Uncategorized

A microeconomia de Mano Menezes

A gente fala de microeconomia, ensina, mas nem todos captam a mensagem. Um exercício clássico de primeiro período do curso é falar do efeito da expectativa de preço sobre a demanda. Todo mundo sabe que se aumenta há uma expectativa de aumento de preço da gasolina, o resultado é o aumento imediato da demanda pelo produto.

Ok, agora, veja este ótimo trecho da entrevista de Mano Menezes para Jihan Kazzaz, na Cruzeiro, ano XX, n.135, revista oficial do Maior de Minas. Jihan o pergunta sobre se ele gostaria de comentar acerca de possíveis contratações. Eis a resposta:

Não é inteligente fazer isso, pois se nós temos interesse em algum jogador e citamos seu nome, nós estamos valorizando seu passe e dificultando a negociação. [Cruzeiro, ano XX, n.135, Setembro a Dezembro de 2016, p.9]

Mano nos explica exatamente o efeito da expectativa. Há um valor de equilíbrio do passe do jogador e, com a divulgação de boatos de que o mesmo é desejado por este e/ou aquele time, temos um deslocamento da demanda para a direita e para o alto, aumentando o valor do passe.

Mano Menezes acabou de dar uma aula de Economia.

Uncategorized

Curva de Phillips, sempre.

Dizem Machado & Portugal (2014):

This paper estimates reduced-form Phillips curves for Brazil with a framework of time series with unobserved components, in the spirit of Harvey (2011). However, we allow for expectations to play a key role using data from the Central Bank of Brazil’s Focus survey. Besides GDP, we also use industrial capacity utilization rate and IBC-Br, as measures of economic activity. Our findings support the view that Brazilian inflation targeting has been successful in reducing the variance of both the seasonality and level of the inflation rate, at least until the beginning of the subprime crisis, when there was a dramatic drop in activity. Furthermore, inflation in Brazil seems to have responded gradually less to measures of economic activity in recent years. This provides some evidence of a flattening of the Phillips curve in Brazil, a trend previously shown by recent studies for other countries.

Então, é mais ou menos assim: (1) meta de inflação funciona (para o desespero dos pterodoxos); (2) a curva de Phillips tá ficando horizontalzinha (o trade-off está mudando, mas não vou especular sobre os motivos).

Será que vemos uma mudança estrutural em nossa economia, fruto das políticas econômicas dos últimos anos? Liberamos o câmbio, mantivemos – até o segundo governo Lula – o sistema de metas e redistribuimos renda. Entretanto, a abertura econômica não é lá aquelas coisas (e, se não estou enganado, isso também poderia impactar no trade-off ilustrado pela curva mais famosa do debate do café entre economistas).

Estabilizou mesmo?
Uncategorized

Confiança? Melhorou, piorou…e daí?

Ao invés de falar de Abenomics, que tal falarmos de Obanomics? Além disso, ao invés de eu falar, deixemos o povo falar, por meio do Gallup.

A pergunta, então, é: será que agora vai, Obama? Ok, você quer saber sobre o que está falando, para começar. Então, dê uma lida em como é medida esta série.

Alerta! Perigo! Perigo!

Leamer (2010), em uma crítica aos famosos índices de confiança do consumidor (enquanto variáveis úteis para se prever ciclos econômicos), tem um alerta tão simples quanto importante sobre isto. Tão simples e bem explicado que vou citar:

There’s a very good reason why these surveys are not very useful. It is not how you feel that matters, or what you say about how you feel. It’s what you do. If you feel great and you shop, that’s good news for the economy. If you feel lousy and you shop, that’s good news too.(Leamer, E. Macroeconomic Patterns and Stories – A Guide for MBAs, Springer, 2010, p.205-6).

Muito simples e óbvio, não? Este livro foi uma dica do meu amigo Sérgio Guerra, um professor de Economia que adora estes temas de conjuntura. Durante um tempo, ele ajudou muito o pessoal do Nepom.

Uncategorized

Espero que, no futuro, eu possa esperar mais do que espero hoje!

Pessimismo com o PIB? Ninguém esperava nada muito diferente, né? Trecho:

Após a prévia do PIB ter decepcionado o mercado na sexta-feira, economistas já começam a rever suas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. A previsão de crescimento da economia brasileira em 2014 passou de 1,90% para 1,79% na pesquisa Focus do Banco Central. Para 2015, a estimativa recuou de 2,20% para 2,10%. Há quatro semanas, as projeções eram, respectivamente, de 2% e 2,50%.

O IBC-Br já não foi lá aquelas coisas. O passado recente não foi lá aquelas coisas e o futoro que se espera também não…já está repetitivo, eu sei. As expectativas quanto ao futuro em ano eleitoral poderiam ser melhor?

Abre alas que a política quer passar!

Olha, eu diria que poderiam se houvesse um pouco mais de seriedade quanto às regras do jogo. Há um tempo atrás Brender & Drazen [Brender & Drazen (2006)] encontraram evidências de que a política poderia ser melhor com a prática. Como assim? Em resumo, é como se eu te dissesse que eles encontraram sólidas evidências estatísticas de que a prática eleitoral constante faz com que os eleitores aprendam a controlar melhor seus políticos (um resumo grosseiro, mas, ei, você pode ler o artigo).

Por exemplo, pense no caso do desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal. No dizer dos autores, isto só ocorre porque estamos há pouco tempo em democracia (somos uma democracia jovem, na definição do trabalho deles). Não quer dizer que não possam surgir governos super-irresponsáveis como o da Grécia, que jamais fez o que deveria ter feito (lembro-me de citar, neste blog, ou em outro lugar, o trabalho do Robert Mundell, sobre uniões monetárias da primeira metade da década dos 90 no qual o autor citava explicitamente o caso da Grécia, Espanha e mais alguém que precisavam fazer o ajuste fiscal…).

Eu gosto do argumento destes autores e, então, sim, no longo prazo, eu sou otimista. Mas, no curto prazo, não. No curto prazo, aliás, talvez você prefira o debate que o Mansueto apresenta aqui.

Formação de expectativas

Existe toda esta literatura que anda na moda sobre a capacidade do sujeito formar expectativa de forma mais ou menos racional. É sempre bom ter a ciência avançando, mas a verdade é que estes modelos ainda estão longe de nos dar resultados mais conclusivos. O caminho entre a ciência e o livro-texto do aluno no primeiro é muito mais longo. Notem como o próprio livro-texto do Mankiw, após algumas edições, ganhou lá um capítulo sobre economia comportamental e outras coisas (quer uma boa introdução? Leia isto).

Mas não precisamos de muito debate para saber quais são as expectativas do mercado. Olhe o que nos diz o relatório Focus do Banco Central. Seja de forma racional, irracional, piparótica, estrambótica ou taciturna, o fato é que agentes formam expectativas e são capazes de nos dizer o que esperam do futuro e, bem, não estão tão otimistas assim.

Eu sei, eu sei, você não aguenta mais ver gráficos aqui e eu já falei de muita coisa aí para cima. Mas veja aqui um pedaço da série da mediana das expectativas (peguei lá na excelente página do Banco Central). Admire o gráfico por 30 segundos.

Fullscreen capture 2172014 65944 PM

 

 

Pois é. Você achou bonito, né? Parece que o governo conseguiu estabilizar a inflação, né? Porém, lembre-se: a meta é 4.5% ao ano. O Excel, para otimizar a escala, jogou a meta lá embaixo. Isso mesmo, meu caro. A coisa está feia, muito feia.

Ok, eu sei que tem gente que adora chegar com aquele papo de “a meta não é adequada”, mas isto me cheira (embora eu possa até discutir méritos desta proposta em debate sérios) a picaretagem: perdeu o gol e diz que as traves deveriam ser mais abertas? Ora, ora…

Então é isto. Nada de muita análise estatística hoje. A coisa está feia demais sem precisar de muito esforço, infelizmente.

Uncategorized

Índice de Sentimento dos Economistas

O índice ao lado é calculado pela Fecomércio-SP em parceria com a OEB. Observando-o, podemos pensar em várias perguntas interessantes. Vamos lá: (a) o quanto os economistas erraram em relação ao desempenho da economia (geralmente o pessoal usa a produção industrial, mas pode-se pensar em um outro indicador antecedente como a produção de papelão ondulado); (b) o quanto os economistas, consumidores e industriais se diferenciam? (já que muita gente publica índices de expectativas de gente que nem sempre entende tanto de economia como, supostamente, um especialista em economia); (c) economistas nem sempre tomam decisões diretamente ligadas ao desempenho da economia. Por exemplo, como em outras profissões, há uma vasta área de trabalho para economistas e aqueles envolvidos com finanças geralmente são mais sensíveis ao desempenho da economia do que aqueles que se envolveram na burocracia pública. Portanto, se compararmos o índice acima com o boletim Focus, do Banco Central, o que encontraríamos?

Estas são perguntas preliminares, mas que serão respondidas, certamente, com uma limitação séria, já que a série de tempo acima ainda é muito limitada (pouco mais de 12 meses). Mesmo assim, não creio que se perca muito da intuição. Afinal, o que conta, para qualquer teoria séria sobre as expectativas dos agentes, é o descolamento em relação ao desempenho real no mesmo período. Você pode até calcular uma média ao final e dizer, claro, que “em média, o sujeito errou zero% (ou outro valor)”, mas a decisão que conta, a cada parcela do seu salário aplicado é a mensal. Ninguém espera o fim da amostra para ficar satisfeito de não ter errado nada, em média (geralmente o sujeito realista quer uma suave diferença positiva). Para se ter uma idéia inicial, veja o gráfico abaixo no qual todos os índices aparecem com base em jun/08.

A partir de mar/09, os economistas parecem bem mais otimistas, não? Talvez. Pode-se pensar em mais hipóteses para se testar e, claro, quem tiver o trabalho e quiser mostrar os resultados aqui é bem-vindo, nos comentários.