A demanda dos eleitores: como melhorá-la?

Ricardo Hausmann diz que é preciso melhorar a demanda dos eleitores. Eis um belo trecho:

Governments will become more effective in the future only if voters learn to become more demanding of the policies that future governments adopt. And yet none of Latin America’s political narratives teaches voters anything new or useful.

Percebe? Temos Meltzer & Richard (1981) nos dizendo que a extensão da franquia de voto aumenta o tamanho do governo. Temos toda a tradição da Public Choice falando de burocracia ou da regulação, dos ciclos político-econômicos e do Estado Leviatã. Cada qual é um complemento da figura maior.

Mas temos os eleitores sempre demandando políticas que parecem ser inconsistentes. Por que? Alguns acham que é por conta da ignorância racional, outros, pela irracionalidade racional (uma hipótese avançada pelo prof. Caplan e já citada aqui antes). Não é preciso ir muito longe para ver que pessoas protestam sem se preocupar muito com a consistência lógica de seus argumentos, independente do espectro ideológico (experimente dizer a frase anterior a alguém que pense com o fígado e caminhe de quatro: ele ficará possesso e vai sempre lhe acusar de ser parcial, mesmo quando você diz  – vou repetir – independente do espectro ideológico).

O texto de Hausmann chama a atenção para este ator geralmente tratado com desdém por alguns: o eleitor. Quem não se lembra da mesa redonda em uma famosa rede de televisão brasileira quando, em uma destas eleições presidenciais um(a) nada neutro(a) cientista politico(a) esbravejava que o eleitor era “manipulado”, “ignorante”, “tinha racionalidade limitada”, etc, enquanto os números eram contra o seu (dele(a)) candidato? Com a notícia de que os rumos da votação haviam mudado, a mesma pessoa passou a falar de um eleitor “esclarecido”, “consciente”, que “havia aprendido a votar”, etc.

O eleitor, longe de ser um elemento passivo que é ignorante porque gostaria de se informar, mas não consegue, escolhe, na hipótese de Caplan, ser irracional quando isto não lhe dói no bolso. A cada dia que passa, sinto que esta hipótese dele é a melhor para explicar muito do que vejo por aí e, sem qualquer citação aos trabalhos do professor da George Mason, o veterano Hausman acaba mostrando que os argumentos parecem convergir.

Como melhorá-la? Diminuindo os vieses gerados pela irracionalidade. Não há solução fácil: começa com a leitura do livro do Caplan, The Myth of the Rational Voter.

A conferir.

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Irracionalidade Racional e o Eleitor Mediano nas Manifestações

Fullscreen capture 6192014 75047 AMBryan Caplan criou o conceito de irracionalidade racional e fez até alguns vídeos explicando o que isto significa (procure lá no YouTube). Em resumo, há situações em que é barato, para o indivíduo, abraçar crenças irracionais. Citando direto de seu livro um exemplo sobre conhecimentos de história:

“Historical errors are rarely an obstacle to wealth, happiness, descendants, or any standard metric of success”. [Caplan, B. (2007) The Myth of the Rational Voter, Princeton University Press, p.120]

Há, claro, um contexto para esta frase. Considere, por exemplo, o sujeito que gerencia fundos de aplicação. Saber o ano da Independência do Brasil ou dizer que o país ficou independente em 1980 não o fará perder o emprego. Obviamente, se ele acreditar em duendes e usá-los como critério de desempenho de fundos, provavelmente não tardará a ser demitido.

Diferentemente do clássico conceito de ignorância racional, diz-nos Caplan, o de irracionalidade racional implica que o sujeito, deliberadamente, evita a verdade se isso não lhe custar caro, digamos, em termos de sua riqueza.

A verdade é que as discussões de boteco sobre “democracia” não valem um tostão furado quando vamos queremos, de fato, entender aspectos científicos subjacentes às imperfeições da democracia. Neste sentido, o que Caplan nos acrescenta é uma hipótese muito importante: existe demanda de irracionalidade por parte dos eleitores. Dizendo de outra forma, as falhas da democracia não são oriundas, exclusivamente, do lado da oferta de políticas públicas (burocratas, presidente, deputados, senadores, agências reguladoras, etc), mas também do lado da demanda (eleitores).

O vídeo abaixo mostra como diversos manifestantes que foram às ruas, supostamente, contra o impeachment, podem ser caracterizados como uma poderosa evidência em favor do argumento de Caplan. Repare que vários deles não parecem ter pensado muito sobre poucas conexões lógicas da situação que estão criando ao se manifestarem (as armadilhas do entrevistador não são tão sofisticadas).

A questão, note bem, não é que eu (não) acredito que (só) manifestantes anti-impeachment comportam-se assim. Nada disso. Qualquer eleitor deve apresentar maior ou menos irracionalidade em suas declarações. Basta que o custo de fazê-lo seja baixo (e políticos adoram diminuir este custo, pela lógica própria da política, independentemente da ideologia, se é que ela é relevante, de fato). O vídeo é tão somente um exemplo. Não estou emitindo opinião normativa aqui, embora o assunto seja irresistivelmente normativo. Estamos falando de uma hipótese científica sobre o comportamento humano.

Agora, veja bem, caso você acredite na hipótese da ignorância racional, interpretará os erros abaixo como, simplesmente, o reflexo de que, sabendo que a chance de mudar a situação é muito pequena, o sujeito não se preocupa em se informar muito (como diz Caplan, ele até quer buscar a verdade, mas o custo é alto). Por outro lado, acreditando na hipótese da irracionalidade racional, dirá que sai barato para o sujeito falar certas coisas sem sentido (ele não está nem aí para a verdade…ou melhor, depende do custo e ganhar camisa ou pão com mortadela só barateia o custo de ele ir para as ruas repetir slogans que podem refletir demandas que talvez nem façam sentido lógico).

Em algumas das respostas deste vídeo há reflexões aparentemente irracionais, neste sentido. Por exemplo, um senhor, que deve ter achado sua presença importante para estar nas ruas (ou então ficou barato para ele estar ali) justifica a corrupção alheia dizendo que é, ele próprio, apenas um ignorante sobre o que se faz “lá atrás das portas (do poder)”. Ou seja, é importante (para evitar um impeachment na Câmara dos Deputados) mas é, ao mesmo tempo, insignificante para saber de algo quando o assunto é a corrupção de políticos. No final, sua lógica parece ser exatamente aquela que encontramos em manuais de Public Choice: ele consente com o roubo, desde que lhe retornem algo de valor maior do que foi roubado. Quer ação mais racional que esta? Há várias interpretações para esta e outras respostas neste vídeo e, claro, a minha é apenas mais uma.

Para concluir, parece-me inegável que temos que ser mais cautelosos na discussão política e refletir melhor sobre estas bravatas que ouvimos por aí. Por exemplo, está claro para mim que o seu voto, o meu e o de qualquer um deste vídeo (entrevistado ou entrevistador) têm o mesmo valor diante da urna. Isto significa que boa parte das inconsistências observadas na política são fruto de nossas escolhas individuais. Não dá para culpar a elite porque o voto de um rico vale o mesmo que o de um pobre. No mínimo precisamos pensar um pouco, não acha?

É isso aí. Até a próxima. O vídeo está aqui embaixo. Espero que não o tirem do ar.

A ética islâmica do subdesenvolvimentismo

Citando Timur Kuran em seu livro, Caplan nos dá uma ótima pista sobre o porquê de alguns países terem uma pedra adicional amarrada a seus pés, tornando-os eternos emergentes que nunca emergem. Assim, governos islâmicos seguem ao pé da letra a religião e proíbem a cobrança de juros. Por que?

The objective is not simply to make Islamic banking more accessible. It is to make all banking Islamic. Certain campaigns against conventional banking have succeeded in making ‘interest-laden’ banking illegal. In Pakistan all banks were ordered in 1979 to purge interest from their operations within five years, and in 1992 the Sharia court removed various critical exemptions. Interest prohibitions have gone into effect also in Iran and the Sudan. [Caplan, B. (2007). The Myth of the Rational Voter, p.33]

Perguntas que me ocorrem: suponha que os refugiados sírios que vieram ao Brasil recentemente não sejam predominantemente católicos. Como eles enxergam a questão dos juros? Como conciliarão sua oposição à cobrança de juros com a prática brasileira?

Interessante pensar nesta questão. Nós, cristão, também já tivemos este pensamento errado sobre juros. Errado, sim, do ponto de vista científico mas não necessariamente do ponto de vista religioso porque uma religião pode pregar o que quiser sem checar fatos empíricos (é questão de fé apenas).

Mercado e Governo

The optimal mix between markets and government depends not on the absolute virtues of markets, but on their virtues compared to those of government. No matter how well you think markets work, it makes sense to rely on markets more when you grow more pessimistic about democracy. If you use two car mechanics and discover that mechanic A drinks on the job, the natural response is to shift some of your business over to mechanic B, whatever your preexisting complaints about B. [Caplan, B.D. The myth of the rational voter: why democracies choose bad policies. Princeton University Press, 2007, p.195]

Um dos melhores livros de economia política dos últimos anos e um ótimo conselho que reproduzo aqui, para quem quiser ou não seguir. Particularmente, achei perfeito. É também um alerta contra uma tendência dogmática de ambos os lados do debate.

Nada me impede de achar The Machinery of Freedom do David Friedman melhor livro de todos os tempos, mas na hora de analisar a realidade, é preciso ceticismo e uma inevitável dose de análise empírica.

Peron estava certo e somos todos facilmente enganáveis o tempo todo?

Peron tested the elasticity of the Argentine economy on several occasions, and many other Latin American leaders have followed his advice. Although giveaway programs financed by increasing public debt or printing money might have been successful ways to maintain popularity and win elections at one time in Latin America, today they do not appear to be so. Latin American voters seem to have become more sophisticated in their understanding of the macroeconomy; Latin American politicians have consequently become more responsible in their choices of policy. [Mueller, D.C. (2003). Public Choice III, Cambridge University Press, p.469]

Será que Mueller foi muito/pouco/adequadamente otimista? Observando os eleitores latino-americanos, será que eles realmente aprenderam a controlar melhor seus políticos?

Ironicamente, o trecho acima aparece no final do capítulo sobre ciclos político-econômicos. Há quem seja otimista mas ainda acho que o problema principal dos ciclos econômicos está na falta de transmissão dos princípios econômicos básicos quanto ao desperdício de algumas políticas econômicas intergeracionalmente.

Já falei aqui e vou repetir: a frase “já sabemos como lidar com a inflação” é verdadeira, mas nem sempre o conhecimento é passado para a próxima geração. Temos a tecnologia, mas ela não se reproduz perfeitamente. Um exemplo: ninguém volta à carroça após conhecer o carro mas a economia brasileira vive sendo atacada por decisões ignorantes do ponto-de-vista da tecnologia que possuímos na forma de conhecimento econômico.

Ok, é este um dos problemas de se lidar com a sociedade e você pode escolher ser um irresponsável como Peron ou não e isso não resolverá nosso problema porque seu filho crescerá dizendo que “Peron não tentou o suficiente”, apesar de sabermos que ele tentou.

p.s. Bateu um pessimismo, né?

Escolha Pública – um guia de Eamonn Butler com um prefácio exclusivo

Acabo de saber que o livro de Eamonn Butler foi publicado em português. Trata-se de um guia básico de Escolha Pública e, o melhor, tem um prefácio de minha autoria!

É, eu sei que existem versões traduzidas e que são gratuitas (e sem meu prefácio, claro) do mesmo livro e sei que meus prefácios não são a fina flor da literatura brasileira. De qualquer forma, foi uma honra aceitar o convite para prefaciar o livro. 

No meu prefácio, busquei fornecer ao leitor algumas dicas para que possam aprofundar suas leituras. Novamente, obrigado ao Filipe e à Bunker pelo convite.

Quem introduziu o termo “burocracia”? Quem introduziu o termo “laissez faire”? Duas perguntas, uma resposta!

“The term ‘bureaucracy’ was introduced by the French philosopher, Vincent de Gourmay, in 1765, and has had since its introduction a negative connotation (…). While the term laissez faire, also introduced by de Gourmay, conjures up images of freedom of action and efficiency – at least to an economist – the term bureaucracy suggests routinized and constrained behavior, and inneficiency”. [Mueller, D.C. (2003) Public Choice III, Cambridge University Press, p. 359]

Este Gourmay

Devemos permitir o financiamento público de campanhas eleitorais?

levitt_1Levitt (1994), o autor de Freakonomics, diz que não e o leitor poderá analisar detalhadamente o argumento no texto original.

Eu queria mesmo era perguntar sobre que evidências empíricas os nossos políticos – e seus assessores – justificam o fim do financiamento privado de campanhas seguido da manutenção do financiamento público. Enfim…

De qualquer forma, eis trechos da conclusão de seu artigo [a referência é: Levitt, Steven D. “Using Repeat Challengers to Estimate the Effect of Campaign Spending on Election Outcomes in the U.S. House”. The Journal of Political Economy, Volume 102, Issue 4 (Aug., 1994), 777-798″.

The estimates obtained in this paper have radically different implications for public policy than previous cross-sectional estimates. In contrast to the previous literature, my results suggest that spending caps may be desirable, but public financing of campaigns is clearly not justified. [p.795]

Mais ainda:

Given the limited impact of public financing on election outcomes, increased competitiveness of elections does not appear to justify the costs to taxpayers of funding such programs. Support for public spending on elections must be based on other factors such as the reduction in the influence of PACs, an issue about which the analysis of this paper can say nothing. [p.795]

Políticas públicas não podem ser levadas a sério sem alguma justificativa teórico-empírica. Quais foram as de nossos legisladores?

Escolha Pública e a política

Suponha que vários políticos lutem para obter recursos para seus distritos, mas alguns consigam mais do que outros, embora todos os distritos sejam contemplados (ou seja, existe um certo universalismo na política de redistribuição). Como explicar este universalismo aliado à desigualdade na distribuição dos recursos alocados?

A possible answer to this question is that the relevant coalitions to consider are not one set of congressmen against another, but all congressmen against the citizens. Because taxes that pay for these redistributive programs are general and diffuse, the citizens are unaware of the costs of these federal grants and consider only the concentrated benefits they receive. Each congressmen is evaluated on the basis of his marginal contribution to the district’s welfare and any grants it receives are counted as part of these marginal contributions. Although a congressman whose district receives only $ 10 million in grants has not won as much as the congressman whose district got $ 750 million, he has still ‘won’ something.  It is only the taxpayer-citizen who loses under this interpretation. [Mueller, D. C. Public Choice III, Cambridge University Press, 2003) p.123]

Repare no final do trecho. Neste modelo, os congressistas estão todos, no final das contas, no mesmo time. Do outro lado estão os que pagam impostos. Lembra um pouco a visão que muitos têm acerca do funcionamento do mercado político. Não é a única forma de se pensá-lo, mas não pude deixar de me lembrar do debate que a sociedade civil organizada e não-tutelada levantou no ano passado.

Alienação

Certa vez falamos aqui de amor incondicional. Bem, hoje é a vez da alienação. Segundo Muller (2003):

Alienation: Voter i votes if and only if for some δi > 0, for [Ui(P*) – Ui(Pj)] < δi, for j = 1 or 2. [Mueller, D.C. (2003) Public Choice III, Cambridge University Press, p.232]

Pronto. ^_^

A lacuna do Liberalismo Clássico, segundo James Buchanan

The lacuna in classical liberalism lies in its failure to offer a satisfactory alternative to the socialist-collectivist thrust  that reflects the pervasive desire for the parental role of the state. For persons who seek, even if unconsciously, dependence on the collectivity, the classical liberal argument for independence amounts to negation. Classical liberals have not involved themselves in the psychological elements of public support for or against the market order. [Buchanan, J.M. (2005). Afraid to be free: Dependency as desideratum. Public Choice, 124, p.27]

Belo insight.

Efeito Papel Pega-Moscas: nova racionalização teórica

Está aqui:

Unsticking the Flypaper Effect in an Uncertain World
Carlos A. Vegh, Guillermo Vuletin
NBER Working Paper No. 21436

We provide a novel explanation for the flypaper effect based on insurance arguments. In our model, the flypaper effect arises due to the differential response of precautionary savings to private income or fiscal transfers shocks in an uncertain world with incomplete markets. The model generates two testable implications: (i) the flypaper effect is a decreasing function of the correlation between fiscal transfers and private income, and (ii) such relationship is stronger the higher is the volatility of fiscal transfers and/or private income. An empirical analysis of Argentinean provinces for the period 1963-2006 finds strong support for the model’s implications.

Ok, eu só me pergunto se os argumentos anteriores e as estimações até então feitas estavam incorretas ou representam apenas outros canais de transmissão do mesmo fenômeno (ou seria este novo argumento um efeito que mereceria outro nome?).

O efeito papel pega-moscas é famoso para quem estuda Finanças Públicas e Public Choice. Um pessoal da USP estudou o tema (o texto preliminar é de 2015) para municipalidades brasileiras (aqui). Eu mesmo já tentei explorar o tema anos atrás mas, como vários projetos que ficaram na pilha de tarefas , ficou para o futuro. Deixei para o futuro e, claro, outros pesquisadores já se aproveitaram para estudar o tema (lição para os que desejam fazer monografia…).

Maximização do tamanho do clube e os protestos de 2013: uma breve nota sobre o livro de Flávio Morgenstern

Quem não se lembra da Teoria dos Clubes, de James Buchanan? O Leo Monasterio adora o Teorema de Alchian-Allen e eu, como ele, tenho meus favoritos na literatura econômica. Também gosto do citado teorema, mas também curto muito a teoria dos clubes (e os benefícios concentrados com custos dispersos).

Falo isto tudo porque comecei a ler o ótimo livro do Flavio Morgenstern e me deparei com esta interessante proposição:

Os teóricos dos movimentos sociais conhecem, discutem e criam diversas estratégias para que as manifestações públicas consigam chamar ‘o máximo possível de pessoas’. Dizer qual é seu objetivo chamará apenas as pessoas que ‘já concordam com ele’ – o que nem sempre resultará em um número significativo. Não dar de cara toda a sua agenda pode ser uma arma estratégica muito boa, porque, além dos seus cupinchas, uma manifestação pode receber ainda apoio expressivo de numerosas pessoas que não entenderam bem por que razão aderiram a ela… [Morgenstern, F. (2015): 39]

A questão, então, é a mesma colocada por Buchanan em seu clássico artigo: como encontrar o número ótimo de participantes do ‘clube’, no caso, da manifestação? A similaridade, contudo, tem que ser qualificada. Afinal, uma ‘manifestação’ não é um clube no sentido tradicional do termo. É, no máximo, um clube de curta duração (se bem que o objetivo poderia ser maximizar uma sequência temporal de clubes de curta duração…).

Interessante notar também outro ponto colocado pelo autor: esta maximização pode ser mais eficiente se você diminui a quantidade de informação disponível no curto prazo. Vale dizer: o clube, o clube mesmo, é de longo prazo, mais restrito, apenas com sócios (nefastos sócios?) mas, para que ele atinja seus objetivos, é necessário ter um número maior de indivíduos no curto prazo (para encher as manifestações).

Não há como não se lembrar das teorias dos sindicatos (aquele resumo bom, lá dos anos 90, bem resenhadas naquele livrinho da Hucitec, escrito pelo economista Edward Amadeo. Também não há como não lembrar das eternas discussões de Escolha Pública sobre os partidos políticos, competições eleitorais, etc.

Talvez nos falte, creio, uma teoria geral de Escolha Pública, na qual grupos de interesse se utilizam de partidos políticos ou revoluções (e, no meio disto, na zona cinzenta, ‘manifestações’) para alcançarem seus objetivos. Uma leitura interessante do livro do Morgenstern seria esta. Digo, levem o livro para a sala de aula, peguem o manual de Escolha Pública, e comecem a notar a quantidade imensa de exemplos que o livro nos fornece.

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p.s. Infelizmente, não recebi nem um único trocado para fazer esta publicidade gratuita do livro. O capitalismo é realmante terrível, nunca recebo o que creio ser o meu merecido retorno pecuniário… ^_^

Escolhas Públicas

Recomendo a última carta do Jorge Vianna Monteiro, a de número 518. Cuidado ao tentar ler a palavra “crise” na carta. O que o prof. Jorge aponta é algo mais profundo. Não nos esqueçamos que a Public Choice é, basicamente, a análise da economia sob um arcabouço institucional. Assim, a crise de 2008 não é apenas uma questão de hipotecas, mas também de instituições que sustentavam a economia até então.

Acompanhar estas cartas é um exercício de reflexão, ainda que se possa discordar do autor. Não perca.

Ignorância Racional existe?

O Lucas Mafaldo (este minimalista aqui) enviou-me a informação sobre um texto muito interessante. Eis o resumo.

Lopez de Leon, Fernanda Leite, and Renata Rizzi. 2014. “A Test for the Rational Ignorance Hypothesis: Evidence from a Natural Experiment in Brazil.” American Economic Journal: Economic Policy, 6(4): 380-98.

Abstract

This paper tests the rational ignorance hypothesis by Downs (1957). This theory predicts that people do not acquire costly information to educate their votes. We provide new estimates for the effect of voting participation by exploring the Brazilian dual voting system- voluntary and compulsory- whose exposure is determined by citizens’ date of birth. Using a fuzzy RD approach and data from a self-collected survey, we find no impact of voting on individuals’ political knowledge or information consumption. Our results corroborate Downs’ predictions and refute the conjecture by Lijphart (1997) that compulsory voting stimulates civic education.

Ou seja, segundo o artigo, a hipótese do eleitor que não se informa racionalmente possui corroboração empírica. É interessante, contudo, pensar no que disse o Allan Drazen, em um artigo, há alguns anos (curiosamente, Drazen não aparece na revisão de bibliografia das autoras), sobre o tema. De forma resumida, ele dizia o seguinte: com o passar do tempo, a ocorrência das eleições altera a forma como os eleitores se comportam diante dos políticos. Como as autoras analisaram apenas uma amostra coletada (quanto trabalho, heim???) em um corte transversal (alunos, 2010), não dá para fazer inferências sobre a dinâmica dos votos.

Assim, eu me pergunto se a análise deste ótimo artigo poderia ser complementada por outros trabalhos que analisassem a dinâmica das eleições procurando testar se existe, mesmo, algum impacto sobre a forma como os eleitores buscam se informar sobre os políticos.

Acho que este artigo vai fazer parte da bibliografia básica do curso de Econometria III no próximo semestre.

Citação do Dia – Regra da Maioria

Now, majority is a precious, sacred thing worth dying for. But – like other precious, sacred things, such as the home and the family – it’s not only worth dying for, it can make you wish you were dead. Imagine if all life were determined by majority rule. Every meal would be a pizza. Every pair of pants, even those in a Brooks Brothers suit, would be stone-washed denim. Celebrity diet and exercise books would be the only thing on the shelves at the library. And – since women are a majority of the population – we’d all be married to Mel Gibson. (O’Rourke, 1991, p.5 apud Munger, M. C. “Analyzing Policy – Choices, Conflicts, and Practices, 2000, p.166)

Não resisti, pessoal. Tive que citar.

O preço da civilização são os impostos?

The tribute system, for all its injustice and cruelty, preserved something of the Arawaks’ old social arrangements: they retained their old leaders under control of the king’s viceroy, and royal directions to the viceroy might ultimately have worked some mitigation of their hardships. But the Spanish settlers of Española did not care for this centralized method of exploitation. They wanted a share of the land and its people, and when their demands were not met they revolted against the government of Columbus. In 1499 they forced him to abandon the system of obtaining tribute through the Arawak chieftains for a new one in which both land and people were turned over to individual Spaniards for exploitation as they saw fit. This was the beginning of the system of repartimientos or encomiendas later extended to other areas of Spanish occupation. With its inauguration, Columbus’ economic control of Española effectively ceased, and even his political authority was revoked later in the same year when the king appointed a new governor.

O restante do texto não entusiasma tanto, mas a descrição acima é um bom exemplo de como a criação de um sistema tributário está muito mais distante da visão romântica dos livros de Finanças Públicas e bem mais próxima da descrição dos escritos de Buchanan, Tullock ou Olson (Mancur Olson Jr.).

O preço da civilização só é igual à existência de tributos quando estes tributos não são vistos como uma forma inferior de exploração pelo governo. Foi só Colombo ficar um pouco mais poderoso e os colonos e a Coroa acabaram com sua festa. De quebra, acabaram com mais algumas vidas…

Pois é. Como entender a história econômica sem usar a teoria econômica e a compreensão do papel dos incentivos? Como fazer isso tudo sem hipóteses testáveis? Não tem jeito. Aliás, até tem, mas aí é questão de religião…

Instituições e Estado Leviatã, em tempos imemoriais

The form Fune no Fuhito (or Fune no Fumibito, etc) in the Nihon shoki reading tradition was originally a hereditary title granted to Oo Shinni to designate his role as recorder of ships’ taxes (…). [Seeley, Christopher (1991). A history of writing in Japan. University of Hawai’i Press, p.7, footnote 15]

Nihon Shoki (talvez seja melhor aqui) é um destes antigos registros japoneses sobre os quais se debruçam os historiadores e estudiosos da língua japonesa.

Agora, neste trecho de Seeley (1991), temos uma daquelas evidências milenares de que governos sempre se preocuparam em coletar tributos. Nada muito estranho a quem estuda história, eu sei, mas é algo que, muitas vezes, escapa à percepção das pessoas, acostumadas a imaginar que governo existem para proverem alguns bens que o setor privado não provê.Isto pode ser verdade, mas não porque governos sejam benevolentes.

Pois é. o Nihon Shoki é um dos textos mais antigos do mundo, mas não nega a importância do capital humano para a expropriação. Interessante, não?