratam do tema). Isto sem falar no aspecto temporário ou permanente de grandes choques naturais.

A pergunta de Hayashi (2014) faz todo o sentido. Afinal, ao lançar sua política, o governo japonês já se empenhava na reconstrução do país, gerando estímulos do lado da demanda. Logo, como distinguir entre este incentivo e o outro gerado pela política de Abe? Afinal, no mundo real, ceteris paribus é difícil de se ver e, claro, é importante demais para não ser trabalhado (de certa forma, os controles em uma regressão têm esta função, creio).

As três flechas

Já citei aqui, brevemente, alguns pontos. Mas o autor faz um ótimo resumo sobre a política.

The policy program consists of “three arrows,”a well understood reference to a legendary saying of a medieval lord to his three sons: a bundle of three arrows is unbreakable even though each one may be snapped individually. Prime Minister Abe’s three-arrow agenda consists of: 1) putting pressure on the Bank of Japan (BOJ) to launch unprecedented monetary easing, 2) a deficit-financed budget with a focus on public works spending, and 3) a deregulation program for growth to encourage private investment.

Em poucas palavras, não parece ser algo muito diferente de uma política expansionista comum, não? Claro, acrescida de uma leve reforma microeconômica (o ponto (3)) para acelerar o investimento privado, o que tem consequências não apenas na demanda agregada, mas também na evolução do estoque de capital do país, portanto, na oferta agregada (não é à toa que Krugman e Stiglitz estejam, por assim dizer, enamorados desta política).

Este artigo na Business Insider, fornece-nos um útil diagrama explicativo da Abenomics (ironicamente, as flechas são os quadrados de borda dupla):

Acho que este diagrama nos ajuda um bocado, em termos dos grandes efeitos esperados. Mas não vi ali a taxa de juros. De qualquer forma, ontem eu comentei um pouco sobre o tema, e tentei resumir alguns dos argumentos em termos de um modelo intertemporal simples. Mas, claro, Hayashi (2014) já tinha feito um resumo muito mais breve. Repare na observação sobre a taxa de juros real no final do trecho (ontem eu falei um pouco sobre isto, mas pensando no consumo):

In academia, the bureaucracy, and financial institutions, people started to talk about confidence and expectations intilled by Abenomics. They point to the possible channels through which the capital market hype will trickle down to the markets for goods and services; the collateral effect and the asset effect. With improved balance sheets, companies would be willing to invest in plant and equipment because they could afford to take larger risks. Besides, the real interest rate is expected to go down even further.

Ah, o mercado de capitais, as expectativas e todo aquele papo que tantos alunos acham inócuo sobre os mecanismos de transmissão entre a política monetária e o mercado de ações. Ironicamente, um dos artigos mais importantes sobre o tema é o de Fumio Hayashi, sobre “q” de Tobin. Mas, veja, expectativas não são apenas um fetiche de macroeconomistas (eu diria, um fetiche microfundamentado…). Em um país como o Japão, preços de terrenos podem já incorporar a expectativa de catástrofes naturais, não? Em outro artigo, o prof. Saito e seus associados, por exemplo, nos dizem que (grifos meus):

In this paper, we explore how asset pricing reflects public perceptions of earthquake risk using officially appraised prices of land situated along the Uemachi fault, lying along a north-south axis in the east of Osaka prefecture in Japan. We find that active fault risk has been included significantly in land pricing, only since residents and even policymakers first realized considerable earthquake risk involved in the land along the Uemachi fault by observing that in January 1995, the earthquake driven by the Rokko-Awaji fault had catastrophic damages on the southern part of Hyogo prefecture. We estimate that nonresidential land prices along the Uemachi fault are discounted by 4 percent for every 100 meters closer to the fault line.

Ou seja, não é tão simples assim, não é? Dá uma olhada no artigo dele para descobrir mais coisas interessantes sobre o tema dos desastres naturais e preços da terra.

Concluindo

Hoje aprendi um pouco mais sobre a Abenomics. A pesquisa por alguns artigos e notícias já me rendeu um pouco de material que necessita ser digerido para poder entender um pouco melhor o que se passa lá. Uma coisa, entretanto, já ficou clara: é apenas uma política macroeconômica expansionista no estilo keynesiano/monetarista tradicional do termo. A sensação que fica é que sem as desregulamentações do lado da oferta, ela terá fôlego curto e não adianta fazer discursos nacionalistas porque pessoas aprendem e expectativas podem mudar muito rapidamente (como vimos no texto do Prof. Saito sobre desastres naturais citado acima).

Sim, comentários são bem-vindos.