Etiquetas tortas: incentivos importam

Como seria possível saber, além de qualquer dúvida, que a Albânia era comunista apenas olhando uma garrafa de seu conhaque ou um vidro de suas compotas de frutas?

No caso destas últimas, claro que as etiquetas não estariam coladas direito. Podemos especular se essa tortuosidade representaria revolta por parte dos etiquetadores de vidros ou uma sátira sutil. Afinal, se as estiquetas fossem coladas apenas ‘sem cuidado’ – por causa da embriaguez, digamos – , poderíamos esperar que, de vez em quando, aparecesse uma etiqueta alinhada. Porém isso não acontece: examinei os vidros em diversas lojas para verificar a veracidade dessa observação particular. [T. Dalrymple, Viagens aos Confins do Comunismo, É Realizações, 2017, p.36]

Incentivos importam, não é? Como não há que se agradar consumidores, por que se preocupar em etiquetar corretamente uma compota de frutas?

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Incentivos importam? O caos microeconômico criado pelo coletivismo soviético

Eis um artigo mais antigo, mas importante, sobre o problema dos anticomuns (o problema oposto ao famoso problema dos comuns). O livro de Cooter & Ulen (acabei de falar dele no post anterior) descreve o exemplo interessante dos apartamentos que, após a Revolução Russa, foram divididos entre várias famílias (sabe aquela história de que “se o socialismo for implantado no Brasil, você terá que dividir seu apartamento”? Pois é, ela não é uma ficção…).

Como era feita a divisão de um apartamento? Pode-se esperar que as famílias dividam os cômodos e, de comum acordo, compartilhem o(s) banheiro(s) e cozinha. Bem, aí vem o problema.

Quando o comunismo acabou, essas famílias achavam que tinham direitos de propriedade contínuos a suas peças individuais e aos espaços comuns. Suponha que, se transformado num imóvel para um único proprietário, o valor do apartmento – ou ‘kommunalka’, como era chamado – seria de US$ 500 mil. Suponha que atualmente haja quatro famílias de inquilinos e, cada uma ocupe uma peça e compartilhe o uso dos espaços comuns. Vendidos separadamente, os interesses dos inquilinos alcançariam, segundo nossa suposição, U$ 25 mil – ou US$ 100 mil no total. Converter a ‘kommunalka’ num único apartamento criaria US$ 400 mil em valor. Mas ocorreu frequentemente que os custos da combinação dos interesses individuais dos inquilinos eram tão grandes que impediam o uso mais valioso do recurso. [Cooter & Ulen, Análise Econômica do Direito, 2010, p.139]

Esta é uma das interessantes distorções microeconômicas geradas pelo modelo econômico socialista soviético. Repare que não é um problema exclusivo da ex-URSS. Sempre que há excesso de direitos de propriedade (no sentido de que há ‘superproprietarização’, ou seja, há um número excessivo de direitos de propriedade em relação ao seu ótimo), o problema aparece. Já li em algum lugar que este é um problema atual da indústria de smartphones, na qual se tenta patentear até o deslizar dos dedos sobre a tela.

 

Socialismo Real – como funcionam os quase-mercados na terra dos sonhos dos bolivarianos

Um Peugeot 206 ano 2013 é vendido por US$ 91 mil, enquanto um 508 novo chega a custar US$ 262 mil, num país onde não é raro ganhar menos de US$ 20 por mês.

Como isto é possível? Desigualdade social gerada pelos mercados? Pense bem antes de responder a esta pergunta porque o responsável pelo baixo valor dos salários dos cubanos é o governo de Cuba (e também o nosso, no que diz respeito aos contratos flagrantemente desumanos que fez com médicos cubanos, com o surpreendente silêncio dos sempre atentos membros do Ministério Público).

O engraçado é que a matéria não vai até a raiz do problema. Por exemplo, o redator continua:

Por enquanto, a administração pública não fez nada para que os preços cobrados sejam minimamente ajustados à realidade cubana, deixando o mercado de automóveis limitado a alguns poucos endinheirados.

Eu sei que a “administração pública” é a grande responsável pelo fracasso sócio-econômico da ilha. O jornalista que redigiu a matéria, imagino, também sabe. Agora, como é que ele espera que o governo cubano consiga “ajustar minimamente” os preços à “realidade cubana” é-me um mistério. Por que?

Primeiro, pelo óbvio fato de que é o próprio governo (ou, como ele quer, a “administração pública”) o grande responsável pela mudança. Segundo, é lá que provavelmente se encontram os “poucos endinheirados”. Aliás, faltou fazer a pergunta: como é que pode existir alguém “endinheirado” num regime socialista?

Bem, ao contrário do discurso, é exatamente isto que um regime socialista faz. Não, não me refiro às toneladas de livros escritos sobre a igualdade no socialismo. Uma coisa é a publicidade dos intelectuais, outra, a realidade (como é que você acha que eles ganham a vida?). Obviamente, não é novidade para ninguém que assim seja no socialismo. Qualquer um que tenha estudado um pouco da história do leste europeu já deve estar familiarizado com isto. Quem é esta, como diria um porta-voz do governo atual, “elite branca”?

Antigos filhos da classe trabalhadora são os mais afoitos membros da nova classe. Foi sempre o destino dos escravos que seus representantes mais inteligentes e bem-dotados se tornassem seus senhores. Neste caso, uma nova classe dominante e exploradora nasceu da classe explorada (Djilas, M. A Nova Classe, Círculo do Livro, p.45)

Pois é. O jornalista que se espanta com o preço do Peugeot poderia ir além e se perguntar de onde surgiram estes endinheirados. O ex-assessor do Marechal Tito, Milovan Djilas, autor do trecho citado acima, foi bem claro na pista para se descobrir a origem dos “endinheirados” cubanos.

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