Oferta e demanda no espaço

Eis um artigo legal sobre o tema. Trechos:

Currently, the prices of launch are still high enough that demand remains relatively inelastic. At a recent Mitchell Institute for Aerospace Studies panel event, part of the conversation centered around that discussion of inelasticity. One of the panelists, Dr. Scott Pace, the director of the Space Policy Institute at George Washington University, argued that thus far SpaceX has been successful at winning market share, but that its lower prices have not yet generated a spike in increased demand. He also pointed out that, on the demand side, technological progress is creating competition between plans for smaller satellites in larger numbers and larger satellites with improved capabilities. How that competition plays out will help determine the nature of the demand for space launch, which will also change elasticity to price.

These are, as-of-yet, hypotheticals. It may well be that SpaceX’s reusable rockets move prices below a point that opens up more demand for launch. Increasing demand for space-based data, mixed with lower access costs, could be the right mix to spark a long-awaited renaissance in space use.

Será?

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Venderam picolé por um preço diferente do sugerido no cartaz!!

Enquanto pseudo-professores falam por aí que estudar microeconomia é perda de tempo, vamos aos fatos: comprar picolé (ou cigarro, ou refrigerante, etc) pelo “preço sugerido” não é necessariamente um bom negócio. Sim, tem algo mais interessante para aprender aqui.

Primeiro, há um papo aí sobre “lealdade” e tudo o mais e tem gente que se perde em um conundrum sem sentido de “vamos respeitar a lei” e se esquece do problema básico dos incentivos que produtores de picolé vendem (vamos nos lembrar que leis também são geradas por meio de incentivos, nem sempre os melhores do ponto de vista do consumidor, embora alguns bem-intecionados defensores dos chamados “interesses dos consumidores” não percebam o problema). Limpe sua mente: esqueça esta questão contratual. Vamos entender o âmago do problema: por que, raios, um comerciante “sugere” um preço? Onde já se viu isto? Qual o objetivo dele?

Ok, digamos que um fabricante sugira um preço para um produto qualquer. Suponhamos que seja um picolé de chocolate. Você chega ao bar e vê o preço do picolé de chocolate no cartaz anunciado como: “preço sugerido: R$ 5,00”. O que significa isto? Primeira ponto para sua reflexão: pode não ser o que você está pensando.

Preço sugerido não é esmola (nem bondade com seu bolso), cara!

Geralmente isto significa que o fabricante conhece sua demanda em nível nacional e este é o preço que maximiza seu lucro. Mas aí você, que já está com vontade de comprar o picolé, descobre que o dono do bar o vende a R$ 6,00. Pronto. Caso você nunca tenha estudado direitinho a Ciência Econômica, provavelmente fará um textão no Facebook discorrendo sobre a malvadeza (ou a avareza?) do ser humano, etc. Muito bonito, ganhará muitas curtidas, talvez até gere um abaixo-assinado, mas mostrará que não entendeu muito do problema.

Sim, é preciso compreender o mundo antes de sair por aí querendo mudá-lo e quem disser o contrário mostra um desprezo pela sua capacidade de raciocínio (sim, eu acredito que você entenderá melhor o problema, né?).

É um problema que envolve elasticidade? Sim. Você não faltou à esta aula, né?

O dono do bar, veja bem, trabalha com um mercado local. Digamos que o dono do bar trabalha em Pelotas-RS. Ele não vende picolé em São Paulo. Nem vende em Porto Alegre. Muito menos em Aracaju. Ele vende, vou repetir, picolés em Pelotas.

É óbvio que a demanda de picolés em Pelotas não é a mesma demanda nacional. Ela pode ser – vamos nos lembrar das aulas de Economia!!! – mais ou menos elástica naquele trecho (vamos nos lembrar também que a elasticidade-preço da demanda é um conceito pontual, ok?). Digamos que ela seja menos elástica do que a demanda nacional. Isso significa que, enquanto uma queda de preço de x% na demanda nacional gera um aumento de y% (y > 1) na quantidade vendida, no mercado local, uma queda do mesmíssimo x% na demanda local gerar um aumento de z% (z < 1) na quantidade vendida.

Veja bem. Qual é a situação do dono do bar? Para que ele tenha algum lucro, terá que aumentar o preço em relação ao preço sugerido. Por que? Porque a queda de receita que será derivada da queda das vendas será menor do que o ganho que terá com o aumento do preço do picolé.

Claro, poderíamos imaginar a situação oposta, ou seja: e se a demanda local de picolé for mais elástica do que a nacional? Neste caso, o melhor para o dono do bar é diminuir o preço porque o ganho que ele terá com o aumento na quantidade vendida será maior do que o que perderá na margem com a queda do preço (ou seja, a receita total dele aumentará com a queda do preço).

Implicações disto? Acho que a mais divertida é pensar em quantas vezes pessoas se revoltaram de forma errada. Este é o lado engraçado do ponto de vista do consumidor. Do lado dos vendedores, é simples e mais cruel: quem não entende os incentivos criados pelas diferentes elasticidades-preço das demandas nacional e local perde dinheiro e pode acabar falido. Em outras palavras: entender Economia é sempre bom. Principalmente microeconomia. A quem interessa dizer que “microeconomia não serve para nada”? Esta fica para você refletir.

p.s. o conceito de elasticidade-preço da demanda? Explico. Trata-se da resposta à seguinte pergunta: “caso eu aumente (diminua) o preço do produto em x%, de quanto cairá (aumentará) a quantidade vendida do produto”? Veja, a elasticidade-preço da demanda, em valor absoluto, estará em um dos três casos: (a) unitária, (b) maior do que um e (c) menor do que um. Analisemos o caso (a): uma elasticidade unitária da demanda (em valor absoluto, já que o número é negativo, né?) nos diz que o aumento de x% no preço do produto gera uma queda de exatamente x% no valor da quantidade demandada. Isso significa que a receita total com a venda deste produto não se altera: o que você ganhou com o aumento no preço (x%), perdeu com a queda de demanda (x%). Para mais detalhes, consulte um bom estudante de economia ou um professor.

Falando em impostos e elasticidade-preço da demanda…

Quem leu a notícia sobre a Ambev e o reajuste que não virá – mesmo com o aumento de carga tributária anunciado – até o final da Copa pode pensar um pouco sobre o tema.

Obviamente, por mais que o pessoal não queira comentar, o aumento tem a ver com as trapalhadas do governo no setor de energia elétrica, dentre outras maluquices que a administração atual importou da era Geisel para os dias de hoje.

Eu pergunto a você: qual é a elasticidade-preço da demanda nestes setores?

Abenomics e o ilusório poder do governo de mudar as elasticidades

Vejam como são as coisas, conforme esta ótima (para sala de aula, nem se fala) matéria do Japan Times:

Akihiko Matsui, who works at the Economics Research Center in the University of Tokyo, explained in Asahi how the “addition to price” (kakaku tenka) that reflects the tax hike works. At every stage of distribution, the seller has to collect a tax from the buyer and eventually hand it over to the government. A retailer who pays the levy to the supplier of a given product or service in turn adds that amount to the price of the product when he sells it. But demand for that product may decrease as the tax goes up, thus pushing the price back down. Matsui says that in the real world the retailer and the consumer split the tax since the seller offsets the hike with a slight discount in the price. He cites a survey by a Tokyo merchants association which found that only 60 percent said they would pass on the tax hike in full to consumers. Many also said they would probably make adjustments by increasing frequency of bargain sales or rates of discount for those bargain sales, or by offering bonuses for membership point programs.
Businesses, in order to maintain sales volumes, will likely absorb at least part of the consumption tax hike themselves, meaning consumers may not see as much of a dent in their buying power as they’ve been led to believe by the media, at least in the retail sector. It is a natural market phenomenon.

Nada de novo, certo? Mas espere. Tem mais.

Last October, the government implemented the Act Concerning Special Measures for Pass-on of the Consumption Tax Increase, which endeavors to compel businesses to add the increase directly to prices, with no adjustments. In carrying out this directive, the Fair Trade Commission has hired an army of 600 “G-men,” retired businessmen and bureaucrats who will patrol commercial districts to make sure companies are complying.

É isto mesmo que você leu. Depois a notícia segue dizendo que não há penalidades para quem descumpra a lei (leia-se: para quem faça o que consegue fazer, dadas as elasticidades-preço da demanda e da oferta). Então, além do desperdício de dinheiro público, o que mais poderia ser dito sobre esta estranha lei?

Apparently, it has to do with being responsible. As one of the G-men told Asahi, “It’s important to make consumers understand” that they have to pay their full share. The government’s justification for a consumption tax is that everyone, rich and poor, pays it equally, but that’s a delusion, because capitalism, especially the free-market type ostensibly worshipped by the ruling Liberal Democratic Party, favors those with the most economic power.

Um tanto quanto bizarro, não é? Então eu fui lá ver a legislação. Eis um trecho:

1 Compliance Rules on Specific Enterprises [Specific enterprises shall not conduct the following practices to specific supply enterprises.]

i. Price reduction/slashing
ii. Coerced purchase/coerced use of service, unfairly coerced offering of benefits
iii. Rejection of negotiation based on net-of-tax price
iv. Retaliate practices

Além disso aí, a mesma – ao contrário do Brasil – é sintética e breve. Isto me deixou curioso: como seria o sistema tributário japonês? Aí eu encontrei isto e isto. Nada muito diferente do que eu esperava mesmo: alguns impostos, um certo grau de federalismo fiscal, nada demais. Mas por que é que o governo resolveu lutar contra a realidade? Como visto acima, somente por uma questão de discurso político. Afinal, não há como escapar: as elasticidades-preço da oferta e da demanda é que darão o tom da sinfonia.

Quer escrever “Economist” em letras japonesas? Olha o título da garota aí.

Multa ou desconto? Racionamento de água e nós

Discussão do dia: as administrações da Silva e Rousseff não conseguiram. Não deram conta e há um risco de apagão. Isto é um fato e cara-de-pau tem é quem não quer ouvir a verdade.

Posto isto, uma questão relevante é: como lidar com a situação? Em São Paulo há uma discussão muito interessante. Veja o trecho da notícia:

Após o programa de descontos criado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) para quem reduzir o consumo de água na Grande São Paulo, o comitê anticrise criado para tentar evitar o racionamento generalizado nas cidades abastecidas pelo Sistema Cantareira deve propor hoje que prefeituras paulistas adotem medidas efetivas para coibir o desperdício.

Entre as medidas estão a aplicação de multas por desperdício, além da cobrança para que entidades que representam as indústrias e os grandes produtores rurais estimulem o uso racional da água.

Antes de qualquer coisa, que bom ver que a discussão saiu da torpe briga ideológica na qual uns analfabetos funcionais insistem em dizer que “cobrar pela água é neoliberalismo”. Bom saber que, na burocracia do governo paulista, há gente séria.

Sim, sim, embora alguns achem que exista almoço grátis, não, ele não existe. O caso da água é um exemplo de livro-texto tão óbvio que dói falar dele desta forma. Em outras palavras, esta história de não individualizar a cobrança do consumo da água já deveria ter sido deixada para trás faz tempo. O bem água é, sim, rival e excludente. Seu consumo de água é rival ao do seu vizinho e é bem simples cobrar por ele de forma individual, tal como se cobra a conta de luz no prédio.

Mas, por motivos, muitas vezes, políticos, a mudança na forma de se cobrar a água não ocorre. E não é preciso estimar nem uma reta de regressão para adivinhar que, do jeito que cobramos pela água, incentivamos o seu desperdício.

Então, eis aí o problema de incentivos: existem multas e descontos. Multas pelo desperdício (medido de alguma forma) e descontos pela economia (também medido de algum jeito). Digamos que os dois métodos gerem queda no desperdício. Entretanto, implementá-los tem algum custo. Certamente, imagino eu, o custo de qualquer um deles, no curto prazo, é menor do que o de trocar a medição conjunta do consumo de água pela individualizada. Então, sim, vamos de multas e descontos.

Mas, haverá alguma diferença no impacto destes incentivos? O grande problema é saber qual será a base a partir do qual se falará de “desperdício”. Famílias têm composição distintas, riquezas distintas e necessidades distintas. Mas todo mundo adora economizar. Eu imaginaria que estabelecer uma política de descontos seja menos impopular e possa incentivar a economia de água, conforme o tamanho dos descontos (alguém tem que estimar isto). Por outro lado, a economia dos descontos pode ser pequena e a multa pode ter um impacto distinto sobre o indivíduo.

Engraçado é que, no fundo, você está simplesmente criando um incentivo que olha para aumentos e para quedas no consumo de formas distintas. Talvez o mais simples fosse aumentar o preço da tarifa e deixar que as famílias se ajustassem, você dirá. Mas este é justamente o problema de não termos consumo individualizado. A multa ou o desconto não melhorarão muito a situação neste aspecto (os gastadores continuarão fazendo com que os poupadores paguem no consumo de água de um prédio).

Bem, eu não sou especialista no estudo da economia dos recursos naturais. Engenheiros têm algo a dizer sobre o tema, certamente. Economistas, idem. Na verdade, você deveria ter uma estimativa da demanda de água, como fizeram estes autores, na Austrália. Veja o resumo do trabalho:

We estimate an aggregate daily water demand for Sydney using rainfall, temperature, and price data for the period 1994-2005. The estimated demand is used to calculate the difference in Marshallian surplus between using the metered price of household water to regulate total consumption in Sydney versus mandatory water restrictions for the period 2004/2005. Using a choke price of $5.05/kL for outdoor water demand, equal to the levelised cost of supplying and storing rainwater in a household water tank, we calculate the loss in Marshallian surplus from using mandatory water restrictions to be $235 million for the period 1 June 2004 to 1 June 2005. On a per capita basis this equates to approximately $55 per person or about $150 per household — a little less than half the average Sydney household water bill in 2005.

Neste texto, eu aprendo que (negritos meus):

The justification for rationing water versus charging a higher volumetric price is threefold. First, if water is considered a basic need then allocating it on the basis of price, especially if demand is price inelastic, may be inequitable because it can place a large cost burden on poorer and larger households. Second, in some communities, especially in poor countries, household water consumption is not metered. Thus raising the water price in the form of a fixed charge provides no financial incentive to consumers to reduce their demand. Third, even when households are metered and are charged a volumetric price for their water the billing period is such (usually quarterly) that if an immediate and temporary reduction in demand is required, it may be more effective to implement a rationing scheme rather than raise the price.

Notou, né? Então, qual é a elasticidade-preço da demanda no Brasil? Em São Paulo? Ou na sua cidade? Para começar a discussão, temos que começar com esta demanda. Em segundo lugar, algo que é, no curto prazo, dado, é esta questão da mensuração do consumo de água. Passamos da época de medir o consumo individualmente, não? Finalmente, para quem estuda Ciências Econômicas, este texto não deixa de ter um valor didático. Afinal, elasticidades, curto e longo prazo, excedente do consumidor, todos estes conceitos são memorizados e engolidos por milhares de alunos que nem sempre param para se perguntar sobre o porquê de se aprender isto tudo.

Bem, olha você não pergunta o porquê das coisas, agora tem que racionar água. Acho que dá para entender as fontes do problema, né?