Incentivos importam: a votação do UBER

Como políticos da bancada do táxi, para usar um termo que não é fictício agiram para excluir qualquer audiência pública sobre um projeto claramente ruim para todos e ainda conseguiram aprová-lo?

Descubra neste detalhado texto.

Uma observação adicional: há tempos desisti de chamar à razão alguns entusiastas de causas com as quais tenho até afinidades ideológicas. Alguns chegam ao ponto de dizer que qualquer investigação científica é “desnecessária” ou, pior, fruto de meu “apego à econometria que não serve para nada”, sem falar no popular “modelos em economia não ajudam”.

Não conheço o autor do texto acima, mas vi que ele não escreve de forma superficial e precisou estudar um bocado para entender os incentivos políticos que – de forma muito clara – desnuda ao leitor.

É um texto de qualidade que apóia minha tese: sem evidências empíricas, sem método científico, sem o ceticismo sincero, não se avança em nada, exceto na gritaria habitual (que pode até render alguma audiência, mas não adiciona valor ao debate). Eu sei, é um desabafo. O lado bom é que encontrei este texto (graças à minha ex-orientanda, Luciana), o que é um bom sinal de que existe uma interessante comunidade na blogosfera para se ler.

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O Islã, a política e a economia

Depois do último post, volto a divulgar outro pequeno texto sobre o tema. O resumo?

It is typically argued that the rising popularity of Islamist parties in parts of the Arab world reflects votes from the poor and disenfranchised. This column challenges this perspective, arguing that Islamist parties gain political support from the middle classes, due in large part to neoliberal economic policies. Using survey and electoral data from Tunisia, it shows that belonging to the middle class and living in a rich district together affect the decision to vote for the religious party more than actually being religious. These findings suggest that the same framework used to analyse political competition in the West can be fruitfully applied to the Muslim world.

Nada muito diferente do que se faz por aqui, não?

A árvore da maçã do impeachment e a serpente

Regis, meu colega do PPGOM, é um cara talentoso no uso do R. Deixa este que vos escreve no chinelo. Ele se propôs a um exercício interessantíssimo envolvendo R, política brasileira, impeachment e probabilidades. Quer saber o que ele encontrou? Clique aqui.

Eis um trecho da conclusão dele:

A árvore do Senado Federal nos mostra que a maior resistência ao Impeachment parece ser os partidos do PCdoB, PDT, PMDB, PP, PR, PRB, PSB, PSD, PT e PTB nos Estados AL, AM, AP, BA, MA, PA, PE, PI, PR, RJ, RN, RR, TO. O Impeachment precisa de 54 votos no Senado. Atualmente existem 36 Senadores com intenção de voto a favor e 26 contra. Assim, são necessários 18 votos dos 19 indecisos para a Presidente ser destituída do Cargo, ou então uma mudança no voto dos Senadores que se declararam contra o Impeachment.

Sensacional, não? Enquanto os cientistas políticos permanecem no papo de sempre, na Economia, gente como o prof. Regis faz o trabalho duro e nobre de tentar inferir algo importante a partir dos dados (ok, há cientistas políticos sérios, mas não posso deixar de seguir Tullock em seu famoso comentário sobre estes caras…sem link desta vez…).

A ética islâmica do subdesenvolvimentismo

Citando Timur Kuran em seu livro, Caplan nos dá uma ótima pista sobre o porquê de alguns países terem uma pedra adicional amarrada a seus pés, tornando-os eternos emergentes que nunca emergem. Assim, governos islâmicos seguem ao pé da letra a religião e proíbem a cobrança de juros. Por que?

The objective is not simply to make Islamic banking more accessible. It is to make all banking Islamic. Certain campaigns against conventional banking have succeeded in making ‘interest-laden’ banking illegal. In Pakistan all banks were ordered in 1979 to purge interest from their operations within five years, and in 1992 the Sharia court removed various critical exemptions. Interest prohibitions have gone into effect also in Iran and the Sudan. [Caplan, B. (2007). The Myth of the Rational Voter, p.33]

Perguntas que me ocorrem: suponha que os refugiados sírios que vieram ao Brasil recentemente não sejam predominantemente católicos. Como eles enxergam a questão dos juros? Como conciliarão sua oposição à cobrança de juros com a prática brasileira?

Interessante pensar nesta questão. Nós, cristão, também já tivemos este pensamento errado sobre juros. Errado, sim, do ponto de vista científico mas não necessariamente do ponto de vista religioso porque uma religião pode pregar o que quiser sem checar fatos empíricos (é questão de fé apenas).

Herança portuguesa?

Como poder independente, o Parlamento é, em primeiro lugar, muito mais antigo do que o Executivo: funciona com regularidade no país desde 1826. (…) Então, para o Brasil, é uma experiência única, que com certeza não é herança portuguesa; basta examinar a história de Portugal para se constatar que o Parlamento do país funciona para valer depois da Revolução dos Cravos, no século XX. [Caldeira, J. Nem céu nem inferno, Ed. Três Estrelas, 2015, 199-200]

Caso Caldeira esteja correto no que diz neste trecho, então temos que ter muito cuidado antes de cair na conversa fácil de que o que está errado aqui é culpa de Portugal, ou do Reino Unido, ou dos EUA. Citei um trecho, mas Caldeira surra este ponto várias vezes ao longo do livro.

Acho interessante porque me lembro do argumento de Brender e Drazen em um artigo muito bom, no qual eles conciliam duas hipóteses sobre o comportamento do eleitor, por meio de um raciocínio engenhoso. Mais ou menos, a coisa é assim: existem duas hipóteses importantes sobre o comportamento dos eleitores: ou são racionalmente ignorantes (são facilmente enganados e, assim, políticos geram ciclos político-econômicos desviando-se dos desejos dos eleitores nos níveis das variáveis-meta das políticas fiscais ou monetárias) ou racionais (os eleitores não são bobos e punem os políticos que se desviam, etc, etc).

caldeiraOs autores, então, mostram que, ao separar a amostra de países em “novas” e “velhas” democracias, obtém-se que: nas “velhas” democracias, o comportamento dos eleitores corrobora a hipótese do eleitor racional e, nas “novas democracias”, a hipótese corroborada é a de ignorância racional. Assim, conclui-se que é a prática política que diminui o viés de ignorância dos eleitores. Ou seja, mais democracia tenderia a gerar cidadãos mais e mais vigilantes quanto aos comportamentos dos políticos.

Eu gosto deste artigo e acho a argumentação bacana mas o problema está nesta definição de “nova” e “velha” democracia que não é independente da disponibilidade de dados. Em outras palavras, a extensão do período de tempo analisado pode alterar o que os autores chamam de “nova” ou “velha” democracia.

Por um lado, não é um problema porque a definição dos autores é basicamente funcional: não há uma ambição exagerada de criar uma nova taxonomia de regimes políticos. Mas fico com aquela sensação de que se o modelo do artigo para períodos mais recuados no tempo (pode ser que existam dados, mas não afirmo de maneira inequívoca…), talvez o Brasil se saísse até melhor.

Quando eu e o Leo fizemos um teste da hipótese de Olson sobre grupos de interesse e rent-seeking, tivemos que lidar com um período de tempo que incluía, ao mesmo tempo, democracia e ditadura. Não sei se nossa solução foi a melhor possível, mas foi a melhor que conseguimos fazer na época. De qualquer forma, uso meu artigo como exemplo apenas para chamar a atenção para possíveis interessados em incursar neste campo interessante de estudos de Economia Política (no sentido moderno do termo).

p.s. Sobre a história de Portugal eu pesquisei há algum tempo e meu conhecimento gira em torno disto.

Armando cidadãos e elegendo oficiais: o que Douglass North diria?

Após confrontar-se com um motim de militares, Diogo A. Feijó…

Para garantir a ordem no Rio de Janeiro, a população foi armada para cuidar de sua própria defesa. Em todo o país, a recém-criada Guarda Nacional, formada por cidadãos, assumiria o papel dos demitidos. Naquele momento, um dos mais preciosos colaboradores de Feijó foi o major Luís Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, que dividia seu tempo entre o Exército, o treinamento militar dos cidadãos, o controle dos motins que se sucediam e o apaziaguamento dos ânimos. [Caldeira (2015), 104]

Então, armar ou não a população não é uma questão filosófica ou humanitária para políticos. Trata-se, simplesmente, de uma questão pragmática. Primeiro ponto: defensores atuais do desarmamento dos cidadãos podem estar a serviço de uma agenda que lhes é oculta? Claro, é uma pergunta polêmica, mas a evidência histórica acima (e as milícias que Maduro incentiva na Venezuela) mostram que “desarmar ou não os cidadãos” é uma questão vista pelos governantes com muito menos, digamos, preocupações humanitárias.

Bom, esta foi a pergunta de economia política mas há também a outra pergunta: a Guarda Nacional foi mais eficaz na garantia da segurança dos habitantes do Rio de Janeiro do que a polícia (muitos policiais foram demitidos por conta do citado motim)? Como construir um experimento para verificar este impacto? Existem dados?

Ah sim, existem aspectos institucionais interessantes (há muita literatura ruim, em português, sobre Douglass North e sobre o que sejam as instituições em sua visão. Assim, sugiro apenas este texto, do próprio). Vamos a eles.

Os guardas nacionais deveriam ser repartidos pelas Câmaras Municipais em unidades dentro dos distritos de cada município. A principio, as unidades seriam da arma de infantaria, ficando a cargo do governo decidir sobre a criação de unidades de cavalaria e artilharia. [C]abia ao governo escolher os Coronéis e os Majores de Legião da Guarda Nacional. Os demais oficiais, inicialmente, eram escolhidos através de eleições em que votavam todos os guardas nacionais para exercerem um posto pelo prazo de quatro anos, porém tal fórmula foi modificada após a promulgação do Ato Adicional (1834), sendo substituída por nomeações provinciais, propostas das Câmaras Municipais e, mais tarde, por indicações dos comandantes dos corpos. [o citado verbete da Wikipedia sobre Guarda Nacional]

Eleições? Desperta a curiosidade sobre se a adoção deste mecanismo tinha algum impacto na eficiência no trabalho da Guarda Nacional, relativamente às forças militares tradicionais e, não, não penso apenas em uma conversa informal, mas em algum estudo com dados empíricos.

Outro ponto na discussão sobre transporte de pessoas: o custo do insumo (e um resumo de quase tudo que já escrevi aqui antes sobre o caso “Uber”)

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Não chequei a fonte, mas me parece que os dados estão corretos. Posto isto, cai por terra outro argumento estranho de que quem dirige um Honda Civic tem menos custos do quem dirige um Gol.

Ah sim, para Belo Horizonte, alguns jornalistas fizeram parte do dever de casa e nos mostram que a classe dos taxistas não é tão homogênea assim em termos de renda (veja também a breve matéria sobre os taxistas e suas empresas de fachada).

Em outras palavras, a questão do Uber (veja que já estou cansado de levantar pontos para a reflexão em diversos textos que publiquei aqui) continua na ordem do dia e prefeitos e vereadores têm nas mãos a oportunidade de se mostrarem mais ou menos interessados no bem-estar de seus eleitores nestes tempos em que vivemos…

Ah sim, leiam também este ótimo texto do Carrasco e do Mello. Algumas analogias que já fiz são esta, esta e esta). Os estudantes (alunos ou professores ou leigos) de Ciências Econômicas talvez gostem dos seguintes textos: este, este (com dados), este, este (com análise do CADE sobre o tema) e este (no qual mostro com um exercício simples típico do primeiro ano de um estudante de Ciências Econômicas, boa parte do que já disse em outros textos). Caso você seja um leitor de primeira viagem deste blog, espero que goste destes textos.

Sobre o Roda Viva de ontem

Um rápido comentário. Lembro de ter ouvido o Samuel falar que “achava que tínhamos aprendido a fazer política econômica”. Pois bem, este é um ponto que cito de quando em vez aqui no blog. Mas eu também já disse que, embora os economistas tenham a tecnologia para fazer boas políticas econômicas, é fato que a transferência intergeracional de tecnologia de política econômica não é igual à transferências similares de tecnologias físicas.

Exemplifico: não é porque passaram-se gerações de ministros pela área da energia que os mais novos desaprenderam a usar tecnologias poupadoras de energia. Entretanto, na área econômica, basta um ministro novo assumir que o temor de que o mesmo destrua a economia do país não pode ser desprezado.

Ou seja, sim, sabemos como resolver o problema mas, não, não há garantias de que vamos usar esta tecnologia. Por que? Porque o custo político de se usar uma tecnologia anti-inflacionária não é igual ao seu custo econômico. Novamente: se eu digo que vou aumentar os juros para combater a inflação, a minha base de eleitores pode ser violentamente contra, mesmo que a população como um todo não o seja.

Não é de hoje – mesmo – que, neste blog, fala-se de incentivos políticos interferindo na economia. Então, o que estou tentando dizer é que o melhor seria criar instituições sólidas para que boas políticas econômicas prevaleçam.

Eu entendo a tristeza do Samuel – sinto o mesmo – mas também entendo que nossos economistas sérios demoraram muito a dar a devida importância ao problema dos incentivos políticos. Não é que não perceberam a sua importância, mas sim que não tivemos uma discussão frutífera – no sentido de gerar resultados – sobre como resolver o alinhamento de incentivos (veja o Nobel do Al Roth, dentre outros…).

O futuro, meus caros, é sombrio.

Criar um conflito externo ou criar/fomentar divisões internas no país?

Digamos que você é um(a) presidente de um país e quer se manter no poder enfraquecendo a oposição. Digamos que você conseguiu enfraquecer o balanço de poderes entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário em algum grau. Então, seu problema é, em outras palavras, alocar seus recursos para conflitos externos ou internos.

Ocorre que recursos são escassos e, portanto, você tem que escolher onde alocá-los conforme as restrições que enfrenta (veja, por exemplo, este texto). Para alguns, é mais fácil criar um inimigo externo e partir para um conflito (potencial ou não, conforme o custo…este cálculo é dinâmico, intertemporal). Para outros, com restrições distintas, a melhor forma é fomentar divisões internas (o conflito interno) para enfraquecer seus adversários e, sim, esta é uma questão econômica (para um exemplo, ver este texto).

A idéia que me ocorre não é nova e qualquer estudante de Economia já deve ter pensado em algo assim. Dá para ver que o problema envolve o cálculo racional e períodos de tempo, sem falar na interreleação entre as ações do governante do país bem como as da oposição ou do país que será ‘provocado’ com o conflito externo, né?

O artigo, cujo trecho ilustro abaixo, trabalha o básico destas questões.

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Interessante, não é? Mas eu sinto falta de um artigo que ilustre melhor o que observamos na América Latina: em prol de um objetivo qualquer, alguns governantes buscam enfraquecer as instituições de seu país. Quando esgotam, ceteris paribus, esta possibilidade, criam inimigos externos. É mais do que apenas uma literatura sobre “democratização”. Na verdade, é o inverso. Não sabemos se isto é apenas uma “etapa” em um suposto processo de democratização, mas sabemos que o trade-off será mais ou menos duradouro conforme o grau de democratização do país, por assim dizer (formulo, aqui, uma hipótese de forma irresponsavelmente superficial, só para estimular o debate).

Vejo um modelo com dois tipos de democracias. Uma, tradicional, na qual a economia de mercado interage de maneira eficiente com a política e outra, na qual os incentivos são na direção de uma sociedade rent-seeking, ou, como se diz hoje, uma sociedade de capitalismo de compadres.

Este último caso englobaria seriam caracterizadas por sociedades que perderam o controle institucional e abriram espaço para que: (a) alguns populistas transformem teses sobre a desigualdade no país (ocorre-me o antigo dois Brasis de Jacques Lambert…), por exemplo, em planos para se perpetuarem no poder. Isto fica mais barato quando estes populistas não possuem forte ascendência sobre os militares por conta, digamos, de escassez de recursos econômicos e políticos que possam baratear seu acesso aos círculos militares); (b) outros populistas que já ultrapassaram esta etapa, mas encontram-se sem recursos (por exemplo, porque sua pauta de exportação não mais sustenta privilégios concedidos a grupos, páramilitares ou não,que o apóiam) e, então, passam a mirar em inimigos externos (imaginários ou não).

Seria interessante ver um modelo destes em algum artigo, preferencialmente com algum tipo de hipótese testável e, de preferência, com testes feitos para discutirmos. ^_^

Bolsa-Família e eleições: artigo novo publicado!

Tema quente, não? Desde nossa primeira contribuição (cuja citação é sempre um problema, uns citam em ordem alfabética e meu amigo André Carraro fica feliz, outros seguem a sugestão do journal original, e eu fico feliz, etc), o tema volta a me assombrar de tempos em tempos. Não só a mim, mas quem quer que olhe a blogosfera (veja o Carlos Cinelli no Análise Real, o blog do Estadão, etc) sabe que o assunto é polêmico.

Nos últimos anos, trabalhei junto com o Nakabashi e com a Ana e, posteriormente, com o Felipe, numa sequência colaborativa que resultou em uma versão inicial, então, em nosso último artigo publicado.

Meus alunos de Econometria III de um ou dois semestres atrás tiveram acesso a uma das versões preliminares e, com prazer, agora posso lhes mostrar a versão definitiva.

O tema, como sabemos, é popular e a análise empírica é sempre polêmica. Bem, este foi um artigo que deu bastante trabalho.

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Bolsa-Família e eleição

Sei que é um tema polêmico. Leo Monasterio encontrou um texto para discussão que nos cita. Este é um tema que nos é caro porque, afinal, fomos pioneiros na literatura sobre o tema (eis o artigo).

A grande questão que ainda me assombra é a seguinte: será que em todas as eleições, programas de transferência de renda têm impacto político? Em outros artigos, eu e outros autores encontramos impacto do Bolsa-Família em votos (um artigo mais recente está no prelo para o segundo semestre de 2015…caso a revista não atrase), contrariamente ao que encontramos em nosso artigo original.

Há uma variedade de métodos econométricos sendo utilizados (regressões beta, econometria espacial, etc) e creio que esta literatura ainda necessita de mais trabalhos na área. Ei, eu já disse que é um bom tema para pesquisas?

Instituições…mais um livro promissor!

Sugestão do Ronald que acabou fazendo com que eu comprasse mais um livro.

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Só o índice já me deixou curioso. O capítulo do Greif parece promissor pelo tema: o que faz com que instituições pró-trocas (eu diria: não-emporiofóbicas) surjam e prevaleçam? Afinal, muita gente gosta de mostrar correlações com, digamos, “liberdade econômica” e alguma medida de riqueza e dizer que aquilo significa algo. Será? Eu bem que simpatizo com a idéia de que a correlação – positiva, no caso – faz sentido. Mas não se aprende mais sobre a relação apenas com panfletagem.

Bom, o capítulo do Greif promete. Infelizmente, eu é que estou um pouco indisposto hoje e não estou lá muito rápido no gatilho. Caso contrário, o capítulo já estaria estudado porque vontade de ler o livro não falta.

Zaibatsu e a política industrial: não, não é uma fórmula mágica (embora os nazi-desenvolvimentistas…)

Como sabemos, aqueles que chamarei, de forma abreviada, de nazi-desenvolvimentistas, advogam, mais do que economistas, a criação de grandes grupos empresariais (talvez porque recebam afagos e recursos destes grandes grupos, talvez não) para que uma economia se desenvolva.

Claro que estes nacional-socialistas-desenvolvimentistas não querem sequer olhar os dados e se aliam aos obscurantistas (aqueles que negam o uso de qualquer método estatístico em Economia para que possam manter seu discurso protegido da competição das idéias) na busca pela manutenção de seu status como intelectuais.

Mas vamos a evidências pouco quantitativas, mas ainda assim, desanimadoras para estes supostos pensadores. No último IAES, temos o artigo de Nakamura:

Economic Development and Business Groups in Asia: Japan’s Experience and Implications

Masao Nakamura

Abstract

Large, extensively diversified pyramidal business groups of listed firms dominate the histories of developed economies and the economies of developing economies. While such groups (calledzaibatsu in Japan) are thought to have provided coordination for big push growth successfully in pre-second-world-war Japan after a state-run big push failed, it is still being debated whether such a pyramidal business group driven big push coordination exists in developing countries elsewhere in Asia. We hypothesize that pyramidal business groups can be private-sector mechanisms for coordinating big push growth, provided that first, competition between rival groups induces a sufficiently high level of coordination efficiency, and second, conditions exist for maintaining economic openness and basic infrastructure and legal institutions. Another condition that must be satisfied for a country to sustain economic growth after its big push phase is complete is a timely demise of business groups. Where these criteria are not met, growth stalls and the few pyramidal business groups become too powerful to dislodge.

Nota-se que as condições que ele coloca para que o uso de grupos industriais do porte de zaibatsus funcionem são tão hercúleas que, aposto, dificilmente alguém conseguirá fazer isto sozinho. O otimismo nazi-desenvolvimentista não passa de um castelo de cartas (bastante frágil, eu diria), neste caso.

O autor é até otimista acerca das possibilidades de zaibatsus terem sido importantes na economia japonesa, mas a falta de um teste de hipóteses (ou de um modelo calibrado) não dá ao artigo o grau de profundidade suficiente para que o otimismo possa criar raízes. Mesmo assim, o autor é pretencioso nas conclusões, chegando a falar de uma nova ideologia. Esta parte do artigo é de um excesso de otimismo injustificável, parcialmente pelos motivos que citei.

Nada como ler um artigo de história econômica pela manhã.

Por que demoramos tanto para ter um Banco Central?

A demora teve a ver com a resistência política oferecida por largo número de agentes econômicos cujos interesses reforçavam os dos funcionários do BB, desejosos de preservar o status quo. Referimo-nos aos que de algum modo se beneficiavam dos empréstimos do banco. O fato de o Banco do Brasil ser a fonte da emissão monetária que cobria os déficits orçamentários do governo certamente assegurava à instituição número ainda maior de defensores, em especial no meio político.

Este trecho aí é do José J. Senna, no prefácio ao livro do prof. Pastore, Inflação e Crises – o papel da moeda, recém-lançado.

Preciso dizer mais? Não. Mas vou dizer. Na campanha eleitoral, muita gente de má fé fez de conta que não viu a propaganda na qual se acusava a instituição “autoridade monetária independente (podem chamar de “autônoma”, discussão puramente semântica…)” de ser a responsável pelo desaparecimento da comida da mesa dos brasileiros.

Não preciso dizer que é uma propaganda de péssimo gosto e mentirosa, mas o trecho acima fala por si. Ok, eu poderia ir adiante e colocar uns gráficos ou citar uns artigos dizendo o óbvio mas também não tenho paciência para fazê-lo. Quem quiser saber mais, faça seu trabalho. Mas fiquem com esta outra frase do prefácio: Sem política monetária austera, não há programa anti-inflcionário que funcione.

Juízes do STF são sempre pró-Executivo no Brasil? Adivinhe (ou leia o texto citado)!

How judges think in the Brazilian Supreme Court: Estimating ideal points and identifying dimensions 

Pedro Fernando Almeida Nery Ferreira, Bernardo Mueller
Abstract
We use NOMINATE (Nominal Three Step Estimation) (Poole and Rosenthal, 1983, 1997) to estimate ideal pointsfor all Supreme Court Justices in Brazil from 2002 to 2012. Based on these estimated preferences we identify the nature of the two main dimensions along which disagreements tend to occur in this Court. These estimates correctly predict over 95% of the votes on constitutional review cases in each of the compositions of the Court which we analyze. The main contribution of the paper is to identify that the main dimension along which preferences align in the Brazilian Supreme Court is for and against the economic interest of the Executive. This is significantly different than the conservative-liberal polarization of the US Supreme Court. Our estimates show that along this dimension the composition of the Court has been clearly favorable to the Executive’s economic interests, providing the setting in which the dramatic transformation in institutions and policies that the country has undergone in last two decades could take place.

Preciso dizer mais? Não, né? Então, dá uma olhada na figura abaixo e vá lá ler o texto que seu acesso não é pago.

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Votos (1o turno) e IDH (2010) e um desafio

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O problema das correlações, eu sei, é que são apenas correlações. A base de dados me foi gentilmente cedida pelo Cinelli do Análise Real (não se assuste: não tem lista do Elon para resolver…). Veja, por exemplo, o exemplo dos gráficos acima. Desta vez, IDH e votos.

Eu tenderia a imaginar cenários nos quais a variação do IDH afeta a votação de um candidato. Entretanto, o que temos ali é o nível do IDH. Ok, pode ser que o IDH não varie tanto assim de 2009 para 2010, mas eu não estou pensando em um período de tempo tão curto.

Seria legal ver um exercício de algum aluno que pegasse o IDH para um período anterior, digamos, FHC ou da Silva e fizesse a variação do IDH e, depois, criasse as correlações com os votos do 1o turno. Taí. Este exercício valeria pontos extras (com script, dados fidedignos, planilha organizada, feito em R…). Desafio para quem fizesse isso na minha presença, em 30 minutos (e tem que se virar para achar os dados).

Aposto que outros blogueiros, claro, já fizeram este exercício. Ou estão fazendo. Ou seja, meu desafio pode não valer nada porque, como diz um veículo de comunicação: tudo pode mudar em 20 minutos

Bolsa-Família e Votos

Apenas brincando com os dados que o Cinelli disponibilizoubolsafam

Falei no livro de caras sobre o artigo que fiz com o prof. Nakabashi, o prof. Felipe e a doutoranda Ana (aceito para publicação na Análise Econômica sobre o papel do Bolsa-Família na eleição da presidente Rousseff, em 2010, e ele pode ser lido aqui).

Agora, com esta eleição, temos mais dados para estudar. Espero que mais gente se interesse em estudar o tema…

Instituições e Estado Leviatã, em tempos imemoriais

The form Fune no Fuhito (or Fune no Fumibito, etc) in the Nihon shoki reading tradition was originally a hereditary title granted to Oo Shinni to designate his role as recorder of ships’ taxes (…). [Seeley, Christopher (1991). A history of writing in Japan. University of Hawai’i Press, p.7, footnote 15]

Nihon Shoki (talvez seja melhor aqui) é um destes antigos registros japoneses sobre os quais se debruçam os historiadores e estudiosos da língua japonesa.

Agora, neste trecho de Seeley (1991), temos uma daquelas evidências milenares de que governos sempre se preocuparam em coletar tributos. Nada muito estranho a quem estuda história, eu sei, mas é algo que, muitas vezes, escapa à percepção das pessoas, acostumadas a imaginar que governo existem para proverem alguns bens que o setor privado não provê.Isto pode ser verdade, mas não porque governos sejam benevolentes.

Pois é. o Nihon Shoki é um dos textos mais antigos do mundo, mas não nega a importância do capital humano para a expropriação. Interessante, não?

Outra dica de R e uma observação

O Cinelli, como sempre, dá-nos uma ótima dica de R. Desta vez, o assunto é a PNAD. Devemos agradecer ao Flavio Barros por isso. Ele, aliás, inicia seu texto nos lembrando do problema recente pelo qual passou o IBGE.

Com o erro recente na divulgação dos resultados da PNAD 2013, o nome do IBGE e também os resultados dessa pesquisa, chegaram na grande mídia de um forma muito negativa. Ainda assim, a maioria das pessoas desconhece o que é a PNAD, como esses dados são obtidos e como eles podem ser baixados e utilizados. Neste post vou fornecer uma breve explicação do que é PNAD, como esses dados são distribuídos (na forma de microdados) e como você pode facilmente obtê-los e utiliza-los a partir de ferramentas gratuitas como o R.

Veja como são as coisas. Como foi descoberto o erro da PNAD? Segundo consta, alguns pesquisadores estranharam os dados (gente que se especializou em certos assuntos, como nos ensina Adam Smith, pega estas coisas bem rápido). O uso do R, neste sentido, e a transparência na divulgação dos dados – que é uma característica do IBGE, vale dizer – só ajudam neste processo.

Ao longo da semana eu vi, com tristeza, o governo tentar fazer disso um ponto na campanha eleitoral. Um desrespeito, na minha opinião, ao trabalho de gente séria que existe no setor público, notadamente no IBGE. A imprensa, inclusive, tem sido muito tímida, quase medrosa, na cobertura dos fatos que lá se desenrolam desde então. Há um problema sério quando o governo tenta intimidar pesquisadores por meios burocráticos e isso sinaliza para uma argentinização indesejável em órgãos geradores de dados públicos tão importantes para análises de políticas públicas. Gostaria de ver mais discussões sobre isto na blogosfera.

Por outro lado, novamente, como é maravilhosa a liberdade e o seu bom uso por parte dos indivíduos. Caso existam erros, pesquisadores poderão encontrar rapidamente o erro e ajudar a corrigí-los se os dados são disponibilizados sem burocracias, sem véus autoritários, etc. Esta é a tecnologia de auto-correção que a própria internet e os avanços computacionais nos permitem hoje em dia.

Fica aqui meu desejo de boa sorte às pessoas não apenas do IBGE, mas de todos os órgãos públicos (em todos os níveis da federação e também em qualquer lugar do mundo), que valorizam seus currículos e não querem ser conhecidas por aí como funcionários de órgãos aparelhados que fazem maquiagem de dados, escondem pesquisas, etc. Torço por vocês, amigos!

História para quem precisa

20140508_070000Havia visto na mesa de trabalho do Ronald, quando, recentemente, estive no PPGE para a defesa de tese do Rodrigo. Obviamente, perguntei sobre o livro e, como Ronald fez comentários muito interessantes, não tive como fugir: comprei. Tema interessante, teoria interessante e área  de trabalho dentro da zona de ataque é sempre assim: vira livro na fila.

Ah, a foto acima foi feita num Galaxy.

 

Qualidade institucional, contabilidade (criativa?) e o jornalismo sério

Vou direto ao trecho do texto:

Recent research in accounting has examined the link between political connections and accounting quality. Researchers in this area have posited that political connections may increase accounting quality because connected firms are subject to greater media scrutiny, which could provide for stronger monitoring of earnings manipulation. Connected firms may also have readier access to subsidized financing or government contracts, which may blunt incentives to manage earnings for capital market and contracting purposes. On the other hand, politically connected firms may be shielded from the consequences of poor accounting quality or the revelation of earnings management. Moreover, connected firms may manage their earnings to avoid detection of payments to political insiders to maintain their connected status.

Preliminary evidence from this body of research suggests that politically connected firms tend to have lower financial reporting quality. However, there is reason to expect that a country’s political, legal, and media institutions—which affect firms’ financial reporting environment more generally (Leuz et al. 2003)—may moderate the relationship between political connections and accounting quality. For example, lack of transparency may limit media outlets’ role in scrutinizing political cronyism. Strong investor protection laws, accompanied by prosecutorial and judicial independence, may impact a connected firm’s ability to escape the consequences of accounting manipulation.

Antes que você fique “nervosinho”, o artigo trata da Venezuela. Quer ler mais? Dá uma olhada lá.