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Algumas estatísticas interessantes sobre o Brasil (vão te ajudar a não passar vergonha nas redes sociais)

  1. “…, 58,1% (cinquenta e oito inteiros e um décimo por cento) dos empreendedores brasileiros têm rendimento familiar de até 3 (três) salários mínimos, 61% (sessenta e um por cento) são negros e pardos, e 30,6% (trinta inteiros e seis décimos por cento) não têm educação formal ou têm apenas o primeiro grau incompleto. Pequenos negócios empresariais constituem nada menos que 98,1% (noventa e oito inteiros e um décimo por cento) do universo de empresas no Brasil, respondendo por 43,5% (quarenta e três inteiros e meio por cento) dos empregos do país“.
  2. “… ao contrário do que muitos acham, é grande a parcela de pessoas que conciliam trabalho e estudo simultaneamente. Observe-se, por exemplo, que a média da idade em que as pessoas com ensino superior completo começaram a trabalhar é 17,5 anos. Em terceiro lugar, segundo dados da PNAD 2015, no grupo de pessoas que começaram a trabalhar antes dos 9 anos de idade, cerca de 74% alcançaram no máximo o ensino fundamental completo“.

Antes de sair por aí falando mal dos empreendedores (“capitalismo malvado”, “empresário só quer saber de lucro e vai te colocar em trabalho escravo se deixar”, “no Brasil a reforma da previdência trará o caos e uma chuva de gafanhotos destruirá as colheitas”) não custa nada estudar os fatos e, claro, selecionar entre as narrativas históricas que sejam honestas e, de preferência, baseadas em dados e com forte teor de ceticismo.

Esta foi a lição de hoje sobre prática científica, debates em redes sociais e sobre a necessidade de se contar até dez antes de falar bobagens. Até a próxima!

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Breves Reflexões sobre o atentado em Orlando: instituições, liberdades, emporiofobia e violência (UPDATED)

Começo este triste texto lembrando que o fato é que, no século XXI, a religião campeã de intolerância contra os gays é…bem, provavelmente há um empate entre o Islã e o Cristianismo, mas não tenho dados sobre citações religiosas pró e anti-tolerância com homossexuais para apresentar aqui. Contudo, uma boa proxy do discurso (in)tolerante pode ser a prática social em favor da liberdade individual. Neste quesito, os dados sobre liberdades individuais nos mostram que o 41o (dentre 142 países) no ranking deste subíndice do índice de prosperidade é o Brasil, por exemplo. Já o Afeganistão é o 133o…

homicides_gunDe qualquer forma, não sei não, mas me parece que os seguidores do Islã vencem os cristãos em termos de homicídios (ou seriam “feminicídios”, Brasil?) de gays e lésbicas, pelo menos nos anos recentes (estes dados eu não procurei, mas devem existir e agradeço qualquer dica a respeito). Uma breve visita à página do Gunpolicy.org já é suficiente, contudo, para se ter uma idéia que, considerando-se que homossexuais e heterossexuais são, ambos, parte da população, o total de homicídios, por uso de armas de fogo, é bastante alto no Brasil, comparando-se com os EUA (ou, pior ainda, com o estado da Florida). Acredito (no sentido de “aposto”) – sem ter os dados – que dificilmente o padrão geral verificado acima mudaria em caso tivéssemos apenas homossexuais: o Brasil seguiria campeão.

Aliás, o gráfico é interessante também por mostrar a evidência – para os que gostam de termos nunca claramente definidos – de que “cultura das armas” parece ser um patrimônio do Brasil (cuja primeira medalha em Olimpíadas foi em…), não dos EUA.

Com todos os problemas de comparabilidade internacional de dados, ainda assim vale a pena ver o comparativo de total de homicídios.

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Pois é. Já está claro que É, você já desconfiou, escrevo este pequeno texto inspirado no triste massacre de Orlando, certo? Aliás, antes de começar, pela mesma lógica que diz que nem todo negro é pobre, é óbvio que nem todo praticante de religiões islâmicas é assassino (a questão passa pela discussão das raízes do terrorismo), ou seja, pelo chamado radicalismo, um tema que, em si, vale um curso inteiro (Joseph Humire falou sobre isso na imprensa dos EUA recentemente: o problema é o islamismo radical).

Tá, mas quero ver alguns dados…correlacionados!

Claro, correlação não é causalidade e, portanto, não direi, inequivocamente, que Obama está errado ou que Sanders está errado. Provavelmente nem Trump está com a razão, claro, embora a cultura individualista – que Trump, sem entender muito bem o porquê, provavelmente defende – seja compatível com o modo de vida tolerante (veja também isto).

Quero mais! Dê-me pesquisas econométricas ou lhe dou um tiro!

Ok, Bergreen e Nilsson (2012) têm evidências de que a liberdade econômica é um fator pró-tolerância. Aqui está um trecho do resumo:

Stable monetary policy and outcomes is the area of economic freedom most consistently associated with greater tolerance, but the quality of the legal system seems to matter as well. We furthermore find indications of a causal relationship and of social trust playing a role as a mechanism in the relationship between economic freedom and tolerance and as an important catalyst: the more trust in society, the more positive the effect of economic freedom on tolerance.

Mais mercado…maior felicidade gay?

Quem quer que tenha visto os links anteriores perceberá que, com uma base de dados um pouco diferente, construí correlações que não atrapalham, de forma alguma, os resultados dos autores. Aliás, eles têm mais modelagem e as conclusões são essencialmente as mesmas (apenas quero dizer que se simples correlações nos mostrassem o oposto do que eles encontram, teríamos motivos para pensar em problemas, não que correlações sejam poderosas, ok?).

Mas há mais! Em 2015, os mesmos autores nos deram outro estudo, cujo resumo reproduzo.

Tolerance is a distinguishing feature of Western culture: There is a widespread attitude that people should be allowed to say what they want even if one dislikes the message. Still, the degree of tolerance varies between and within countries, as well as over time, and if one values this kind of attitude, it becomes important to identify its determinants. In this study, we investigate whether the character of economic policy plays a role, by looking at the effect of changes in economic freedom (i.e., lower government expenditures, lower and more general taxes and more modest regulation) on tolerance in one of the most market-oriented countries, the United States. In comparing U.S. states, we find that an increase in the willingness to let atheists, homosexuals and communists speak, keep books in libraries and teach college students is, overall, positively related to preceding increases in economic freedom, more specifically in the form of more general taxes. We suggest, as one explanation, that a progressive tax system, which treats people differently, gives rise to feelings of tension and conflict. In contrast, the positive association for tolerance towards racists only applies to speech and books, not to teaching, which may indicate that when it comes to educating the young, (in)tolerant attitudes towards racists are more fixed

Viu só, leitor? Aí você me pergunta dos EUA. Afinal, foi lá que ocorreu o triste fator que gerou este pequeno texto. Bem, não quero te deixar triste, mas me parece que, a despeito da polêmica sobre o uso de armas de fogo em atentados terroristas (e também da polêmica sobre se aquilo foi um ato terrorista ou não), não me parece que o Brasil seja um paraíso (você viu as evidências no início do texto). Pode até ser que não se matem pessoas por religião aqui (ainda) mas, em medidas internacionais, quem “ganha” em estatísticas de assassinatos? Brasil ou EUA? Já vimos no início do texto, mas eis outra dica de dados sobre o tema aqui (dica: você continuará tristenão ficará feliz).

A despeito do que aconteceu na Florida, ainda é melhor para um homossexual viver nos EUA ou na Suíça do que no Brasil ou no Quênia, não é? Sim, a discussão tem a ver com tolerância e esta é um exemplo cabal do que Douglass North chama de instituições informais. É por aí que a discussão passa e, de cara, não dá para aceitar argumentos bizarros que jogam a culpa no “mercado” ou no “capitalismo” pela intolerância contra homossexuais, como nos lembra o sempre recomendável blogueiro Guy Franco e, creio, este meu breve texto sobre a emporiofobia.

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O contra-exemplo das instituições que funcionam no Brasil: o dia em que o tombamento de um carrinho de ambulante não foi seguido de saque

Exemplo anedótico clássico de que há um problema institucional (no sentido da tradição iniciada com Douglass North e Ronald Coase, ok?) é o do caminhão tombado que é saqueado por pessoas. Observa-se que em países que operam sob diferentes instituições nem sempre apresentam saques a caminhões tombados. Ok, você está com preguiça, não é? Eis a descrição de instituições dada no link acima:

The rules of the game: the humanly devised constraints that structure human interaction.  They are made up of formal constraints (such as rules, laws, constitutions), informal constraints (such as norms of behavior, conventions, self-imposed codes of conduct), and their enforcement characteristics.

Perceba que há dois níveis distintos: formal e informal. A literatura econômica moderna é pródiga em debates sobre o impacto das duas (qual tem maior impacto, em que situação, etc). Este blog mesmo sempre aborda o tema porque, bem, é uma das minha áreas de interesse em pesquisa econômica.

Agora, faz uma pausa e respira. Ontem, em uma passeata, presenciei uma cena que sempre achei improvável no Brasil. Como toda passeata, havia toda uma logística privada ofertada por ambulantes (tipicamente um exemplo para uma aula de microeconomia, mas isto fica para depois). Uns com carros de pipoca, outros com bandeiras, enfim, gente que procura ganhar a vida em um país de traços notoriamente emporiofóbicos.

De repente, vejo um aglomerado de pessoas rodeando um dos ambulantes, um que transportava seu isopor sobre rodas cheio de água mineral, cerveja e refrigerante andando em meio aos milhares de manifestantes. Pensei prontamente estar diante de mais um saque e já ia lá protestar quando fui supreendido. Na verdade, o ambulante, na descida, parece ter perdido o controle e várias latas de cerveja e refrigerante haviam caído e o grupo de manifestantes, em sua volta, estavam a ajudá-lo a recuperá-las.

Ou seja, não era um saque. Era o contrário do saque.

Pode-se argumentar que a situação é distinta da do caminhão que tomba em termos, por exemplo, de volume, mas não vejo como isto seria relevante. Outra pronta observação seria a de que não falamos de uma beira de estrada, onde a população presumivelmente é mais pobre, mas não há qualquer pesquisa indicando que o nível de pobreza dos saqueadores de caminhões tombados é homogêneo e nem há evidências de que “todo pobre é saqueador”. É bom lembrar que em outros países – que também têm seus pobres e ricos – caminhões tombados nem sempre são saqueados.

20160317_173837Há pobres que não saqueiam e há ricos que não saqueiam. Por que? Há alguma coisa aí. Meu “chute educado” é de que o problema está nas instituições informais da sociedade e, sim, não consigo dar uma explicação mais elaborada agora, mas desconfio que temos que avançar na compreensão do impacto das instituições informais (algo que já me foi apontado em pesquisa anterior).

Claro, o mais legal é a sensação de que, se for possível encontrar mais contra-exemplos como este, então nem todos os cidadãos deste país seriam de tão má qualidade e, como estamos em um sistema com democracia representativa, pode ser que haja uma chance de que tenhamos representantes melhores em eleições futuras.

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Menos emporiofobia, mais meio ambiente

Para você que estudou um pouquinho de Ciência Econômica, digamos, apenas um livro introdutório de boa qualidade (como o do Mankiw, por exemplo), esta notícia é interessante. Afinal, ela mostra que consumidores racionais respondem a incentivos da forma prevista pela teoria. A lógica de se adotar um pedágio verde diz respeito ao que você aprendeu como sendo “externalidades”.

Interessante também a discussão sobre Parcerias Público-Privadas que são, sim, um sinal de menos emporiofobia. Mecanismos de mercado adotados porque salvam o meio ambiente? Exato. Significa que temos um Estado mínimo? Não. Significa que salvará definitivamente o mundo? Não.

Mas significa que o caminho do desenho das PPP’s ou de qualquer outra medida para preservar o meio-ambiente e conservá-lo saudável partirá dos elementos básicos que seu colega que não estudou nega como o simples princípio da escassez e a racionalidade dos agentes econômicos.

Pois é. Negou princípios básicos, jamais (potencialmente) ajudará a preservar o meio ambiente, por mais que filmes de Hollywood te digam o contrário em suas ficções nem sempre condizentes com a lógica dos fatos.

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Pode ser restaurante de sushi, uber ou táxis: a história é a mesma.

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Seus empregos vão sumir…búúúúú….

Em duas partes (aqui e aqui), o autor, H.D. Miller, conta a história do primeiro restaurante de sushi nos EUA. Surpreendentemente, ele existiu no início do século XX, nos idos de 1904-5, na California.

Mas o mais legal é que os restaurantes japoneses da época eram de dois tipos: os que serviam comida japonesa e os que eram apenas de donos japoneses, mas serviam comida local. A qualidade da comida era tão boa quanto e os preços, menores. Resultado? Os outros donos de restaurantes resolveram…boicotá-los!

In 1902, Spokane’s Local 485 organized a boycott of a ten-cent Japanese restaurant run by a Mr. K. Takahashi. Unfortunately, it was an imperfect tactic, one that did not succeed, mainly because it was hard for workingmen to turn down a cheap meal. So hard, that the union had to institute a $2.50 fine for any member caught entering a Japanese restaurant.

But there were some successes. In 1907, unions and American restaurant owners succeeded in convincing the Seattle city council to mandate a fifteen cent minimum price for a meal, erasing part of the Japanese price advantage.

Familiar, não? Exato. É a mesma história do Uber vs táxis e de tantas outras disputas. Não se convenceu? Veja como a selvageria de alguns taxistas brasileiros não é tão distinta assim da que alguns californianos manifestaram na época.

And in San Francisco, in December of 1906, unions conspired with the corrupt mayor, Eugene Schmitz, former head of the Musicians Union , to get Japanese children banned from public schools.

But the Japanese restaurants still prospered, as did the cut-rate Japanese barbers and laundrymen.

Banir crianças da escola pela etnia porque seus pais vendem comida a um preço menor? Não me parece muito razoável, não? Lembra até o Gary Becker nos dizendo que mercados podem mitigar a discriminação racial (já que a única preocupação do empresário é com a eficiência do trabalhador, não se sua pele é verde clara ou azul turquesa), não lembra? Ah, e quanto a arrancar uma repórter de um Uber e dar uma surra no motorista? Não parece com a punição sobre crianças? Acho bastante similar.

É em momentos como este que surgem discursos muitos sedutores – faustianos? – sobre como a concorrência é, supostamente, maligna e como você vai perder empregos se não espancar uns motoristas ou discriminar uns meninos de escolas públicas (lembre-se do que sempre repito aqui: emporiofóbicos existem e surgem das trevas nestas horas). Ou seja, pelo aspecto humano, não vale a pena ser contra a competição, alma do mecanismo de mercado.

Mas mesmo que você seja bem insensível a este aspecto, ainda assim há outro argumento: evitar que as pessoas tenham acesso a maior diversidade de bens e serviços que só sobrevivem porque conseguem ser mais baratos é privilegiar poucos em detrimento de muitos e, digo mais, este privilégio não é bom nem para os poucos. Você fica aí falando do Piketty, mas não prestou atenção em outro fato: dados mostram que a tecnologia mais criou empregos do que destruiu, nos últimos 140 anos.

Pois é. História interessante esta, não? O chato é que não tenho um sushi para comer agora. Vai ter que ser um pão com manteiga mesmo.

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Por que você deve dizer não à emporiofobia? Porque sociedades pró-mercado também são as mais tolerantes.

Porque você quer mais tolerância na sociedade (ah, sim, emporiofobia foi definida aqui). Mas, voltando ao tema, Berggren & Therese (2012) [a versão final foi publicada, creio, em 2015], têm uma veja a ótima explicação acerca da relação causal entre instituições pró-economia de mercado e tolerância:

“(…) the basic idea is that economic freedom entails both market institutions of a certain kind – in particular an equal and predictable legal system that, among other things, de facto protects private property – and market processes that affect the way people think and feel about others. Market institutions offer a framework under which it becomes less risky with good faith in unknown members of various groups different from one’s own. Market processes imply interaction and exchange with people different from oneself, which, under equal and predictable institutions, can lead to a realization that differences need not pose a threat and to increased understanding; they also make intolerance come at a cost, in that rejection of groups of people for other reasons than low productivity lowers profits for firms and the well-being of consumers. These are, we propose, the main mechanisms that speak in favor of a positive relationship. However, there is also the possibility of a negative relationship, if markets bring about greed and a perception that certain groups benefit in an unfair way from market exchange (see Hirschman 1982)”. [Bergreen & Therese (2012), p.5]

Repare no final do trecho acima. Vamos repetir:

However, there is also the possibility of a negative relationship, if markets bring about greed and a perception that certain groups benefit in an unfair way from market exchange (see Hirschman 1982).

Não sei se você notou, mas este último trecho é uma descrição compatível com a de uma sociedade rent-seeking que eu e o Leo descrevemos, há anos, em um artigo publicado na Dados. Hoje em dia, a moda é falar de capitalismo de laços ou capitalismo de compadres. Essencialmente, é a mesma coisa.

Posso imaginar que a percepção de que sou explorado (exploited) por um grupo da sociedade aumenta quando vejo que o governo adota políticas que tributam a todos mas concentram benefícios. Pode ser um capitalismo de laços sim. Pode ser que empresários ganhem câmbio desvalorizado por apoiarem o partido do governo. Pode também ser que o cara da associação de bairro ganhe bolsa-XXX apenas por garantir votos para o neo-coronel populista (eu sei, também pode ser a simples maldade de uma pessoa querer ver a outra morrer de fome, embora eu ache que isto ocorra em menos frequência, mas concedo o argumento).

Os autores partem para o teste empírico e, aparentemente, juntam-se a mais um conjunto de evidências que mostram que o medo dos mercados (a emporiofobia) anda junto com a intolerância.

Não sei quanto a você, leitor, mas achei a explicação dos autores muito didática e convincente. O mecanismo pelo qual se supõe que as instituições que suportam os mercados mais livres também gerem mais tolerância está bem claro. Não achou? Bom, dá uma lida novamente. Vale a pena.

Epílogo

Uma vez fui fortemente criticado em uma discussão por uma pessoa que não aceitava que minha defesa da tolerância com minorias fosse baseada na minha crença nas instituições pró-mercado (reforçada por evidências empíricas, mas a pessoa em questão não é lá muito conhecedora da inferência estatística, então, não era um argumento que ela considerava). Talvez ela leia este texto (acho pouco provável) e perceba, espero eu, que a questão é muito mais interessante e rica do que preconceitos ideológicos: não se trata de fé cega em livre mercado.

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Cultura pró-mercado e felicidade gay andam juntas?

Como prometi ontem, eis aqui uma correlação simples e interessante.

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Em escala logaritmica, temos o valor do índice de felicidade gay no país e a medida de cultura usada por Claudia Williamson em um artigo (e por mim, Ari e Pedro neste). A medida de cultura é compatível com a aprovação social do mecanismo de mercado como forma de alocação de recursos.

Ainda estou buscando tempo para uma análise mais apurada, mas esta talvez seja mais uma evidência de que o pessoal LGBT não quer, mesmo, viver sob teocracias ou sob ditaduras bolivarianas. A evidência histórica de perseguição a este pessoal sob estas ditaduras, aliás, não desabona esta correlação.

Claro, não dá para falar muita coisa com uma simples relação entre duas variáveis, mas já é um começo, não? Ah sim, aposto que a emporiofobia não é uma característica aprovada pelos gays, mas isto fica para mais tarde.

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Oscar Wilde ensina Economia

Flavio Morgenstern, em seu “Por trás da máscara”, livro que recém-adquiri e não consigo parar de ler, dá-nos esta ótima citação de Oscar Wilde:

O que é um cínico? Um homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada. E um sentimentalista, meu caro Darlington, é um homem que vê um valor absurdo em tudo e não sabe o lugar de coisa alguma no mercado. [Oscar Wilde, O leque de Lady Windermere, citado no livro em questão, p.127]

Não é difícil ver que o cínico é o mais bem preparado para transações de mercado, né? Agora, será que os “sentimentais” não são as presas mais fáceis da irracionalidade racional e dos vendedores de idéias emporiofóbicas?

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Contra a Emporiofobia: deixa o cara vender a caneta BIC ungida (e deixa eu vender as minhas…)

Veja como o mercado é uma instituição ótima. Primeiro, quem quiser comprar, compra (pense na mudança na composição da distribuição de renda brasileira).

Em segundo lugar, mercado também é informação e, ora, ora, ora, a informação foi disseminada e já tem gente aqui, no FB, divulgando dizendo que isto é picaretagem, o que prejudica a projeção de vendas de quem “ungiu” a caneta.

Isto tudo é mercado. Muitas gente acha que mercado é só a parte inicial deste texto, o primeiro parágrafo. Não. Mercado funcionando é tudo isto. Por isso eu sou contra restringir o direito das pessoas de fazer a propaganda de algo, seja ela positiva ou negativa.

A escolha, no final, é individual. Você acredita na unção e (veja bem: “e”) acha que o preço é compatível com sua disposição a pagar? Nada mais justo do que comprar. Ah, você não acredita e não acha que estejam vendendo algo honestamente? Não compre ou não compre e faça um “post” criticando.

Agora, seja qual for o caso, tudo isto só vai ter os efeitos que terá se o mercado funcionar. Restringí-lo, como querem alguns, pode, inclusive, aumentar a venda de carne de gato como carne de boi.

Na “meta-escolha” entre “mais ou menos mercado”, eu vejo um interesse claro a favor de menos mercado e ele vem de quem finge ungir canetas para depois vendê-las.

Mercados, tão xingados, tão pouco compreendidos…ou você aprendeu na escola que o mercado era um mecanismo fascinante? Aposto que te contaram que é um jogo de soma zero, onde um ganha tirando algo do outro, né?

A propósito, dado o bom humor da aluna Teresa, eis meu próprio anúncio para os abastados alunos da faculdade em que trabalho.

Untitled 174-002p.s. Agora tenho que tentar ler a tese do meu ex-aluno. Enviarei as canetas após o depósito em minha conta corrente. ^_^

p.s.2. Não seja chato: você comprou crucifixos, pé de coelho e deu três pulinhos antes de ler isto.

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Econometria e hipóteses

David Friedman tem um belo texto, aqui. O tema? Avaliações de professores. O legal é que os pesquisadores fizeram algo realmente relevante agora:

It judged the quality of teachers by how well their students did in later courses,  compared the result to student evaluations of teaching quality, and found that the two anti-correlated. On average, good teachers get bad ratings, bad teachers get good ratings.

As avaliações que já vi sofrem de todo tipo de problema e um deles é que não se olha para o futuro, apenas para o passado. Então, o estudo citado por Friedman já ganhou minha atenção e boa vontade.

Além disso, há aspectos que são importantes para gerar viés nas respostas. O primeiro deles, comum em alunos pelo mundo todo:

The most obvious one is that many students don’t like to work hard. A professor who does not assign much homework or reading and grades easily might get better ratings, from many although not all students, than one with the opposite pattern. My daughter, as a student at Oberlin, was struck by the fact that most of the other students in a class were happy when, for some reason, it didn’t meet. The same pattern—study seen as a cost, not a benefit—might well apply here.

Em segundo lugar, a dificuldade de se lidar com idéias difíceis de serem apre(e)ndidas:

There is a second and less obvious possible reason. Correct ideas are frequently hard. Easy ideas are frequently wrong. My standard example is from popular discussions of foreign trade issues. Most of them take for granted a view of the economics of trade, the view implicit in terms such as “unfavorable balance of trade,” that  economists refer to as the theory of absolute advantage. That particular view of the subject has been obsolete for about two hundred years. But while the theory of absolute advantage does not make sense if you think about it carefully, it is considerably easier to understand than the theory of comparative advantage, which does. That is why the former was worked out first and why it has had such a successful postmortem career.

David Friedman foi ao ponto: (a) falta de vontade estudar e (b) tópicos difíceis de serem entendidos combinam-se de forma a gerar uma tendência em jogar a culpa em terceiros (sociedades mais emporiofóbicas, acredito, possuem esta característica, pois reputam o sucesso individual muito mais às conexões com terceiros ou sorte do que com o esforço próprio, mas isto é uma hipótese para discutirmos outro dia).

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Qual é o sentido da vida? Onde ele está?

Uma das respostas mais sensacionais para uma criança de quase 7 anos. O truque, aqui, é lembrar que esta criança de 7 anos pode ser você.

De certa forma, o físico não distoa da mensagem do grupo humorístico Monthy Phyton em seu clássico “The Meaning of Life” ou em outros filmes. Repare que há uma certa sabedoria perene, universal, que nos diz que o sentido da vida é, primeiramente, individual, gerado com liberdade (ou seja, sua “qualidade” pode variar conforme o grau de liberdade que você tem), podendo, claro, ser monitorado por adultos responsáveis (pais e mães que não são permissivos e nem idolatram os fihos, mas também não os sufocam).

Valores assim, acredito, são a base de sociedades prósperas. Repare que o grande desafio é fazer com que estes valores surjam e se mantenham em torno de um tecido social estável e, ao mesmo tempo, dinâmico. Soa familiar para quem já estudou um pouco de Hayek (e a famosa “ordem espontânea”), não?

Pois é. Esta é uma daquelas grandes questões que me fazem pensar, novamente, no conceito de emporiofobia, termo cunhado pelo prof. Paul Rubin em uma conferência na Southern Economic Association, há algum tempo (por que? Leia o texto lá para ter seus próprios insights).

São momentos como este que me fazem pensar na importância da pesquisa acadêmica em relação ao ensino de sala de aula. Ambas são tarefas nobres mas, honestamente, qual delas te motiva mais: a exposição da teoria em sala ou a possibilidade de se sentar com o professor e discutir como testar, criar ou pensar no problema de forma cientificamente organizada?

Repare bem: sou um defensor de ambas as atividades e vejo-as como complementares. Sua exploração, quando criança, do mundo, como diz o prof. Tyson, vai te ajudar a pensar o mundo lá na frente. Mas isso precisa ser feito sob alguma disciplina. Um sábio fonoaudiólogo, há alguns anos, ensinou-me que a espontaneidade surge da disciplina e isto não é tão paradoxal. Afinal, você pensará melhor cientificamente após aprender o método científico, o que exige, sim, disciplina.

A arte está em saber combinar estas coisas de forma a maximizar seu bem-estar a cada instante. Certamente não é fácil, mas é por isso que alguns cientistas – e aí posso falar dos economistas – como Hayek, North e tantos outros devem ser lidos: eles pensaram nestes problemas e em como resolvê-los. Como seres humanos imperfeitos (quem não o é?), não chegaram à pedra filosofal, mas abriram novos caminhos.

Quem quiser explorá-los, é bem-vindo.

p.s. Este seria um bom texto para um discurso de abertura de um grupo de estudos, heim?

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Emporiofobia e locadoras

Viva o Spotniks, mas vale um ponto para a reflexão

O pessoal do Spotniks fez um ótimo trabalho neste artigo. Neste blog, como os leitores já sabem, chamamos isto de emporiofobia. O argumento do autor do artigo do site, contudo, fala de “competição” de “destruição criativa”. Não me entendam mal, mas não acho que é por aí.

A ênfase nos aspectos competitivos da dinâmica do mercado – por sua vez, um nome mais bonito para “trocas voluntárias” – deixa de lado o ponto central de Adam Smith e Schumpeter: as locadoras que não sobreviveram são justamente as que foram incapazes de cooperar com os consumidores. Mercados são eficientes quando vendedores cooperam com consumidores. Os que não conseguem dar conta do recado, são, claro, excluídos.

Apenas quero destacar que a emporiofobia se alimenta de um discurso no qual “coxinhas com a vida ganha” maltratam “pobres empresários do bairro” e “roubam os consumidores”. Tudo errado, nós sabemos (refiro-me ao autor do artigo e, claro, a mim mesmo). Mas considere repensar no texto do Spotniks sobre este aspecto. A diferença é sutil, mas acho que faz toda a diferença para alguns leitores, que ainda confundem mercados com jogo de soma zero (erro básico, geralmente desmentido em cursos do primeiro ano de Economia).

Ora, trocas voluntárias não poderiam ser jogos de soma zero porque ninguém, voluntariamente, entra em uma troca com alguém para que seu ganho seja exatamente igual à perda do outro. Pode até tentar, mas a troca não ocorrerá. Não voluntariamente. Assim, você pode até querer forçar alguém a lhe dar o que deseja e você pode fazer isto com uma arma. Contudo, isto não é mercado.

Portanto, eu diria…

O que disse Schumpeter então? Bem, ele disse exatamente o que o autor do artigo descreveu: em uma sociedade de indivíduos que interagem de forma totalmente não planejada (do ponto de vista de uma autoridade central), é possível que nem todos sejam igualmente dotados das virtudes necessárias para a cooperação. Como assim?

Digamos que sou um dono de locadora e que não gosto de internet. Trato bem as pessoas, mas não quero saber de internet. Pronto. Você já sabe. Provavelmente minha locadora não vai durar muito tempo. Por que? Porque não sou um sujeito suficientemente adaptado aos novos tempos. É a vida, pessoal. Nem todos vão ser donos de locadora e serão ricos. Graças a Deus, né? Afinal, se todos fossem donos de locadora e fossem igualmente bons, não haveriam atores, atrizes, médicos, soldados, etc.

Adam Smith? Também nada muito diferente. Claro, você pode ter aquela imagem do filme de Chaplin, Tempos Modernos, e achar que a divisão do trabalho é algo maligno. Errado. A divisão do trabalho, novamente, em uma sociedade com indivíduos que agem segundo seus próprios desejos, terá o grau necessário de especialização para atender…a estes mesmos indivíduos.

Conclusão

Gostei do artigo do Spotniks. Mas gostaria que a ênfase do texto fosse mais nos pontos cooperativos do mercado. Por que? Porque ajuda as pessoas a entenderam corretamente o que é o mercado. Podem até não gostar dele, mas pelos motivos certos, não por uma caricatura que, sim, nós, economistas, vendemos por anos e anos, e que não é a mais fiel ao conceito. Afinal, são trocas voluntárias.

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Brasil emporiofóbico e nada liberal…e quem diz isto são os mercados!

Cultura importa?

Como assim? Por causa disto. Vejamos o resumo deste interessante texto (a ser publicado em breve no Journal of Financial Economics):

Consistent with predictions from the psychology literature, we find that stock prices co-move more (less) in culturally tight (loose) and collectivistic (individualistic) countries. Culture influences stock price synchronicity by affecting correlations in investors’ trading activities and a country’s information environment. Both market-wide and firm-specific variations are lower in tighter cultures. Individualism is mostly associated with higher firm-specific variations. Trade and financial openness weakens the effect of domestic culture on stock price comovements. These results hold for various robustness checks. Our study suggests that culture is an important omitted variable in the literature that investigates cross-country differences in stock price comovements.

Eu, Pedro e Ari já havíamos encontrado evidências da importância de valores culturais em instituições (como a qualidade de um Estado (governo)), embora os autores dos artigo acima não nos citem. Sim, instituições informais importam, já disse Douglass North dentre outros.

O ponto dos autores é argumentar que a “cultura” seria uma importante variável omitida (meus alunos de Econometria III sabem isso de cor…) em regressões que comparam desempenho do mercado de ações entre países. Por que?

The literature suggests that individualistic investors are likely to be more confident in their ability to acquire and analyze information and less concerned about having different opinions from others (Markus and Kitayama, 1991; Heine, Lehman, Markus, and Kitayama, 1999; Chui, Titman, and Wei, 2010). Therefore, one would expect to observe less herding behavior and more firm-specific information being incorporated in stock prices, which would be likely to lead to lower stock price comovements in individualistic countries. [p.2]

Há algo muito interessante nos achados empíricos do artigo. Pensemos no Brasil, aliás, citado pelos autores em um trecho “exclusivo”:

A closer look at the data suggests that the insignificance of the tightness coefficient is due to Brazil. Brazil’s culture is both loose and collectivistic, which offer conflicting predictions for information opaqueness. [p.20]

Quando a presidente reclama dos mercados, ela reclama demais!

Ora, estamos completando 12 anos de um governo de esquerda – que se orgulha de ser anti-individualista (logo, orgulha-se de ser coletivista e não estou sendo irônico, leia qualquer documento produzido por seus simpatizantes) – e estamos em uma eleição no qual nenhum candidato mostra consistência na defesa de valores menos coletivistas: na melhor das hipóteses, um ou dois deles poderiam, com alguma boa vontade, serem caracterizados como social-democratas.

Este mesmo governo se queixa das oscilações de mercado porque está claro para a sociedade – da qual o mercado é apenas a sua expressão econômica – que a reeleição significa a continuidade de um modelo de política econômica que não gera prosperidade. Isto não é sinônimo – como querem nos vender os profissionais da publicidade que trabalham para o governo – de uma demanda por menos intervenção governamental na economia.

Embora, obviamente, o grau de individualismo/coletivismo de uma cultura possa variar entre países, é razoável supor que ela varie relativamente menos em um mesmo país. Assim, estamos falando de uma sociedade brasileira extremamente coletivista, caracterizada, não por coincidência, com um alto grau de atividade rent-seeking (veja o livro do Lazzarini ou o do Musacchio com ele, para exemplos mais recentes desta literatura) e, portanto, queixa-se de forma muito seletiva.

Ou você viu a sociedade se manifestar fortemente na época do mensalão, por exemplo? A mobilização da esquerda, que até fugiu ao controle dos seus líderes na véspera da Copa do Mundo, por exemplo, sequer foi ativada novamente com a saída lenta e gradual de mensaleiros da prisão. Ainda prevalece uma visão emporiofóbica (compatível com valores culturais que valorizam a perpetuação de traços culturais coletivistas) na sociedade brasileira, ora bolas. É este “mercado” que reclama da presidente. Uma mistura de acionistas e empresários e poupadores que não está se lixando para algum “liberalismo”, muito menos para algum “neoliberalismo”.

Concluindo….

No dia em que os mercados reclamarem de excesso de rent-seeking e a sociedade sair às ruas pedindo menos intervenção do governo em suas vidas, aí sim, poderemos falar de um eleitor mediano liberal ou libertário. Até lá, meus amigos, não, não estamos diante de um “mercado neoliberal que deseja acabar com o bolsa-família”.

Estamos, isto sim, diante de um mercado que opera sob altos graus de ineficiência econômica desejado por muitos de seus supostos empresários “liberais” que, por sinal, só financiam idéias liberais que não incentivem o uso da econometria para não terem seus poderes monopólicos ameaçados (já se vê, por aí, alguns jovens entusiastas deste discurso liberal que se diz pluralista, mas não aceita qualquer divergência de opinião e, sim, muitas vezes defende o fim do bolsa-família, do banco central, etc).

É o Brasil uma sociedade cheia de empresários jovens e realmente empreendedores, que arriscam seu capital para criar produtos novos? Não. É nossa cultura uma cultura que valoriza o indivíduo e, portanto, vê com bons olhos a liberdade de consumir? Não. É nossa sociedade caracterizada por um desejo de se livrar das intervenções governamentais em sua vida? Não.

Então, você, que reclama dos mercados “neoliberais”, engole o choro/não perca a cabeça e pára de reclamar tanto. Ou você vive no mundo que te vendem na propaganda governamental?

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Socialistas e Empresários podem se unir em torno de interesses comuns? A Emporiofobia novamente.

For the first time in human history, modern consumer culture has come to hold out the ideal of comfort as a plausible full-time expectation and worthy human aim. We live in the time of comfort foods, comfort zones, humidity comfort indices, being comfortable in your own skin. But there are values that are not compatible with comfort, and those include values crucial to the adventure you’re about to undertake.

Nada como um trecho de um discurso de boas-vindas para novos alunos que não deixa de falar algumas verdades. Afinal, sem determinados valores e comodamente acostumados com uma vida tranquila, não passamos de sacos de pipocas jogados no sofá, não é? Sair da zona de conforto e encarar um mundo cheio de incertezas é um valor tão antigo para a humanidade quanto compatível com o funcionamento de uma sociedade em que trocas voluntárias são sinônimo de prosperidade.

Mais um pouco:

But the fact that comfort promotes mediocrity is not the only problem. I will be amazed if you are not carrying around in your head a chatter of voices assuring you that you should already know what you’re going to be in later life, and should plan your Duke career to enable the systematic acquisition of all the merit badges that will assure your arrival at that happy goal.  There are many contributors to this inward chorus — natural anxieties, an unreliable economy that has heightened the perception of risk, a media and political chorus convinced that education has no value unless it aims straight for a job, parents who crave assurance that you will be set for life. These voices all reinforce the idea that there is one sure ultimate comfort: a career that will purge your life of uncertainty and risk. But allow me to say: you’re still very young, you can’t possibly already know for certain the eventual career that you are meant to occupy. To find that, you need to open your horizons, learn the range of possibilities, and find what fulfills and motivates you. Duke can be just the space of exploration and discovery that you need, but only if you free yourself from the need to know the answer in advance.

Um verdadeiro balde de água fria na visão emporiofóbica que une aqueles que poderíamos chamar de paulofreiristas (querem destruir a sociedade de mercado porque são socialistas) e rent-seekers (desejam uma sociedade de mercado, mas não os valores que potencializam seus efeitos para todas as pessoas).

Aliás, esta é uma aliança que, creio, explica muito do comportamento de boa parte dos brasileiros. Amantes do capitalismo de compadres (crony capitalism) são os maiores aliados dos tradicionais emporiofóbicos ideológicos (socialistas e afins) e, por isso, não ligam para distorções que se ensina para crianças porque, afinal, desejam construir uma sociedade baseada em privilégios (para si) e, caso fracassem, querem ter a quem culpar (e aí, erroneamente, jogarão a culpa no “mercado selvagem”, etc).

No fundo, há uma questão de dilema do prisioneiro simples aí, mas eu queria mesmo era destacar a aliança baptists-bootleggers que caracteriza os principais interessados na manutenção de um capitalismo de compadres como o nosso. Some-se a isto os velhos dilemas da ação coletiva (os incentivos desalinhados) e você explicará boa parte do curioso fenômeno que é o sujeito se dizer liberal mas não se preocupar com um ensino distorcido que busca doutrinar seu filho (contra os valores liberais que ele aprende em casa), por exemplo. Será?

A dica do texto é da Christiane Albuquerque.

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Microfundamentos da Emporiofobia – uma reflexão inicial

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Educar é…

Considere a seguinte palavra japonesa: Seiseki (成績), composta de dois caracteres chineses muito bonitos. O primeiro deles significa “tornar(-se)”, “alcançar” (turn into, achieve). O segundo, “resultado” (achievement, em inglês). A palavra, portanto, é construída juntando-se dois caracteres que significam, praticamente, a mesma coisa.

Mas há mais do que isto neste vocábulo. Por trás de todo resultado encontra-se o trabalho árduo das pessoas envolvidas. Obviamente, você pode atingir um bom resultado trapaceando ou cometendo violências contra outras pessoas ou, pior ainda, contra sua própria consciência.

A educação – base primeira na caminhada da construção do capital humano de qualquer…ser humano – é um ato dito transformador (lembre-se do 成). Pois esta transformação começa na atitude de cada um. Há vários exemplos disto nos códigos morais de diversas culturas (eu uso alguns destes para ensinar os que têm o mínimo de esforço de buscar conhecer minha opinião sobre o que é uma sala de aula aqui).

A importância da família

Mas o código moral não existe em si ou por si. Existe porque há uma genética e uma história. Em outras palavras, existe uma família. Quando os valores familiares são doentios, o código moral de seus membros também o é. Isto, ao contrário do que desejam alguns – que fogem de seus medos – não é determinante de uma futura vida de fracassos. Isto porque a atitude individual pode ser a de buscar um código moral melhor.

De certa forma, isso é o que faz a convivência em sociedade: as crianças crescem observando o modelo doméstico, os dos amigos, das famílias dos amigos, etc. E é por isto que gostamos tanto de competição e diversidade em Economia: quanto mais opções, melhor para que a escolha seja bem pensada. Quando um governo tenta limitar a diversidade de opções com uma desculpa qualquer (“as pessoas são irracionais”, “as pessoas têm racionalidade limitada (mas eu, milagrosamente, não)”, “as pessoas são burrinhas”, etc), ele colabora para a infantilização destas mesmas pessoas.

A quem interessa uma sociedade cheia de gente achando que o resultado de suas ações não é de sua responsabilidade, mas sim de outrem? Geralmente pessoas que são emporiofóbicas pensam assim. Elas querem que alguém lhes diga o que fazer porque, aí, não precisam pensar ou questionar. Veja, elas adoram questionar ou pensar. Mas não gostam de questionar seus próprios valores. Isto incomoda. Fossem as lagartas assim, jamais se transformariam em borboletas. Então, a quem interessa promover a emporiofobia? Eu sei, você vai dizer: ao “governo”.

Nem todo libertário que reluz é ouro

Entretanto, não pense que apenas governos ou políticos sejam assim. Gente que tem ambições políticas adora criar seguidores passivos. Pense no interesse de um monopolista por exemplo. Considere um grande empresário. Ele quer manter sua concorrência bem longe e fraca. Como fazer isto? Evitando que surjam estudos sobre o grau de concorrência em seu mercado. Assim, ele se diz libertário, super-pró-mercado, fã número um do Mises, tem um busto do Friedman na mesa, participa de rodas de samba com gente que leu alguma coisa sobre a relação entre mercados e governo, promove debates, eventos, palestras motivacionais, mas evita, a todo o custo, que os estudos cheguem ao ponto de, digamos, mensurar o grau de concorrência.

emporiofobia não existe apenas na mentalidade de socialistas, como querem alguns pseudo-libertários. O problema é muito mais disseminado do que tentam nos vender. James Buchanan e toda a tradição da Escolha Pública nos lembram que burocratas não são anjos porque eles carregam para dentro do governo seus interesses privados. A diferença, obviamente, está nos incentivos.

Ora, isso significa que, fora do setor público, com muito poder nas mãos, o indivíduo também tentará manter sua confortável posição monopolista. Faz parte do jogo, claro. Por isso ele se vende como defensor dos mercados, mas, no fundo, é um emporiofóbico. O problema de sociedades como a brasileira é que, nelas, o cheiro de rent-seeking em ambientes onde há empresários e governo é muito forte…

Que valores? Pais e professores…

Os valores da boa educação, na minha opinião modesta e ignorante, encontram-se na família e na escola. A divisão do trabalho, como sempre, ajuda-nos a pensar na melhor forma de se educar. Quem sabe ensinar o menino sobre a vida, o futuro e sobre dar descarga na privada do banheiro público? Apenas os pais. Goste-se ou não disto, eles é quem são os indicados para este tipo de treinamento dos filhos. Agora, quem pode ensinar as diabruras da oferta e da demanda? Nós, professores de economia.

Quando uma sociedade está com um nível muito baixo de capital humano, pode até ser que um professor, lá do maternal, seja mais pai (do que o pai), ensinando o menino a não conversar em voz alta quando em uma biblioteca ou em uma sala de aula (quando a aula está em andamento). Mas os valores básicos devem vir dos pais. Vá lá que haja uma substituição temporária destes pelos pobres professores do ensino básico, mas, então, os pais deveriam abdicar de reclamar com eles (e deles) e deveriam lhes dar carta branca. É como a taxa de câmbio fixa e a política monetária: se você optou por um, não pode ter o outro. Pais deveriam enfrentar esta escolha e não delegá-la a apresentadoras de TV que se dizem éticas e sérias ao mesmo tempo em que não falam de pixotes…

Pais e filhos emporiofóbicos não geram sociedades saudáveis

Este título é uma provocação, eu sei. Acredito que seja uma proposição testável (mas não estou dizendo que exista um jeito fácil de se fazer este teste). Acredito que a correlação sempre positiva entre alguns valores individuais e indicadores de prosperidade têm uma explicação que ainda precisamos elaborar melhor, eu sei.

Mas repare que, a cada dia que passa, estudos avançam mais e mais gerando novos protestos de gente que não quer perder o poder sobre filhos, alunos ou sobre a opinião pública e está disposta até a dizer que a ciência é “neoliberal” apenas para manter seu status de pajé.

Acho mesmo que valores emporiofóbicos não geram sociedades saudáveis e, se você me perguntar, acho que uma sociedade saudável é caracterizada por princípios básicos muito próximos aos de Adam Smith: um governo limitado, com algumas funções básicas e uma sociedade que usa o governo para o cumprimento destas funções, evitando, sempre, o surgimento e a eternização de privilégios.

Conclusão

Nada ainda. Nada de conclusão por agora. Mas sempre que olho para aquele desenho do pai elogiando o menino porque tirou boas notas lá no início do post eu fico com a impressão de que algo se perdeu na sociedade brasileira infantilizada que consome lei da palmada com um poder crítico abaixo do razoável. Tem gente interessada em aumentar a emporiofobia no Brasil. Quem são? Por que o desejam? Você conhece algum emporiofóbico? Talvez ele esteja mais perto de você do que você imagina…

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Emporiofobia, pobreza e instituições

Introduzindo a Emporiofobia

Há um perigo rondando os cursos das faculdades de ciências sociais: o entendimento incorreto acerca do papel dos mercados. Boa parte da culpa cabe aos inimigos do mercado, mas boa parte cabe a nós, professores de Economia, por não enfatizarmos de forma eficiente os benefícios do funcionamento de mercado.

Paul H. Rubin, em seu discurso presidencial na Southern Economic Association, chama a atenção para este problema sério. Em uma ótima passagem, diz:

Why are some people poor? The competitive metaphor says they are poor because they were outcompeted, and perhaps their wealth was expropriated by the rich. (The folk saying ‘‘The rich get richer and the poor get poorer’’ implies causality.) But economists know that this is not why people are poor. They are poor because they have little or nothing worthwhile to sell—no capital, no valuable marketable skills. That is, the poor are poor because they are unable to enter into cooperative relationships with others. We may feel sorry for someone who is poor, whether this is because they have lost in a competitive contest or because they are unwilling or unable to cooperate successfully with others. But if poverty is caused by an inability to cooperate, we do not look for villains who have caused the poverty through competition. There is no external agent to blame for poverty if the poverty is caused by a lack of things to sell, rather than by losing in a competitive contest. The solution to poverty caused by a lack of something to sell is to increase the human capital of the poor, generally through increased education. [Rubin, P.H. Emporiophobia (Fear of Markets): Cooperation or Competition?, Southern Economic Journal, v.80, n.4, Apr/2014, p.885]

Belo trecho, não? Nós, economistas, precisamos enfatizar mesmo o aspecto de cooperação inerente ao funcionamento dos mercados. Eu me lembro, na época de minha graduação, que alguns professores falavam sobre a visão distinta de Durkheim e Marx acerca da divisão do trabalho (o melhor amigo do homem, da mulher e do cachorro que, por sinal, é o melhor amigo dos dois primeiros, segundo o ditado…). Faz todo sentido. Enquanto Marx vê a divisão de trabalho sob uma ótica negativa, Durkheim destacava os aspectos positivos da cooperação (segundo dizia meu professor…).

Claro que o professor – de Sociologia – dava um salto e não falava de evidências empíricas, estudos, etc, mas tentava nos vender a idéia de que a divisão de trabalho era ruim porque há um filme, Tempos Modernos, de Charles Chaplin que diz isto. Bom, é um filme contra as evidências empíricas, mas a retórica do professor funcionava: ninguém ousava tomar partido de Durkheim depois disto.

Espera aí? Mas isto não é emporiofobia?

Usar um filme como evidência empírica e depois acusar os economistas de serem “frios e racionais” até combina, mas não é a forma correta de se investigar os efeitos da divisão do trabalho sobre a prosperidade humana. Aliás, a divisão do trabalho pode ter graus distintos conforme a estratégia de cada empresário e, note bem, aí entra o argumento de Rubin: diversos empresários competem pelo direito de cooperar com os consumidores.

O mundo não é cheio de anjos, mas isto nunca foi dito por economistas. Pelo contrário, sabemos que pessoas são auto-interessadas – podendo ser mais ou menos benevolentes com terceiros – mas um sistema econômico como o livre mercado não funciona se não existirem valores morais (Rubin, 2014).  Por que? Porque a troca voluntária – característica fulcral do livre mercado – só fará sentido se houver confiança entre as partes envolvidas.

Claro, em um capitalismo de compadres (crony capitalism), você também terá trocas, mas a intervenção do governo para favorecer alguns grupos destrói o efeito da confiança por meio de sua ação invasiva, unilateral e, muitas vezes, autoritária. Afinal, uma coisa é um contrato voluntário de aluguel e outra é uma lei que me obriga a alugar meu apartamento para um sem-teto rejeitado até pelo blogueiro progressista que fala de ostentação mas o recusa em sua casa (eu também o recusaria, é bom dizer, por motivos óbvios sendo a falta de confiança no desconhecido mendigo a maior delas).

A emporiofobia sustenta-se em diversos preconceitos (ou vieses) que trazemos da formação superficial que temos nas escolas. Veja bem, não é que as escolas deveriam ensinar tudo de tudo o tempo todo, mas se alguns professores fossem mais profissionais e menos políticos profissionais, ajudava muito. Trazemos dos bancos escolares este preconceito contra os mercados.

Evidências empíricas?

Já citei neste blog diversas evidências empíricas acerca da importância de instituições informais para o desenvolvimento econômico. São entendidas como instituições informais, no sentido aqui dado (devido aos trabalhos de Douglass North), aquelas regras não escritas que regem as sociedades. Pois muito bem. Há vários trabalhos empíricos destacando a importância destas instituições para o desenvolvimento econômico.

Quando iniciamos nossa investigação acerca de uma hipótese, fazemos visualizações de dados. Por exemplo, digamos que nosso objetivo seja testar a hipótese de que cooperação e mercados livres andam juntos. O primeiro passo é buscar variáveis que representem, separadamente, cada um destes conceitos.

Só para ilustrar, apresento algumas correlações. Na primeira delas, busco verificar a relação entre liberdade econômica (última edição do índice) e confiança (a variável é trust, descrita em outros artigos, por exemplo, neste). Os países estão marcados por um símbolo que é uma bolinha, cujo tamanho varia conforme o logaritmo do PIB per capita do país em 2000.

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No próximo gráfico, a idéia é ver o próprio PIB per capita com a confiança. Para mim, até que tenhamos um indicador melhor, o PIB é a melhor proxy de prosperidade.

 

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Finalmente, um último gráfico que mostra o índice de respeito aos direitos de propriedade com a confiança. Novamente, a relação é positiva.

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Eu sei que você gostaria de ver mais do que correlações. Outros gostariam de ver a correlação com um índice de Gini, mas não o tenho aqui. Mesmo assim, não basta uma correlação, não é mesmo? São necessários mais estudos econométricos que nos ajudem a ver o papel da confiança no desempenho econômico das sociedades. É de se esperar que estudantes de Economia tenham interesse em pesquisar o tema (embora muitos deles apenas queiram uma nota média para serem aprovados). Mesmo assim, nós, professores, temos, conforme estes dados, algumas evidências interessantes para pensar.

Emporiofobia: os dados nos dizem que a semântica, em sala de aula, está errada?

Eu diria que sim. Como Rubin (2014) destacou em sua agradável e importante lecture, precisamos enfatizar mesmo o aspecto cooperativo do funcionamento dos mercados. Apresentei apenas três correlações, mas todas elas indicam que o ponto central de Rubin está correto: precisamos – e podemos, pois há (muita) evidência empírica – destacar os aspectos cooperativos do funcionamento dos mercados. Esta não é uma “bandeira” dos inimigos dos mercados. Não é, também, de sociólogos. Mas é estranho que não seja uma de nossas bandeiras.

A interação entre cooperação e competição está lá, sim, no velho Adam Smith, e reverbera em todos os livros-textos, de forma sutil e nem sempre clara. Na minha visão, a emporiofobia é um preconceito, um viés que só pode diminuir – em prol de toda a sociedade – com o ensino de Economia. Claro, há quem queira ver no ensino de Economia um alvo para sabotagem.

Há quem ache que o melhor para a humanidade é um mundo socialista e, portanto, o ensino de Economia deveria ser sabotado e substituído pelo marxismo, como se tenta fazer atualmente na Argentina. Caso esta seja, realmente, uma boa descrição do que ocorre nas faculdades brasileiras, então só nos resta lutar para que a o ensino de Economia não seja sabotado. Dadas as evidências empíricas, creio que o lema é: não à emporiofobia (com ou sem acento).