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Notícias estranhas

O simpático “Refém do Estado” chama a atenção para uma notícia interessante. Vamos à reprodução:

Esse país realmente é uma maravilha. Olha que lindo:

Aluno é condenado por criticar coordenadora.

Ele disse que ela era péssima. Tadinha. Deve ter ficado uma semana sem dormir.

Agora tá explicado porque tem tanto aluno defendendo o professor Carlão. Se alguém disser que ele é péssimo é capaz de pegar a cadeira elétrica.

Se você seguir o link, descobrirá que o aluno criticou a coordenadora – segundo consta a notícia – chamando-a de “péssima coordenadora”. Em seguida, o aluno processado me vem com esta de que a culpa da multa é da “mercantilização do ensino”.

Outro que troca os pés pelas mãos, pelo visto. Vamos ao que penso.

Primeiro, parece-me razoável que assuntos internos a uma empresa privada sejam resolvidos entre os envolvidos. É muito mais barato, inclusive, para todos, se ambos chegam a um acordo. Normalmente é assim que funciona. Vamos supor que o aluno realmente apenas chamou a coordenadora de “péssima”. Não acho que seria um motivo para processo. Usar a Justiça para resolver qualquer probleminha é típico do pensamento não-liberal que, ao contrário do que diz, desconfia das pessoas e sempre insiste em algum suposto “direito adquirido” porque “é preto (ou afro-descendente, vá lá)”, “é pobre”, “é socialmente bonito”, etc. Quando a lei é criada para grupos específicos, aumenta o risco de diminuição das liberdades individuais, inclusive a do aluno ou da professora envolvidos.

Então, inicialmente, eu acho que crítica não é o problema mas não acho que uma crítica destas gere tamanha comoção. Ou há algo mais ou a professora, como diz o “Refém”, pisou na bola fortemente pois acredita que o Estado deve resolver pendengas cujo custo é predominantemente privado, com poucas externalidades.

Por outro lado (o famoso “em segundo lugar…”), não é possível entender o argumento do aluno. Quer dizer que ele ser processado é culpa da “mercantilização do ensino”? A notícia não nos dá mais detalhes mas até onde sei, a Justiça é um monopólio do Estado. A queixa é tão estapafúrdia que ignora outras características que também são de responsabilidade individual. Vejamos, se eu sou contra o ensino pago, por que eu faria um vestibular de uma faculdade privada? Uma vez aprovado, por que eu me matricularia lá? Não faz sentido. Aliás, como já disse aqui ontem ou anteontem, o ensino universitário privado cumpre um papel social importante. Se você não gosta de uma faculdade privada, esforce-se para estudar em uma universidade pública.

De tudo isto, só há o que lamentar. A lei não deveria ser invocada para resolver problemas onde as externalidades são desprezíveis (ou então o jornal não nos contou tudo sobre a queixa do aluno anti-mercado). Por outro lado, a queixa do aluno – se realmente é apenas o que diz a notícia – passa longe da argumentação lógica e mostra um ódio pela faculdade que o aceitou como aluno que poderia ser resolvido de forma muito mais simples com o bom e velho mecanismo Tieboutiano.

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Ensino superior – o buraco é mais embaixo…

Questão de incentivos, eu diria:

Professores matões

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escrito por Philipe Berman – 10:14 AM

Já falei diversas vezes aqui no blog sobre a decadência das universidades federais no Brasil. Se as privadas estão deixando a desejar, as públicas embarcam no mesmo barco. Minha namorada estuda na UFRGS e tem duas disciplinas nas segundas-feiras. Ontem de manhã, o professor não apareceu por que disse estar doente. Toda a turma compareceu, mas o departamento não colocuo um substituto. Na cadeira da noite, a professora compareceu ao local da aula, mas se irritou devido à ausência do retroprojetor. Resultado final, ela mandou todo mundo embora pra casa e não deu aula. Ora, todos que estudaram em universidades estatais sabem que falta material de apoio, mas usar isso como desculpa para deixar de realizar o seu trabalho é coisa de vagabundo.

Minha namorada me ligou na hora, com raiva e nervosa. Perguntei a ela se alguém havia reclamado sobre o ocorrido, mas parece que onde ela estuda houve casos nos quais alguns alunos que reclamaram das aulas e da ausência dos professores foram prejudicados nas avaliações finais. Como sempre, a culpa pela educação no Brasil é do aluno. Se não for, punamos eles mesmo assim, afinal, pra quem eles vão reclamar?

Quem disse isso foi o Philipe. Honestamente, fiquei surpreso.  Leo Monasterio sempre me diz que tenho uma visão muito pessimista dos alunos. Faz algum sentido. Estudei e agora leciono há mais de dez anos. Não é difícil ver que boa parte dos alunos só reclama para facilitar a própria vida, não para fazer jus ao que pagam de mensalidade (que é o direito de estudar e se submeter a testes de aferição do conhecimento individual).

Sim, já vi gente séria reclamando como o Philipe. Lembro-me de um professor de Economia Brasileira que vivia faltando aulas porque, dizia ele, tinha enxaqueca. Numa destas, eu o encontrei no setor de “xerox” da faculdade, feliz e contente. Claro que começou a se sentir mal, “supostamente”. Outro professor gente boa era o de Setor Público, que, como trabalhava para o governo estadual, mais matava aula do que lecionava. Pelo menos nunca foi injusto na cobrança, mas paguei o preço: só fui aprender sobre o tema no mestrado, em desvantagem com meus colegas.

Creio que a namorada do Philipe realmente tem porque ficar nervosa. Espero que também não seja como alguns alunos que, morando a 15 minutos da faculdade, chegam com 40 minutos de atraso. Vejo muito isto e realmente me pergunto sobre a importância que um sujeito dá ao estudo (sinalização com informação assimétrica ou aumento de produtividade?).

Quanto aos professores, sim, como já disse aqui antes: professor é um cara que se respeita…quando ele cumpre suas tarefas. Quais são suas tarefas: (i) preparar aulas; (ii) preparar exercícios); (iii) cumprir horário (se a matéria adiantar e o programa for factível, ok, senão, não); (iv) escrever no quadro e (v) responder perguntas que não atrasem excessivamente o andamento da matéria. Simples assim.

Você pode ser um iconoclasta e um anarquista intelectual, mas respeito é bom e todos gostam. Não são conceitos mutuamente exclusivos.

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Ensino para todos

Marcelo Soares tem um bom texto sobre aquela besteira que um professor da UFBA disse recentemente sobre seus alunos. Há pontos interessantes nisto tudo porque a discussão está além do maniqueísmo besta que alguns adoram (ensino público benevolente x ensino privado do mal).

Alguns fatos:

a) Antigamente existiam poucas faculdades e, portanto, poucos estudantes. O ensino era, sim, elitizado e havia um forte poder de monopólio destas faculdades (ou universidades). Estamos falando, sim, de universidades públicas e algumas que não se assumem como privadas e são chamadas de “confessionais”.

Em um mundo assim, o vestibular é realmente algo valioso pois se os burocratas escolherem bem os cursos, nunca terão uma baixa relação candidato/vaga. Em outras palavras, existirá uma variação na qualidade dos alunos recebidos, mas ela não será absurda se não existir concorrência. É um paraíso para o professor: ele recebe alunos excelentes e não precisa nem mostrar serviço se não quiser.

b) Hoje em dia existem muitas faculdades e, assim, o vestibular perdeu seu “charme” elitista. Boa parte disto é devido ao setor privado.

Pois é. O ensino é menos elitizado. Isto significa que, relativamente ao que existia antes, você tem mais alunos nas faculdades, mas a qualidade dos mesmos tende a ser menor. Ainda existe um fator agravante para as particulares. Ao contrário de suas congêneres públicas, paga-se mensalidade. Logo, é bem provável que os melhores alunos tentem aprovação em cursos de menor custo (os cursos públicos possuem uma taxa de manutenção absurdamente baixa). Dificilmente um bom aluno tentará entrar em uma faculdade mais cara, exceto se tiver, ceteris paribus, um nível de vida tão bom que assim o permita.

A mudança de (a) para (b) não deixa margem a dúvida: ambas as faculdades têm problemas. Existe ainda um argumento estranho, de tom anti-capitalista, de alguns que se recusam a liberar verbas para pesquisas para universidades particulares, mesmo sabendo que o sistema de incentivos na universidade pública nem gera favorece o bom ensino e a boa pesquisa. Aliás, a universidade pública ainda tem problemas que ficam claros quando se discute a supostamente desejada autonomia: todo reitor quer autonomia, mas não quer arcar com o custo de se virar para obter recursos que não sejam oriundos do imposto alheio.

Não é que um baiano tenha problemas com neurônios. Existem, claro, alunos com problemas de formação. Mas eles existem tanto para o setor público quanto para o privado. Ainda assim, na hora do vestibular, o setor público concorre com um preço ultra-competitivo (zero) e leva o que há de menos pior (ou de melhor) em termos de alunos.

Posto isto, o que se espera da universalização do ensino em qualquer planeta do Sistema Solar? Obviamente, o primeiro efeito é uma piora da qualidade do aluno universitário. Não tem jeito. Você colocou gente que jamais entraria em um vestibular mais difícil. Ainda assim, em média, é melhor ter este sujeito na sala de aula do que em casa, vendo TV. No longo prazo, a situação só reverte se o ensino pré-universitário melhorar. Não é com quotas na universidade que você resolve o problema. Se algum papel há para o governo, este está na educação anterior. Melhorar a qualidade do aluno é garantir que ele chegue mais bem preparado na faculdade.

Esta discussão, contudo, tromba em interesses poderosos, que tentam vender a imagem de que recursos nunca são escassos e que há dinheiro jorrando pela torneira, suficiente para financiar a criação de mil universidades públicas, mil escolas, mil qualificações de professores, etc. A quem interessa esta situação? Pergunte ao seu professor…mas desconfie da resposta.