Goleiros e o paradoxo do poder: a Economia dos Esportes encontra a Economia do Conflito (e ninguém esperaria que isso não ocorresse, certo?)

soccernomicsO que vejo de mais legal, para mim, nesse estudo, é o que os autores destacam, eles mesmos:
 
The most interesting performance differential was that a goalkeeper of a high-level team had a higher number of Saves when playing against a low-level team than a high-level team or an intermediate-level team.
 
Ok, eu sei que há um problema de validação externa (ou seja, generalizar para outras amostras…), embora eu também seja levado a pensar que com maior globalização, times ficam mais mistos e estilos de jogo distintos tenderão a se homogeneizar no longo prazo (não estou dizendo que ocorrerá, é apenas um palpite irresponsável). Isto aparece também em alguns livros sobre economia dos esportes que citei aqui outro dia (e também em livros sobre história do futebol ou das táticas).
20160430_100143Voltando ao trecho acima, sem uma leitura mais detalhada, mas entusiasmado com o que li, fui levado a pensar em um resultado de Economia do Conflito que acho muito legal (embora não seja genérico o suficiente para quem curte Teoria Econômica): o paradoxo do poder (POP), descoberto pelo falecido Jack Hirhsleifer no contexto de conflitos (guerras, batalhas judiciais e, por que não, partidas de futebol?).
Os autores do texto acima provavelmente não se surpreenderiam se lessem o início do resumo do artigo. Senão, vejamos:
In power struggles, the stronger might be expected to grow ever stronger and the weak weaker still. But, in actuality, poorer or smaller combatants often end up improving their position relative to richer or larger ones.
No contexto do resultado destacado pelo artigo sobre futebol, eu diria que há momentos de uma partida em que isso acontece (o time pequeno “cresce” em relação ao grande) e o resultado é que o goleiro do time mais forte tem mais trabalho salvando seus times do que o normal.
Será que isso ocorre mesmo em divisões de acesso (segunda divisão) de campeonatos estaduais? Ou seja, seria este resultado uma regularidade empírica observável? Não sei. Não coletei os dados, mas, quem sabe? Vai que alguém resolve explorar este aspecto que, note bem, tem uma relação bem íntima com a boa gestão de uma equipe de futebol (afinal, você tem que saber escolher bons goleiros).
Será que a relação que proponho faz sentido? Comente por aqui. Gostou? Curte aí. Não gostou? Curte também. Ah, e se reproduzir, cite a fonte. Obrigado.

Economia dos Esportes – a divisão de acesso (continuação da continuação)

acordeibemEu sei, eu sei. Já beira ao “doentismo” do torcedor. Mas como ontem a vitória foi sofrida, lembro do que eu disse anteriormente: os adversários eram igualmente bons. Pelotas tinha 60% das vitórias em casa e Aimoré tinha 60% das vitórias fora de casa. E ambos vinham de uma derrota anterior, curiosamente pelo mesmo placar: um a zero.

A rodada não acabou ainda, mas com os resultados até ontem, até o momento, temos 91 partidas e, destas, 44 resultaram em vitória dos mandantes (48%). Sobre o Lobão (E.C. Pelotas), seu desempenho na minha medida – vitória do time em casa sobre o total de jogos em casa – aumentou de 60% para 67% (ou seja, aumentou sete pontos percentuais ou 7 p.p.). No grupo A da divisão de acesso, o Internacional de Santa Maria é o que tem, por enquanto, melhor desempenho em casa – nesta medida – com 80% de vitórias obtidas em casa. Já no grupo B, o Lajeadense é quem se sai melhor em casa, com 83% das vitórias nesta métrica (ou medida, se quiserem..são sinônimos).

O juiz, os acréscimos e tudo o mais…

Ah, sim, um caso que vale a pena comentar é que a vitória ontem foi de pênalti marcado nos acréscimos (aos 49 minutos do segundo tempo). Há sempre muito choro, muita paixão e emoção nestes momentos mas ontem eu vi um artigo (que ficou em algum lugar…) sobre o tema. Um resumo sobre o tema (não do texto específico cujo sumiço começa a me incomodar…) – com mais comentários – aparece neste post deste blog. Ah, claro, você pode se perguntar se isto é um tema de economia. Eu diria que sim, mas você pode checar este livro (e me presentear com ele) ou este texto para discussão do IZA, para citar apenas alguns poucos exemplos.

Agradeço sua leitura e eventuais comentários. Os textos anteriores estão aqui e aqui. Gostou e quer citar? Fique à vontade. Só não faça plágio, ok?

Economia dos Esportes e Soccernomics: Expectativa de Gols

Eis um exemplo interessante de aplicação de soccermetrics (embora pareça não haver uma direta relação com a a Economia dos Esportes, especificamente, com Soccernomics, pode apostar, tem.

A expectativa de gols é uma medida utilizada, no Brasil, pelo comentarista da Rádio Gaúcha, Gustavo Fogaça. Não conheço – mas não pesquisei muito – outros comentaristas que façam o mesmo no Brasil (aceito dicas).

O modelo do blog Soccermetrics é, basicamente, uma curva logística sem maiores fundamentações teóricas, possivelmente contaminada por problemas de endogeneidade e, portanto, bastante promissora em termos de refinamentos e novas pesquisas.

Juízes de futebol favorecem o time da casa?

20160601_215320-001As evidências deste artigo de 2004 para a Bundesliga nos diz que….sim. A análise dos autores se baseia em duas variáveis: tempo extra concedido e pênaltis. Um dos canais de transmissão pelo qual isso ocorre seria por pressão da torcida (que, por sua vez, afeta o desempenho do time, “empurrando-o” e também teria impacto sobre a atuação do juiz).

Eu diria que, lembrando da teoria da regulação de Stigler, o juiz poderia ser ‘capturado’, sem falar, claro, na possibilidade de corrupção (algo também já estudado na economia dos esportes).

Mas vejamos os microfundamentos econômicos que os autores usam para explicar o fenômeno em questão:

(…) when facing a contentious decision, the salient cue of crowd noise (remaining rather silent when a home team player makes a tackle, but booing when a visitor tackles) may cause a difference in assessing fouls of home players or visiting players. Another subtle form of how crowd noise influences referees may stem from the use of heuristics in decision making. Even though heuristics frequently result in systematic errors (Tversky & Kahneman, 1974), they are often used as rules of thumb to reduce complexity in judgment. If a referee is uncertain whether a tackle was regular or irregular, he might, therefore, place equal weight on the possibly biased auditory information from the crowd and on his visual information. [SUTTER, M.; KOCHER, M. G. Favoritism of agents – The case of referees’ home bias. Journal of Economic Psychology, v. 25, n. 4, p. 461–469, 2004.463-4]

A análise dos autores, como já dito, limita-se ao campeonato alemão (o que nos faz pensar sobre a validação externa dos resultados, obviamente). De qualquer forma, como ela é feita?

Os autores utilizam uma regressão múltipla (MQO) com controles para cartões, substituição de jogadores e a margem do resultado (uma dummy construída pela margem de diferença de gols entre o time da casa e o visitante) na análise do tempo extra concedido pelo juiz. No caso dos pênaltis, faz-se uma comparação simples (um teste qui-quadrado) entre distribuições de frequências de pênaltis “classificados” como legítimos (ou não) com uma amostra que me pareceu pequena.

São reportados resultados que corroborariam a hipótese de viés do juiz a favor do time da casa, embora, no meu entender, possam ser feitas várias críticas aos dois testes (talvez no caso da regressão alguém possa reclamar de dos controles, mas creio que o teste dos pênaltis é mais sensível às críticas). Claro, o ideal é você ler o artigo para tirar suas próprias conclusões.

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Não confunda os Khans!

Um ponto que me chama a atenção é a necessidade que pesquisadores têm de que existam fichas detalhadas (e padronizadas) de jogos. Não basta saber quem ganhou ou perdeu, mas quem entrou/saiu, quem levou cartão e, claro, sempre com o tempo bem registrado. Bases de dados padronizadas permitem a análise inter-campeonatos e inter-países (o que minimiza bastante o problema de validação externa já citado…).

Mas isto é assunto para economistas? Bem, eu poderia citar vários argumentos, mas prefiro apelar a Khan (2000).

Bibliografia(zinha)

KAHN, L. M. The Sports Business as a Labor Market Laboratory. Journal of Economic Perspecitves, v. 14, n. 3, p. 75–94, 2000.

SUTTER, M.; KOCHER, M. G. Favoritism of agents – The case of referees’ home bias. Journal of Economic Psychology, v. 25, n. 4, p. 461–469, 2004.

Dados são importantes mas…

The data cannot do the manager’s job. Numbers cannot put us all in the dugout; analytics is not an attempt to mechanize soccer. It simply enables the manager to do his job of building and directing a successful team with the clearest possible vision of what is happening on the pitch. [Anderson, C. & Sally, D. (2013) The Numbers Game, Penguin Books, 2013, p.193]

Ok, é no contexto do futebol, mas vale para tudo na vida, inclusive para a Ciência Econômica.

Tal e qual a lenda de Santos Dumont, temos Leônidas e a bicicleta

Juan Evaristo has hailed as the inventor of the marianella – the volleyed backheel, Pablo Bartolucci of the diving header, and Pedro Calomino of the bicycle kick, although this last example is disputed. Some say the bicycle kick was invented in Peru in the late nineteenth century; most seem to credit Ramón Unzaga Asla, a native of Bilbao who emigrated to Chile and first used it in 1914 (hence the use of term chilena throughout Spanish-speaking South America, although it might refer to David Arellano, a Chilean who popularized the technique on a tour of Spain in 1920), while others follow Leônidas, the Brazilian forward of the thirties, in attributing it to Petronilho de Brito. Weirdly, the former Aston Villa chairman Doug Ellis also claimed to have invented the bicycle kick, even though he never played soccer to any level and was not born until ten years after the first record of Unzaga performing the trick. [Wilson, J. Inverting the Pyramid: the history of soccer tactics, 2013, 2nd ed, p.33]

Sendo menos injusto: avião é mais intelectualmente detalhado do que gol de bicicleta (no sentido de que você precisa de um pouco mais de estudo para inventar), embora o último seja igualmente maravilhoso. Não é difícil imaginar tanta gente inventando ao mesmo tempo, ainda mais nos tempos em que a comunicação global era mais lenta e escassa.

Por que nem todo atleta de uma ditadura tenta fugir em uma Olimpíada?

Porque o custo pode ser maior que o benefício. Pensei nisto ao ver esta matéria sobre os atletas cubanos. Não é bom você ser um dos poucos em seu país a poder desfilar na abertura de uma olimpíada com elegância? Melhor dizendo: nem nas ruas de Havana o sujeito poderia andar assim.

Em 1993, William Shughart e Robert Tollison publicaram o que, para mim, é um dos artigos mais interessantes sobre esportes e ditaduras. Você pode obtê-lo clicando aqui (claro, você deve ter um perfil no Academia.edu).

Pois é, não é apenas aquela questão de se as olimpíadas geram ganhos para o país. É possível estudar também os incentivos que atuam sobre o desempenho dos atletas. Como no restante da economia, a Economia dos Esportes tem possibilidades de estudos macro e micro.

Maximização de lucros e o Lobão (o time, não o cantor)

O Lobão pode ganhar uma receita extra que o ajudaria a equilibrar suas finanças e, quem sabe, melhorar o plantel. Entretanto, o aluguel do seu estádio para o adversário ainda não saiu do papel.

Maximizar o lucro é importante para que existam recursos para investimentos. Alugar o estádio é uma ótima idéia. Bem, existem outras opções. Por exemplo, outro dia mesmo, sugeri que a direção do clube negociasse com a Liga Retrô a comercialização de alguns de seus uniformes clássicos. Bem, clique aqui e veja quantos times pelotenses conseguem uma grana extra e publicidade nacional.

soccernomicsMas não precisa negociar com a Liga Retrô (bem que eu queria ganhar uma grana por esta propaganda gratuita, mas não recebo do time, nem da empresa de camisas). Há outras opções como colocar quiosques com produtos em shoppings ou abrir lojas físicas (a única existente está na própria Boca do Lobo e não há vendas virtuais…muito menos agora, com a bizarra lei do novo ICMS). Ah sim, a concessão de espaço em um estádio também é uma estratégia, embora mais antiga.

Quem quiser se aprofundar em Economia dos Esportes (Sportonomics) pode começar por aqui. Aliás, existe um livro em português de Kuper e Syzmansk (um autor bem popular na área…).

De qualquer forma, torço para que a novela do aluguel chegue a um resultado ótimo para as duas partes. Acredito, contudo, que alugar é a melhor estratégia. Receita extra é sempre bem-vinda, não?

Bra-Pel: a econometria do clássico de Pelotas

Pois é. Construí um banco de dados de confrontos Bra-Pel, pensando no grande Lobão, meu time em Pelotas. Tenho ali 362 clássicos, no período 1913-2014. Segui o livro de Éder (2010) [Éder, J. BRAPEL: A rivalidade no sul do Rio Grande, Editora Livraria Mundial, 2010] e os jogos de 2011 em diante foram coletados por mim (novamente, é impressionante como é difícil obter dados de jogos organizados em bases de dados no Brasil. Neste sentido, o Éder (2010) só tem um defeito: não ter a base de dados online, mas tudo bem).

Em resumo, temos: 487 vitórias gols do Lobão e 503 do Xavante. Temos também 109 gols vitórias do primeiro e 129 do segundo. Gostaria mesmo era de ter um banco de dados maior, com todos os jogos do Esporte Clube Pelotas, mas por enquanto minha base de dados é tudo o que tenho.

Alguns dados adicionais: os confrontos entre os dois times ocorrem desde 1913, exceto nos anos 1917, 1920, 1926, 1974, 1983, 1989, 1990, 1999, 2000, 2002, 2007, 2008, 2009 e 2010. O último confronto que tenho registrado ocorreu em 2014, o Bra-Pel n.362.

Antes de mais nada, alguns gráficos interessantes. Primeiro, a correlação entre os gols dos times (agrupados anualmente) é positiva (0.6439). Como sempre digo aqui, correlação não é causalidade, mas apenas uma visão inicial dos dados. O gráfico abaixo apenas nos diz que o total anual de gols de cada time é relacionado positivamente com o total anual de gols do outro time. Pode – atenção para o condicional! – ser que isto tenha algo a ver com alguma competitividade entre ambos os times, mas aí o melhor seria verificar se existe algum tipo de inércia nos dados, algo que não fiz aqui.

corr_gols

De forma similar, calculei a correlação entre as vitórias anuais dos times, que é negativa (-0.0977).

corr_vitorias

Desnecessário dizer que também há uma correlação positiva entre as vitórias de um time e o seu número de gols (ou mesmo o saldo de gols), não é?

Dito isto, vejamos o ditado popular – e óbvio – de que, quem não marca, toma. Trata-se de um logit simples e a classificação dos campeonatos ainda é precária. De qualquer forma, o leitor chegado em Econometria pode constatar a importância dos gols no aumento da probabilidade de vitórias. Note que, entre as variáveis independentes (as “covariadas”), incluí as primeiras defasagens das vitórias de ambos os times, para ver se há algum tipo de inércia.

Cabe destacar que, para as regressões, usei os dados desagregados, ou seja, dados de cada partida e não os agregados anuais.

brapel2

Algumas observações importantes: alguns pequenos campeonatos foram classificados como “amistosos” e o leitor pode se reportar a Éder (2010) para esclarecimentos (por isso eu disse lá em cima sobre uma certa “precariedade”…). A idéia de incluir este tipo de variável era controlar para tipos de campeonatos (eu esperaria que alguns campeonatos pudessem ser mais importantes que outros). Eu poderia ter seguido o autor, e incluído os pequenos campeonatos mas: (a) são poucas observações, (b) algumas observações nem possuem o atributo “campeonato/torneio” associado.

Além disso, os resultados acima me mostraram que, em relação aos campeonatos, apenas o Gauchão parece ser um determinante importante nas vitórias em Bra-Pel, mesmo assim, com sinal oscilante (negativo para probabilidade de vitórias do Brasil e positivo para o Pelotas). Talvez algum leitor que conheça melhor a lógica dos campeonatos e a história dos times possa me ajudar a entender a importância de cada um no suposto empenho dos times. Mesmo assim, as evidências que veremos adiante mostrará que talvez isto não seja assim tão importante. Mas vamos em frente.

O número de gols do Pelotas, claro, tem impacto positivo nas vitórias do Lobão e negativo no número de vitórias do adversário. Eu poderia trocar a variável por gols do Brasil e, sim, logo mais mostrarei o que acontece. Aguarde.

Outros fenômenos testados foram os períodos de guerras (1914-1918, 1939-1945) e o da ditadura (1964-1985). Nas especificações (1) e (2), há o curioso efeito, quase simétrico, da ditadura nas vitórias dos dois times (positivo, no caso do Lobão e negativo no caso do Xavante). Mas este efeito desaparece se eu considerar dummies anuais.

As vitórias defasadas – o efeito “inercial” – parece apontar um impacto positivo apenas na probabilidade de vitórias do Lobão. Seria este resultado associado ao fato de eu estar usando apenas os gols do Lobão nas especificações? Para tirar esta dúvida, fiz mais alguns logits similares aos anteriores, mas trocando os gols do Pelotas pelos do Brasil nas equações em que a variável dependente é a dummy de vitórias do Xavante.

Os resultados não mudam muito no que diz respeito à inércia, mas vemos que o Gauchão deixa de ser significativo (talvez porque a inércia capture este efeito?) e a dummy de ditadura perde significância, embora ainda pareçam existir traços de sua influência nas duas primeiras especificações. Por que será que a inércia não aparece no caso do Xavante? Esta fica em aberto.

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Bem, estes são resultados preliminares. Com um pouco mais de informações (sim, preciso de ajuda na construção da base de dados), talvez seja possível fazer algo mais interessante. O que seria mais bacana?

Ora, os times poderiam investir em algo simples que é construir bases com as fichas técnicas de todos os seus jogos, resgatando, inclusive, dados do passado. Afinal de contas, se queremos estudar o desempenho de um time, não basta olhar para “clássicos”. O interessante seria olhar para todos os jogos ao longo dos anos.

Claro que isto foi somente um exercício e as especificações são muito preliminares. Em outras palavras, não devemos tentar inferir muito sobre as estimações. Elas só valem para os clássicos Bra-Pel e, mesmo assim, eu gostaria de ter mais variáveis para incluir na pesquisa. Mesmo assim, espero que o leitor tenha apreciado um pouco da Economia dos Esportes (veja também, por exemplo, este e mais este).

O espaço dos comentários está à disposição.

Medalha, medalha, medalha: a economia dos determinantes do sucesso em jogos olímpicos

dastardly2Economia dos Esportes (Sportonomics) é uma área pouco conhecida no país do futebol (se bem que, há alguns anos, um livro chamado Soccernomics fez algum sucesso entre alguns amigos meus, creio).

Recentemente, Nolan & Stahler (2015) resolveram investigar o tema do desempenho dos países em jogos olímpicos. Não que isso seja uma novidade em economia, já que as Olimpíadas, como mega-evento, tem toda uma área de pesquisa dedicada a ela (o Felipe Garcia do PPGOM-UFPel pode dizer mais sobre isto do que eu). De qualquer forma, jogos olímpicos já têm dados tabulados desde a primeira metado do século XX, pelo menos.

Uma pergunta que se pode fazer é: será que os determinantes do sucesso de um país – em número de medalhas – tem sido o mesmo ao longo dos anos? Os autores postulam um modelo ad hoc para o que seria uma função de produção de sucesso em jogos olímpicos (cuja pista está aí embaixo).

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Certamente há vários fatores que ajudam a determinar o sucesso do país no seu desempenho nestes jogos, mas Nolan & Stahler (2015) encontram que:

In line with other studies, we fi nd that determinants such as income, country size, status as a current host, and inclusion in the communist bloc have generally been historically signifi cant for both female and male success. But a clear narrative thread is also couched in the pluralization of Olympic competition throughout the postwar period. At the Winter Games, which are not drastically different from the 1960s in terms of their geographical makeup, success is still largely associated with being from a rich, large country with a snowy climate. In contrast, the Summer Games, where geographic pluralization has been much more comprehensive, exhibit more subtle determinants of success reflective of their diversity. Rather than per capita income, education is a much more robust positive determinant of medal winnings, and this appears to have been far more important for women than men. Moreover, we uncover evidence that the estimated coefficients for the Summer Games have changed over time—specifically even these robust correlates are waning in their influence and as this occurs, smaller, poorer, even possibly less educated countries face fewer barriers to achieving Olympic glory. [Nolan & Stahler (2015), p.5] (clique no trecho para ler todo o texto)

Em outras palavras, o capital humano é importante (e seu efeito é distinto para homens e mulheres), além do fato de que a combinação de fatores parece estar mudando ao longo dos anos, o que faz todo sentido se pensarmos nas mudanças tecnológicas pelos quais passaram todas as economias participantes destes jogos.

O artigo é um bom exemplo para se discutir em sala de aula em um curso de Econometria já que tem OLS, Tobit (com efeitos fixos e aleatórios), regressão binomial negativa e, claro, esportes. Claro, tem que ter aluno interessado em estudar os modelos analisados e, sim, seria legal se os dados estivessem publicamente disponíveis, mas aí já estamos viajando na batatinha pois nem sempre os dados estão dando sopa por aí…

p.s. Sim, uma coisa legal seria ver os determinantes do desempenho individual, mas aí seria mais trabalhoso porque cada modalidade esportiva exige qualificações distintas. Obviamente, gente que entende instruções básicas e instrutores estudiosos e atualizados nas tendências científicas da área (ambos traduzem-se em…capital humano!) ajuda.

Dicas para o ministro da fazenda não ficar nervosinho

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Tem uns 20 anos que fiz estas anotações? Tem. Mas a utilidade delas não muda com o tempo. Aliás, você já viu o último Relatório Trimestral de Inflação? Veja lá as perspectivas para a evolução da dívida pública.

Caso você prefira debater a Copa do Mundo, veja este outro trecho do Relatório, muito interessante, sobre o impacto de megaeventos esportivos sobre a inflação. A notícia é que, se há algum efeito, ele é inflacionário. Os autores do relatório, claro, dizem a mesma coisa de forma mais educada:

Em resumo, este boxe apresenta estimativas de impacto de megaeventos esportivos sobre a dinâmica dos preços ao consumidor do país sede. Nesse sentido, sugere que choques decorrentes da realização de megaeventos podem ser ligeiramente inflacionários.

Pois é. Outro dia destes eu conto para vocês sobre o que eu e uns amigos achamos acerca desta história de Copa do Mundo e impactos econômicos, ok?

Teoria dos Jogos…na prática

O blog Teoria dos Jogos nos brinda com um interessante estudo sobre o perfil dos torcedores de futebol na selva brasileira. O pessoal de Economia dos Esportes é inexplicavelmente escasso no Brasil (ainda mais quando se trata de futebol). Caso você tenha interesse no tema, dá uma busca por aqui e também no google e você descobrirá que há muita coisa bacana para se fazer na área.

A Copa do Mundo e as instituições

Interessante conclusão deste estudo preliminar:

Perhaps teams from countries with systems based on the French model (such as 1998 champion France and 2002 champion Brazil) perform well due to the remaining vestiges of the Napoleonic Code that somehow remove discretion from coaches and managers in the same manner that that civil law system curtails judicial activism. Or maybe – just maybe – some other forces are at work.

Olimpíadas e Economia

O Alex Schwartsmann tem um interessante ponto no seu blog sobre o tema. Quem o conhece, sabe que o sujeito é um cavalheiro e não é idiota. Nos comentários do post citado, pude ver que não sou o único a receber comentários que conjugam o pior do português com o pior da boa educação (ou seja, a má educação total). Claro, se ignorarmos os comentaristas do tipo pré-Homo-Sapiens, temos coisa interessante para ler de vez em quando.

Mas o fato é que o tema da relação entre economia e os esportes (ou as olimpíadas) – muito mal exposto pelo presidente da Silva, como de hábito, com seu improviso macunaímico, cheirando a romances tropicais de banca de jornal, sentimentalismos infantis (“não falo mais sobre Honduras, humpf” e afins), poesias tropicanais (hum…) – é importante do ponto de vista científico. Com exceção dos que só querem um resultado econométrico imediato, há, sim, muito o que estudar sobre o benefício líquido de se sedir uma Olimpíada. David Henderson, por exemplo, fala disso aqui.

Sim, você pode usar o google e encontrar mais artigos interessantes. Aos interessados: mãos à obra!

Economia dos Esportes

Genial este achado do Cristiano. O link original é de Emerson Gonçalves e vale a leitura completa. A economia dos esportes (e seu derivado “sportometrics”) é (são) área(s) de trabalho muito interessante(s).

A sugestão do Cristiano deveria ser levada a sério por qualquer aluno interessado no tema. Aliás, sobre economia dos esportes, veja, por exemplo, isto.

Quem é o responsável por este bom desempenho?

Coisas que certamente o Ângelo gostaria.

IS IT THE TEACHER OR THE STUDENTS? – UNDERSTANDING THE ROLE OF A TEAM MANAGER

David J. Berri
Michael A. Leeds
Michael Mondello

The authors thank Eva Marikova Leeds for her many helpful comments and suggestions.

Abstract

Because, it is difficult to separate managers’ contributions from the abilities of the workers they supervise, firms may mistakenly attribute the contributions of the workers to the managers who oversee them. With its extensive performance data, the National Basketball Association provides a natural setting to measure a manager’s contribution (here the head coach) to the performance of his team. While we find that some highly regarded coaches deserve their accolades, several successful coaches appear to owe their success to having highly talented players. In addition, some coaches with mediocre records have made significant contributions to the performance of their players.

Eis aí algo interessante…

O cartel do xadrez na era soviética

Interessantíssimo artigo de Charles Moul e John Nye. Aí vai o resumo:

We expand the set of outcomes considered by the tournament literature to include draws and use games from post-war chess tournaments to see whether strategic behavior can be important in such scenarios. In particular, we examine whether players from the former Soviet Union acted as a cartel in international all-play-all tournaments – intentionally drawing against one another in order to focus effort on non-Soviet opponents – to maximize the chance of some Soviet winning. Using data from international qualifying tournaments as well as USSR national tournaments, we consider several tests for collusion. Our results are consistent with Soviet draw-collusion and inconsistent with Soviet competition. Simulations of the period’s five premier international competitions (the FIDE Candidates tournaments) suggest that the observed Soviet sweep was a 75%-probability event under collusion but only a 25%-probability event had the Soviet players not colluded.

Interessante, não?