Sei ver fotos no Insta e uso o Zap. Sou um gênio? Ou ao menos um bom estudante?

Parece que não. Veja o caso do exame da OCDE. Ele é bem simples: os alunos só precisam saber filtrar informações na internet. Não me surpreende o resultado. Ah sim, mais um pouco sobre a tecnologia necessária para você aprender a fazer bom uso da internet:

O estudo sugere que o acesso e uso de computador importa menos no desenvolvimento da capacidade de navegação e leitura online do que um bom preparo básico. Sugere também que a habilidade para navegar na internet pode ser ensinada e adquirida com a ajuda de pedagogias e ferramentas tradicionais.

Veja, é como esta história de que precisamos colocar tablet na mesa dos alunos: não quer dizer nada. A comunicação acelerada dos “zap” não é sinônimo de aprendizado. Tudo depende de como você usa a ferramenta (a tecnologia ou, para os alunos de Microeconomia, a função de produção).

Digamos que existam dois alunos, X e Y. Muito amigos, conversam muito sobre tudo: desde parafusos e porcas passando por garotas até futebol e deveres de casa. São dois adolescentes típicos. Entretanto, ao entrar em sala, X usa o celular na função “zap” para conversar com amigos de outras escolas, enquanto Y o utiliza para pesquisar informações a pedido do professor. Pronto. Já temos um uso diferente do mesmo celular. Duas funções de produção distintas.

Agora, pense em outros dois alunos: Z e W. Ambos pesquisam informações na internet, mas Z não sabe distinguir uma fonte confiável (e isenta) de informação de outra. Por exemplo, W sabe que a página do IBGE é um bom lugar para se obter informações sobre a inflação, enquanto que Z apenas digita “inflação” no mecanismo de busca e usa o primeiro link que lhe for de leitura confortável. Já percebeu, né?

Estamos na lanterna porque não educamos os estudantes. Ou seja, eles não entenderam que há custo de oportunidade em se usar o celular em sala de aula (na balada) para outros fins que não os da aula (balada). Simples assim.

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Incapacidades das mães e pais

Queria saber onde, nos modelos econométricos que estimam os determinantes do ganho do sujeito no mercado de trabalho (ou seu desempenho escolar), está a variável referente a esta característica das mães e pais. É uma pergunta mesmo. Não tenho acompanhado esta literatura mas, sempre que vejo algum artigo, não vejo nada que se pareça com isto. Digo, suspeito que exista um viés de variável omitida em vários destes estudos.

Alguém aí pode me ajudar?

Insumos para a educação: maximizar o bem-estar também é educar…ou civilizar?

Pode-se produzir educação em casa ou na escola. Mas quais são os insumos importantes para aumentar o impacto marginal dos estudos? Conforme uma pesquisa a ser divulgada hoje, existem algumas características básicas.

Um aluno com nível alto de conscienciosidade (organização e responsabilidade), por exemplo, pode apresentar em Matemática mais de 4 meses de aprendizado à frente de um estudante que tenha esse parâmetro mais baixo. Essa característica, no entanto, não é tão influente em Português. Para esse domínio, competências como o chamado lócus de controle (identificado com o protagonismo) e a abertura a novas experiências são as que fazem a maior diferença: numa distância também de 4 meses a mais de aprendizado.

Organização, responsabilidade, protagonismo…palavras bonitas e que nem sempre aparecem entre alunos. A organização, talvez, seja a mais fácil de se obter. Responsabilidade e protagonismo são aquilo que gostaríamos de ver quando o sujeito, em sala, mostra que não está não apenas acordado, mas também ciente de seus deveres e participa da aula buscando reforçar seu conhecimento, não sua fama de palhaço.

 A avaliação concluiu que só esse estímulo [o papel dos pais] pode diminuir em mais de 20% a diferença entre alunos com baixa e alta conscienciosidade. Esse peso é duas vezes maior do que a diferença vista nessa habilidade entre ricos e pobres, por exemplo. A escolaridade da mãe – um atributo que apresenta forte ligação com o sucesso acadêmico – tem impacto quase nulo quando se trata da questão socioemocional.

Sempre temos a escolaridade da mãe em estudos com regressões múltiplas e microdados. Mas eis aí um ponto interessante: depende do canal de transmissão e dos controles. Então, a conscienciosidade pode ser afetada pela intervenção dos pais fazendo o seu (deles) dever de casa que é educar (embora muitos achem que não precisam se preocupar com a educação dos filhos…). Por outro lado, o papel dos pais não é tão forte quando o objetivo é melhorar outra característica da garotada: o socioemocional (algo destacado, dentre outros, pelo Nobel de Economia, o Heckman).

Na opinião do escritor e jornalista canadense Paul Tough, que estuda as habilidades não cognitivas na educação, é preciso garantir mais “proteção” para as crianças de origem pobre. “Em ambientes ricos, as crianças são superprotegidas das adversidades e sofrem porque não tiveram a oportunidade de superar os seus próprios fracassos. Em áreas pobres, porém, as crianças já tiveram muitas adversidades e precisam, mais do que tudo, de proteção.”

Então, a ciência avançou nosso conhecimento sobre os insumos da educação? Eu diria que sim. Vou aproveitar para continuar esta discussão utilizando conceitos de sala-de-aula, no caso, de Microeconomia.

Pensando com o que aprendemos em sala de aula…dois bens, uma função de utilidade…(somente para quem curte Economia)

 Primeiro, não confundimos mais estas habilidades com o falso dilema “capacidade vs conhecimento“, como aponta David Nicoll em matéria correlata, lá no mesmo Estadão. 

Em segundo lugar, Heckman aponta a indústria de testes como um indicativo de que estamos observando incorretamente o fenômeno da educação. Isto não significa que não se deva medir as coisas – não caia no papo dos falsários! – antes pelo contrário, conforme se percebe neste trecho:

Professor de Economia na Universidade de Chicago e especialista na economia do desenvolvimento humano, Heckman ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2000 por seu trabalho em provar que há efetivos ganhos econômicos quando se investe no desenvolvimento infantil, inclusive ao estimular características como cooperação e auto-controle (competências socioemocionais). Segundo ele, investir nesses aspectos durante a infância pode influenciar a economia, os aspectos sociais e de saúde de indivíduos e da sociedade como um todo, e isso pode ser avaliado com bases científicas. – See more at: http://educacaosec21.org.br/impacto-educacao/#sthash.8Hn7y9NW.dpuf

Estão aí todos os elementos para se pensar no problema da educação da gurizada. Com habilidades cognitivas e socioambientais (dois bens) produzimos a educação do menino (e, portanto, bem-estar).

Mais ainda, sabemos que as curvas de indiferença podem ter diferentes formatos, conforme estejamos observando resultados de bem-estar em aprendizado de português ou de matemática (isto tudo sem falar no papel dos pais). Algo como:

cognitivas = X
socioambientais  = Y
papel dos pais = Z
P = desempenho em português
M = desempenho em matemática

Finalmente, (D)esempenho é definido como:

U = u(P(X, Y, Z)), M(X, Y, Z)).

Eu diria que, para o processo tem duas etapas. Para maximizar U, temos que nos preocupar com o processo produtivo. Assim, pelo que vimos acima, as relações entre as duas matérias básicas e os insumos é tal que:

P = p(X(Z), Y(Z)) e M= m(X(Z), Y(Z)) com um ponto importante que é o de que, em P ou M, dX/dZ > dY/dZ. Imagino que a X e Y não sejam substitutos ou complementares perfeitos em nenhum dos casos, mas isto é com quem entende de educação.

Ah sim, a obtenção de impactos de Z em X ou em Y, conforme vimos no texto acima, é função de uma restrição orçamentária (a diferença entre “ricos e pobres”).

Bom, eu só queria mostrar como esta conversa toda pode ser pensada como um problema de maximização de utilidade típico. A solução do problema ou o refinamento do modelo não são meu foco principal aqui (mas seria uma boa idéia tentar resolver o problema, não? Supor alguns sinais de derivadas, etc). Eu queria mesmo era só destacar o ponto interessante disto tudo que é: a Ciência Econômica tem um papel social notável e não-desprezível. Afinal, quem pode ser contra a educação das pessoas?

Foi ao cinema e matou o filho

Gosto muito da sacada do jornalista que começou esta matéria com a chamada bombástica de que “nada mata mais crianças no Brasil do que a ignorância”.

Mesmo que ele não perceba, acabou de cutucar onças com varas curtas. Claro que a intenção é dizer que a falta de investimento em educação ajuda a piorar tudo e tudo o mais. Quem pode ser contra a educação para todos?

Contudo, muitas questões ficam em aberto. Por exemplo, medir educação como anos de estudo é uma prática comum no meio, mas não sinaliza a qualidade da educação. Eu não cobro dos pesquisadores esta medida, mas quando se fala de educação matando crianças, a gente fica apreensivo: será que uma escola da Al-Qaeda, alfabetizando todos, seria menos causadora de mortes do que uma escola pública da periferia? Ou uma escola privada em Higienópolis (nem sei se existe, mas vamos lá, sou ignorante nisto (e espero não ter matado ninguém no futuro…)) é tão boa quanto uma escola em Cuba?

Claro que eu também acredito que gente mais estudada deve cuidar mais dos filhos porque, novamente acredito, sabe ler bula de remédio, entende o que o médico diz, não pergunta quatro vezes a mesma coisa para o farmacêutico, etc. Seria ótimo se todos fossem assim.

O estudo merece leitura, obviamente (quem sou eu para desestimular a leitura de um artigo econômico que usa métodos estatísticos?), mas fica no ar uma crítica – que nem sempre é feita de forma honesta, é bom dizer – sobre o que significa, exatamente, a tal educação dos pais. O futuro, acredito, vai nos trazer estudos mostrando que um ano de estudo na Coréia do Norte pode não ter exatamente os mesmos impactos que um ano de estudo na Alemanha. Dito de outra forma, embora ambos saibam ler bulas de remédios, ceteris paribus, os filhos de ambos vão crescer e um deles preconizará mais e mais restrições sobre a sociedade (seja no mercado, seja na vida pessoal, etc), enquanto que o outro tentará, pelo desejo de controlar a própria vida, lucrar com, digamos, a sua descoberta da cura de alguma doença.

Enquanto isto, quem não quer ler mais que um tweet, quem deseja vadiar, claro, vai ao cinema e mata o filho. Figuradamente, digo (eu acho).

O brasileiro selvagem, o trânsito e a liberdade

Descia a rua com calma e, lá embaixo, outro motorista vira e entra na mão oposta. Ao lado dele, espaço para se acomodar. Do meu, nenhum. Vejo que não há muita folga na passagem dos dois carros e, assim, páro e vou lentamente para não arranhar meu carro e nem o do outro motorista. O mesmo não resiste: “- Folgado, heim”? O que este episódio nos ensina? Primeiro, que muitos brasileiros não entendem a educação no trânsito. Quem entra na via não tem a preferência sobre quem nela já está. Em segundo lugar, o episódio mostra que o brasileiro pode ser bem selvagem em situações do mais absoluto cotidiano.

Você deve se perguntar, imagino, sobre como eu vejo um Brasil mais liberal gerando mais prosperidade para todos já que o nível de educação de gente como este motorista beira à selvageria (sem ofensas aos que habitam as selvas). Você pode se perguntar mais: como é que o brasileiro viverá em sociedade se não tem, em média, um nível de educação decente? E o que dizer do nível de leitura: dois livros (contando ebooks) ao ano, segundo uma pesquisa divulgada há algum tempo, com surpreendente baixo nível de estardalhaço, na imprensa?

Geralmente, 90% dos meus amigos mais autoritários começam seu argumento desta forma. Quase posso enxergá-los dizendo: “- E agora, camarada? Este imbecil aí vai aprender o tal liberalismo”? Ou então: “- Eu não te disse? Brasileiro não sabe viver em sociedade. Não tem jeito mesmo”. Daí passam para todo tipo de solução (principalmente se a conversa ocorrer em um boteco…) como: “- Tem que botar este povo na linha com leis mais duras”! Ou: “- Este povo tem que ser obrigado a aprender no chicote. Precisamos de mais “militarismo”!

Os argumentos, digamos, brasilocêntricos, sempre fazem questão de enfatizar a estupidez do povo brasileiro. Por algum motivo mágico, os críticos, também brasileiros, escapam deste estado de burrice e alegam que isto é normal porque “- Eu tenho estudo, eu fiz faculdade”. Bem, infelizmente, muitos destes meus amigos são capazes de furar filas, dirigir como o imbecil acima, etc. Ou seja, não é tanto a educação formal a causa do problema, embora ela seja importante.

Por que brasilocêntrico? Bem, porque não é verdade que comportamentos assim não ocorram em outros países. Por exemplo, os suíços podem portar armas e não saem por aí matando gente em escolas. Logo, dizer que desarmar as pessoas soluciona o problema da violência no Brasil não é uma afirmação lá muito sólida. Outro exemplo interessante e triste é o do estupro de mulheres. Nenhuma lei impediu, até hoje, que o fenômeno terminasse em qualquer lugar do mundo. Entretanto, parece ser correto dizer que – voltando à Suiça – haja menos estupros neste pequeno país europeu do que no Brasil (mesmo que façamos as costumeiras normalizações como “estupros por 10 mil habitantes”). Então, nada de brasilocentrismo (ou jabuticabismo).

Sabemos, graças a pesquisas as mais diversas, que há algumas características impressas em nosso DNA por conta do processo evolutivo (e lembre-se que macacos podem ser tão ou mais violentos que os seres humanos). Por outro lado, nossa evolução também nos faz criar instituições que prolonguem nossa sobrevivência. Tais fatos valem para brasileiros e não-brasileiros, claro. Não é difícil se aceitar que nossa sobrevivência tenha uma relação positiva e forte com a renda per capita (ou da renda familiar), o que nos leva, para a tristeza dos que odeiam a economia, à inevitável necessidade de entender que tipo de instituições geram mais ou menos renda per capita (e, eventualmente, que instituições geram sociedades menos desiguais).

Sobre esta questão, os economistas têm trabalhado um bocado e, claro, sabemos pouco ainda. Nosso conhecimento parece indicar alguns fatos surpreendentes e outros nem tanto. Por exemplo, sabemos que algumas instituições geram maior renda para as famílias do que outras porque estas instituições foram moldadas (geralmente por ninguém em particular ou como resultado inesperado de alguma medida tomada por alguém, no governo ou não) de maneira a incentivar as trocas voluntárias entre pessoas.

Sabemos também que há ambientes que poderíamos chamar de “cultural”, no sentido de certos valores que alguém poderia chamar de “base moral” que levam ao desenvolvimento. Por exemplo, sabemos que pessoas que valorizam matar outras pessoas não são lá muito propensas a trocas voluntárias e preferem o roubo. Este não é um bom valor em termos das trocas voluntárias mas, surpreendentemente, pode ocorrer de o roubo gerar, de forma não-intencional, instituições pró-desenvolvimento. É possível imaginar que a abundância de terras em um vasto continente norte-americano no início de sua colonização tenha gerado pouca demanda por direitos de propriedade privados. Não-intencionalmente, o crescimento demográfico torna a terra mais escassa e, portanto, esta demanda pode mudar.

Que valores são os “melhores” para gerar uma sociedade próspera e pacífica é algo que não sabemos responder ainda. Por outro lado, parece mais interessante pensar que sua descoberta é um processo de tentativa e erro que pode acertar seu alvo se não for tolhido por instituições ruins. Por exemplo, ao proibir os moradores de um bairro de passearem com seus filhos numa praça, estará o governo gerando pessoas enclausuradas com todas as consequências que daí advém (boas ou más).

grafico_mortes_liberdade

O tema é, sem dúvida, polêmico e cheio de arapucas ao longo do caminho. Entretanto, percebo que até mesmo o pobre motorista sem noção de educação básica pode aprender a dirigir melhor em uma sociedade mais liberal do que em uma sociedade autoritária. Aliás, países mais livres (tomando apenas a dimensão econômica) também parecem ser países com menos fatalidades no trânsito (veja o gráfico acima). Pura correlação ou há uma conexão causal? Será que a liberdade econômica gera infra-estrutura melhor e, portanto menos acidentes? Ou será que a liberdade econômica é compatível com uma atitude menos violenta e, portanto, há menos acidentes?

Não tenho a resposta, mas imagino que o leitor tem muito a ganhar se pensar neste problema e, claro, cuidado com o trânsito: motoristas mal-educados e violentos ainda não são a exceção neste país…

Fonte dos dados: Wikipedia (verbete: List of countries by traffic-related death rate) e http://www.freetheworld.com.

Como a esquerda conseguirá destruir o capital humano brasileiro

Rolf Kuntz tem uma crítica muito bem elaborada com respeito ao ministério da desigualdade (MEC). Parece aquela história antiga: os caras se agarram a um livro nunca revisado de Celso Furtado e a algumas idéias estranhas dos anos 50. Ou seja, não querem saber de gente bem educada (que, inclusive, é mais consciente e “participativa”), mas sim de substituição de importações. Só que agora querem importar engenheiros e técnicos de Cuba ou sei lá de onde mais.

Afinal, nem educação de qualidade eles querem dar, embora pressionem o setor privado a absorver semi-analfabetos em seus bancos, condenando os mesmos a um sofrimento muito maior do que teriam se bem educados fossem. Curiosamente a UNE, a CUT e outros que se vendem como “neutros defensores” de trabalhadores ou educadores preferem se calar e construir prédios ou lutar pelo imposto sindical (embora se digam contra o mesmo).

Os pais, claro, acham bonito que a educação seja de “esquerda” porque dividem o mundo entre bons e maus, tomando como referência os anos da ditadura militar estatizante (que eles chamam de “direita” apenas por conta do caráter religioso, imagino, já que liberalismo é o oposto de estatizante). Já ouvi várias vezes que “uma coisa é um cara que mente para se eleger (digamos, hipoteticamente, o Maluf)” e outra é “quem mente para se eleger (digamos, hipoteticamente, um da Silva que literalmente rasga seus gritos de guerra históricos para se vender como candidato palatável ao eleitorado sério). Ou seja, mentiu e eu gosto dele, pode. Mentiu e eu não gosto, não pode.

As pessoas gostam de double standards para avaliar aqueles que cuidam do dinheiro que lhes é arrancado sob a forma de impostos. Curiosamente, em um casal, o mesmo comportamento leva a brigas intermináveis e, claro, ao divórcio.

Interessante, não? Bem, mas se você leu tudo até aqui e concorda ou não comigo, fico feliz. Afinal, você ainda entende a língua portuguesa que estudamos em boas escolas.

Esqueça os pedabobos brasileiros…

…a revolução educacional começou nos EUA, obviamente construída sobre anos e anos de estatísticas acumuladas e analisadas. Enquanto os pedabobos daqui falam impropriedades sobre o que não entendem (“imperialismo”, “neoliberalismo”, etc), inventam histórias sobre “direitos adquiridos de segunda, terceira, quarta geração” e chamam as técnicas de ensino de “arcaicas”, o hiato entre a selva e a civilização só aumenta.

p.s. sim, há exceções honrosas, mas eu não as conheço. Como eu sei que existem? Princípios básicos de estatística, claro.

Educação no Brasil

Household Income As A Determinant of Child Labor and School Enrollment in Brazil: Evidence From A Social Security Reform

Author/Editor: Carvalho Filho, Irineu E.
Authorized for Distribution: October 1, 2008

Summary: This paper studies the effects of household income on labor participation and school enrollment of children aged 10 to 14 in Brazil using a social security reform as a source of exogenous variation in household income. Estimates imply that the gap between actual and full school enrollment was reduced by 20 percent for girls living in the same household as an elderly benefiting from the reform. Girls’ labor participation rates reduced with increased benefit income, but only when benefits were received by a female elderly. Effects on boys’ enrollment rates and labor participation were in general smaller and statistically insignificant.

Bacana, né? Em um artigo bem menos técnico, outro tema de destaque: empreendedorismo.

Educação: um motivo a menos para subsidiá-la

Interessante artigo sobre uma das justificativas mais senso comum (do mundo!) para se subsidiar a educação. Valeria uma estimativa para o Brasil. Coisa para gente que gosta de equação minceriana e afins.

Mais de nossa polêmica

Leo, Tyro, Claudio (meu xará), Juliano e, se esqueci mais alguém, desculpe-me, tiveram uma boa polêmica aqui, sobre quem deve ter o direito de nos ensinar o que. Tivemos argumentos sobre criacionismo e darwinismo, jihadistas, nazismo, socialismo e…bem, onde chegamos? Talvez não muito longe. 

Eis talvez algo para se pensar: um dos artigos deste periódico trata do papel da educação na prevenção da doutrinação radical islâmica.

Nota final: não acho que o autor tenha conseguido avançar tanto quanto nossos comentaristas…

Até a preliminar o governo quer regulamentar!

Mas eis uma solução que tira o sono dos burocratas:

Criar  uma  agência  autônoma de  avaliação do  ensino  superior; descentralizar  as  avaliações; permitir  a criação de agências  independentes  de  avaliação  de  direito  privado;  adotar um sistema ou vários sistemas  de certificações.

Do que estou falando? Disto.

Uma sutil diferença

Reinaldo Azevedo explica de maneira muito didática – sem se deixar levar pelo desrespeito de alguns – a diferença entre ensinar e pseudo-ensinar (que, veja bem, INCLUI doutrinar). Embora os doutrinadores bolivarianos (e seus blogueiros que enxergam liberalismo até atrás do armário) falem de “isenção”, bem lembra Reinaldo, eles aproveitam para, sem qualquer isenção, vender gato por lebre. Mais ou menos assim: ele quer que você abdique de seus valores para “fazer um julgamento equilibrado da realidade” (onde arrumam os pesos é outro problema) enquanto ele pode, amando o bolivarianismo, expor o ponto de vista dele.

A armadilha é a seguinte: o fato de você expor de forma realmente isenta, digamos assim, algo, não significa que você não tenha uma posição pessoal sobre o assunto. Mas os bolivarianos distorcem o argumento dizendo que é disto que você precisa: jogar fora seus valores. Inevitavelmente, como não são idiotas, sabem que você precisará, pela sua individualidade (esta que não existe porque o que importa é o “social”, “o coletivo”), de uma posição pessoal. Aí, claro, os mascateiros vendem o produto deles cuja história é bem suja de sangue como um perfeito detergente.

Sutil, mas faz toda a diferença.

Melhor desabafo que já li

Janaína, inclusive, põe a esquerda nua com seu novo discurso da “ética” que abunda nas escolas. Desculpe-me, leitor, mas este trecho é importante. Espero que a Janaína não se irrite com minha reprodução de suas palavras:

País com 75% de analfabetos funcionais entre 15 e 64 anos. A esquerda, esperança até há alguns anos, defende a corrupção como algo necessário _ afinal, “todos os que vieram antes fizeram o mesmo” e o governo distribui cada vez mais bolsas assistenciais. Não é o máximo?

Essa frouxidão moral serve de escudo para quem age como o compadre do presidente da República, que negocia favores lesando o Estado em centenas de milhões de reais. Também protege a ministra-chefe da Casa Civil, presidenciável, e a mantém cúmplice do tráfico de influência. Permite a propagação de jornalistas de serviços que blindam o governo e têm dívidas com bancos públicos perdoadas.

Sem cobrança dos eleitores, CPIs viram moeda de troca: o PSDB deixa que a dos cartões corporativos acabe em nada, o PT não faz tudo que pode para investigar a Alstom. A solidariedade também está presente quando a companheirada do Banco do Brasil engana a Previdência e ganha aposentadorias milionárias _ mesmo BB, aliás, que compra bancos públicos micados sem licitação. Ninguém fala nada.

O silêncio também ronda Celso Daniel, que continua injustiçado, pois aqueles a quem ele chamava “parceiros” preferiram sociedade com o que há de mais vil no mundo do crime. Alinharam-se aos narcotraficantes das Farc, abriram as portas do mercado para dinheiro da máfia russa e da corrupção angolana.

Aposto que os filhos de todos esses políticos e apanigüados estudam nos melhores colégios. Futuros doutores, talvez advogados como a filha de Roberto Teixeira, ou empresários bem-sucedidos como Paulo Henrique Cardoso e Lulinha.

Veja bem, leitor. Independente da corja que esteja no poder (a de hoje, a de ontem ou a de amanhã), uma lição os brasileiros já deveriam ter aprendido com o Thomas Jefferson e seus amigos revolucionários: não existem anjos. Decepção com a esquerda? Nem um pouco. Eu já desconfiava mesmo. Mas anos e anos de discursos pouco científicos de supostos cientistas políticos, supostos filósofos, supostos sociólogos e, sim, supostos economistas, criaram um viés de irracionalidade muito grande para algumas pessoas. Em outras palavras: muita gente acreditou (e acredita) em Papai Noel.

O problema vai além disso, aliás. Nós, que curtimos estudar New Institutional Economics sabemos que a resposta está no estudo dos direitos de propriedade e, portanto, das instituições formais e informais de um país (o que nos remete à longa série de textos deste blog sobre Estados Falidos). Este tema tem me ocupado há algum tempo (tive até um aluno com uma monografia sobre isto, recentemente) e o prognóstico não é, por enquanto, dos melhores. Por que?

Instituições flutuam entre duas dimensões conceituais: formalidade e informalidade. Leis são parte das instituições formais e cultura fazem parte da parte informal das instituições. As primeiras são mais facilmente alteradas, claro. Mudar a cultura de um povo acerca dos direitos de propriedade passa por um processo de ensino que certamente não se baseia em doutrinação, mas sim no verdadeiro pluralismo (aquele que é inseparável do liberalismo clássico) e leva gerações para se sentir porque, sim, depende das escolhas individuais.

No momento em que o consenso no país é a celebração do “politicamente correto”, fica difícil ser otimista. Quando eu falo de autoritarismo, totalitarismo, bolivarianismo e socialismo real, certamente me refiro à sua mais marcante dimensão comum: a tentativa de alguns dizerem a outros o que é melhor para elas de forma tão forte que se transforma em regulação das livres ações alheias.

Eis o perigo que, acho, Janaína enxerga em última instância. Se ela discordar de mim, tudo bem. Afinal, não vivemos, ainda, em um regime que proíba a discordância de opiniões. Mas não seja otimista: a leitura dos discursos de nossos atuais governantes não nos mostra que este é um perigo tão distante assim…

Todo pedagogo atual também repete o que algum pedagogo morto já disse, como diria Keynes…

“A idéia de autoliderança, de auto-responsabilidade, a idéia de um Estado da juventude dentro de um Estado maior não é minha. Começou com as escolas de Hermann Lietz. Lietz fundou um novo tipo de sistema escolar em 1898, consistindo em dez ou doze escolas. Eram o que se poderia chamar de internatos rurais. A primeira escola foi fundada em Ilsenburg.

Lietz foi aluno de Friedrich Froebel, assim como Jean-Jacques Rousseau e Johann Heinrich Pestalozzi. Sua idéia era evitar os perigos que via nos centros industriais, como as cidades grandes, unindo a juventude não apenas em tarefas escolares, mas em outras atividades. Assim, por exemplo, trabalhávamos junto com os meninos, construíamos casas, oficinas de carpintaria, oficinas de hidráulica e coisas semelhantes. As escolas de localizavam em propriedades que possuíam seus próprios jardins, gado, etc. Desse modo, a própria escola era um quadro em miniatura de um Estado. Todo menino tinha sua função dentre desse Estado em miniatura. Mas eles também tinham lições para aprender. O importante era que estavam trabalhando para a comunidade. Você pode chamar esse modelo de comunista, socialista ou democrático no sentido moderno do termo. Foi desenvolvido com base em Pestalozzi, Rousseau e Froebel, oito anos antes de Lietz. Mas Lietz desenvolveu e formulou e pôs em prátia essas teorias.

(…)

A principal desvantagem das escolas de Lietz era que as cidades e as indústrias exerciam influências perigosas sobre os jovens (…). Os meninos e meninas de suas escolas – era um sistema misto, em que acredito firmemente – eram filhos de pais ricos. E as próprias escolas eram caras, de modo que a desvantagem era que aquelas eram crianças de uma só classe social, os filhos dos ricos.

Portanto, tentei construir algo que reunisse todas as classes da juventude. Era um Estado da juventude que incluía meninos das classes trabalhadoras, bem como os filhos de famílias aristocráticas: a juventude seria descoberta pela própria juventude”.

[Baldur von Schirach, 1907-74, ex-líder da Juventude Nazista, citado em “As entrevistas de Nurenberg”, de Leon Goldensohn, Companhia das Letras, 2004]

Uma política educacional que apóia visões idílicas sobre o campo e que, ao mesmo tempo, busca atenuar suas bases, digamos, anti-modernas, e com inclusão social. Nada me parece mais próximo de certos discursos do atual bolivarianismo-dentro-do-armário que impregna muita gente importante. Bem, mas é estudando a história que conhecemos as origens das idéias, as tentativas similares de implementação de políticas atuais, etc.

Por isto é que leitura é importante: para desmistificar certas lendas. Estudar e ler nos ajuda a entender melhor não apenas as idéias de gente como Pestalozzi e Froebel, mas também o uso que os adeptos da engenharia social fazem delas.

Ensino superior – o buraco é mais embaixo…

Questão de incentivos, eu diria:

Professores matões

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escrito por Philipe Berman – 10:14 AM

Já falei diversas vezes aqui no blog sobre a decadência das universidades federais no Brasil. Se as privadas estão deixando a desejar, as públicas embarcam no mesmo barco. Minha namorada estuda na UFRGS e tem duas disciplinas nas segundas-feiras. Ontem de manhã, o professor não apareceu por que disse estar doente. Toda a turma compareceu, mas o departamento não colocuo um substituto. Na cadeira da noite, a professora compareceu ao local da aula, mas se irritou devido à ausência do retroprojetor. Resultado final, ela mandou todo mundo embora pra casa e não deu aula. Ora, todos que estudaram em universidades estatais sabem que falta material de apoio, mas usar isso como desculpa para deixar de realizar o seu trabalho é coisa de vagabundo.

Minha namorada me ligou na hora, com raiva e nervosa. Perguntei a ela se alguém havia reclamado sobre o ocorrido, mas parece que onde ela estuda houve casos nos quais alguns alunos que reclamaram das aulas e da ausência dos professores foram prejudicados nas avaliações finais. Como sempre, a culpa pela educação no Brasil é do aluno. Se não for, punamos eles mesmo assim, afinal, pra quem eles vão reclamar?

Quem disse isso foi o Philipe. Honestamente, fiquei surpreso.  Leo Monasterio sempre me diz que tenho uma visão muito pessimista dos alunos. Faz algum sentido. Estudei e agora leciono há mais de dez anos. Não é difícil ver que boa parte dos alunos só reclama para facilitar a própria vida, não para fazer jus ao que pagam de mensalidade (que é o direito de estudar e se submeter a testes de aferição do conhecimento individual).

Sim, já vi gente séria reclamando como o Philipe. Lembro-me de um professor de Economia Brasileira que vivia faltando aulas porque, dizia ele, tinha enxaqueca. Numa destas, eu o encontrei no setor de “xerox” da faculdade, feliz e contente. Claro que começou a se sentir mal, “supostamente”. Outro professor gente boa era o de Setor Público, que, como trabalhava para o governo estadual, mais matava aula do que lecionava. Pelo menos nunca foi injusto na cobrança, mas paguei o preço: só fui aprender sobre o tema no mestrado, em desvantagem com meus colegas.

Creio que a namorada do Philipe realmente tem porque ficar nervosa. Espero que também não seja como alguns alunos que, morando a 15 minutos da faculdade, chegam com 40 minutos de atraso. Vejo muito isto e realmente me pergunto sobre a importância que um sujeito dá ao estudo (sinalização com informação assimétrica ou aumento de produtividade?).

Quanto aos professores, sim, como já disse aqui antes: professor é um cara que se respeita…quando ele cumpre suas tarefas. Quais são suas tarefas: (i) preparar aulas; (ii) preparar exercícios); (iii) cumprir horário (se a matéria adiantar e o programa for factível, ok, senão, não); (iv) escrever no quadro e (v) responder perguntas que não atrasem excessivamente o andamento da matéria. Simples assim.

Você pode ser um iconoclasta e um anarquista intelectual, mas respeito é bom e todos gostam. Não são conceitos mutuamente exclusivos.