Argumentos ruinzinhos rapidamente refutados por Don Bodreaux

Um número expressivo – e angustiante – de autores sustenta que a aparente recusa à intervenção por parte do governo seria, na verdade, apenas uma forma diferente de intervenção. Eis um exemplo: o economista Warren Samuels escreve que a desregulamentação é simplesmente a regulamentação governamental realizada por meio do fortalecimento dos direitos à propriedade privada, ao invés da edição de decretos burocráticos. De acordo com Samuels, apenas os inocentes acreditam que quando o governo desregulamenta, reduz sua influência sobre a economia.

Ou então considere a insistência de Louis Hacker em dizer que “a idéia do laissez faire é uma ficção. Já que o Estado, através da ação negativa – ou seja, pela recusa de adotar certas políticas – pode afetar os acontecimentos econômicos de forma tão significativa quanto quando intervém.”

Bem, é verdade – da mesma forma que eu, ao não guiar meu carro pela calçada cheia de pedestres, posso afetar os acontecimentos de forma tão significativa quanto como se eu fosse utilizá-lo para matar pedestres.

Vale toda a leitura.

Rudimentos pré-cambrianos do raciocínio econômico do sr. da Silva

Finalmente o presidente tentou dizer algo sobre o funcionamento dos mercados. Como diria uma certa Marilena, quando o excelso operário abre a boca, tudo o mais perde a graça. Pois bem. Vejamos o que ele disse.

Para o presidente, a sociedade também tem instrumentos para combater a alta dos preços. “Na medida em que perceba que um determinado produto está subindo muito de preço, o povo precisa deixar de comprar aquele produto para que ele volte a um preço normal”, afirmou Lula no programa semanal de rádio “Café com o Presidente”.

O sr. da Silva começou bem. Primeiramente, caem por terra os argumentos típicos da mentalidade de muitos pterodoxos do partido do sr. da Silva (veja só, aí sim, PTerodoxos) de que microeconomia não é importante, mas sim a macroeconomia e, veja lá, só com uma oferta agregada paralela ao eixo do produto porque, afinal, inflação não é um problema.

Mas, como dizem, quem tem fome, tem pressa …e a pressa é inimiga da perfeição. Então, nosso presidente se refugiou nas primeiras páginas de algum livro-texto decente de economia (aqueles nos quais há mercados em equilíbrio). Falou da oferta e da demanda. Corretamente, percebeu que o problema está no preço de equilíbrio. Só escorregou em um detalhe: o impacto não é só função de deslocamentos das curvas, mas sim de deslocamentos sobre as curvas e, neste caso, o resultado pode ser cruel. Por que?

Porque existe a famigerada elasticidade-preço da demanda. Assim, ao sr. da Silva faltou apenas continuar sua leitura dos bons manuais. Ao menos um passo já foi dado. Vejamos se ele, com o mesmo esmero, lê algo sobre Escolha Pública e rent-seeking. Digo, lê e fala em seu programa no qual toma café com o ouvinte.

Avanços marginais nos tiram do pré-cambriano para o quase-cambriano. Manterei o radar em alerta.

p.s. o ghostwriter do líder máximo parece ter se tocado de que direitos de propriedade são importantes. Quase explicitamente.

Economia dos EUA cresce: colunistas astrólogos em dificuldades quanto à tal crise mundial do capitalismo

Aquela galera que confunde curto com longo prazo sem muito fundamento econômico vai ter que explicar como os monopólios frios e calculistas dos EUA conseguiram entrar em uma nova era de crescimento econômico sustentável.

p.s. quando o crescimento econômico dura, dizem os não-liberais, o capitalismo avança e aí o socialismo é inevitável (Schumpeter comprou este peixe, diga-se de passagem). Por outro lado, quando o capitalismo não avança, o socialismo é inevitável (por conta do ditador bolivariano Mao Zedong). Depois Prouhdon é que não faz socialismo “científico”, né?

A culpa é do consumidor!

Segundo esta notícia, em breve ouviremos discursos de empresários contra os consumidores: graças a vocês, que consomem “supérfluos” (segundo nossa iluminada capacidade de discernimento entre bens supérfluos e essenciais), a indústria terá déficit.

Claro que se houver empresário idiota, este discurso aparecerá na imprensa. Contudo, é mais comum culpar o governo. Neste caso, o discurso se transforma em: “graças às políticas do governo, que aumentaram a renda do consumidor, agora teremos déficit”.

Mas, espere, no final do dia, será que a culpa não é dos próprios empresários que pagam salários para os trabalhadores que, por sinal, consomem? Se o discurso chegar a este ponto, provavelmente os empresários terão um problema pois são os mais famosos frequentadores dos vôos internacionais (e sempre voltam com seus ipods novinhos do exterior).

Talvez não exista nenhum problema nos déficits, exceto na cabeça dos grupos de interesse específicos, que se vendem sempre como “setores estratégicos” (ou mesmo “sindicatos de trabalhadores…de setores estratégicos”) para seus pagantes. Evidentemente, o futuro do país pode não ser exatamente o que estes setores desejam, mas são eles mesmos os responsáveis pela dinâmica da economia. Quando muito, o governo não atrapalha ou piora as coisas fazendo…políticas industriais (a famosa “escolha dos que receberão subsídios”).

É interessante parar para pensar nestes tópicos antes de engolir o discurso tecnocrático dos burocratas governamentais, sempre ciosos dos interesses de seus visitantes em Brasília, o discurso empresarial exemplificado acima e o dos sindicalistas que sempre arrumam um jeito de colocar a culpa em todos os que não se filiaram a seu clubinho.

Café com o Economista – Brevíssimo

Caro sr. da Silva,

Li que o senhor ficou muito chateado – e até bravo, eu diria – com o fato de que o fim da CPMF não se traduziu em queda dos preços. Entendo sua frustação, já que o senhor não deve ter conversado com bons economistas antes de fazer esta declaração.

Mas, sr. da Silva, veja, eu também tenho uma queixa. Mesmo que ignoremos sua declaração, não é que a  arrecadação do governo aumentou, inclusive, com o aumento da alíquota do IOF para algumas transações? Como é que o senhor espera que os preços caiam? Alguma mágica? Alguma fórmula que seus amigos bolivarianos sopraram em seus atentos ouvidos?

Sr. da Silva, espero que não se ofenda, mas trocar um imposto por outro e dizer que isto implicaria em quedas de preços é algo que nem seus mais profundos admiradores pterodoxos têm coragem de dizer em público. Uns porque sabem que está errado e outros, claro, porque acham que está certo mas desconfiam que podem estar falando besteira.

Para concluir, friso que não tive, nem de longe, a intenção de fazer um modelo de equilíbrio geral mais detalhado para tentar estimar o impacto líquido da substituição da CPMF pelo aumento da alíquota do IOF em todos os mercados para melhorar a qualidade do meu argumento. Mas, cá para nós, o senhor também não fez isto, né?

Atenciosamente,

Claudio

Etanol e você

Blaming ethanol is an effort to divert attention from soaring oil prices, which bear far more responsibility for high food costs, Dinneen said. He argues that ethanol lowers the price of gasoline and therefore has a positive effect on food prices.

Corn producers say they are wrongly accused of profiting from the crisis. “We’ve been in a situation of ‘exactly when was it that you stopped beating your wife?’” said Jon Doggett, vice president for public policy at the National Corn Growers Association. “Our members are frustrated.”

High commodity prices are not playing a significant factor in the food price spikes, he said. “We are trying to explain to folks how little corn is in a box of corn flakes.”

He also pointed to hedge funds, saying they drive up prices through speculation.

While lobbyists — and economists — disagree about the impact of ethanol, most experts seem to agree that the biggest factor in the price hikes is the rising demand for food by China, India and other countries with booming economies.

Etanol, preços dos alimentos, etc. O que você acha disto? Leia a notícia toda.

Caplan e a gasolina

Byran Caplan e os bons motivos para uma proposta que nenhum candidato norte-americano teria coragem de repetir (porque franqueza não é o forte dos políticos, como vemos aqui, onde, sob ditadura ou democracia, mente-se a vontade).

Notícias estranhas

O simpático “Refém do Estado” chama a atenção para uma notícia interessante. Vamos à reprodução:

Esse país realmente é uma maravilha. Olha que lindo:

Aluno é condenado por criticar coordenadora.

Ele disse que ela era péssima. Tadinha. Deve ter ficado uma semana sem dormir.

Agora tá explicado porque tem tanto aluno defendendo o professor Carlão. Se alguém disser que ele é péssimo é capaz de pegar a cadeira elétrica.

Se você seguir o link, descobrirá que o aluno criticou a coordenadora – segundo consta a notícia – chamando-a de “péssima coordenadora”. Em seguida, o aluno processado me vem com esta de que a culpa da multa é da “mercantilização do ensino”.

Outro que troca os pés pelas mãos, pelo visto. Vamos ao que penso.

Primeiro, parece-me razoável que assuntos internos a uma empresa privada sejam resolvidos entre os envolvidos. É muito mais barato, inclusive, para todos, se ambos chegam a um acordo. Normalmente é assim que funciona. Vamos supor que o aluno realmente apenas chamou a coordenadora de “péssima”. Não acho que seria um motivo para processo. Usar a Justiça para resolver qualquer probleminha é típico do pensamento não-liberal que, ao contrário do que diz, desconfia das pessoas e sempre insiste em algum suposto “direito adquirido” porque “é preto (ou afro-descendente, vá lá)”, “é pobre”, “é socialmente bonito”, etc. Quando a lei é criada para grupos específicos, aumenta o risco de diminuição das liberdades individuais, inclusive a do aluno ou da professora envolvidos.

Então, inicialmente, eu acho que crítica não é o problema mas não acho que uma crítica destas gere tamanha comoção. Ou há algo mais ou a professora, como diz o “Refém”, pisou na bola fortemente pois acredita que o Estado deve resolver pendengas cujo custo é predominantemente privado, com poucas externalidades.

Por outro lado (o famoso “em segundo lugar…”), não é possível entender o argumento do aluno. Quer dizer que ele ser processado é culpa da “mercantilização do ensino”? A notícia não nos dá mais detalhes mas até onde sei, a Justiça é um monopólio do Estado. A queixa é tão estapafúrdia que ignora outras características que também são de responsabilidade individual. Vejamos, se eu sou contra o ensino pago, por que eu faria um vestibular de uma faculdade privada? Uma vez aprovado, por que eu me matricularia lá? Não faz sentido. Aliás, como já disse aqui ontem ou anteontem, o ensino universitário privado cumpre um papel social importante. Se você não gosta de uma faculdade privada, esforce-se para estudar em uma universidade pública.

De tudo isto, só há o que lamentar. A lei não deveria ser invocada para resolver problemas onde as externalidades são desprezíveis (ou então o jornal não nos contou tudo sobre a queixa do aluno anti-mercado). Por outro lado, a queixa do aluno – se realmente é apenas o que diz a notícia – passa longe da argumentação lógica e mostra um ódio pela faculdade que o aceitou como aluno que poderia ser resolvido de forma muito mais simples com o bom e velho mecanismo Tieboutiano.

Argumento de autoridade

Acho que esgotei minha quota de argumentos de autoridades por hoje…

Há duas formas de se “incrementar o debate”: falando asneira ou falando algo inteligente. Qual você prefere?

Tem gente que gosta de dar valor a asneiras.

As Nações Unidas incrementaram o debate global em torno da crescente inflação dos alimentos e alertaram que o aumento dos lucros proporcionados pelas exportações agrícolas está beneficiando menos os agricultores dos países em desenvolvimento e mais as agroindústrias processadoras de matérias-primas, as tradings e as grandes redes de supermercados.

Não é um parágrafo difícil de ler sem se sentir incomodado?